Por que ticket médio, mix e unit economics mandam no jogo do B2B online
Em Vendas B2B Online, crescer sem entender ticket médio, mix e unit economics costuma gerar um efeito perigoso: mais pedidos, mais trabalho e mais capital travado, mas pouca (ou nenhuma) margem real. A lógica é simples: cada pedido precisa “pagar” não só o custo do produto, mas também o custo de vender, processar, entregar, receber e manter o cliente ativo.
Três conceitos que você vai usar juntos:
- Ticket médio: valor médio por pedido (R$). Orienta pedido mínimo, frete, prazos e condições.
- Mix: combinação de itens no pedido (itens âncora, itens de margem e complementares). É a alavanca para aumentar ticket e reduzir risco.
- Unit economics: lucro por unidade de análise (por item, por pedido e por cliente), já considerando custos comerciais e operacionais.
Definindo ticket-alvo e metas por tipo de cliente (e como isso orienta catálogo e condições)
Ticket-alvo: o que é e como usar
Ticket-alvo é o valor de pedido que faz sentido para sua operação e margem. Ele não é “o que eu gostaria de vender”, e sim o que mantém o pedido saudável depois de incluir custos de atendimento, processamento, impostos, pagamento, inadimplência e devoluções.
Passo a passo para definir ticket-alvo por tipo de cliente
- Separe tipos de cliente por dinâmica de compra (ex.: pequeno varejo, médio varejo, redes/contas maiores, revendas técnicas, indústrias). O objetivo aqui é diferenciar por complexidade e custo de servir, não por “tamanho” apenas.
- Estime custo de servir por pedido para cada tipo (tempo de atendimento, processamento, emissão fiscal, cobrança, etc.).
- Defina margem mínima por pedido (em R$) que você precisa para cobrir custo de servir e ainda sobrar lucro.
- Traduza isso em ticket-alvo: Ticket-alvo = Margem mínima por pedido (R$) / Margem bruta média esperada do mix.
- Crie metas operacionais por tipo de cliente: ticket mínimo, ticket recomendado, frequência desejada (semanal/quinzenal/mensal) e mix mínimo (ex.: “1 item âncora + 2 complementares”).
Como o ticket-alvo orienta catálogo, frete, prazos e condições
- Catálogo: define quais itens entram no “catálogo online padrão” e quais ficam sob consulta (ex.: itens de baixa margem e alta complexidade podem exigir pedido mínimo maior ou condições específicas).
- Frete: ticket-alvo ajuda a decidir frete grátis, frete subsidiado ou frete por conta do cliente. Ex.: frete grátis acima de R$ X, onde X garante margem para absorver parte do custo logístico.
- Prazos: pedidos abaixo do ticket-alvo podem ter prazos mais longos (consolidação de carga) e pedidos acima do ticket-alvo podem ter prioridade.
- Condições comerciais: desconto, prazo de pagamento, parcelamento e limite de crédito devem ser compatíveis com a margem e o risco. Quanto menor o ticket e a margem, menor deve ser a “generosidade” nas condições.
Exemplo prático de metas por tipo de cliente
| Tipo de cliente | Ticket mínimo | Ticket recomendado | Frequência | Condição sugerida |
|---|---|---|---|---|
| Pequeno varejo | R$ 800 | R$ 1.500 | Mensal | PIX/à vista ou 14 dias |
| Médio varejo | R$ 2.000 | R$ 4.000 | Quinzenal | 14/28 dias (com limite) |
| Redes/contas maiores | R$ 8.000 | R$ 15.000 | Semanal/quinzenal | 28/42 dias (com contrato e SLA) |
Calculando margem por item, por pedido e por cliente (incluindo custos comerciais)
1) Margem por item (unit economics no nível do SKU)
Margem por item é a base do mix. Você precisa saber quais itens “puxam” o pedido (âncora), quais pagam a operação (margem) e quais aumentam recorrência (complementares).
Fórmula prática (por unidade):
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Receita líquida unitária = Preço de venda - Impostos sobre venda - Taxas de pagamento (se aplicável) - Descontos/bonificações rateadas (se aplicável)Margem bruta unitária = Receita líquida unitária - Custo do produto (CMV)Se você usa tabela com impostos “por fora” ou regimes diferentes, padronize o cálculo para comparar itens de forma consistente (mesma base de impostos e descontos).
2) Margem por pedido (unit economics no nível do carrinho)
Margem por pedido é onde a operação aparece: separar um pedido, emitir nota, embalar, coletar, atender dúvidas, cobrar, lidar com troca. Dois pedidos com o mesmo ticket podem ter margens muito diferentes dependendo do mix, do frete e do custo de servir.
Fórmula prática (por pedido):
Margem bruta do pedido = Σ (Margem bruta unitária × quantidade)Margem de contribuição do pedido = Margem bruta do pedido - Custos do pedidoCustos do pedido (inclua o que fizer sentido no seu caso):
- Atendimento: tempo do vendedor/inside sales/suporte (R$/hora × horas por pedido).
