Quando trocar pastilhas de freio de motocicletas: critérios, inspeção e substituição básica

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Critérios objetivos para trocar pastilhas

A troca de pastilhas deve ser decidida por critérios mensuráveis e por sinais de dano que comprometam a frenagem. Evite “trocar por sensação” apenas: use referência do fabricante e uma inspeção cuidadosa para não descartar pastilhas boas nem rodar com material já inseguro.

1) Espessura mínima do material de atrito (critério principal)

O critério mais confiável é a espessura do material de atrito (a “lona” colada/rebitada na placa metálica). A espessura mínima varia por modelo e composto, então a referência correta é o manual de serviço ou a especificação do fabricante das pastilhas. Como regra prática, se estiver próximo do limite especificado, programe a troca antes de atingir metal com metal.

  • Como medir: com paquímetro, meça apenas o material de atrito (não inclua a placa metálica). Se o acesso for ruim, use um espelho pequeno e lanterna para confirmar visualmente o “degrau” restante.
  • O que comparar: compare com o valor mínimo do fabricante. Se não houver acesso ao valor, não “chute”: procure a especificação do conjunto correto para sua moto/pastilha.

2) Desgaste desigual (entre pastilhas ou dentro da mesma pastilha)

Desgaste desigual indica problema de deslizamento da pinça, pinos/guia travando, pistão retornando mal ou montagem incorreta. Trocar apenas as pastilhas sem corrigir a causa pode fazer a nova pastilha gastar rápido e aquecer demais.

  • Entre pastilhas: uma pastilha muito mais fina que a outra.
  • Na mesma pastilha: desgaste em cunha (um lado mais fino), bordas “comidas” ou contato irregular.

3) Contaminação irreversível (óleo, graxa, fluido de freio)

Pastilha contaminada perde atrito e pode “vidrar”. Se houve contato com óleo, graxa, fluido de freio ou produtos inadequados, a troca costuma ser a solução mais segura, porque a impregnação pode permanecer mesmo após limpeza superficial.

  • Sinais comuns: brilho anormal, cheiro forte após frenagens leves, perda de mordida e ruído persistente.
  • Exemplo prático: vazamento no retentor do pistão ou excesso de lubrificante em pinos/guia que migra para a face da pastilha.

4) Trincas, lascas e descolamento do material

Trincas no material de atrito, lascas nas bordas ou descolamento da placa metálica são motivos diretos para substituição. Além de reduzir a área de contato, podem gerar travamento, ruído metálico e danos ao disco.

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5) Vitrificação severa (glazing)

Vitrificação é quando a superfície fica muito lisa e brilhante por superaquecimento ou uso inadequado (frenagens longas e leves mantendo o freio “arrastando”, por exemplo). Uma vitrificação leve às vezes melhora com lixamento controlado e correção da causa, mas a vitrificação severa (superfície muito dura, brilhante e com perda clara de atrito) é critério para troca, especialmente se vier acompanhada de cheiro de queimado e queda de eficiência.

6) Ruído metálico (indicador de fim de material)

Algumas pastilhas têm um “squealer” (chapinha indicadora) que apita quando o material está no fim. Se o ruído for metálico de raspagem, especialmente constante ao frear, pode ser contato do suporte metálico com o disco. Nesse caso, pare de usar e inspecione imediatamente para evitar danificar o disco.

Checklist rápido de decisão

Condição encontradaAção recomendadaObservação
Espessura do material no limite do fabricanteTrocarTroque em par no mesmo eixo
Desgaste desigualTrocar e corrigir a causaVerificar deslizamento/retorno
Contaminação por óleo/graxa/fluidoTrocarResolver vazamento antes
Trincas, lascas, descolamentoTrocarRisco de falha e dano ao disco
Vitrificação severa com perda de atritoTrocarInvestigar superaquecimento
Ruído metálico de raspagemParar e trocar após inspeçãoPossível metal no disco

Substituição básica de pastilhas (freio a disco) com foco em segurança

O objetivo aqui é uma troca correta e limpa, sem danificar retentores, sem contaminar as pastilhas novas e garantindo que tudo volte a funcionar com curso e retorno adequados.

Ferramentas e materiais recomendados

  • Chaves adequadas aos parafusos/pinos da pinça (sextavada/Allen/Torx conforme o modelo)
  • Ferramenta para afastar pistões (espátula própria, separador de pastilhas ou ferramenta de recuo)
  • Produto próprio para limpeza de freios (spray limpa-freios)
  • Pano sem fiapos e escova macia (nylon)
  • Torque wrench (recomendado) e manual de serviço para torques
  • Pastilhas novas corretas para o modelo e, se aplicável, molas/chapas antirruído em bom estado

Passo a passo prático

1) Conferência antes de desmontar

  • Confirme que as pastilhas novas são do mesmo formato e aplicação do conjunto antigo.
  • Observe e fotografe (se necessário) a posição de molas, chapas antirruído e sentido de montagem. Isso evita inverter peças na remontagem.

