O que é precificação e posicionamento (e por que isso impacta sua captação)
Precificação é transformar informações do mercado e do imóvel em uma faixa de preço recomendada (não um “chute”). Posicionamento é decidir como o imóvel vai ser apresentado e em qual faixa ele vai competir: “melhor custo-benefício do prédio”, “pronto para morar”, “oportunidade para reforma”, “andar alto com vista”, etc.
Para captação consistente, o objetivo é alinhar três pontos: (1) preço compatível com comparáveis, (2) narrativa coerente com a realidade e (3) expectativa do proprietário ajustada ao tempo de venda desejado. Quando esses três pontos não batem, o imóvel vira “encalhe”, gera desgaste e reduz sua taxa de conversão em autorizações.
Levantamento de comparáveis: como escolher imóveis realmente similares
O que é um comparável válido
Comparáveis (ou “comps”) são imóveis que competem com o seu no olhar do comprador. Um comparável válido precisa ser parecido em tipologia (apto/casa), metragem, número de quartos, vaga, padrão do prédio e localização (mesma rua ou entorno imediato, quando possível).
Checklist de similaridade (use como filtro)
- Raio: preferencialmente mesma rua; se não, até 500–800m em bairros homogêneos (ajuste conforme a cidade).
- Metragem: variação máxima de 10–15%.
- Quartos: igual (ex.: 2 dorm vs 2 dorm).
- Vagas: igual; se diferente, anote para ajuste.
- Condomínio e padrão: idade do prédio, lazer, portaria, elevador, vagas demarcadas.
- Andar/face: andar alto vs baixo; face/sol; ruído (avenida x miolo).
- Estado de conservação: reformado, original, precisa de obra.
- Condomínio (R$): valor e o que inclui (água/gás, fundo de reserva, etc.).
Fontes para levantar comparáveis (sem depender de “um único lugar”)
- Anúncios ativos: mostram o que está “pedindo” (teto de expectativa).
- Anúncios encerrados/retirados: indicam onde o mercado rejeitou preço/condição.
- Transações efetivas (quando acessível): melhor referência, pois é preço realizado.
- Corretores da região: validação qualitativa (tempo médio, objeções recorrentes).
- Portaria/síndico: histórico de vendas no prédio (quando possível e ético).
Regra prática: trabalhe com 6 a 12 comparáveis, sendo pelo menos 3 muito próximos (mesmo prédio ou quarteirão) e o restante para “bordas” (um pouco acima e um pouco abaixo) para entender o corredor de preço.
Transformando comparáveis em faixa de preço (método prático)
Passo a passo para construir a faixa
- Monte uma tabela com os comparáveis e normalize tudo para R$/m².
- Separe por grupos: (a) mesmo prédio/rua, (b) entorno próximo, (c) “alternativas” que o comprador consideraria.
- Identifique o corredor: pegue a faixa central (mediana) de R$/m² dos melhores comparáveis.
- Aplique ajustes (para cima/baixo) conforme diferenças relevantes: conservação, andar/face, vaga, condomínio, rua e atratividade.
- Converta em três números: Preço de liquidez (vende mais rápido), Preço de mercado (equilíbrio), Preço aspiracional (testa o topo com prazo maior).
Tabela modelo de comparáveis (exemplo)
| Comp | Local | m² | Quartos | Vaga | Condomínio | Estado | Preço pedido | R$/m² | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| A | Mesmo prédio | 70 | 2 | 1 | R$ 650 | Reformado | R$ 560.000 | 8.000 | Andar alto, face silenciosa |
| B | Mesma rua | 72 | 2 | 1 | R$ 720 | Original | R$ 520.000 | 7.222 | Andar baixo, precisa pintura |
| C | 800m | 68 | 2 | 0 | R$ 580 | Bom | R$ 495.000 | 7.279 | Sem vaga, rua mais movimentada |
Como ajustar por fatores que mais distorcem o preço
Evite “percentuais mágicos” fixos. Use ajustes como faixas e sempre compare com evidências (comps). Abaixo, um guia prático para estruturar o raciocínio:
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- Estado de conservação: reformado compete em um patamar acima; original compete com “oportunidade” e precisa refletir custo/risco de obra.
