Neste capítulo você vai aprender a sentar, segurar o violão e posicionar as duas mãos de um jeito que não machuca e que prepara o caminho para os acordes. Você já conhece as partes do instrumento e já sabe afinar. Agora vamos preparar o corpo, porque muita gente desiste no começo não por falta de talento, mas por dor evitável e por segurar o violão de forma errada. Ao final, você terá um exercício de aquecimento para abrir toda sessão e saberá separar a dor normal do iniciante daquela que pede correção.
Como sentar e segurar o violão
Escolha uma cadeira sem braços, com assento firme, em que os pés fiquem apoiados no chão e os joelhos dobrados em ângulo próximo de noventa graus. Sofá macio e cama não servem, porque afundam e curvam suas costas. Sente-se na metade da frente do assento, coluna reta mas relaxada, ombros soltos.
A posição mais comum, chamada posição popular, é apoiar a reentrância do corpo do violão, aquela curva na lateral do tampo, sobre a coxa direita. O tampo fica encostado no peito e o braço do violão aponta para a esquerda. Três pontos de contato seguram o instrumento: a coxa direita embaixo, o peito atrás e a parte interna do antebraço direito, que repousa sobre a borda superior do tampo. Faça um teste: solte a mão esquerda completamente. Se o violão tombar, você está segurando com a mão errada. A mão esquerda precisa ficar livre para tocar, nunca para sustentar o instrumento.
A inclinação do braço do violão é o detalhe que mais alivia o pulso esquerdo. Não deixe o braço paralelo ao chão. Erga a cabeça do violão até mais ou menos a altura do seu ombro esquerdo, o que dá uma inclinação entre trinta e quarenta e cinco graus. Mantenha também o tampo quase vertical, sem deitar o violão sobre a barriga para espiar as cordas. Nas primeiras semanas você vai querer olhar os dedos; incline um pouco a cabeça, mas deixe o violão em pé.
Existe também a posição clássica, usada no violão erudito. Nela, o violão fica apoiado na coxa esquerda, com o pé esquerdo sobre um apoio de dez a quinze centímetros, que pode ser um banquinho ou um livro grosso. A perna direita abre um pouco e sustenta a parte de baixo do instrumento, e a cabeça do violão sobe naturalmente até a altura do ombro. Um aviso: o apoio de pé deixa a bacia levemente inclinada e, se for alto demais ou usado por muito tempo, pode cansar a lombar. Se você já tem dor nas costas, prefira o apoio mais baixo ou um suporte de violão, acessório que se prende ao corpo do instrumento, apoia na coxa esquerda e deixa os dois pés no chão. Experimente as duas posições por alguns dias e fique com a que dá menos tensão no pulso esquerdo.
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Para tocar em pé, na igreja ou em roda de amigos, use uma correia. Regule-a sentado, de modo que o violão fique na altura de sempre, e depois levante. Se a posição quase não mudar, a regulagem está certa. Muitos violões de nylon não têm pino para correia; um luthier instala o pino da base (e, se você quiser, também o do braço) rapidamente. Amarrar a correia só na cabeça do violão não resolve sozinho, porque a outra ponta continua precisando de um pino na base do instrumento. Se não quiser furar o violão, existe a correia própria para violão clássico, que engancha na boca do instrumento e não exige pino.

A mão esquerda
A mão esquerda, que pressiona as cordas, é onde surgem quase todas as dores do iniciante. Comece pelo polegar, o dedo P. Ele fica atrás do braço do violão, apontando para cima, mais ou menos no meio da largura do braço, na linha do dedo 2. O polegar não deve aparecer por cima da escala nem deitar ao longo do braço como se você segurasse um cabo de vassoura. Ele é um apoio leve, não uma pinça de força.
Os outros dedos ficam curvados, fechando na direção do polegar como uma garra. Cada dedo pressiona a corda com a ponta, bem na extremidade, e não com a parte carnuda de dentro. Para isso as unhas da mão esquerda precisam estar bem curtas; se a unha toca a escala antes da ponta do dedo, não há como pressionar direito. Corte as unhas hoje, antes de continuar.
Agora o segredo que economiza metade da força: pressione a corda perto do traste, e não no meio da casa. Cada casa é o espaço entre dois trastes. Coloque o dedo logo atrás do traste que fica do lado do corpo do violão, quase encostando nele, sem ficar em cima. Ali a corda precisa de pouquíssima pressão para soar limpa. No meio da casa você aperta muito mais e o som ainda pode zumbir.
Deixe o pulso quase reto, com o cotovelo esquerdo solto ao lado do corpo, sem puxá-lo para dentro nem levantá-lo como uma asa. Se o pulso está dobrado demais, é sinal de violão baixo ou horizontal; corrija a inclinação do braço em vez de forçar o pulso.

