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Concurso Caixa Econômica Federal - Médico do Trabalho: Preparação Técnica e Legislação

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14 páginas

Exames Ocupacionais e ASO na Caixa: Critérios Técnicos, Documentação e Qualidade do Ato Médico

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

+ Exercício

Conceito e finalidade dos exames ocupacionais

Exames ocupacionais são atos médicos periciais-assistenciais voltados a avaliar a compatibilidade entre o estado de saúde do trabalhador e os riscos ocupacionais do posto, em momentos-chave do vínculo laboral. O objetivo é subsidiar decisão de aptidão (apto/inapto) e orientar medidas de prevenção, com registro técnico rastreável e coerente com o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) e com os riscos mapeados (por exemplo, PGR/LTCAT, quando aplicável).

Na prática, a qualidade do exame ocupacional depende de três pilares: (1) anamnese ocupacional dirigida e documentada; (2) exame físico orientado a riscos; (3) decisão e condutas (incluindo exames complementares e recomendações) consistentes com exposição e diretrizes internas, sem violar sigilo e sem fragilizar o ato médico.

ASO: conteúdo mínimo, finalidade e limites de informação

O que é o ASO e para que serve

O Atestado de Saúde Ocupacional (ASO) é o documento que formaliza o resultado do exame ocupacional, registrando a aptidão para a função e as condições essenciais do ato médico ocupacional. Ele não é um “laudo clínico completo”; é um atestado ocupacional com informações estritamente necessárias para o objetivo laboral e para a rastreabilidade do exame.

Conteúdo mínimo e boas práticas de preenchimento

  • Identificação do trabalhador (dados necessários para vinculação ao prontuário e ao evento ocupacional).
  • Tipo de exame (admissional, periódico, retorno ao trabalho, mudança de risco/função, demissional).
  • Função/cargo e setor (ou equivalente), com referência ao contexto de risco ocupacional.
  • Riscos ocupacionais considerados (descritos de forma objetiva e alinhados ao mapeamento interno).
  • Data do exame e data de emissão do ASO (quando distintas, justificar no prontuário).
  • Procedimentos realizados (exame clínico e exames complementares pertinentes, quando houver).
  • Conclusão de aptidão: apto, apto com restrições/recomendações, inapto (com fundamentação técnica no prontuário).
  • Identificação do médico (nome, CRM, assinatura/assinatura digital conforme fluxo institucional).

Sigilo médico e como não fragilizar o ato

No ASO, evite inserir diagnósticos detalhados, CID, resultados numéricos de exames ou descrições clínicas sensíveis que não sejam indispensáveis para a decisão ocupacional. O detalhamento clínico deve ficar no prontuário médico ocupacional, com acesso restrito. Quando houver necessidade de comunicar limitações funcionais, descreva capacidade/restrição (o “o que pode/não pode”) e não a doença (o “qual diagnóstico”).

Exemplo prático (adequado no ASO): “Apto com restrição: evitar levantamento manual de cargas acima de X kg; pausas programadas para atividade repetitiva.”

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Exemplo a evitar no ASO: “Portador de hérnia discal L4-L5 com dor crônica; CID M51; RM com protrusão…” (isso pertence ao prontuário, se necessário).

Execução correta do exame ocupacional: passo a passo

1) Preparação e checagem de contexto

  • Confirmar o evento ocupacional (admissão, periódico, retorno, mudança, demissão) e o prazo/fluxo interno aplicável.
  • Revisar riscos do posto (ex.: ergonomia, trabalho em tela, atendimento ao público, riscos psicossociais, deslocamentos, ruído eventual, agentes biológicos em situações específicas, etc.), conforme mapeamento institucional.
  • Consultar histórico ocupacional no prontuário: ASOs anteriores, restrições prévias, exames complementares, afastamentos, CAT/agravos, inconformidades anteriores.
  • Checar documentos trazidos pelo trabalhador (atestados, relatórios assistenciais, exames) e avaliar pertinência e autenticidade (data, assinatura, identificação do profissional, coerência clínica).

2) Anamnese ocupacional dirigida (com foco em risco)

A anamnese deve ser estruturada para capturar exposição, sintomas relacionados ao trabalho e fatores que impactam aptidão, sem se tornar uma consulta clínica generalista. Registre de forma objetiva, com perguntas-chave e respostas relevantes.

