Onboarding na prática de cultura, valores e comportamento esperado

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Cultura, valores e comportamento esperado: do abstrato ao observável

Em onboarding, “cultura” não deve ser apresentada como um conjunto de frases inspiracionais, mas como um sistema prático de decisões e comportamentos que se repete no dia a dia. Para o novo colaborador, cultura fica clara quando ele consegue responder: “O que é valorizado aqui?”, “Como eu ajo em situações comuns?” e “Como sei que estou fazendo do jeito certo?”.

O que significa “apresentar cultura de forma prática”

Apresentar cultura de forma prática é traduzir valores em três camadas:

  • Decisões típicas: escolhas recorrentes (priorização, trade-offs, como lidar com prazos, qualidade, risco).
  • Comportamentos observáveis: ações concretas que qualquer pessoa consegue ver (como dar feedback, como documentar, como pedir ajuda).
  • Critérios de avaliação: como a equipe reconhece um bom trabalho (o que é elogiado, o que é corrigido, o que é considerado “pronto”).

Uma forma simples de evitar abstração é usar a estrutura: Valor → O que significa na prática → Exemplos do dia a dia → Anti-exemplos → Como medir.

Mapa de valores: conectando valor a decisão e comportamento

Crie (ou adapte) um “Mapa de Valores” para a equipe. Ele pode ser um documento de 1–2 páginas que o gestor apresenta e revisita nas primeiras semanas.

ValorDecisão típicaComportamento observávelAnti-exemplo (o que evitar)Como reconhecemos
TransparênciaComunicar riscos cedoAtualiza status com fatos e próximos passos“Sumir” quando há problemaRiscos registrados e alinhados antes de virar crise
Foco no clientePriorizar impacto vs. preferência internaValida hipótese com dados/feedbackDecidir por opinião sem evidênciaDecisões citam evidências e aprendizados
ColaboraçãoResolver com o time, não sozinhoPede ajuda cedo e oferece ajudaTrabalhar em silo e “surpreender” no finalIntegrações suaves, menos retrabalho
Excelência pragmáticaEquilibrar qualidade e prazoDefine “pronto” e critérios de aceitePerfeccionismo sem impactoEntrega consistente com critérios claros

Dica prática: se a empresa já tem valores corporativos, o onboarding da equipe deve mostrar como eles aparecem no contexto local (produto, área, clientes, rotinas). O novo colaborador precisa ver “como isso se manifesta aqui”.

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Passo a passo: sessão de cultura aplicada (60–90 minutos)

Use este roteiro com o novo colaborador (ou em pequenos grupos de novos entrantes). O objetivo é sair com exemplos concretos e acordos de comportamento.

1) Abrir com “como decidimos aqui” (10 min)

Em vez de começar com slogans, comece com 3–5 decisões recorrentes da área. Exemplos:

  • Como priorizamos demandas concorrentes?
  • O que fazemos quando há conflito entre prazo e qualidade?
  • Quando escalamos um problema e para quem?
  • Como lidamos com divergências técnicas/opiniões?

Para cada decisão, cite um caso real (sem expor pessoas) e conecte ao valor correspondente.

2) Apresentar 4–6 valores com exemplos e anti-exemplos (20–30 min)

Para cada valor, use a estrutura abaixo e peça ao novo colaborador para repetir com as próprias palavras:

  • O que significa na prática: 1 frase operacional.
  • Exemplo do dia a dia: 1 situação comum.
  • Anti-exemplo: o comportamento que parece “normal”, mas não é esperado.
  • Como agir se estiver em dúvida: a quem perguntar e qual canal usar.

Modelo de fala (para o gestor):

Valor: Transparência. Na prática: avisar cedo e com fatos. Exemplo: se um prazo vai escorregar, eu aviso no mesmo dia, explico causa, impacto e proponho opções. Anti-exemplo: esperar a reunião da semana que vem para contar. Se estiver em dúvida: poste no canal #projeto-x e me marque.

