Permissão de Trabalho (PT) / Autorização: o que é e para que serve
A Permissão de Trabalho (PT) (ou Autorização para Trabalho em Altura) é um documento de controle operacional que formaliza: o que será feito, onde, quando, por quem, com quais controles e em quais condições a atividade pode iniciar, continuar, ser bloqueada ou liberada. Na prática, a PT funciona como um “contrato de execução segura” válido por um período definido e condicionado ao cenário real do campo.
Ela não substitui a análise de risco; ela conecta a análise de risco à execução, garantindo checagens finais, responsabilidades claras e critérios objetivos para parar e retomar.
Estrutura recomendada da PT: informações mínimas
Uma PT eficaz é curta, objetiva e verificável. Abaixo, um modelo de campos mínimos (adapte ao seu processo interno):
| Bloco | O que deve conter | Exemplo prático |
|---|---|---|
| Identificação | Nº da PT, data/hora de emissão, local exato, área/equipamento, descrição da tarefa | PT-2026-014; Cobertura do galpão B; substituição de exaustor |
| Equipe | Nomes, funções, aptidões/autorizações internas, contato | Executor 1, Executor 2, Supervisor; telefone do resgatista designado |
| Validade | Início e término; regra de revalidação (troca de turno, pausa longa, mudança de clima) | Válida das 08:00 às 12:00; revalidar após almoço |
| Condições para iniciar | Pré-requisitos verificáveis (isolamentos, sinalização, inspeções, liberação de área) | Área isolada com cones e fita; acesso liberado; inspeção de equipamentos concluída |
| Riscos e controles | Resumo dos riscos críticos e controles obrigatórios (sem copiar a análise inteira) | Queda de altura: sistema individual + ancoragem definida; queda de objetos: amarração de ferramentas |
| Pontos críticos | Etapas onde o risco aumenta e exige checagem extra | Transposição de guarda-corpo; movimentação do exaustor na borda |
| Critérios de bloqueio | Condições objetivas para parar (bloquear) e não iniciar/retomar | Vento forte; ancoragem indisponível; isolamento rompido; equipe incompleta |
| Critérios de liberação/retomada | O que precisa acontecer para liberar novamente | Reforçar isolamento; substituir equipamento; rebriefing; revalidação da PT |
| Comunicação | Briefing (DDS/diálogo), canal de comunicação, quem autoriza mudanças | Rádio canal 3; mudanças somente com Supervisor + Segurança |
| Assinaturas | Emissor, responsável pela área, supervisor da execução, executores | Assinaturas e horários |
Responsáveis típicos na PT (sem duplicar papéis já tratados)
- Emissor/Autorizador: confere pré-requisitos, anexos e libera o início.
- Responsável pela área: garante condições do local (isolamentos, interferências, permissões correlatas).
- Supervisor da execução: garante cumprimento do procedimento e interrompe em desvios.
- Executores: executam conforme procedimento e comunicam mudanças/condições impeditivas.
Anexos essenciais: o “pacote” da PT
Para trabalho em altura, a PT deve estar acompanhada de anexos que permitam checagem rápida e rastreável. Recomenda-se anexar:
- Análise de risco (APR/JSA/ART conforme seu padrão): riscos, controles, pontos críticos e medidas adicionais.
- Checklist de equipamentos: itens de acesso, ferramentas e equipamentos de proteção/inspeção aplicáveis ao cenário.
- Plano de resgate: método, recursos, equipe designada, tempo-alvo, comunicação e ponto de atendimento.
- Desenho/ croqui (quando aplicável): área, rota de acesso, pontos de ancoragem/linhas, zonas de isolamento.
- Permissões correlatas (quando aplicável): bloqueio e etiquetagem, espaço confinado, trabalho a quente, içamento, etc.
Checklist de equipamentos: como escrever para ser “checável”
Evite itens genéricos como “EPI ok”. Prefira itens com critério de aceitação e ação em caso de reprovação:
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- Item: talabarte/absorvedor — Aceitação: sem cortes, sem costuras rompidas, etiqueta legível — Ação: retirar de uso e substituir.
- Item: conectores — Aceitação: trava funcionando, sem deformação — Ação: substituir e registrar.
- Item: ferramenta com amarração — Aceitação: cordim/fitas íntegros, ponto de fixação definido — Ação: instalar amarração antes de subir.
Validade, revalidação e “parada segura” dentro da PT
A PT deve declarar quando expira e quando precisa ser revalidada. Revalidação é uma mini-rodada de checagens e confirmação de que o cenário não mudou.