- Processamento: picking, embalagem, emissão fiscal, conferência.
- Frete: pago por você ou subsídio (mesmo quando “frete é do cliente”, pode haver custo interno de expedição).
- Meios de pagamento: taxa de cartão, antecipação, boleto (quando houver), gateway.
- Impostos: já tratados na receita líquida, mas atenção a diferenças por UF/canal.
- Inadimplência: provisão de perdas (percentual sobre vendas a prazo).
- Devoluções/avarias: provisão média por categoria (percentual sobre vendas).
Exemplo numérico: margem por pedido com custos comerciais
Pedido de R$ 3.000 (preço de venda). Impostos e taxas variam, mas vamos usar números simples para ilustrar:
- Impostos sobre venda (média): R$ 360
- Taxa de pagamento (média): R$ 45
- CMV total: R$ 1.950
- Frete subsidiado: R$ 120
- Atendimento: 25 minutos (R$ 60/h) = R$ 25
- Processamento/expedição: R$ 35
- Provisão inadimplência: 1,5% sobre receita líquida
- Provisão devoluções: 0,8% sobre receita líquida
Receita líquida = 3.000 - 360 - 45 = 2.595Margem bruta = 2.595 - 1.950 = 645Provisões = (1,5% + 0,8%) × 2.595 = 2,3% × 2.595 ≈ 59,69Custos do pedido = 120 + 25 + 35 + 59,69 = 239,69Margem de contribuição do pedido = 645 - 239,69 = 405,31Esse número (R$ 405,31) é o que “sobra” para pagar despesas fixas e gerar lucro. Se ele ficar baixo, o problema pode estar no mix, no frete, no tempo de atendimento ou nas condições de pagamento.
3) Margem por cliente (unit economics no nível da conta)
Margem por cliente considera o conjunto de pedidos e o custo total de manter aquela conta ativa. Em B2B online, é comum ter clientes que compram bem, mas consomem muito tempo (muitas cotações, alterações, urgências, devoluções), reduzindo a margem real.
Fórmula prática (por período, ex.: mês):
Margem de contribuição do cliente = Σ (Margem de contribuição de cada pedido) - Custos específicos do clienteCustos específicos do cliente podem incluir:
- Visitas técnicas/viagens (quando existirem)
- Materiais de amostra e bonificações
- Condições especiais (descontos adicionais, frete recorrente subsidiado)
- Suporte pós-venda acima da média
Use esse indicador para decidir: aumentar pedido mínimo, ajustar mix obrigatório, reduzir desconto, migrar para pedido recorrente, ou até restringir itens de baixa margem para aquela conta.
Mix: como combinar itens âncora, itens de margem e complementares
Os três papéis do mix
- Itens âncora: alta demanda e comparação fácil; ajudam a entrar e manter recorrência, mas podem ter margem menor. Ex.: itens “comoditizados”, reposição frequente.
- Itens de margem: sustentam a rentabilidade; menor sensibilidade a preço, maior diferenciação. Ex.: linhas premium, versões com especificação, kits.
- Itens complementares: aumentam ticket e reduzem risco de depender de um único item; também elevam satisfação por “pedido completo”. Ex.: acessórios, consumíveis, reposição relacionada.
Como usar mix para elevar ticket e reduzir risco (passo a passo)
- Classifique seu catálogo em âncora/margem/complementar (pode ser por SKU ou por família).
- Defina um “mix mínimo saudável” por tipo de cliente (ex.: “pelo menos 20% do pedido em itens de margem” ou “1 item de margem para cada 3 âncoras”).
- Crie regras de incentivo que empurrem o mix sem depender de negociação manual: descontos por combo, bonificação condicionada, frete melhor acima de determinado mix.
- Monte sugestões de compra (no catálogo/proposta): “compre junto”, kits, listas por aplicação, reposição mensal.
- Monitore o mix real por pedido e por cliente: % âncora, % margem, % complementares, e impacto na margem de contribuição.
Exemplo prático de estratégia de mix
Você vende uma linha com um item âncora A (margem baixa), um item de margem B (margem alta) e um complementar C (margem média). Seu objetivo é que pedidos não sejam “só A”.
- Regra de combo: comprando A + B, o cliente ganha 3% de desconto no B (não no A).
- Regra de frete: frete subsidiado somente se o pedido tiver pelo menos 15% do valor em itens de margem (B).
- Regra de recorrência: no pedido recorrente, C entra com preço melhor se estiver junto de A (reduz risco de churn e aumenta ticket).
Faixas de pedido mínimo: como desenhar sem matar conversão
Pedido mínimo não é punição; é uma forma de garantir que o pedido pague o custo de servir. Em vez de um único mínimo para todos, use faixas alinhadas ao ticket-alvo e ao custo de atender cada perfil.