3) Dinâmica rápida: “o que você faria?” (20–25 min)

Escolha 2–3 mini-casos e peça ao novo colaborador para responder: ação, canal, prazo e quem envolver. Em seguida, compare com o comportamento esperado.

Mini-caso A — risco no prazo: você percebe que uma dependência externa não vai chegar a tempo e pode atrasar a entrega.

  • Perguntas: quando comunicar? para quem? qual nível de detalhe? quais opções propor?

Mini-caso B — discordância em reunião: você discorda da solução proposta por alguém mais sênior.

  • Perguntas: como discordar? em público ou em privado? como registrar decisão?

Mini-caso C — erro em produção/cliente impactado: um problema gerou impacto e há pressão por resposta rápida.

  • Perguntas: qual é a primeira mensagem? quem lidera? como evitar caça às bruxas?

Resultado esperado: ao final, registre 5–8 “regras de ouro” da equipe (ex.: “avisar risco em até 24h”, “discordar com dados”, “decisão registrada no documento X”).

4) Fechar com “acordos de comportamento” (10–15 min)

Transforme valores em acordos simples e verificáveis. Exemplo de acordos:

  • Documentação: decisões relevantes são registradas no mesmo dia, com contexto e responsáveis.
  • Feedback: feedbacks de ajuste são dados em até 72h após o fato, com exemplo concreto.
  • Reuniões: toda reunião tem pauta, objetivo e dono; notas e decisões são compartilhadas.
  • Escalonamento: risco alto é escalado imediatamente; risco médio entra no status semanal.

Rituais da equipe: como integrar sem “jogar no fogo”

Rituais são onde a cultura aparece com mais força. No onboarding, o novo colaborador precisa entender para que serve cada ritual, como se preparar e qual comportamento é esperado.

Daily (ou check-in diário): objetivo, formato e etiqueta

Objetivo: sincronizar trabalho e remover impedimentos, não “prestar contas”.

Formato sugerido (timebox 10–15 min):

  • O que avancei desde o último check-in?
  • O que farei até o próximo?
  • Impedimentos e riscos (com pedido claro de ajuda).

Comportamentos esperados:

  • Ser específico (evitar “estou vendo umas coisas”).
  • Trazer impedimento cedo, com contexto mínimo e proposta de próximo passo.
  • Se um tema exigir debate, sugerir “estacionar” e marcar um follow-up com as pessoas certas.

Passo a passo para o novo colaborador (primeira semana):

  • Dia 1–2: assistir e anotar padrões (tempo, nível de detalhe, como pedem ajuda).
  • Dia 3–5: falar com roteiro curto (3 frases) e pedir feedback ao buddy/gestor.
  • Semana 2: começar a sinalizar riscos e dependências com antecedência.

One-on-ones (1:1): como usar para acelerar adaptação

Objetivo: alinhamento, desenvolvimento e remoção de obstáculos. É o espaço mais seguro para calibrar cultura e expectativas.

Agenda prática para as primeiras 4 semanas:

  • Semana 1: “como a equipe funciona”, expectativas de comunicação, prioridades do mês.
  • Semana 2: feedback sobre interações (reuniões, mensagens, postura), dúvidas de contexto.
  • Semana 3: autonomia: decisões que já pode tomar sozinho vs. decisões que precisa alinhar.
  • Semana 4: revisão de comportamentos: o que está indo bem, o que ajustar, próximos desafios.

Perguntas que ajudam a traduzir cultura:

  • “O que aqui costuma ser elogiado?”
  • “O que costuma gerar retrabalho?”
  • “Quais erros são aceitáveis e quais são críticos?”
  • “Como você prefere receber más notícias?”

Reuniões de planejamento, revisão e retrospectiva: o que se espera do novo membro

Mesmo que os nomes variem, três comportamentos são universais:

  • Preparação: ler material antes, chegar com perguntas e riscos.
  • Clareza: explicitar suposições e critérios de “pronto”.
  • Registro: decisões e responsáveis ficam documentados.

