Onboarding na prática de políticas e governança: regras claras e aplicáveis

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que são políticas e governança no onboarding (e por que isso precisa ser “aplicável”)

Políticas são regras internas que orientam decisões e comportamentos no dia a dia (o que pode, o que não pode, como fazer, quem aprova). Governança é o conjunto de mecanismos para garantir que essas regras sejam entendidas, seguidas, registradas e atualizadas (responsáveis, evidências, revisões, auditoria e melhoria contínua).

No onboarding, o objetivo não é “entregar um PDF para assinar”, e sim garantir três resultados práticos: (1) o colaborador sabe onde encontrar as regras; (2) entende como aplicar em situações reais; (3) a empresa consegue provar ciência e manter as políticas vivas e atualizadas.

Quais políticas essenciais incluir (e como estruturar o conteúdo)

A seguir, um conjunto de políticas comuns e essenciais. A recomendação é padronizar a estrutura de todas elas para reduzir atrito e aumentar compreensão.

Modelo de estrutura (use em todas as políticas)

  • Objetivo: por que existe e o que protege.
  • Escopo: quem deve cumprir (CLT, PJ, estagiário, terceiros).
  • Regras em linguagem simples: 5–12 bullets com “faça / não faça”.
  • Exemplos práticos: 3–6 cenários reais do dia a dia.
  • O que fazer em caso de dúvida/incidente: canal, prazo, responsável.
  • Consequências: medidas disciplinares em nível alto (sem ameaças, sem juridiquês).
  • FAQ: 6–10 perguntas frequentes.
  • Versão e revisão: data, dono, próxima revisão, histórico de mudanças.

Políticas essenciais e pontos mínimos

1) Código de conduta

  • Inclua: integridade, respeito, relacionamento com clientes/fornecedores, brindes e hospitalidades, uso de recursos da empresa, comunicação e postura em canais internos.
  • Exemplos: “posso aceitar um presente?”, “posso usar dados de cliente em apresentação?”, “como agir em conflito entre áreas?”.

2) Segurança da informação

  • Inclua: senhas e MFA, bloqueio de tela, compartilhamento de acesso, phishing, classificação de informação, armazenamento em nuvem, uso de dispositivos pessoais (se permitido), reporte de incidentes.
  • Exemplos: “recebi e-mail suspeito”, “preciso enviar arquivo com dados sensíveis”, “perdi o notebook/celular”.

3) Privacidade e LGPD (na prática)

  • Inclua: o que é dado pessoal e dado sensível, bases legais (sem aprofundar), minimização, necessidade de acesso, retenção, compartilhamento com terceiros, direitos do titular, incidentes.
  • Exemplos: “posso exportar lista de clientes para planilha?”, “posso usar WhatsApp pessoal para falar com cliente?”, “como anonimizar dados em relatórios?”.

4) Assédio e discriminação

  • Inclua: definições objetivas, exemplos de condutas, ambientes presenciais e digitais, consentimento, retaliação, canais de denúncia, confidencialidade e proteção.
  • Exemplos: “piadas recorrentes sobre aparência”, “mensagens fora do horário com teor inadequado”, “pressão para encontros”.

5) Conflitos de interesse

  • Inclua: atividades paralelas, parentesco, participação societária, contratação de fornecedores, recebimento de comissões, uso de informação privilegiada.
  • Exemplos: “meu parente trabalha em fornecedor”, “tenho um side job”, “fui convidado para palestrar por cliente”.

6) Uso de ferramentas e recursos (TI e comunicação)

  • Inclua: e-mail e chat corporativo, armazenamento, instalação de software, uso aceitável, gravações de reuniões, IA generativa (se aplicável), propriedade intelectual.
  • Exemplos: “posso instalar plugin?”, “posso encaminhar e-mail para conta pessoal?”, “posso usar IA com dados internos?”.

7) Despesas e viagens

  • Inclua: o que é reembolsável, limites, comprovantes, prazos, adiantamentos, política de hotéis e passagens, refeições, transporte, aprovação.
  • Exemplos: “perdi a nota fiscal”, “posso usar milhas?”, “posso estender viagem por motivo pessoal?”.

8) Home office / trabalho remoto (ou híbrido)

  • Inclua: jornada e disponibilidade, ergonomia e segurança, confidencialidade em ambientes públicos, internet, uso de VPN, visitas presenciais, reembolso de custos (se houver).
  • Exemplos: “posso trabalhar de coworking?”, “como lidar com ruído e privacidade?”, “posso viajar e trabalhar de outra cidade/país?”.

Como apresentar políticas sem juridiquês (e sem virar “aula chata”)

Princípios de linguagem e formato

  • Troque “deverá” por “precisa”: “Você precisa reportar incidentes em até X horas”.
  • Use bullets e tabelas: menos parágrafos longos, mais regras acionáveis.
  • Comece pelo “o que fazer”: a regra + o passo seguinte (canal, formulário, responsável).
  • Inclua exemplos reais: cenários curtos com decisão correta.
  • Separe “regra” de “contexto”: regra em destaque; contexto em nota.
  • Defina termos: uma mini seção “Glossário” quando necessário (ex.: dado sensível, incidente, conflito).