Modelos de faixas de pedido mínimo (exemplos)
| Faixa | Pedido (R$) | Política de frete | Prazo | Condição |
|---|---|---|---|---|
| Entrada | R$ 500 a R$ 999 | Frete por conta do cliente | Consolidação (mais longo) | À vista/PIX |
| Padrão | R$ 1.000 a R$ 2.999 | Frete parcialmente subsidiado | Normal | PIX ou 14 dias |
| Prioridade | R$ 3.000+ | Frete subsidiado ou grátis (regra) | Prioritário | 14/28 dias (com limite) |
Você pode ainda criar um mínimo diferente por região (por causa do frete) ou por categoria (itens frágeis, volumosos, perigosos).
Passo a passo para definir o pedido mínimo
- Calcule o custo médio por pedido (atendimento + processamento + provisões + frete médio subsidiado).
- Defina a margem de contribuição mínima desejada por pedido (R$).
- Estime a margem bruta média do mix típico (em % sobre receita líquida).
- Encontre o ticket mínimo que entrega a margem mínima: Ticket mínimo ≈ (Custo do pedido + Margem mínima desejada) / % margem bruta média.
- Teste faixas (entrada/padrão/prioridade) e ajuste com dados reais de conversão e margem.
Políticas de amostra e bonificação (sem destruir a margem)
Amostras e bonificações podem aumentar conversão e acelerar recompra, mas precisam ser tratadas como investimento com regra, não como “desconto emocional”.
Princípios para amostras/bonificações
- Condicionar ao ticket e ao mix: amostra só acima de determinado valor ou junto de itens de margem.
- Limitar por período: ex.: 1 vez por trimestre por CNPJ.
- Escolher SKUs estratégicos: amostra de item que puxa recorrência ou que leva a um item de margem.
- Ratear no cálculo: bonificação é custo; entre no unit economics do pedido/cliente.
Exemplos de regras de amostra/bonificação
- Amostra por faixa: “Pedidos acima de R$ 2.500 podem incluir 1 amostra (até R$ 80)”.
- Bonificação por mix: “Comprando 10 unidades do item âncora A + 2 unidades do item de margem B, bonificamos 1 unidade do complementar C”.
- Bonificação para ativação: “Primeiro pedido acima de R$ 3.000: 2% em produto (crédito em itens complementares), válido por 30 dias”.
Regras para pedidos recorrentes: aumentando LTV com previsibilidade e menos custo de servir
Pedido recorrente funciona quando reduz atrito (menos negociação, menos retrabalho) e melhora planejamento (estoque, produção, rota). Para isso, defina regras claras que preservem margem e reduzam risco.
Estruturas comuns de recorrência
- Assinatura de reposição: lista fixa de SKUs e quantidades, com revisão mensal.
- Agenda de compra: o cliente compra “janelas” (ex.: toda 2ª semana), com flexibilidade limitada.
- Contrato de volume: volume trimestral/mensal com entregas parciais.
Regras práticas (exemplos) para pedidos recorrentes
- Pedido mínimo recorrente menor (porque o custo de atendimento cai): “Pedido mínimo avulso R$ 1.500; recorrente R$ 1.000”.
- Preço condicionado à estabilidade: “Preço recorrente válido com variação máxima de ±10% nas quantidades; acima disso, recalcula”.
- Frete melhor com previsibilidade: “Frete subsidiado para recorrência com agenda fixa e janela de entrega (ex.: 3 dias úteis)”.
- Regra de mix: “Recorrência exige pelo menos 1 item de margem na lista” ou “mínimo de 15% do valor em itens de margem”.
- Política de cancelamento: “Cancelamento com aviso de 7 dias; após separação, aplica taxa de reprocessamento”.
Checklist de unit economics para recorrência
- O tempo de atendimento por pedido caiu de fato?
- O mix melhorou (mais complementares e itens de margem)?
- O frete ficou mais eficiente (consolidação/rota)?
- A inadimplência mudou com a condição de pagamento?
- A devolução diminuiu (pedido mais padronizado)?
Modelo de planilha (estrutura) para controlar unit economics
Você pode montar uma planilha simples com três abas: Itens, Pedidos e Clientes.
Aba Itens (SKU)
- SKU / Categoria
- Preço de venda
- Impostos médios (%)
- Taxa de pagamento (%)
- CMV
- Margem bruta unitária (R$ e %)
- Papel no mix (âncora/margem/complementar)
Aba Pedidos
- ID pedido / Cliente
- Receita bruta e líquida
- Margem bruta do pedido
- Frete (R$)
- Tempo de atendimento (min) e custo (R$)
- Processamento/expedição (R$)
- Provisão inadimplência (%)
- Provisão devolução (%)
- Margem de contribuição do pedido (R$ e %)
- % do pedido em âncora/margem/complementares
Aba Clientes
- Cliente / Tipo
- Número de pedidos no período
- Ticket médio
- Margem de contribuição total
- Custo específico (amostras, bonificações, suporte extra)
- Margem de contribuição do cliente
- Regras aplicadas (mínimo, frete, prazo, recorrência)