Gatilhos práticos para revalidar
- Troca de turno ou troca de membros da equipe.
- Interrupção longa (ex.: pausa de almoço) ou retomada no dia seguinte.
- Mudança de condições ambientais (chuva, rajadas de vento, baixa visibilidade).
- Alteração de método, acesso, ferramenta, equipamento, ponto de ancoragem, ou área de trabalho.
- Ocorrência de quase-acidente, queda de objeto, falha de equipamento ou desvio relevante.
Critérios de bloqueio e liberação: escreva como “se… então…”
Critérios bons são objetivos e acionáveis. Use linguagem direta:
- Se o isolamento da área for rompido, então parar a atividade, restabelecer isolamento e rebriefing antes de retomar.
- Se o ponto de ancoragem previsto ficar indisponível, então bloquear a PT e acionar controle de mudanças para definir alternativa aprovada.
- Se houver necessidade de improviso (ex.: extensão não prevista, escada não prevista, rota diferente), então interromper e revisar procedimento/PT.
Da análise de risco ao Procedimento Operacional (PO): como transformar em passo a passo claro
A análise de risco lista perigos e controles; o Procedimento Operacional (PO) descreve como executar com aqueles controles, na ordem correta, com pontos de verificação. Um PO bom reduz improviso e padroniza decisões.
Estrutura simples de PO (modelo)
- Objetivo e escopo: qual tarefa e limites (o que está dentro e fora).
- Pré-requisitos: PT emitida, anexos disponíveis, equipe definida, ferramentas e recursos.
- Materiais/equipamentos: lista do que será usado (somente o necessário).
- Passo a passo: sequência numerada, com verbos de ação.
- Pontos críticos: etapas que exigem checagem adicional e confirmação do supervisor.
- Critérios de aceitação: como saber que cada etapa ficou correta.
- Ações em caso de desvio: o que fazer se algo sair do previsto (parar, isolar, comunicar, revalidar).
- Registros: o que guardar (PT, checklists, fotos quando permitido, evidências de inspeção).
Exemplo de PO (trecho) — substituição de componente em cobertura
Objetivo: substituir exaustor no telhado do galpão B.
Pré-requisitos: PT válida; análise de risco anexada; checklist de equipamentos aprovado; plano de resgate disponível e comunicado.
1) Isolar a área abaixo do ponto de trabalho (raio definido no croqui). (Aceitação: isolamento completo e sinalizado; acesso controlado.) (Desvio: se houver circulação, parar e reforçar isolamento.) 2) Realizar briefing com a equipe: sequência, pontos críticos e comunicação. (Aceitação: todos confirmam entendimento; dúvidas registradas.) 3) Conferir ferramentas com amarração e organizar em bolsa porta-ferramentas. (Aceitação: nenhuma ferramenta solta.) 4) Acessar a cobertura pela rota definida. (Ponto crítico: transição para a cobertura.) (Aceitação: transição realizada conforme método definido; sem improvisos.) (Desvio: se rota estiver obstruída, retornar e acionar controle de mudanças.) 5) Posicionar-se no posto de trabalho e executar a substituição do exaustor. (Ponto crítico: movimentação do exaustor próximo à borda.) (Aceitação: peça controlada; área abaixo isolada; comunicação ativa.) 6) Finalizar: retirar materiais, conferir ausência de objetos soltos, liberar área e encerrar PT. (Aceitação: limpeza e conferência final realizadas; registros anexados.)Como identificar “pontos críticos” no PO
Use a análise de risco para marcar etapas com maior potencial de acidente ou de perda de controle. Perguntas úteis:
- Em que momento há mudança de nível ou transição (subida/descida, passagem por aberturas)?
- Quando há movimentação de carga/peça perto de borda ou sobre pessoas?
- Quando há mudança de configuração (reposicionamento, troca de acesso, troca de ferramenta)?
- Quando a equipe tende a “acelerar” (final da tarefa, retrabalho, pressão de prazo)?
Critérios de aceitação: torne verificável
Critério de aceitação é uma frase que permite checar se está “ok” sem interpretação subjetiva. Exemplos:
- Isolamento: perímetro completo, com sinalização visível e controle de acesso.
- Ferramentas: 100% com amarração instalada antes do acesso.
- Comunicação: rádio testado e canal definido antes do início.
- Registros: checklist assinado e anexado à PT antes de liberar.