Roteiro prático de anamnese (adaptar ao risco)

  • Histórico ocupacional: função atual, tempo na função, tarefas críticas, jornada, pausas, metas/pressão, turnos, deslocamento, trabalho remoto (se aplicável).
  • Exposição e organização do trabalho: repetitividade, postura sentada prolongada, uso intenso de teclado/mouse, atendimento contínuo, conflitos/assédio, eventos críticos (ex.: ameaças/assaltos), ruído eventual, calor/frio, produtos de limpeza (quando aplicável).
  • Sintomas relacionados: dor cervical/lombar, parestesias, cefaleia, fadiga visual, rouquidão, ansiedade/insônia, palpitações, piora no fim do expediente, melhora em férias/folgas.
  • Antecedentes relevantes: doenças crônicas com repercussão funcional (cardiovasculares, neurológicas, psiquiátricas, osteomusculares), cirurgias, uso de medicações com impacto em vigilância/atenção.
  • Histórico de afastamentos: motivo, duração, recorrência, reabilitação, limitações atuais.
  • Hábitos e fatores pessoais apenas quando influenciam risco/aptidão (ex.: sono, atividade física, tabagismo), evitando juízo moral.
  • Vacinação e exposições biológicas quando houver pertinência ao posto/atividade.

Dica de qualidade: registre “negativas” relevantes (ex.: “nega dor lombar”, “nega parestesias”) quando isso sustenta a decisão de aptidão.

3) Exame físico orientado a riscos (não apenas “exame geral”)

O exame físico deve ser proporcional ao risco e à queixa. Um exame “padrão” sem relação com a função fragiliza a rastreabilidade e a consistência do ato médico. Documente achados positivos e os principais negativos pertinentes.

Checklist prático por eixos (exemplos)

  • Sinais vitais e antropometria quando relevantes para risco cardiovascular e aptidão geral (PA, FC, IMC quando aplicável).
  • Musculoesquelético: inspeção postural, amplitude de movimento cervical/ombros/coluna, testes funcionais simples (ex.: preensão, pinça, manobras para dor/parestesia quando indicado), avaliação de punhos/mãos em atividades repetitivas.
  • Neurológico breve quando houver queixa: força, sensibilidade, reflexos direcionados.
  • Oftalmológico básico quando há demanda visual: acuidade (conforme protocolo), queixas de astenopia, uso de correção.
  • Cardiorrespiratório conforme risco e antecedentes: ausculta, sinais de descompensação, tolerância a esforço referida.
  • Saúde mental (triagem clínica): observação do estado mental, sono, humor, ansiedade, ideação autolesiva (se houver sinais/queixa), sempre com registro cuidadoso e encaminhamento quando necessário.

Exemplo de registro objetivo no prontuário: “Coluna lombar: ADM preservada, sem dor à palpação paravertebral, Lasègue negativo. Punhos: sem edema, Tinel/Phalen negativos. Acuidade visual referida adequada com correção.”

4) Exames complementares: solicitar, validar e interpretar com base em exposição

Exames complementares em saúde ocupacional devem ser justificados por risco ocupacional, diretrizes internas e/ou achados clínicos. Solicitar “pacotes” sem nexo com exposição aumenta custo, gera achados incidentais e pode criar conflitos de aptidão sem benefício preventivo.

Critérios técnicos para solicitação

  • Nexo com risco: o exame deve responder a uma pergunta ocupacional (ex.: monitoramento de exposição, aptidão para tarefa crítica, investigação de sintoma relacionado ao trabalho).
  • Diretriz interna/PCMSO: seguir periodicidade e protocolos definidos, registrando quando houver exceção justificada.
  • Achado clínico: sintomas ou sinais no exame físico que indiquem necessidade de avaliação complementar.
  • Qualidade do exame: laboratório/serviço, método, data, condições de coleta quando relevantes.

Validação e leitura crítica de resultados

  • Conferir identificação do trabalhador e data do exame.
  • Avaliar consistência com quadro clínico e risco: resultado isolado não deve, por si só, determinar inaptidão sem correlação.
  • Gerenciar achados incidentais: orientar encaminhamento assistencial quando necessário, registrando no prontuário; no ASO, manter apenas o impacto funcional/ocupacional.
  • Repetição/confirmatório: quando houver resultado inesperado, considerar reexame antes de decisão restritiva, conforme protocolo e urgência.

Exemplo prático: exame complementar com valor limítrofe sem sintomas e sem risco específico pode demandar repetição/monitoramento, e não restrição imediata. Já um achado com repercussão funcional clara (ex.: limitação importante de mobilidade) pode justificar restrição temporária e reavaliação programada.

