Conceitos centrais em Segurança e Higiene do Trabalho
Segurança do Trabalho é o conjunto de ações voltadas a prevenir eventos indesejados (incidentes e acidentes) por meio do controle de perigos e riscos presentes nas atividades. Na prática do Engenheiro de Segurança, aparece em inspeções, análise de tarefas, verificação de proteções de máquinas, permissões de trabalho e auditorias de conformidade.
Higiene Ocupacional foca na antecipação, reconhecimento, avaliação e controle de agentes ambientais (físicos, químicos e biológicos) que podem causar adoecimento. Na prática, envolve caracterização de exposição, definição de estratégia de amostragem, interpretação de resultados e recomendação de controles.
Terminologia que cai em prova: perigo, risco, incidente e acidente
- Perigo: fonte, situação ou ato com potencial de causar dano. Exemplo: parte móvel exposta de uma máquina; solvente inflamável; ruído elevado.
- Risco: combinação entre a probabilidade de ocorrência e a severidade do dano associado ao perigo, considerando a exposição. Exemplo: risco de amputação ao operar máquina sem proteção e com acesso frequente à zona de perigo.
- Incidente: evento relacionado ao trabalho que poderia ter causado dano, mas não causou (quase acidente) ou causou apenas perdas menores. Exemplo: queda de ferramenta de altura sem atingir ninguém; disparo de disjuntor por sobrecarga sem lesão.
- Acidente: evento que resulta em lesão, adoecimento, dano material ou fatalidade. Exemplo: choque elétrico com queimadura; intoxicação por solvente; queda com fratura.
Ponto de auditoria: em relatórios e em questões de concurso, é comum a banca testar se o candidato confunde “perigo” (o que pode causar dano) com “risco” (o quão provável e grave é o dano, dado o contexto). Em inspeção, descreva primeiro o perigo e depois qualifique o risco (exposição, frequência, severidade).
Agentes de risco e condições ambientais de trabalho
Agentes físicos
São formas de energia que, em determinadas intensidades e tempos de exposição, podem causar danos. Em cenários típicos de uma instituição financeira e seus serviços associados (agências, centrais, manutenção predial, logística), aparecem em salas de máquinas, geradores, obras e manutenção.
- Ruído: pode levar a perda auditiva e efeitos extra-auditivos. Exemplo prático: casa de máquinas de ar-condicionado, geradores, manutenção com ferramentas elétricas.
- Vibração: comum em ferramentas portáteis e equipamentos de manutenção. Exemplo: martelete em obra de adequação.
- Calor e frio: exposição em áreas externas, telhados, salas de servidores com falhas de climatização, câmaras frias em logística terceirizada.
- Radiações ionizantes e não ionizantes: ionizantes são mais específicas (ex.: inspeções com fontes), não ionizantes podem aparecer em solda, manutenção, antenas e lasers de alinhamento.
- Iluminação: condição ambiental relevante para conforto, erros operacionais e segurança em rotas de fuga.
Agentes químicos
Substâncias que podem entrar no organismo por inalação, pele ou ingestão acidental. Em inspeções, o Engenheiro deve observar produto, forma de uso, ventilação, armazenamento, FISPQ e compatibilidade química.
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- Vapores e solventes: limpeza pesada, manutenção, colas e tintas em reformas. Exemplo: uso de thinner em área sem exaustão.
- Poeiras: obras (cimento, sílica), lixamento e corte. Exemplo: corte de alvenaria sem controle de poeira.
- Névoas e fumos metálicos: soldagem e processos térmicos em manutenção predial.
- Produtos de limpeza: hipoclorito, desengraxantes, ácidos; risco por mistura incompatível (ex.: hipoclorito + ácido liberando gás irritante).
Agentes biológicos
Microrganismos e materiais biológicos capazes de causar infecções, alergias e outras doenças. Em ambientes administrativos, o foco costuma ser limpeza, sanitários, resíduos, controle de pragas e manutenção de sistemas de climatização. Em atividades terceirizadas (limpeza, coleta, manutenção), a exposição pode ser mais direta.