Prática: estime um custo de melhoria (pintura, elétrica, hidráulica, piso) e converta em impacto no preço, lembrando que comprador costuma descontar custo + inconveniência. - Andar/face: andar alto, vista e face silenciosa aumentam atratividade; térreo/ruído reduz.
Prática: compare comps do mesmo prédio com andares diferentes, quando existir, para medir o “prêmio” real. - Vaga: diferença de vaga pode mudar o público.
Prática: busque comps “com vaga” e “sem vaga” na mesma microárea para ver o delta de mercado. - Condomínio: condomínio alto reduz demanda, principalmente em ticket mais sensível.
Prática: compare imóveis similares com condomínio menor e observe tempo de mercado e nível de desconto. - Rua e atratividade: esquina barulhenta, proximidade de comércio noturno, escola, ponto de ônibus, ou rua arborizada e calma.
Prática: trate como fator de liquidez: rua melhor vende com menos desconto; rua pior exige preço mais competitivo.
Construindo a faixa final (modelo simples)
Depois de ajustar, gere uma faixa com três cenários:
- Preço de liquidez: faixa inferior do corredor (atrai mais visitas e propostas mais cedo).
- Preço de mercado: centro do corredor (equilíbrio entre valor e tempo).
- Preço aspiracional: topo do corredor (exige diferenciais claros e aceita mais tempo).
Exemplo: corredor ajustado entre R$ 7.300 e R$ 8.000/m² em um imóvel de 70m².
Liquidez: 70 × 7.300 = R$ 511.000
Mercado: 70 × 7.650 = R$ 535.500
Aspiracional: 70 × 8.000 = R$ 560.000
Posicionamento: como decidir “em que prateleira” o imóvel vai competir
Mapa rápido de posicionamento (3 perguntas)
- Quem compra? (investidor, família, primeira compra, downsizing)
- Por que esse imóvel? (localização, planta, vista, reforma, vaga, lazer)
- Contra quem compete? (quais 3 alternativas o comprador veria no mesmo dia)
Exemplos de posicionamento coerente com preço
- “Pronto para morar”: fotos e visita impecáveis, preço mais próximo do topo, argumentos de economia de obra e tempo.
- “Oportunidade para modernizar”: preço mais competitivo, transparência sobre itens a fazer, foco em planta/localização.
- “Melhor custo-benefício do prédio”: preço levemente abaixo de comps diretos, objetivo de gerar múltiplas visitas e acelerar proposta.
Posicionamento não é maquiagem: se o imóvel é original e barulhento, ele não pode ser posicionado como “premium silencioso”. O mercado pune incoerência com falta de visitas.
Conversa de ajuste de preço: técnica com ancoragem responsável e evidências
Princípios para não virar “briga de opinião”
- Comece por objetivo: “qual é a prioridade: vender rápido, equilibrar, ou tentar o topo?”
- Use evidências: comps, corredor de R$/m², diferenças objetivas.
- Traga cenários (tempo x preço): o proprietário escolhe conscientemente.
- Combine gatilhos de revisão: ajuste baseado em métricas (visitas, propostas, feedback).
Roteiro prático de conversa (com frases prontas)
1) Alinhamento de prioridade
“Antes de falarmos de número: sua prioridade é vender em até X dias, ou você prefere testar um valor mais alto mesmo que leve mais tempo?”
2) Ancoragem responsável (faixa, não número solto)
“Pelos comparáveis mais próximos, o mercado está trabalhando entre R$ 510 mil e R$ 560 mil para imóveis como o seu. A diferença depende principalmente de (estado/andar/vaga/rua).”
3) Evidências (mostre 3 a 5 comps-chave)
“Este aqui é do mesmo prédio e está reformado, por isso pede mais. Este outro é original e está mais perto do piso. O seu fica no meio por causa de…”
4) Cenários tempo x preço (deixe explícito o custo do tempo)
“Se colocarmos em R$ 560 mil, estamos no topo e precisamos aceitar um prazo maior e mais negociação. Em R$ 535 mil, ficamos no centro e tendemos a ter mais visitas. Em R$ 510 mil, a chance de proposta rápida aumenta.”