5) Decisão de aptidão: coerência entre risco, achado e conduta

A decisão deve ser tecnicamente defensável: o risco do posto + condição clínica/funcional + evidências disponíveis precisam convergir. Evite decisões baseadas apenas em diagnóstico nominal; priorize capacidade funcional e segurança.

Modelo mental para decisão

  • O trabalhador consegue executar tarefas essenciais com segurança?
  • Há risco aumentado de agravo pela exposição atual?
  • Há risco a terceiros (quando aplicável) por condição que comprometa vigilância/atenção?
  • Há medidas de controle/ajuste que tornam a atividade segura (adaptação, pausas, ergonomia, restrição temporária)?

Como redigir restrições e recomendações de forma objetiva

Princípios de redação

  • Especificidade: descreva a limitação funcional e a tarefa a evitar, com parâmetros (peso, tempo, frequência) quando possível.
  • Temporalidade: definir prazo de reavaliação (ex.: “por 60 dias” / “reavaliar em X semanas”).
  • Vinculação ao risco: a restrição deve dialogar com a exposição real do posto.
  • Evitar termos vagos: “evitar esforço”, “sem estresse”, “trabalho leve” são frágeis e geram conflito operacional.
  • Separar restrição de recomendação: restrição é limite para aptidão; recomendação é medida preventiva/ergonômica.

Exemplos práticos (formato adequado)

  • Restrição: “Apto com restrição: evitar digitação contínua por períodos > 50 min sem pausa; implementar pausas de 10 min a cada 50 min por 90 dias; reavaliar.”
  • Restrição: “Apto com restrição: não realizar levantamento manual de cargas > 10 kg; evitar flexão lombar repetitiva; reavaliar em 60 dias.”
  • Recomendação: “Recomendação: adequação ergonômica do posto (altura de cadeira/monitor), orientação de alongamentos e pausas.”
  • Quando houver retorno ao trabalho: “Apto com restrição temporária: jornada parcial por 2 semanas, com progressão conforme tolerância; reavaliação agendada.”

O que evitar no ASO: “Apto, porém com depressão/ansiedade” ou “Apto, mas com hérnia” — substitua por descrição funcional e plano de reavaliação, mantendo diagnóstico no prontuário.

Documentação e prontuário: rastreabilidade sem excesso de exposição

O que deve ficar no prontuário (e não no ASO)

  • Detalhamento da anamnese, queixas, evolução e hipóteses clínicas.
  • Resultados completos de exames complementares (inclusive valores), laudos e relatórios.
  • Raciocínio técnico que levou à aptidão/restrição/inaptidão.
  • Comunicações e orientações dadas ao trabalhador (incluindo encaminhamentos).
  • Documentos recebidos (atestados/relatórios), com data e avaliação de pertinência.

Boas práticas de registro (qualidade do ato médico)

  • Clareza e objetividade: frases curtas, achados relevantes, sem ambiguidades.
  • Consistência: risco descrito → perguntas e exame físico coerentes → exames complementares coerentes → decisão coerente.
  • Rastreabilidade: datas, identificação de documentos, versão de protocolos internos quando aplicável.
  • Justificativa de exceções: quando divergir de protocolo (ex.: antecipar periódico, solicitar exame fora do padrão), registrar motivo.
  • Registro de recusa: se houver recusa de procedimento/exame, documentar orientação, riscos explicados e assinatura/ciência conforme fluxo.

Parâmetros de qualidade e auditoria interna do exame ocupacional

Indicadores práticos de qualidade

  • Completude: ASO com campos essenciais preenchidos; prontuário com anamnese dirigida e exame físico orientado.
  • Coerência técnico-ocupacional: não há restrição sem fundamento funcional; não há inaptidão sem evidência suficiente e sem tentativa de ajuste razoável quando aplicável.
  • Tempestividade: prazos de emissão e reavaliações agendadas conforme necessidade.
  • Padronização: uso de modelos/checklists internos para reduzir variabilidade e omissões.
  • Segurança da informação: ASO sem dados sensíveis desnecessários; prontuário protegido e acessos controlados.

Erros comuns que fragilizam o ato médico (e como evitar)

  • ASO com diagnóstico/CID: substitua por restrição funcional e mantenha diagnóstico no prontuário.
  • Restrição genérica: transforme em parâmetro operacional (tempo, peso, frequência, prazo).
  • Exame físico “copiado”: registre o que foi efetivamente examinado e o que é relevante ao risco.
  • Exames complementares sem nexo: justifique por risco/achado; evite rastreamento indiscriminado.
  • Decisão sem plano: restrição temporária deve ter reavaliação; achado incidental deve ter encaminhamento.