- Vírus e bactérias: contato com superfícies, atendimento ao público, ambientes fechados com ventilação inadequada.
- Fungos: mofo por infiltração, dutos e bandejas de condensado mal mantidos.
- Resíduos: coleta e segregação inadequadas, perfurocortantes em serviços de saúde ocupacional terceirizados.
Condições ambientais e organizacionais que influenciam o risco
- Ventilação: natural, mecânica, exaustão local; influencia exposição a químicos e conforto térmico.
- Layout e circulação: rotas de fuga, áreas de armazenamento, risco de quedas e colisões.
- Ordem e limpeza: derramamentos, cabos soltos, materiais em passagem.
- Jornada, pausas e ritmo: fadiga aumenta probabilidade de erro e incidentes.
- Terceirização: falhas de integração, permissões de trabalho e controle de mudanças.
Reconhecimento de riscos: como o Engenheiro atua em inspeção e auditoria
Em concursos, “reconhecimento” costuma ser cobrado como a etapa em que se identifica o agente, a fonte, a via de exposição e os trabalhadores expostos, antes de medir. Em auditorias, o reconhecimento também inclui verificar evidências documentais e práticas (o que está escrito versus o que é feito).
Passo a passo prático de reconhecimento de riscos (roteiro de campo)
- 1) Preparar a inspeção: levantar processos, plantas, inventário de máquinas, produtos químicos (lista e FISPQ), histórico de incidentes e mudanças recentes (reforma, troca de equipamento, novo terceirizado).
- 2) Definir o escopo e as áreas críticas: áreas com energia (elétrica, mecânica), altura, espaços confinados (quando aplicável), casa de máquinas, armazenamento de químicos, docas e obras.
- 3) Observar a tarefa real: acompanhar o trabalho como executado, não apenas como descrito. Registrar etapas, ferramentas, posturas, improvisos e interferências.
- 4) Identificar perigos: listar fontes de dano (partes móveis, eletricidade, superfícies quentes, produtos químicos, agentes biológicos, ruído, queda de altura, queda ao mesmo nível).
- 5) Caracterizar exposição: quem se expõe, por quanto tempo, com que frequência, em quais condições (pico de uso, manutenção, limpeza, emergência).
- 6) Verificar controles existentes: proteções físicas, enclausuramento, ventilação, procedimentos, sinalização, treinamento, permissões de trabalho, EPI (tipo, CA, uso correto).
- 7) Coletar evidências: fotos (quando permitido), checklists, entrevistas rápidas, registros de manutenção, calibração, inspeções legais, ordens de serviço.
- 8) Classificar e priorizar: usar matriz de risco ou critério interno (probabilidade x severidade) e destacar riscos intoleráveis ou não conformidades críticas.
- 9) Planejar avaliação quantitativa (quando necessário): definir se haverá medições (dosimetria de ruído, amostragem de poeira, avaliação de calor), estratégia e representatividade.
Métodos comuns de reconhecimento e avaliação (como aparecem em prova)
- Inspeção de segurança: verificação sistemática de condições e atos. Exemplo: checklist em casa de máquinas (proteções, sinalização, bloqueio/etiquetagem, extintores, ventilação).
- Análise Preliminar de Riscos (APR): identifica perigos por etapa da tarefa e define controles. Exemplo: APR para troca de luminárias em altura.
- Análise de tarefa (JSA/AST): detalha passos, perigos e controles por passo. Exemplo: manutenção em quadro elétrico com desenergização e teste de ausência de tensão.
- Investigação de incidentes: busca causas imediatas e básicas (falhas de barreiras, treinamento, supervisão, manutenção). Exemplo: quase queda por piso molhado sem isolamento.
- Avaliação ambiental: medições e comparação com critérios de referência (limites e padrões internos). Exemplo: ruído em sala de geradores e recomendação de enclausuramento.
Critérios de aceitabilidade: quando o risco é tolerável?
