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Concurso Caixa Econômica Federal - Médico do Trabalho: Preparação Técnica e Legislação

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Saúde Ocupacional na Caixa: Vigilância em Saúde, Determinantes e Agravos Relacionados ao Trabalho

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Eixo 1: Vigilância em Saúde no contexto da Caixa (identificação e monitoramento de agravos)

Vigilância em saúde ocupacional é o conjunto de ações sistemáticas para identificar, registrar, analisar e acompanhar agravos relacionados ao trabalho, com o objetivo de intervir nos fatores que os determinam. Na prática, ela conecta sinais individuais (queixas, exames, afastamentos) a padrões coletivos (setores, funções, jornadas, metas, ambientes), permitindo priorizar medidas de prevenção e controle.

O que observar na vigilância: fontes de informação e “sinais de alerta”

Em ambiente bancário, muitos agravos são de instalação gradual e podem aparecer primeiro como queda de desempenho, irritabilidade, dor recorrente ou faltas intermitentes. Para não depender apenas de casos graves, a vigilância deve combinar diferentes fontes.

  • Atendimentos clínicos e ocupacionais: queixas repetidas, recidivas, necessidade de medicação contínua, piora em períodos de maior demanda.
  • Absenteísmo e afastamentos: frequência, duração, diagnósticos mais comuns, setores com maior incidência.
  • Dados de exames e avaliações: alterações visuais, pressão arterial, IMC/circunferência abdominal, queixas musculoesqueléticas, sono.
  • Indicadores organizacionais: mudanças de equipe, rotatividade, metas agressivas, aumento de filas/atendimento, implantação de novos sistemas.
  • Observação do trabalho real: postura, repetitividade, pausas, layout, iluminação, ruído, temperatura, ergonomia do posto.

Passo a passo prático: como estruturar um ciclo de vigilância

  1. Definir o evento sentinela (o que será monitorado): por exemplo, LER/DORT em digitadores/atendimento, transtornos mentais comuns em equipes de alta pressão, hipertensão em grupos com jornada prolongada.
  2. Padronizar coleta: criar roteiro mínimo de anamnese ocupacional e campos de registro (função, setor, jornada, metas, pausas, ferramentas, sintomas, início, evolução).
  3. Classificar gravidade e urgência: identificar sinais de risco (ideação suicida, dor incapacitante, perda funcional, crise hipertensiva, distúrbios do sono severos com risco de acidentes).
  4. Mapear padrões: agrupar por setor/função/turno e por períodos (picos mensais, mudanças de sistema, campanhas).
  5. Gerar hipóteses de determinantes: por exemplo, aumento de queixas cervicobraquiais após mudança de mobiliário; piora de ansiedade após alteração de metas.
  6. Intervir e acompanhar: implementar medidas (ergonomia, pausas, ajustes organizacionais) e reavaliar indicadores em 30–90 dias.

Exemplo prático: aumento de afastamentos por dor em punho e ombro em uma agência. A vigilância identifica que a maioria está no atendimento ao público, com uso intenso de mouse e teclado, sem pausas regulares e com bancadas altas. A intervenção prioriza ajuste de altura de cadeira/mesa, apoio de antebraço, mouse adequado, treinamento de micro-pausas e revisão do fluxo de atendimento para reduzir picos contínuos.

Eixo 2: Determinantes do adoecimento no ambiente bancário (fatores organizacionais e ambientais)

Determinantes são fatores do trabalho e do contexto que aumentam a probabilidade de adoecimento ou agravam condições pré-existentes. Em bancos, eles frequentemente combinam exigências cognitivas elevadas, pressão por metas, atendimento ao público, uso prolongado de telas e sedentarismo ocupacional.