2) Remover pino(s) e trava(s) de retenção

  • Localize o pino de retenção das pastilhas e o clip/trava (quando houver).
  • Remova o clip/trava com cuidado para não deformar.
  • Solte e retire o pino. Em alguns modelos, há dois pinos ou um pino e um parafuso-guia.

Dica: se o pino estiver muito sujo, limpe a área antes de puxar para não arrastar sujeira para dentro da pinça.

3) Retirar as pastilhas antigas e inspecionar o conjunto

  • Retire as pastilhas observando como elas se apoiam nas molas/chapas.
  • Compare o desgaste entre elas e procure sinais de contaminação, trincas e vitrificação.

4) Afastar os pistões corretamente (sem danificar retentores)

  • Antes de recuar os pistões, verifique se há espaço no reservatório do fluido (nível muito alto pode transbordar ao recuar).
  • Use uma ferramenta adequada para empurrar os pistões de volta de forma lenta e uniforme.
  • Evite usar chave de fenda diretamente no pistão ou no retentor: isso pode marcar o pistão, cortar a borracha e criar vazamentos.

Boa prática: recuar pistões com as pastilhas antigas ainda posicionadas (ou com uma placa plana) ajuda a distribuir a força e reduz risco de dano.

5) Limpeza da pinça (somente com produto próprio)

  • Aplique limpa-freios e use escova macia para remover pó e sujeira das áreas de apoio das pastilhas e do pino de retenção.
  • Seque com pano sem fiapos.
  • Não use desengraxantes domésticos, óleo penetrante ou solventes inadequados: podem atacar borrachas e deixar resíduos.

6) Instalar molas/chapas antirruído e pastilhas novas

  • Reinstale as molas e chapas antirruído exatamente na posição original (ou conforme manual). Elas controlam vibração e mantêm as pastilhas assentadas.
  • Coloque as pastilhas novas sem tocar na face de atrito com mãos sujas. Se tocar, limpe a face com limpa-freios e pano limpo.
  • Alinhe os furos/rasgos das pastilhas com o pino de retenção.

7) Recolocar pino(s) e clip/trava

  • Insira o pino de retenção e aperte conforme o torque especificado pelo fabricante.
  • Recoloque o clip/trava garantindo que ficou totalmente assentado.

8) Verificações imediatas antes de rodar

  • Acione o manete/pedal várias vezes até sentir o freio “encher” e ficar firme (as pastilhas precisam encostar no disco após o recuo dos pistões).
  • Gire a roda (com a moto suspensa, se aplicável) para confirmar que não há travamento anormal.
  • Confirme nível do fluido no reservatório (sem exceder o máximo) e verifique se não houve vazamento.

Cuidados para não contaminar pastilhas novas

  • Nunca aplique graxa, óleo ou spray lubrificante na face de atrito da pastilha ou no disco.
  • Se for necessário lubrificar pontos específicos (quando o fabricante prevê), faça apenas nos locais corretos e em quantidade mínima, longe da face de atrito. Se houver risco de migração, prefira não aplicar sem orientação do manual.
  • Evite manusear as pastilhas novas com luvas sujas de corrente, óleo do motor ou fluido de freio.
  • Não deixe o frasco de fluido aberto próximo às pastilhas/disco para evitar respingos.

Assentamento (bedding-in) após a troca: como fazer

O assentamento cria uma camada de transferência uniforme no disco e estabiliza o atrito. Sem isso, é comum ter ruído, sensação “vidrada” e frenagem irregular nos primeiros quilômetros.

Procedimento prático de bedding-in (exemplo seguro e progressivo)

  • Em local seguro e com boa visibilidade, faça 8 a 10 frenagens progressivas de velocidade moderada para baixa, sem travar a roda e sem parar totalmente.
  • Entre as frenagens, rode alguns segundos para permitir resfriamento parcial (evite manter o freio acionado parado, pois pode “imprimir” material no disco quente).
  • Depois, faça mais 2 a 3 frenagens um pouco mais firmes, ainda progressivas, e novamente permita resfriamento.
  • Evite descidas longas usando freio continuamente nas primeiras dezenas de quilômetros; prefira frenagens curtas e progressivas.

Indicadores de bom assentamento: manete/pedal com resposta consistente, redução de ruídos de assentamento e frenagem previsível sem “pulsar” ou variar a mordida.

Erros comuns que causam falhas após a troca

  • Esquecer de bombear o manete/pedal antes de sair (primeira frenagem pode falhar por pistões recuados).
  • Montar molas/chapas antirruído invertidas ou fora de posição, gerando ruído e desgaste irregular.
  • Contaminar pastilhas novas com óleo/graxa/fluido durante a montagem.
  • Recuar pistões com ferramenta inadequada e danificar retentores.
  • Não fazer bedding-in e exigir frenagem forte imediatamente, causando vitrificação precoce.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao substituir pastilhas de freio a disco, qual ação é essencial antes de rodar para garantir que a frenagem volte a funcionar corretamente após recuar os pistões?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Ao recuar os pistões, as pastilhas ficam afastadas do disco. Bombear o manete/pedal reaproxima as pastilhas e restaura o curso e a pressão do sistema, evitando falha na primeira frenagem.

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