Critério de aceitabilidade é a regra usada para decidir se um risco pode permanecer como está, se precisa de melhoria ou se é inaceitável (exigindo ação imediata). Em auditoria, a banca costuma explorar a ideia de que aceitabilidade depende de critérios definidos e evidência, não de opinião.
Formas práticas de definir aceitabilidade
- Matriz de risco: combina probabilidade e severidade e define faixas (aceitável, tolerável com controle, inaceitável). Exemplo: trabalho em altura sem ancoragem tende a cair em faixa inaceitável.
- Comparação com limites de exposição: para higiene ocupacional, resultados de medições são comparados a valores de referência adotados (normas e critérios internos). Exemplo: ruído acima do limite exige plano de controle e gestão de proteção auditiva.
- Conformidade legal e normativa: não conformidades críticas (ex.: ausência de proteção em máquina, falta de bloqueio, armazenamento incompatível de químicos) podem ser tratadas como inaceitáveis independentemente de “baixa frequência”.
- Princípio ALARP: reduzir o risco “tanto quanto razoavelmente praticável”, priorizando controles mais eficazes e justificando tecnicamente quando não for possível reduzir mais.
Medidas de controle: hierarquia e exemplos aplicados
Em provas, a hierarquia de controles é recorrente: eliminação e substituição são preferíveis a controles administrativos e EPI. Em inspeções, o Engenheiro deve propor medidas seguindo essa lógica e justificar tecnicamente.
1) Eliminação
Remove o perigo do processo.
- Exemplo: eliminar a necessidade de acesso ao telhado para leitura de medidores, adotando telemetria.
- Exemplo: retirar equipamento obsoleto com partes móveis expostas, desativando-o formalmente.
2) Substituição
Troca por alternativa menos perigosa.
- Exemplo: substituir solvente orgânico por produto base água em limpeza/manutenção.
- Exemplo: substituir processo de corte a seco por corte úmido para reduzir poeira.
3) Controles de engenharia
Isolam pessoas do perigo por meio de soluções físicas.
- Proteções e enclausuramento: carenagens, intertravamentos, barreiras físicas em máquinas.
- Ventilação/exaustão: exaustão local para fumos de solda; ventilação mecânica em sala de baterias.
- Automação: reduzir intervenção manual em zonas perigosas.
- Tratamento acústico: enclausurar geradores, instalar barreiras e absorvedores para reduzir ruído.
4) Controles administrativos
Reduzem a exposição por regras, organização e gestão.
- Procedimentos e permissões: Permissão de Trabalho para atividades críticas (altura, energia, espaço confinado quando aplicável).
- Treinamento e capacitação: foco em tarefa crítica e evidência de competência.
- Sinalização e isolamento: áreas molhadas, manutenção em andamento, rotas de circulação.
- Rodízio e pausas: reduzir tempo de exposição a ruído/calor, quando engenharia não resolve de imediato.
- Gestão de contratadas: integração, fiscalização, requisitos de EPI, documentação e supervisão.
5) Equipamentos de Proteção Individual (EPI)
Última barreira, depende de seleção correta, treinamento, ajuste, conservação e uso consistente.
- Exemplo: protetor auditivo adequado ao nível de ruído, com orientação de colocação e higienização.
- Exemplo: luvas compatíveis com o agente químico (não basta “luva de borracha” sem verificar permeação).
- Exemplo: respirador com filtro correto para poeiras ou vapores, com vedação e troca programada.
Passo a passo prático para propor controles em relatório de inspeção
- 1) Descrever o achado: local, atividade, evidência observada.
- 2) Identificar o perigo e o dano potencial: linguagem objetiva (ex.: “parte móvel exposta com risco de aprisionamento”).
- 3) Estimar o risco: considerar frequência de acesso, número de expostos, severidade.
- 4) Indicar controles pela hierarquia: começar por eliminação/substituição, depois engenharia, administrativas e EPI.
- 5) Definir responsável e prazo: curto para risco crítico; médio para melhorias estruturais.
