Um prego de aço com poucos gramas afunda em um copo d’água. Um navio de aço com dezenas de milhares de toneladas flutua no oceano. A contradição é só aparente: os dois obedecem exatamente à mesma lei da física. Entender essa lei — o princípio de Arquimedes — resolve de uma vez várias questões de vestibular e, de quebra, explica coisas do dia a dia, como por que boiamos mais fácil no mar do que na piscina.
O que é empuxo
Quando um corpo é colocado dentro de um fluido (líquido ou gás), ele sofre pressão de todos os lados. Só que a pressão em um fluido aumenta com a profundidade. Isso significa que a face de baixo do objeto recebe uma pressão maior do que a face de cima. A diferença entre essas duas pressões gera uma força resultante vertical, apontando para cima. Essa força é o empuxo.
Repare que o empuxo não é uma força “mágica” nem uma propriedade do objeto: é simplesmente o resultado de o fluido empurrar o corpo com mais força por baixo do que por cima. Por isso o empuxo existe também no ar — é ele que faz um balão de gás hélio subir.
O princípio de Arquimedes
O enunciado clássico diz: todo corpo total ou parcialmente mergulhado em um fluido recebe um empuxo vertical, para cima, de intensidade igual ao peso do fluido deslocado.
A palavra-chave é deslocado. Quando você mergulha um objeto na água, ele “expulsa” um certo volume de água do lugar. O peso dessa água expulsa é exatamente o valor do empuxo. Em fórmula:
E = dfluido · Vdeslocado · g
- E — empuxo, em newtons (N)
- dfluido — densidade do fluido, em kg/m³
- Vdeslocado — volume de fluido deslocado, em m³ (igual ao volume da parte submersa do corpo)
- g — aceleração da gravidade, cerca de 9,8 m/s²
Note o que não aparece na fórmula: a massa do corpo, o material do corpo, a profundidade em que ele está. O empuxo depende só do fluido, do volume submerso e da gravidade. Um cubo de isopor e um cubo de chumbo do mesmo tamanho, ambos totalmente submersos, recebem o mesmo empuxo. O que muda entre eles é o peso.
Flutuar ou afundar: a disputa entre peso e empuxo
O destino de um objeto dentro de um fluido é decidido por uma comparação simples entre duas forças: o peso (que puxa para baixo) e o empuxo (que empurra para cima).
| Situação | Relação entre as forças | Relação entre as densidades | Resultado |
|---|---|---|---|
| Corpo sobe até a superfície | Empuxo > Peso | dcorpo < dfluido | Flutua, com parte do corpo fora |
| Corpo fica parado onde está | Empuxo = Peso | dcorpo = dfluido | Equilíbrio, totalmente submerso |
| Corpo desce | Empuxo < Peso | dcorpo > dfluido | Afunda até o fundo |
Por isso o critério prático mais rápido é comparar densidades. A densidade da água doce é de aproximadamente 1.000 kg/m³. O aço maciço tem cerca de 7.800 kg/m³ — quase oito vezes mais. Um prego afunda porque, sendo maciço, sua densidade é a densidade do próprio aço.
Então por que o navio flutua?
Aqui está o pulo do gato: a densidade que importa não é a do material, mas a do conjunto — casco de aço mais todo o ar que ele encerra.
Um navio não é um bloco maciço de metal. Ele é uma casca relativamente fina de aço envolvendo um volume enorme de espaço vazio: porões, tanques, compartimentos, corredores. Se você somar a massa de tudo (aço, motores, carga, tripulação) e dividir pelo volume total ocupado pelo casco, o resultado fica abaixo de 1.000 kg/m³. A densidade média do navio é menor que a da água, e ele flutua.
Uma experiência caseira mostra isso em segundos: pegue um pedaço de papel-alumínio e amasse-o formando uma bolinha bem compacta — ela afunda. Pegue outro pedaço igual e molde-o como um barquinho, com as bordas levantadas — ele flutua. Mesmo material, mesma massa, densidades médias diferentes, porque o segundo aprisiona ar.
É também por isso que um navio afunda quando o casco é perfurado: a água entra e toma o lugar do ar, a densidade média do conjunto sobe e, em algum momento, ultrapassa a da água ao redor.
Um cálculo simples para fixar
Imagine um bloco de madeira de 0,02 m³ (20 litros) totalmente submerso em água doce. Qual o empuxo?
E = 1.000 · 0,02 · 9,8 = 196 N
Se esse bloco tem massa de 10 kg, seu peso é 10 · 9,8 = 98 N. Como 196 N (empuxo) é maior que 98 N (peso), o bloco sobe. Ele vai parar quando estiver submerso apenas o suficiente para que o empuxo iguale o peso — ou seja, com metade do volume dentro da água. É exatamente o que acontece com um pedaço de madeira boiando: parte dele fica fora.
Empuxo fora da sala de aula
- Água do mar x piscina. A água salgada é mais densa (cerca de 1.025 kg/m³). Empuxo maior para o mesmo volume submerso significa que você precisa afundar menos para se equilibrar — daí a sensação de boiar com mais facilidade no mar.
- Submarinos. Eles controlam tanques de lastro: enchendo de água, aumentam a massa sem mudar o volume externo e descem; expulsando a água com ar comprimido, sobem.
- Balões. Hélio e ar quente são menos densos que o ar frio ao redor; o empuxo do ar vence o peso do conjunto.
- Peixes. Muitos possuem bexiga natatória, um saco de gás cujo volume ajustável permite subir ou descer sem nadar.
- Boias e coletes salva-vidas. São feitos de materiais com muito ar aprisionado, elevando o volume sem elevar quase nada a massa.
Três confusões que derrubam candidatos
- “Quanto mais fundo, maior o empuxo.” Não. A pressão cresce com a profundidade, mas a diferença de pressão entre a face de cima e a de baixo permanece a mesma. Desde que o corpo esteja totalmente submerso, o empuxo não muda.
- “O empuxo depende do peso do corpo.” Não. Depende do volume deslocado e da densidade do fluido. O peso entra apenas na comparação que decide se o corpo sobe ou desce.
- “Corpo flutuando tem empuxo maior que o peso.” Só enquanto ele está subindo. Em equilíbrio na superfície, empuxo e peso são iguais — o corpo se ajusta afundando mais ou menos até que isso aconteça.
Conclusão
O princípio de Arquimedes é um daqueles conteúdos que parecem abstratos até você perceber que ele está no barquinho de papel-alumínio, no colete salva-vidas e no porta-contêineres de trezentos metros. A lógica é sempre a mesma: o fluido empurra para cima com uma força igual ao peso do fluido que saiu do lugar, e a comparação entre densidades decide o resto.
Se você está se preparando para o ENEM ou para um vestibular, vale reforçar hidrostática junto com pressão, densidade e leis de Newton — os temas se apoiam uns nos outros e costumam aparecer combinados nas provas. Nos cursos gratuitos de Física da Cursa você encontra esses tópicos organizados em aulas curtas, com exercícios para praticar no seu ritmo, direto do celular.























