A entrevista é uma das ferramentas mais poderosas do jornalismo: é onde surgem histórias, dados, versões e emoções que dificilmente aparecem em documentos oficiais. Para quem está desenvolvendo habilidades essenciais como escrita, pesquisa e comunicação, aprender a entrevistar bem acelera a evolução em qualquer formato — texto, áudio, vídeo ou redes.
Mais do que “fazer perguntas”, entrevistar envolve planejamento, técnica de escuta, ética e organização. Neste artigo, você vai ver um passo a passo prático para preparar uma entrevista, conduzir a conversa com confiança e transformar o material bruto em uma matéria clara e precisa.
1) Antes de entrevistar: pesquisa que economiza tempo (e evita perguntas fracas)
Uma entrevista boa começa antes do encontro. Pesquisar o tema e a pessoa entrevistada ajuda a formular perguntas específicas e a identificar o que é realmente notícia. Para isso, vale:
- Mapear o básico do assunto: definições, contexto, dados recentes e pontos de controvérsia.
- Estudar a fonte: cargo, histórico, falas anteriores e possíveis interesses.
- Levantar documentos: relatórios, leis, notas públicas, pesquisas acadêmicas e registros oficiais.
Uma prática útil é preparar um mini-dossiê com: linhas do tempo, termos-chave e um glossário (principalmente em temas técnicos como saúde, economia ou tecnologia).
2) Defina objetivo editorial e recorte
Antes de escrever qualquer pergunta, esclareça: qual é a matéria que você quer publicar? Parece óbvio, mas esse foco evita entrevistas longas e dispersas.
Alguns objetivos comuns:
- Entrevista de contextualização (especialista explicando um tema).
- Entrevista de prestação de contas (autoridade respondendo por uma decisão).
- Entrevista humana/perfil (história de vida, trajetória e bastidores).
- Entrevista investigativa (contradições, dados e checagem documental).
Com o objetivo definido, fica mais fácil decidir o tom, a duração e até o formato do registro (áudio, vídeo, anotações ou tudo junto).

3) Monte um roteiro: perguntas abertas, escaladas e com lógica
Um roteiro não precisa engessar a conversa. Ele funciona como mapa. Um bom modelo é organizar as perguntas em blocos:
- Aquecimento: perguntas simples para estabelecer conforto e confirmar informações básicas.
- Núcleo: perguntas abertas (começando com “como”, “por quê”, “o que levou…”) que geram narrativa e detalhes.
- Confronto e precisão: perguntas específicas, baseadas em fatos e documentos (com datas, números e comparações).
- Fechamento: “o que você gostaria de acrescentar?”, próximos passos, contatos e materiais complementares.
Evite perguntas que já sugerem a resposta (“Então foi um erro, certo?”). Prefira: “O que motivou essa decisão?” ou “Quais alternativas foram consideradas?”
4) Logística e consentimento: combine regras do jogo
Para reduzir ruídos, alinhe com antecedência:
- Formato (presencial, telefone, videochamada).
- Duração e horário.
- Registro: avise se vai gravar e peça autorização.
- Condições: a conversa é “on the record” (publicável), “off the record” (não publicável) ou “background” (pode usar sem atribuir diretamente)?
Regras claras protegem o entrevistador e a fonte, além de reforçar profissionalismo. Em caso de dúvida, confirme durante a conversa: “Posso usar essa informação com seu nome?”
5) Durante a entrevista: escuta ativa e perguntas de follow-up
Entrevistas marcantes raramente saem de um roteiro “perfeito”. Elas nascem quando o entrevistador escuta de verdadee aprofunda o que a fonte traz.
Técnicas práticas:
- Silêncio produtivo: após uma resposta importante, espere alguns segundos. Muitas pessoas completam a ideia.
- Peça exemplos: “Você pode dar um caso concreto?”
- Peça números: “Quantos?”, “Em que período?”, “Comparado a qual base?”
- Volte ao ponto: “Quero retomar a sua fala sobre…”
- Teste consistência: “Como isso se concilia com…?”
Se a fonte fugir da pergunta, reformule com calma e objetividade. Em entrevistas mais difíceis, a postura firme pode coexistir com respeito e clareza.
6) Lidando com fontes difíceis (e respostas evasivas)
Algumas fontes minimizam, desviam ou respondem com frases genéricas. Nessas situações, use estratégias como:
- Fechar o funil: começar aberto e ir para o específico (“Por que?” → “Quem autorizou?” → “Em que data?”).
- Apresentar o fato: “O documento X afirma Y. Qual sua posição?”
- Solicitar confirmação: “Estou entendendo corretamente que…?”
- Separar opinião de dado: “Isso é percepção ou há indicador que comprove?”
Quando houver risco de erro factual, peça que a fonte compartilhe documentos ou referências. Isso fortalece a apuração e evita inconsistências na redação final.

7) Depois da entrevista: transcrição, organização e checagem
Assim que terminar, registre o que ainda está fresco: ambiente, detalhes, impressões e trechos fortes. Em seguida:
- Transcreva (ou ao menos marque timestamps dos melhores trechos).
- Separe por temas (blocos: contexto, dados, histórias, frases-chave).
- Confirme nomes, cargos, datas e números com fontes secundárias e documentos.
Uma dica para escrever com precisão: destaque na transcrição o que é fato verificável, o que é opinião e o que é hipótese. Isso ajuda a construir um texto equilibrado e transparente.
8) Transforme a entrevista em reportagem: estrutura narrativa e boas citações
Nem toda entrevista vira um formato de “pergunta e resposta”. Muitas rendem melhor como reportagem ou perfil, usando citações pontuais para dar força.
Para isso:
- Abra com gancho: um dado, uma cena ou uma fala curta e forte.
- Contextualize: explique o que o leitor precisa saber antes de entrar nos detalhes.
- Use citações com propósito: selecione trechos que tragam informação, emoção, precisão ou responsabilidade.
- Feche com projeção: próximos passos, impactos e o que ainda falta esclarecer.
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9) Checklist rápido para entrevistas melhores
- Pesquise tema e fonte (e prepare perguntas que demonstrem isso).
- Defina objetivo e recorte antes de marcar a conversa.
- Organize roteiro por blocos, com perguntas abertas e específicas.
- Combine gravação e regras de uso das falas.
- Pratique escuta ativa e follow-ups com exemplos e números.
- Chegue à escrita final com transcrição organizada e fatos conferidos.
Dominar entrevistas é dominar o coração da apuração: quanto melhor a conversa, mais forte tende a ser a história — e mais consistente fica a escrita.

Leituras externas recomendadas (para aprofundar técnica e ética)
Para complementar estudos com referências consolidadas, estas páginas podem ajudar:









