Critérios objetivos para decidir a troca das lonas (sapatas)
No freio a tambor, a “lona” é o material de atrito colado ou rebitado na sapata. A troca deve ser baseada em sinais de fim de vida e em condições que comprometem a aderência ao tambor. A seguir estão critérios práticos para decidir com segurança.
1) Espessura mínima do material de atrito
Troque as sapatas quando a lona estiver próxima do limite indicado pelo fabricante ou quando estiver visivelmente “rasa” a ponto de se aproximar dos rebites (quando houver) ou da base metálica da sapata. Como regra prática, se a lona estiver muito fina e sem “corpo” para dissipar calor, a frenagem perde progressividade e aumenta o risco de aquecimento e desgaste acelerado do tambor.
- Sapatas rebitadas: se a lona estiver próxima da cabeça dos rebites, troque imediatamente para evitar contato metal-metal.
- Sapatas coladas: se a lona estiver muito fina ou com bordas quebradiças, troque; não tente “regular” para compensar falta de material.
2) Desgaste irregular (torto, em cunha ou por pontos)
Desgaste irregular indica que a sapata não está assentando corretamente no tambor ou que há problema no mecanismo (came, pontos de apoio, molas cansadas, eixo com folga). Trocar apenas a sapata sem corrigir a causa pode fazer a nova lona gastar torta rapidamente.
- Exemplo prático: uma sapata com mais desgaste em uma extremidade costuma apontar ponto de apoio travando, came com desgaste ou retorno fraco.
3) Contaminação por óleo ou graxa
Se a lona estiver impregnada por óleo (vazamento de retentor do cubo/rolamento) ou graxa, a frenagem fica “vidrada”, fraca e imprevisível. Em geral, lona contaminada não volta ao desempenho original com limpeza superficial; a troca é o caminho mais confiável.
- Sinal típico: cheiro forte, poeira escura pastosa e frenagem que melhora e piora sem padrão.
4) Ruído metálico ou raspagem
Ruído metálico contínuo ao frear pode indicar lona no fim e contato da sapata (metal) com o tambor, ou mola/peça interna tocando onde não deve. Se houver qualquer suspeita de contato metal-metal, interrompa o uso e inspecione; rodar assim pode riscar o tambor e encarecer o reparo.
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5) Perda de eficiência e necessidade de “pisar mais”
Quando o freio exige curso maior do pedal e mais força para obter o mesmo resultado, e o ajuste já não compensa sem deixar o freio “pegando”, é um sinal de que a lona pode estar no limite, vitrificada ou contaminada. A troca devolve a progressividade e reduz o esforço.
6) Superaquecimento (fading) e cheiro de queimado
Se após algumas frenagens o freio “some” (perde eficiência) e volta depois de esfriar, há indício de superaquecimento: lona muito fina, vitrificada, contaminada ou tambor com baixa capacidade de dissipação por desgaste/ovalização. Trocar as sapatas e garantir montagem/retorno corretos ajuda a evitar arrasto e aquecimento contínuo.
Troca das sapatas (lona do freio a tambor): passo a passo com montagem correta
O objetivo do procedimento é substituir as sapatas e garantir que o mecanismo interno trabalhe livre, com retorno completo e sem contaminação do material de atrito. A sequência abaixo foca no que mais gera erro: molas, limpeza, inspeção do came e lubrificação mínima.
1) Desmontagem controlada das molas
As molas do freio a tambor são fortes e podem escapar. Faça a desmontagem de forma controlada para não deformar as molas nem ferir as mãos.
- Com o conjunto do tambor aberto, observe e memorize a posição das molas e das sapatas (uma foto ajuda).
- Alivie a tensão: empurre a sapata levemente para aproximar as extremidades e reduzir a força na mola.
- Remova as molas com ferramenta apropriada (alicate de mola, gancho) ou alicate de bico com firmeza, sempre direcionando a mola para longe do rosto.
- Retire as sapatas do espelho com cuidado para não perder arruelas/travas dos pontos de apoio (se existirem no modelo).
2) Limpeza do espelho (placa de freio) e do interior
Limpeza correta evita ruídos e garante retorno. Não use ar comprimido para “soprar” pó de freio; prefira limpeza úmida com produto adequado.
- Remova pó e resíduos com pano levemente umedecido e limpador apropriado para freios.
- Limpe as áreas metálicas onde as sapatas apoiam e deslizam.
- Se houver sinais de óleo/graxa, limpe tudo e investigue a origem (retentor, excesso de graxa em rolamento, etc.).
3) Inspeção do came e dos pontos de apoio
O came (excêntrico que abre as sapatas) e os pontos de apoio determinam a suavidade e o retorno. Qualquer travamento aqui causa arrasto, aquecimento e desgaste irregular.
- Came: verifique se gira suave, sem “degraus” ou marcas profundas na área de contato com as sapatas.
- Eixo do came: confira folga excessiva e sinais de oxidação; eixo preso costuma deixar o pedal duro e o retorno lento.
- Pontos de apoio/encostos: procure desgaste em “valas”, rebarbas ou marcas que prendam a sapata.
- Molas: compare tensão e integridade; mola cansada ou deformada prejudica o retorno e aumenta risco de arrasto.
4) Lubrificação mínima e no lugar certo (sem contaminar a lona)
O freio a tambor precisa de lubrificação apenas em pontos metálicos específicos para reduzir atrito parasita e evitar ruídos. Excesso de graxa é um erro comum e perigoso.
- Aplique uma película mínima de lubrificante apropriado (ex.: graxa de alta temperatura compatível com freios) somente em:
- Pontos metálicos de contato entre sapata e espelho (onde a sapata “encosta/desliza”).
- Superfícies metálicas de contato do came com as sapatas (muito pouco).
- Eixo do came (se o projeto permitir acesso seguro), evitando que escorra para a lona.
Não aplique lubrificante na lona, no interior do tambor ou em qualquer área onde possa ser centrifugado e contaminar o material de atrito. Se encostar graxa na lona por acidente, a recomendação prática é substituir a sapata contaminada.
5) Montagem das novas sapatas e reinstalação das molas
Monte garantindo alinhamento e tensão correta das molas.
- Posicione as sapatas nos pontos de apoio do espelho, conferindo encaixes e pinos/guia.
- Instale as molas de forma controlada: primeiro engate um lado, depois use a ferramenta para tracionar e encaixar o outro lado.
- Confirme que as molas ficaram assentadas nos furos corretos e não estão torcidas.
- Acione o came manualmente: as sapatas devem abrir e fechar sem enroscar.
6) Verificação de retorno (checagem antes de fechar)
Antes de recolocar o tambor/roda, faça uma checagem simples: ao soltar o came, as sapatas devem voltar totalmente e de forma rápida, sem “ficar pegando”.
- Se o retorno estiver lento, revise: excesso de lubrificante, sujeira, came travando, mola fraca ou sapata mal assentada.
- Se houver ruído de raspagem ao movimentar, procure contato indevido (mola encostando, rebarba no espelho, sapata fora de posição).
Ajuste final do pedal após a troca
Após montar, o ajuste do pedal deve garantir curso livre suficiente para não deixar o freio arrastando, mas sem ficar “baixo” demais. O ajuste correto também ajuda o assentamento inicial das lonas.
1) Ajuste de folga e ponto de acionamento
- Com a roda no lugar, acione o pedal algumas vezes para centralizar as sapatas.
- Ajuste a regulagem do acionamento para obter um curso livre no pedal antes do freio começar a atuar (valor exato depende do modelo; siga a especificação quando disponível).
- Verifique se, com o pedal solto, a roda gira livremente sem arrasto perceptível.
2) Checagem de simetria e progressividade
- O pedal deve ficar com altura confortável e resposta progressiva (sem “pegar” de repente).
- Se o freio estiver muito “alto” e sensível, aumente um pouco a folga para evitar aquecimento por arrasto.
- Se estiver muito “baixo”, reduza a folga gradualmente, sempre confirmando que a roda não fica presa.
Testes estáticos e dinâmicos (baixa velocidade)
1) Testes estáticos (moto parada)
- Com a moto apoiada, gire a roda e acione o freio: a roda deve travar de forma firme e soltar completamente ao liberar o pedal.
- Repita algumas vezes para confirmar retorno consistente.
- Escute ruídos: chiado leve pode ocorrer no assentamento inicial, mas raspagem metálica ou travamento intermitente exige revisão imediata.
2) Testes dinâmicos em baixa velocidade
- Em local seguro, faça frenagens suaves a baixa velocidade para assentar as lonas no tambor.
- Aumente a intensidade gradualmente, evitando frenagens longas e contínuas nas primeiras voltas para não superaquecer.
- Após algumas frenagens, pare e verifique se há cheiro forte de queimado ou aquecimento excessivo no cubo; isso pode indicar arrasto por ajuste apertado ou retorno deficiente.
Dica prática de diagnóstico: se a moto “segura” mesmo sem frear, ou se o tambor esquenta demais em uso leve, volte ao ajuste de folga e reavalie came, molas e pontos de apoio.