- 6) Definir como verificar eficácia: reinspeção, medição, teste funcional, evidência documental.
Questões comentadas (estilo banca): vocabulário e situações-problema
Questão 1
Durante inspeção, o Engenheiro observa que um trabalhador realiza limpeza com solvente inflamável em sala pequena, sem ventilação mecânica, e sem exaustão local. O frasco está aberto e há odor intenso. Assinale a alternativa que melhor descreve perigo e risco nessa situação.
- A) Perigo: intoxicação; Risco: solvente inflamável.
- B) Perigo: solvente inflamável e seus vapores; Risco: probabilidade e severidade de intoxicação e/ou incêndio devido à exposição em ambiente sem ventilação.
- C) Perigo: sala pequena; Risco: odor intenso.
- D) Perigo: ausência de EPI; Risco: frasco aberto.
Gabarito: B. Comentário: “Perigo” é a fonte com potencial de dano (solvente e vapores inflamáveis/tóxicos). “Risco” é a combinação de chance e gravidade do dano, que aumenta pela falta de ventilação, frasco aberto e exposição direta.
Questão 2
Em auditoria, foi registrado um evento em que uma chave de fenda caiu de uma escada durante manutenção, atingindo o chão sem ferir ninguém. Classifique corretamente o evento.
- A) Acidente típico com lesão.
- B) Doença ocupacional.
- C) Incidente (quase acidente).
- D) Perigo.
Gabarito: C. Comentário: Houve um evento com potencial de causar dano (queda de objeto), mas sem lesão. Isso caracteriza incidente/quase acidente, útil para ações preventivas.
Questão 3
Ao propor medidas para reduzir exposição a poeira durante corte de alvenaria, o Engenheiro sugere: (1) substituir corte a seco por corte úmido; (2) instalar exaustão local; (3) implementar rodízio; (4) fornecer respirador PFF2. A ordem apresentada corresponde, respectivamente, a quais níveis da hierarquia de controle?
- A) Eliminação; Substituição; EPI; Administrativo.
- B) Substituição; Engenharia; Administrativo; EPI.
- C) Engenharia; Administrativo; Substituição; EPI.
- D) Substituição; Administrativo; Engenharia; EPI.
Gabarito: B. Comentário: Corte úmido reduz geração de poeira (substituição/mudança de método para alternativa menos agressiva). Exaustão é controle de engenharia. Rodízio é administrativo. Respirador é EPI.
Questão 4
Em uma matriz de risco, uma atividade apresenta severidade alta e probabilidade moderada, sendo classificada como “inaceitável”. Qual conduta é mais alinhada a critérios de aceitabilidade em auditoria?
- A) Manter a atividade e reforçar apenas o uso de EPI, pois é a medida mais rápida.
- B) Suspender ou bloquear a atividade até implementação de controles que reduzam o risco a nível tolerável/aceitável, priorizando medidas de engenharia e eliminação/substituição quando possível.
- C) Registrar como “observação” e reavaliar no próximo ciclo anual.
- D) Reduzir a severidade no formulário para adequar ao padrão do setor.
Gabarito: B. Comentário: Se o critério define “inaceitável”, a gestão deve agir imediatamente: interromper, controlar e só retomar com barreiras eficazes. EPI isolado raramente é suficiente para reclassificar risco alto.
Questão 5
Em inspeção de climatização, identifica-se bandeja de condensado com acúmulo de água e presença de biofilme, além de odor de mofo em ambiente fechado. Qual agente e qual medida inicial são mais coerentes?
- A) Agente físico; aumentar iluminação.
- B) Agente biológico; realizar limpeza e manutenção do sistema, corrigindo drenagem e rotina de higienização.
- C) Agente químico; substituir o ar-condicionado por ventilador.
- D) Agente ergonômico; implementar ginástica laboral.
Gabarito: B. Comentário: Mofo e biofilme indicam risco biológico (fungos e bactérias). A ação inicial é saneamento do sistema (limpeza, drenagem, manutenção), além de avaliar ventilação e condições de umidade.