Determinantes organizacionais (como o trabalho é organizado)

  • Pressão por metas e monitoramento constante: pode elevar estresse crônico, ansiedade, irritabilidade e favorecer distúrbios do sono.
  • Alta demanda com baixo controle: pouco poder de decisão sobre ritmo/pausas aumenta risco de transtornos mentais comuns e somatizações.
  • Jornadas prolongadas e pausas insuficientes: piora fadiga, dor musculoesquelética, cefaleia, redução de atenção e qualidade do sono.
  • Conflitos com clientes e exposição a situações de violência/ameaça: gatilho para ansiedade, hipervigilância, sintomas pós-traumáticos.
  • Implantação de novos sistemas/processos: aumento temporário de carga mental, erros, retrabalho e tensão.

Determinantes ambientais e ergonômicos (como é o posto e o ambiente)

  • Postura sentada prolongada: associada a dor lombar/cervical, rigidez, piora metabólica.
  • Repetitividade e uso de teclado/mouse: risco para LER/DORT (tendinopatias, síndrome do túnel do carpo, epicondilalgias).
  • Iluminação e reflexos: fadiga visual, cefaleia, piora de sintomas em usuários de lentes.
  • Ruído e interrupções frequentes: aumentam carga cognitiva e estresse.
  • Climatização inadequada: desconforto, ressecamento ocular, piora de sintomas respiratórios em suscetíveis.

Determinantes individuais modulados pelo trabalho (interação saúde–trabalho)

Alguns desfechos resultam da interação entre condições pessoais e exigências do trabalho. Por exemplo, predisposição a hipertensão pode se manifestar mais cedo quando há estresse crônico, sono ruim e sedentarismo. O foco ocupacional não é “culpar o indivíduo”, mas reconhecer vulnerabilidades para orientar adaptações e prevenção.

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Eixo 3: Desfechos (doenças e incapacidades) e agravos prevalentes em ambiente bancário

Desfechos são os resultados em saúde: sintomas persistentes, diagnósticos, limitações funcionais e incapacidades temporárias ou permanentes. No contexto bancário, alguns agravos são particularmente frequentes e devem ser rastreados de forma ativa.

Transtornos mentais comuns e estresse crônico

Incluem quadros de ansiedade, humor deprimido, irritabilidade, somatizações, dificuldade de concentração e exaustão. O estresse crônico pode se expressar por cefaleia, sintomas gastrointestinais, piora de doenças prévias e aumento de consumo de álcool ou automedicação.

  • Sinais de alerta: insônia persistente, choro fácil, isolamento, queda acentuada de desempenho, crises de pânico, ideação suicida (urgência).
  • Impacto funcional: redução de tolerância a atendimento conflituoso, dificuldade em multitarefa, erros por fadiga.

LER/DORT (lesões por esforços repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho)

Comuns em atividades com digitação, uso de mouse, atendimento contínuo e postura estática. Podem começar como desconforto e evoluir para dor, formigamento, perda de força e limitação de movimentos.

  • Queixas típicas: dor em punhos, antebraços, ombros, pescoço; parestesias; piora ao final do expediente.
  • Risco de cronificação: quando há manutenção do fator causal sem ajustes e retorno precoce sem adaptação.

Alterações visuais e fadiga ocular

Uso prolongado de telas, iluminação inadequada e baixa frequência de pausas visuais favorecem olho seco, ardor, visão turva transitória e cefaleia.

  • Indicadores práticos: necessidade de aproximar-se da tela, lacrimejamento, fotofobia, cefaleia no fim do dia.

Distúrbios do sono

Podem ser desencadeados ou agravados por estresse, ruminação, uso excessivo de telas, jornadas longas e falta de desconexão. O sono ruim amplifica dor, irritabilidade, risco cardiometabólico e erros.

  • Perguntas-chave: latência para dormir, despertares, qualidade ao acordar, sonolência diurna, uso de hipnóticos.

Hipertensão e síndrome metabólica associadas a estilo de vida e trabalho

Sedentarismo ocupacional, alimentação irregular, estresse crônico e sono insuficiente contribuem para elevação pressórica, ganho de peso, dislipidemia e resistência à insulina. No trabalho bancário, o risco aumenta quando há longos períodos sentado, poucas pausas e alta demanda.

  • Achados frequentes: PA elevada em aferições repetidas, aumento de circunferência abdominal, glicemia/colesterol alterados.
  • Relevância ocupacional: fadiga e sonolência podem comprometer segurança e desempenho; crises hipertensivas exigem manejo imediato.