Checklist de preparação (para qualquer reunião decisória):

  • Qual decisão precisa ser tomada?
  • Quais opções existem e seus trade-offs?
  • Quais dados sustentam a recomendação?
  • Quem precisa concordar/ser informado?
  • Como a decisão será registrada?

Normas de comunicação e colaboração: regras claras reduzem atrito

Em times híbridos/remotos, “bom senso” varia muito. Defina normas explícitas para evitar ruído e ansiedade.

Guia prático de canais: quando usar o quê

NecessidadeCanal recomendadoTempo esperadoBoas práticas
Dúvida rápida e não críticaChat/canal públicoHorasContexto + pergunta objetiva + o que você já tentou
Decisão que afeta outras áreasDocumento + mensagem de aviso1–2 diasRegistrar opções, decisão e impacto
Alinhamento complexoReunião curtaAgendarPauta, objetivo e resultado esperado
Risco alto/urgênciaContato direto + escalonamentoImediatoFatos, impacto, próximos passos, quem está envolvido
Feedback sensível1:1Até 72hExemplo concreto, impacto, pedido claro

Etiqueta de mensagens: modelo simples para reduzir idas e vindas

Ensine um formato de mensagem que funcione bem em ambiente assíncrono:

[Contexto em 1 frase] + [O que preciso] + [Prazo] + [Opções/Minha sugestão] + [Quem precisa ver]

Exemplo:

Contexto: o fornecedor confirmou atraso de 3 dias no componente X. Preciso: decidir se trocamos a ordem das entregas. Prazo: hoje 16h. Sugestão: entregar A sem X e replanejar B. @gestor @time-produto para decisão.

Normas de colaboração: “definições de pronto” e ownership

Valores viram fricção quando ownership é ambíguo. Defina:

  • Quem decide (dono da decisão) e quem contribui.
  • Critérios de aceite (o que é “pronto” e o que é “quase pronto”).
  • Como pedir revisão (o que precisa estar completo antes de solicitar ajuda).

Modelo de “definição de pronto” (adaptável):

  • Objetivo e escopo descritos em 5–10 linhas.
  • Critérios de aceite listados.
  • Riscos e dependências mapeados.
  • Teste/validação mínima definida.
  • Registro da decisão e responsáveis.

Dinâmicas simples para traduzir valores em ações

Dinâmica 1: “Cartões de valor” (15–20 min)

Objetivo: alinhar interpretação de valores e reduzir ambiguidade.

Como fazer (passo a passo):

  • Escolha 4–6 valores.
  • Para cada valor, escreva 2 comportamentos esperados e 1 anti-exemplo.
  • Peça ao novo colaborador para escolher 2 valores que considera mais fáceis e 2 mais difíceis de praticar no contexto atual.
  • Discuta: “o que tornaria isso fácil aqui?” e “que suporte você precisa?”.

Saída: lista de situações em que o colaborador quer “checar” antes de agir (gatilhos de alinhamento).

Dinâmica 2: “Estudo de caso da semana” (20 min, recorrente)

Objetivo: criar repertório rápido de decisões culturais.

Como fazer: uma vez por semana no primeiro mês, o gestor ou buddy traz um caso real (pequeno) e responde junto:

  • Qual era o dilema?
  • Quais valores estavam em tensão?
  • O que foi decidido e por quê?
  • O que faríamos diferente hoje?

Exemplos de casos: “prioridade mudou com cliente”, “bug crítico vs. feature prometida”, “conflito entre áreas”, “mudança de escopo no meio do caminho”.

Dinâmica 3: “Shadowing com checklist” (30–60 min)

Objetivo: observar cultura em ação em reuniões e interações.

Passo a passo:

  • Escolha 1 ritual (daily, planning, review) para o novo colaborador observar com intenção.
  • Entregue um checklist de observação.
  • Após a reunião, faça um debrief de 10 minutos.

Checklist de observação (exemplos):

  • Como as pessoas discordam? Com dados, exemplos, perguntas?
  • Como decisões são registradas?
  • Como impedimentos são tratados?
  • Quem fala mais e como o time inclui pessoas mais quietas?
  • Qual é o “tom” (formal, direto, cuidadoso) e quando muda?