5) Proposta de teste com regras (evita “deixa assim e vê”)
“Podemos testar o preço aspiracional por 14 a 21 dias. Se não bater X visitas qualificadas e pelo menos Y propostas/intenções, ajustamos para o preço de mercado.”
Métricas simples para sustentar ajuste sem desgaste
- Visitas qualificadas: pessoas que realmente comprariam aquela tipologia e faixa.
- Feedback recorrente: “caro para o que entrega”, “condomínio alto”, “precisa reforma”.
- Propostas: ausência de proposta após volume razoável de visitas é sinal forte de desalinhamento.
Regra prática: se há visitas, mas nenhuma proposta, normalmente o preço está acima do que o conjunto entrega (ou existe um “defeito de posicionamento” não tratado na comunicação).
Relatório simples de mercado para o proprietário (estrutura pronta)
Um relatório curto (2 a 4 páginas) aumenta confiança e reduz discussão emocional. Estruture assim:
1) Resumo do imóvel avaliado
- Endereço (ou referência), tipologia, m², quartos, vagas
- Andar/face, estado de conservação
- Condomínio e principais itens incluídos
- Pontos fortes e pontos de atenção (objetivos)
2) Panorama do micro-mercado
- Faixa de R$/m² observada nos comparáveis
- Oferta atual (quantos similares competem)
- Observações de liquidez (o que vende mais rápido e por quê)
3) Tabela de comparáveis
Inclua 6 a 12 comps com: localização, m², vagas, condomínio, estado, preço pedido e R$/m², mais observações.
4) Ajustes e racional
- Quais fatores puxam para cima (ex.: andar alto, vista, vaga)
- Quais fatores puxam para baixo (ex.: original, rua barulhenta, condomínio alto)
- O que é “não negociável” e o que pode ser mitigado (ex.: pintura, organização, iluminação)
5) Faixa recomendada e cenários
- Liquidez: R$ X (prazo estimado menor)
- Mercado: R$ Y (prazo estimado médio)
- Aspiracional: R$ Z (prazo estimado maior)
Importante: trate prazo como estimativa e condicione a execução (apresentação, disponibilidade de visita, documentação, etc.).
6) Plano de revisão de preço (acordo prévio)
- Período de teste inicial (ex.: 14–21 dias)
- Meta de tração (ex.: X visitas qualificadas)
- Critério de ajuste (ex.: reduzir para o centro do corredor)
- Registro de feedback (lista objetiva)
Alinhando expectativa antes de assinar autorização/contrato
O que precisa estar combinado (para evitar conflito depois)
- Faixa de preço e preço de anúncio: qual cenário foi escolhido e por quê.
- Margem de negociação: até onde pode ir sem nova consulta (ex.: “até 3%”).
- Prazo de teste: quando reavaliar com base em métricas.
- Condições de visita: horários, chaves, antecedência, imóvel preparado.
- Documentação: o que já existe e o que será providenciado (para não travar proposta).
- Transparência sobre pontos de atenção: ruído, sol, necessidade de obra, condomínio, etc.
Mini-roteiro de alinhamento (antes da assinatura)
1) “Confirmando: seu objetivo é (prazo).” 2) “A faixa indicada pelo mercado é (X a Z). Vamos iniciar em (Y) por (motivo).” 3) “Testaremos por (período). Se não tivermos (métrica), ajustamos para (novo patamar).” 4) “Negociação: posso trabalhar até (limite) sem te acionar; abaixo disso, te consulto.” 5) “Visitas: combinamos (regras). Documentos: (checklist).”Quando esse alinhamento é feito por escrito (no relatório e no combinado do plano), a conversa de ajuste deixa de ser “você quer baixar meu imóvel” e vira “vamos seguir o plano baseado no que o mercado respondeu”.