Como estabelecer nexo entre trabalho e adoecimento (suspeita clínica, história ocupacional, temporalidade, agravamento/recidiva)

Estabelecer nexo é construir, com base clínica e ocupacional, a relação entre a exposição no trabalho e o agravo, considerando causalidade, concausalidade (o trabalho contribui) ou agravamento. Em bancos, o nexo frequentemente depende de uma boa história ocupacional e da análise de temporalidade e recorrência.

Roteiro prático de investigação do nexo (passo a passo)

  1. Suspeita clínica inicial: identificar o agravo e sua expressão funcional (ex.: dor em punho com parestesia; ansiedade com insônia e crises; cefaleia diária associada a tela).
  2. História ocupacional dirigida: função atual e anteriores, tempo na função, tarefas reais (não apenas cargo), ritmo, metas, pausas, ferramentas, postura, atendimento ao público, conflitos, mudanças recentes (sistema, equipe, chefia, layout).
  3. Temporalidade: quando começou, relação com início de tarefa/setor, piora em dias úteis e melhora em folgas/férias, picos em períodos de fechamento/campanhas.
  4. Reprodutibilidade e agravamento: sintomas reaparecem ao retomar a atividade? pioram com aumento de demanda? melhoram com afastamento ou adaptação?
  5. Exclusão/avaliação de diagnósticos diferenciais: investigar comorbidades e fatores extraocupacionais sem perder o foco na exposição laboral (ex.: diabetes e túnel do carpo; transtorno de ansiedade prévio; doenças reumatológicas).
  6. Compatibilidade exposição–efeito: verificar se as exigências do trabalho são plausíveis para causar/agravar o quadro (ex.: repetitividade e força manual para tendinopatias; alta demanda e baixo controle para estresse crônico).
  7. Documentação objetiva: registros de atendimentos, evolução, exames, laudos, descrição do posto, fotos/relatos técnicos (quando disponíveis), histórico de afastamentos e recidivas.
  8. Classificação do nexo: provável/possível/indeterminado, explicitando se é causal, concausal ou agravamento, e quais elementos sustentam a decisão.

Exemplo prático (temporalidade e recidiva): empregado com dor cervical e em ombro direito que melhora nas férias e piora após retorno ao atendimento com fila contínua e uso intenso de mouse. Teve melhora parcial com fisioterapia, mas recidiva após aumento de demanda. Esse padrão favorece nexo por agravamento relacionado à organização do trabalho e ergonomia do posto.

Exemplo prático (saúde mental): início de insônia, irritabilidade e crises de ansiedade após mudança de metas e aumento de cobranças, com piora em semanas de fechamento e melhora em períodos de menor pressão. Mesmo com vulnerabilidade prévia, a concausalidade pode ser sustentada pela temporalidade e pelo padrão de exacerbação ligado ao trabalho.

Transformando achados em ações: encaminhamentos, restrições, adaptações e prevenção

Vigilância efetiva não termina no diagnóstico: ela deve gerar ações proporcionais ao risco, com foco em manter capacidade laboral com segurança e reduzir recorrências. As medidas podem ser clínicas (cuidado individual) e organizacionais/ambientais (controle de determinantes).

1) Encaminhamentos e cuidado assistencial (quando e como)

  • Saúde mental: encaminhar para psicoterapia/psiquiatria quando há sofrimento persistente, prejuízo funcional, uso frequente de ansiolíticos/hipnóticos, crises de pânico, ou risco (ideação suicida exige abordagem imediata e rede de apoio).
  • LER/DORT: encaminhar para fisioterapia, ortopedia/medicina física quando há dor persistente, parestesias, perda de força, limitação funcional; considerar exames complementares quando indicados.
  • Visão: avaliação oftalmológica em queixas de visão turva, cefaleia recorrente, olho seco importante, necessidade de ajuste de correção.
  • Cardiometabólico: acompanhamento clínico para hipertensão, dislipidemia, diabetes; orientar monitorização de PA e adesão terapêutica.