Diferenças culturais em equipes híbridas/remotas: prevenir mal-entendidos

Em equipes distribuídas, diferenças culturais aparecem em estilo de comunicação, relação com hierarquia, tolerância a conflito, pontualidade e preferência por contexto (mensagens longas vs. curtas). O onboarding deve antecipar isso com normas explícitas e espaços seguros para perguntar.

Princípios práticos para reduzir atrito cultural

  • Assuma boa intenção: trate ruídos como diferença de estilo, não como falta de respeito.
  • Prefira clareza a sutileza: explicite pedidos, prazos e critérios.
  • Normalize perguntas: “Se algo parecer estranho, pergunte no 1:1 ou no canal X”.
  • Decisões por escrito: reduz desigualdade entre quem está ao vivo e quem está assíncrono.
  • Revezamento de horários: quando houver fusos, distribua o “custo” das reuniões.

Passo a passo: acordo de trabalho para time híbrido/remoto (30–45 min)

Monte um “Working Agreement” com o novo colaborador e, idealmente, com o time (ou revise o existente). Itens mínimos:

  • Horários e fusos: janela de sobreposição, expectativa de resposta, como sinalizar indisponibilidade.
  • Assíncrono primeiro: quais decisões precisam de documento antes de reunião.
  • Reuniões inclusivas: câmera opcional/obrigatória, uso de chat, como pedir fala, como registrar.
  • Idioma e clareza: idioma padrão, evitar jargões, explicar siglas na primeira vez.
  • Conflitos: como discordar, quando levar para 1:1, quando escalar.

Exemplo de regra explícita (útil em times multiculturais): “Discordâncias são bem-vindas, mas devem vir com alternativa e evidência. Se o tom parecer duro, confirmamos intenção antes de reagir.”

Sinais de alerta e intervenções rápidas

Durante as primeiras semanas, observe sinais comuns de desalinhamento cultural:

  • Silêncio excessivo: pode indicar insegurança, barreira de idioma ou medo de conflito. Intervenção: pedir opinião diretamente e oferecer canal assíncrono.
  • Mensagens interpretadas como ríspidas: pode ser estilo direto. Intervenção: combinar padrões de escrita (contexto + pedido + prazo) e usar “checagem de entendimento”.
  • Decisões “sumindo”: falta de registro. Intervenção: instituir regra de decisão escrita e dono do registro.
  • Reuniões longas e improdutivas: falta de pauta/objetivo. Intervenção: timebox, pauta obrigatória e estacionamento de tópicos.

Ferramentas de apoio: scripts e checklists para o gestor/buddy

Script de alinhamento de comportamento esperado (10 min)

1) Nesta equipe, valorizamos X porque impacta Y (cliente/qualidade/velocidade). 2) Na prática, isso significa fazer A e B, e evitar C. 3) Quando você estiver em dúvida, use o canal D e me chame. 4) Eu vou te dar feedback rápido nas próximas semanas para calibrarmos juntos.

Checklist do gestor: cultura aplicada nas primeiras 2 semanas

  • Apresentei valores com exemplos e anti-exemplos da própria equipe.
  • Expliquei decisões recorrentes e trade-offs típicos.
  • Definimos acordos de comunicação (canais, prazos, urgência).
  • Integrei o colaborador aos rituais com expectativa clara de participação.
  • Fiz pelo menos 1 dinâmica de caso (“o que você faria?”).
  • Combinei como lidar com diferenças culturais (assíncrono, escrita, conflitos).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um onboarding que busca traduzir cultura do abstrato para o observável, qual abordagem melhor torna os valores aplicáveis no dia a dia do novo colaborador?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A cultura fica prática quando valores viram decisões recorrentes, comportamentos visíveis e critérios claros de reconhecimento. Exemplos e anti-exemplos reduzem ambiguidade e ajudam o novo colaborador a agir com segurança.

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Onboarding na prática de políticas e governança: regras claras e aplicáveis

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