Ações em caso de desvio: padronize a resposta
Inclua no PO um bloco curto de resposta a desvios, por exemplo:
- Parar em condição não prevista.
- Manter a área segura (isolamento e organização).
- Comunicar supervisor e responsável pela área.
- Avaliar se é ajuste simples (revalidação) ou mudança relevante (controle de mudanças).
- Registrar o que mudou e a decisão tomada (anexo à PT).
Controle de Mudanças (MOC) aplicado ao trabalho em altura: fluxo simples
Controle de mudanças é um processo rápido para garantir que, quando o cenário real muda, a equipe não “adapte no improviso”. Em trabalho em altura, mudanças pequenas podem alterar o risco de forma grande; por isso, defina um fluxo mínimo e objetivo.
O que deve disparar o controle de mudanças
- Mudança de local (outro ponto do telhado, outra fachada, outra estrutura).
- Mudança de método (ex.: trocar acesso planejado por outro; alterar sequência).
- Mudança de equipamentos (ferramenta diferente, equipamento de acesso diferente, ancoragem alternativa).
- Mudança de condições (clima, interferências, presença de terceiros, área abaixo ocupada).
- Mudança de equipe (substituição de executor/supervisor) ou de turno.
Fluxo prático (5 passos) para MOC em campo
- Parar e estabilizar: interromper a tarefa, manter isolamento e organização do posto.
- Descrever a mudança: o que mudou, por que mudou, qual alternativa está sendo considerada.
- Reavaliar riscos: atualizar a análise de risco (adendo) focando no que mudou e nos pontos críticos afetados.
- Aprovar e registrar: responsável definido aprova (assinatura/registro), atualiza PT/PO (adendo) e comunica a equipe.
- Rebriefing e retomada: confirmar entendimento, revalidar checklists impactados e retomar.
Modelo de registro rápido de mudança (adendo)
| Campo | Preenchimento |
|---|---|
| Descrição da mudança | Ex.: acesso original bloqueado por manutenção; usar rota alternativa pela escada externa |
| Motivo | Interferência não prevista |
| Riscos novos/alterados | Ex.: maior circulação de pessoas; novo ponto de transição; maior exposição a queda de objetos |
| Controles adicionais | Ex.: ampliar isolamento; adicionar vigia; ajustar sequência; reforçar amarração de ferramentas |
| Documentos impactados | PT (validade/revalidação), PO (passo 4), checklist (acesso), plano de resgate (rota) |
| Aprovação | Nome, função, data/hora |
Exercícios práticos (para fixação)
Exercício 1 — Montar uma PT completa (com anexos)
Cenário: troca de luminária em mezanino industrial, com circulação de pessoas abaixo e necessidade de isolamento.
Tarefa: preencha os campos mínimos da PT e liste anexos obrigatórios.
- Identificação (local exato, descrição, data/hora)
- Equipe (nomes/funções)
- Validade e gatilhos de revalidação
- Condições para iniciar (mínimo 5 itens verificáveis)
- Riscos críticos e controles (mínimo 4)
- Critérios de bloqueio e liberação (mínimo 4 “se… então…”)
- Anexos: análise de risco, checklist, plano de resgate, croqui
Exercício 2 — Transformar uma análise de risco em PO (passo a passo)
Entrada (resumo de riscos): queda de altura na transição; queda de objetos; interferência de terceiros; necessidade de reposicionamento durante a tarefa.
Tarefa: escreva um PO com:
- 6 a 10 passos numerados
- 2 pontos críticos claramente marcados
- 1 critério de aceitação por passo
- ações em caso de desvio para: (a) isolamento rompido, (b) ferramenta sem amarração, (c) rota obstruída
Exercício 3 — Desenhar um fluxo simples de controle de mudanças
Cenário: durante a execução, o ponto planejado de trabalho fica inacessível e a equipe sugere deslocar 8 metros para outro trecho, usando outra rota de acesso.
Tarefa: desenhe (em texto) um fluxo com caixas e setas, incluindo quem aprova e quais documentos precisam de adendo. Use o modelo abaixo e complete:
[Mudança identificada] -> [Parar e estabilizar] -> [Descrever mudança] -> [Reavaliar riscos (adendo)] -> [Aprovar (quem?)] -> [Atualizar PT/PO/checklists/plano de resgate] -> [Rebriefing] -> [Retomar]Critério de qualidade: seu fluxo deve deixar explícito: (1) quando a atividade para, (2) quem decide, (3) o que precisa ser atualizado antes de retomar.