Formato recomendado: “Regra + Exemplo + Como agir”

ItemExemplo de redação
RegraNão compartilhe sua senha ou token de autenticação com ninguém, inclusive TI.
ExemploUm colega pede seu login “só para subir um arquivo rápido”.
Como agirDiga não, ofereça alternativa (compartilhar o arquivo pelo repositório oficial) e, se houver insistência, reporte ao canal de segurança.

Perguntas frequentes (FAQ) prontas para usar

Segurança da informação

  • “TI pode pedir minha senha?” Não. Se alguém pedir, trate como incidente e reporte.
  • “Posso acessar sistemas em Wi‑Fi público?” Somente se a política permitir e com medidas exigidas (ex.: VPN). Caso contrário, evite.
  • “Cliquei em um link suspeito, e agora?” Desconecte-se da rede se orientado pela política, avise imediatamente o canal de segurança e siga o procedimento de contenção.

LGPD e privacidade

  • “Posso baixar dados de clientes para trabalhar mais rápido?” Apenas se houver necessidade, autorização e armazenamento em local corporativo aprovado; evite cópias locais.
  • “Posso usar meu WhatsApp pessoal com cliente?” Depende da política. Se permitido, siga regras de registro, consentimento e proteção de dados; se não, use canal corporativo.
  • “Recebi pedido de exclusão de dados. Respondo?” Encaminhe ao canal responsável (DPO/Privacidade) e não execute ações por conta própria sem orientação.

Assédio e conduta

  • “Brincadeiras contam como assédio?” Podem contar, especialmente se recorrentes, ofensivas, com desequilíbrio de poder ou sem consentimento.
  • “Denúncia pode ser anônima?” Se houver canal de ética, normalmente sim; a política deve explicar como funciona e como é tratada a confidencialidade.

Despesas e viagens

  • “Sem nota fiscal, tem reembolso?” Regra geral: não. Se houver exceção, deve estar prevista (ex.: declaração, aprovação extra).
  • “Posso escolher hotel mais caro por preferência?” Somente se a política permitir e com aprovação prévia quando exceder limites.

Passo a passo: como implementar políticas no onboarding (sem sobrecarregar)

Passo 1 — Defina a “trilha mínima” por perfil

Nem todo mundo precisa do mesmo pacote. Crie trilhas por função (ex.: administrativo, vendas, engenharia, liderança) com o mínimo obrigatório e itens condicionais.

  • Obrigatório para todos: código de conduta, assédio/discriminação, segurança da informação, privacidade/LGPD, uso de ferramentas.
  • Condicional: despesas/viagens (quem viaja ou aprova), conflitos de interesse (todos, mas com módulo extra para compras/finanças), home office (quem atua remoto/híbrido), políticas específicas de área (ex.: atendimento, suporte).

Passo 2 — Transforme políticas longas em “pílulas aplicáveis”

Para cada política, crie um resumo de 1 página (ou 5–8 bullets) com as regras que mais geram erro. O documento completo continua disponível para consulta e auditoria.

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  • Resumo: “Top 10 regras + 5 exemplos + canais”.
  • Documento completo: versão formal com definições e detalhes.

Passo 3 — Apresente com cenários e decisões

Em vez de leitura passiva, use microcasos com pergunta objetiva:

Cenário: Você recebeu um arquivo com dados de clientes por e-mail e precisa analisar hoje. O que fazer? (marque a opção correta) A) Baixar para o computador pessoal B) Subir no drive pessoal C) Armazenar no repositório corporativo aprovado e restringir acesso D) Encaminhar para um colega no WhatsApp

O objetivo é verificar compreensão, não “pegar” o colaborador.

Passo 4 — Colete aceite + evidência de compreensão

Separe dois registros: (1) ciência/aceite (assinatura ou aceite eletrônico); (2) compreensão mínima (quiz curto, confirmação de leitura guiada, ou checklist de entendimento).

Passo 5 — Defina o que fazer quando alguém não compreende

Política aplicável inclui correção. Se a pessoa errar no quiz ou demonstrar dúvida, preveja reforço:

  • releitura do resumo + exemplos;
  • conversa rápida com gestor/Compliance/People;
  • novo aceite/registro após reforço (quando aplicável).