Gestão de inconformidades e situações especiais

Reexames e resultados divergentes

Quando houver inconsistência entre queixa, exame físico e exames complementares, ou quando um resultado for inesperado, a conduta segura é estruturar a inconformidade: confirmar dados, repetir exame quando indicado e registrar o racional.

Passo a passo para reexame/confirmatório

  • 1) Verificar identificação e pré-analítica (data, jejum quando aplicável, método, laboratório).
  • 2) Reavaliar clinicamente (anamnese e exame direcionados ao achado).
  • 3) Definir necessidade de repetição e prazo (imediato vs. programado), conforme risco.
  • 4) Registrar decisão provisória (apto com recomendação e reavaliação, ou restrição temporária) quando necessário para segurança.
  • 5) Documentar comunicação ao trabalhador e orientações.

Divergência de aptidão e segunda opinião

Divergências podem ocorrer entre médico do trabalho e médico assistente, ou entre avaliações ocupacionais em momentos diferentes. O foco deve ser a capacidade funcional e a segurança no contexto do posto.

Fluxo prático para divergência

  • Conferir escopo: relatório assistencial pode focar diagnóstico/tratamento; o ocupacional foca compatibilidade com risco.
  • Solicitar informação funcional quando necessário: limitações objetivas, prognóstico, tempo estimado, restrições recomendadas (sem exigir CID no ASO).
  • Realizar avaliação ocupacional complementar (novo exame clínico, testes funcionais simples, análise de tarefa, quando disponível).
  • Aplicar segunda opinião conforme diretriz interna: outro médico do trabalho revisa prontuário e fundamentação.
  • Registrar decisão final com justificativa técnica e plano de acompanhamento.

Retorno ao trabalho após afastamento

No retorno ao trabalho, o ponto crítico é avaliar capacidade atual, risco de recaída e necessidade de transição. Evite “liberação automática” sem checar função real e sem plano de reavaliação quando há condição ainda em recuperação.

  • Checar documento de alta e evolução clínica.
  • Confirmar tarefas essenciais e possíveis adaptações.
  • Definir restrição temporária quando indicado, com prazo e critérios de progressão.
  • Agendar reavaliação e registrar gatilhos de retorno antecipado (piora, novos sintomas).

Inaptidão: quando é necessária e como fundamentar

A inaptidão deve ser reservada para situações em que não há compatibilidade segura entre condição funcional e exigências/riscos do posto, ou quando adaptações razoáveis não são suficientes no momento. A fundamentação deve estar no prontuário, com descrição funcional, riscos envolvidos e por que medidas alternativas não resolvem.

Boas práticas: (1) registrar quais tarefas críticas estão comprometidas; (2) indicar se é inaptidão temporária (com prazo/condição de reavaliação) ou se há necessidade de reencaminhamento para processo interno de readaptação, conforme normas aplicáveis; (3) orientar encaminhamento assistencial quando pertinente.

Modelos práticos de registro (prontuário e ASO)

Modelo de estrutura de prontuário (exemplo)

Anamnese ocupacional: função, tarefas críticas, jornada, exposições relevantes, sintomas relacionados (positivos e negativos), afastamentos e tratamentos em curso. Exame físico dirigido: achados relevantes e principais negativos. Exames complementares: quais, datas, resultados resumidos e interpretação. Avaliação ocupacional: nexo risco-capacidade, decisão (apto/apto c/ restrição/inapto) e justificativa. Plano: recomendações, restrições com prazo, encaminhamentos, reavaliação agendada. Comunicação: orientações dadas e ciência do trabalhador.

Modelo de redação de restrição no ASO (exemplo)

Apto com restrição (temporária por 90 dias): evitar atividade repetitiva contínua sem pausas; implementar pausa de 10 min a cada 50 min; reavaliar em 90 dias. Recomendação: adequação ergonômica do posto.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao preencher o ASO, qual prática está mais alinhada ao sigilo médico e à finalidade ocupacional do documento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O ASO deve conter apenas informações estritamente necessárias para a decisão ocupacional. Diagnósticos, CID e detalhes clínicos sensíveis devem ficar no prontuário; no ASO, descrevem-se restrições/capacidade de forma objetiva.

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