2) Restrições e recomendações ocupacionais (focadas em capacidade funcional)

Restrições devem ser específicas, temporárias quando possível, e vinculadas a limitações funcionais observáveis. Evite recomendações genéricas; descreva o que deve ser evitado e por quanto tempo, e o que pode ser mantido.

  • Para LER/DORT: limitar digitação contínua, reduzir repetitividade, evitar força manual sustentada, alternar tarefas, instituir micro-pausas programadas, adequar periféricos.
  • Para transtornos mentais comuns: reduzir exposição a atendimento conflituoso temporariamente, ajustar metas/ritmo, prever pausas, evitar jornadas prolongadas, priorizar tarefas com menor pressão imediata.
  • Para distúrbios do sono: evitar horas extras recorrentes, orientar higiene do sono, ajustar horários quando possível para reduzir privação.
  • Para hipertensão descompensada: evitar sobrecarga aguda e jornadas extensas até estabilização; garantir pausas e acesso a hidratação/alimentação.

3) Adaptações do posto e do processo de trabalho (intervenções de maior impacto)

  • Ergonomia do posto: ajuste de cadeira/mesa, altura de monitor, apoio de pés, teclado e mouse adequados, posicionamento para reduzir abdução de ombro e extensão de punho.
  • Organização de pausas: micro-pausas (1–2 min) a cada 30–50 min de uso intenso de teclado/mouse; pausas visuais (regra prática: olhar para longe periodicamente) para reduzir fadiga ocular.
  • Gestão de demanda: escalas para alternância entre atendimento e tarefas internas, redistribuição de picos, dimensionamento de equipe em períodos críticos.
  • Ambiente: controle de reflexos na tela, iluminação adequada, manutenção de climatização para conforto térmico e ocular.

4) Propostas de prevenção baseadas em achados da vigilância

As ações preventivas devem ser priorizadas pelos padrões encontrados (setores mais afetados, tarefas críticas, períodos de pico) e acompanhadas por indicadores simples.

  • Prevenção em saúde mental: rotinas de gestão de carga (metas realistas, previsibilidade), treinamento de lideranças para manejo de conflitos, canais de apoio e acolhimento precoce, protocolos para eventos críticos (ameaças/assaltos).
  • Prevenção de LER/DORT: padronização ergonômica mínima por função, revisão periódica de mobiliário, treinamento prático de ajuste do posto, alternância de tarefas.
  • Prevenção de fadiga visual: adequação de iluminação, telas com ajuste de brilho/contraste, incentivo a pausas visuais, avaliação de necessidade de correção óptica.
  • Prevenção cardiometabólica: estímulo a pausas ativas curtas, facilitação de acesso a água e alimentação em horários regulares, campanhas internas com foco em monitorização de PA e hábitos, sem culpabilização.

Modelo de registro objetivo para vincular achado → ação

Achado: aumento de queixas de dor em punho/antebraço no atendimento (últimos 60 dias).  Determinantes prováveis: repetitividade + ausência de pausas + mouse inadequado + bancada alta.  Desfecho: tendinopatia/parestesias com limitação funcional em parte da equipe.  Ações imediatas (0–2 semanas): ajuste de mobiliário, troca de mouse/teclado, micro-pausas programadas, triagem clínica dos sintomáticos.  Ações de médio prazo (30–90 dias): alternância de tarefas, revisão do fluxo de atendimento, reavaliação de indicadores (novas queixas/afastamentos).  Critérios de reavaliação individual: persistência de dor > 4–6 semanas, perda de força, parestesias noturnas, recidiva ao retorno.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao estruturar um ciclo de vigilância em saúde ocupacional em uma agência bancária, qual conjunto de ações melhor caracteriza uma abordagem eficaz para identificar padrões coletivos e orientar prevenção e controle?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A vigilância eficaz integra sinais individuais e padrões coletivos por meio de um ciclo: definir o que monitorar, coletar e registrar de forma padronizada, identificar riscos, mapear padrões, levantar determinantes e implementar intervenções com acompanhamento por indicadores.

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