Checklist de aceite e trilha mínima de compreensão

Checklist (o que precisa ser lido, assinado e compreendido)

ItemAçãoEvidênciaObrigatório para
Código de condutaLer resumo + aceitar políticaAceite registrado + quiz (5 perguntas)Todos
Assédio e discriminaçãoLer + confirmar canaisAceite + confirmação de conhecimento do canalTodos
Segurança da informaçãoLer + simular decisão em cenáriosQuiz (8–10 perguntas) + aceiteTodos
Privacidade e LGPDLer + entender dados pessoaisQuiz (6 perguntas) + aceiteTodos
Uso de ferramentasLer regras de uso aceitávelAceiteTodos
Conflitos de interesseLer + declarar situações (se houver)Aceite + declaração (quando aplicável)Todos (declaração conforme caso)
Despesas e viagensLer + entender prazos e comprovantesAceite + quiz curtoQuem viaja/reembolsa/aprova
Home officeLer + confirmar condições mínimasAceite + checklist de segurança/privacidadeRemoto/híbrido

Trilha mínima de compreensão (padrão sugerido)

  • Leitura guiada: resumo de cada política (tempo alvo: 10–15 min por política).
  • Quiz: 5–10 perguntas por tema crítico (segurança, LGPD, assédio, conduta).
  • Confirmação de canais: o colaborador identifica onde reportar (ética, segurança, privacidade, RH).
  • Declarações condicionais: conflito de interesse (se aplicável), uso de BYOD (se existir), viagens (se aplicável).

Como registrar ciência (aceite) e armazenar evidências

O que registrar (campos mínimos)

  • Nome completo e identificador (matrícula/e-mail corporativo).
  • Política (nome) e versão.
  • Data/hora do aceite.
  • Forma de aceite (assinatura eletrônica, checkbox autenticado, assinatura manuscrita digitalizada).
  • Resultado de compreensão (nota do quiz, data, tentativas).
  • Responsável pela política (dono) e área.

Onde armazenar evidências (princípios)

  • Centralização: um repositório oficial (ex.: diretório corporativo controlado ou sistema de gestão documental).
  • Controle de acesso: apenas áreas autorizadas (People/Compliance/Jurídico/SI) acessam evidências completas.
  • Imutabilidade/Histórico: manter trilha de auditoria (quem alterou, quando, o quê).
  • Retenção: definir prazo de guarda conforme necessidade legal e de auditoria interna.

Como provar em auditoria (pacote de evidências)

  • Lista de colaboradores com status: “pendente / em andamento / concluído”.
  • Relatório de aceite por política e por versão.
  • Amostra de evidências (aceite + quiz) para um conjunto de colaboradores.
  • Histórico de versões da política e comunicação de mudanças.

Como manter políticas atualizadas (sem quebrar o onboarding)

Ciclo de revisão e governança

  • Dono da política: cada política deve ter um responsável nomeado (área e pessoa).
  • Periodicidade: revisão programada (ex.: anual) e revisão extraordinária (mudança legal, incidente, auditoria, mudança de processo).
  • Comitê de validação: quando necessário, envolver Compliance/Jurídico/SI/People e áreas impactadas.
  • Controle de versão: numeração clara (v1.0, v1.1) e registro do que mudou.

Gestão de mudanças: quando exigir novo aceite

Defina critérios objetivos para evitar “aceite toda semana”:

  • Novo aceite obrigatório: mudanças materiais (novas proibições, novos deveres, novos canais, mudanças de consequências, mudanças em tratamento de dados).
  • Somente comunicação: ajustes editoriais, clareza de texto, exemplos adicionais sem alterar regra.

Como comunicar atualizações sem ruído

  • Mensagem curta: “o que mudou”, “a partir de quando”, “o que você precisa fazer”.
  • Link para resumo “antes vs depois”.
  • Prazo de aceite quando aplicável.

Kit pronto: templates rápidos para políticas e aceite

Template de política (copiar e preencher)

Nome da política: [ex.: Segurança da Informação] Objetivo: [1-2 frases] Escopo: [quem se aplica] Regras (faça / não faça): - [regra 1] - [regra 2] ... Exemplos práticos: 1) [cenário] → [conduta correta] 2) ... Como reportar dúvidas/incidentes: - Canal: [e-mail/formulário/telefone] - Prazo: [ex.: imediato / até 24h] Consequências: [descrição em alto nível] FAQ: - [pergunta] [resposta] Versão: [vX.Y] | Data: [dd/mm/aaaa] | Dono: [área/pessoa] | Próxima revisão: [dd/mm/aaaa]

Template de registro de aceite (campos mínimos)

Colaborador: [nome] | ID: [matrícula/e-mail] Política: [nome] | Versão: [vX.Y] Aceite: [sim/não] | Data/hora: [timestamp] Método: [assinatura/checkbox autenticado] Compreensão: [nota do quiz] | Data: [timestamp] Observações: [reforço aplicado? sim/não]

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um onboarding focado em políticas e governança “aplicáveis”, qual prática melhor garante que as regras sejam entendidas e que a empresa consiga comprovar ciência e compreensão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A abordagem “aplicável” exige resultados práticos: saber onde encontrar regras, entender como aplicar e gerar evidências. Por isso, combina pílulas/resumos, cenários/quiz e registro de aceite por versão com armazenamento centralizado e trilha de auditoria.

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