O antebraço e a mão direita em repouso
O antebraço direito repousa sobre a borda superior do tampo, e a mão direita cai solta em frente à boca do violão, um pouco deslocada para o lado do cavalete. Os dedos ficam relaxados e levemente curvados, como se segurassem uma laranja pequena. O pulso não dobra para baixo em direção ao tampo; fica ligeiramente arqueado, com um espaço entre a palma e as cordas. Nesta posição de repouso, o polegar direito encosta de leve na corda 6 e os outros dedos ficam sobre as cordas mais finas. Ainda não vamos tocar padrões com a mão direita; o objetivo agora é que ela saiba onde morar. Sempre que sentir o ombro direito subindo, deixe o braço pesar e solte.
Aquecimento: o exercício cromático
Este exercício abre todas as suas sessões. Ele aquece os dedos, ensina a pressionar perto do traste e forma os calos de maneira gradual. Chama-se cromatismo porque percorre casas vizinhas, uma a uma.
- Pressione a corda 1, a mais fina, na casa 1 com o dedo 1, perto do traste, e toque essa corda com o polegar direito. Diga em voz alta: um.
- Sem tirar o dedo 1, pressione a corda 1 na casa 2 com o dedo 2 e toque. Diga: dois.
- Mantendo os dedos 1 e 2, pressione a corda 1 na casa 3 com o dedo 3 e toque. Diga: três.
- Mantendo os três dedos, pressione a corda 1 na casa 4 com o dedo 4 e toque. Diga: quatro.
- Agora volte: tire o dedo 4 e toque a casa 3, que continua pressionada pelo dedo 3. Tire o dedo 3 e toque a casa 2. Tire o dedo 2 e toque a casa 1. Conte quatro, três, dois, um.
- Passe para a corda 2 e repita a subida e a descida, sempre casas 1, 2, 3 e 4 com os dedos 1, 2, 3 e 4. Depois corda 3, corda 4, corda 5 e corda 6.
Regras: um dedo por casa, e os dedos anteriores ficam no lugar enquanto o próximo pressiona, para treinar independência. Conte em voz alta, lento e constante, cerca de um número por segundo. Se alguma nota zumbir, verifique se a ponta do dedo está perto do traste e se o dedo está curvado. No começo o dedo 4 parece preguiçoso e as casas 3 e 4 soam abafadas; isso é normal e melhora em uma ou duas semanas. Uma passada pelas seis cordas leva uns dois minutos e é aquecimento suficiente.
Dor, calos e quando parar
Nos primeiros dias, as pontas dos dedos da mão esquerda vão arder e ficar sensíveis, talvez com uma marca fina onde a corda pressionou. Isso é esperado. A pele responde à pressão repetida criando uma camada mais grossa, o calo, que se forma em uma a três semanas de prática regular. Depois disso, a dor quase desaparece. As cordas de nylon, recomendadas no primeiro capítulo, doem bem menos que as de aço nesta fase.
Para os calos se formarem sem machucar, a regra é pouco e sempre. Nas duas primeiras semanas, toque de dez a quinze minutos por dia; se quiser mais, divida em duas sessões curtas com algumas horas de intervalo. Quinze minutos todos os dias valem mais que uma hora no domingo. Não fure nem lixe bolhas, não passe álcool nem cola nas pontas dos dedos, e não toque com as mãos molhadas, pois a pele amolecida se machuca mais rápido. Se aparecer bolha de água ou a pele abrir, pare por dois ou três dias.
O que separa a dor normal da dor de alerta é o lugar. Dor normal é ardência na ponta dos dedos, que some minutos depois de você parar. Dor de alerta é qualquer coisa fora da ponta dos dedos: pontada ou queimação no pulso, dormência ou formigamento, dor no antebraço, no cotovelo, no ombro ou no polegar esquerdo. Essas dores vêm de postura, quase sempre por uma destas causas: violão horizontal ou baixo demais, polegar apertando em vez de apoiar, ombros levantados por tensão, ou o hábito de segurar o violão com a mão esquerda. Quando sentir dor de alerta, pare na hora, sacuda as mãos, revise cada item deste capítulo e recomece mais devagar. Se dormência ou dor no pulso persistirem por mais de alguns dias mesmo com a postura corrigida, procure um médico ou fisioterapeuta antes de continuar. Ninguém aprende violão mais rápido tocando com dor.
Resumo
- Sente em cadeira firme, com o violão na coxa direita ou, na posição clássica, na coxa esquerda com apoio de pé, sempre com a cabeça do violão erguida e o tampo quase vertical.
- Três pontos de contato seguram o violão: coxa, peito e antebraço direito. A mão esquerda nunca sustenta o instrumento.
- Polegar atrás do braço, dedos curvados como pinça, unhas curtas, ponta do dedo pressionando logo atrás do traste do lado do corpo.
- Faça o cromatismo casas um a quatro com dedos um a quatro em todas as seis cordas, contando em voz alta, antes de toda sessão.
- Ardência na ponta dos dedos é normal e vira calo em uma a três semanas com sessões de dez a quinze minutos; dor no pulso, ombro ou polegar é sinal de postura errada e pede pausa e correção.