Princípios de resposta a emergências no trabalho em altura
Em trabalho em altura, “emergência” é qualquer situação que exige resposta imediata para proteger vidas e evitar agravamento do evento: queda com retenção pelo sistema, mal súbito em posição elevada, princípio de incêndio próximo ao acesso, queda de objeto com vítima, colapso de estrutura, entre outros. A NR-35 exige que a atividade seja planejada considerando resgate e atendimento a emergências, com meios e pessoas capazes de agir no tempo adequado.
Objetivos da resposta a emergências
- Interromper a exposição ao risco (parar a atividade e controlar o cenário).
- Evitar agravamento (isolar área, impedir novas quedas, controlar energias perigosas).
- Resgatar com segurança (retirar a vítima da condição de risco, sem criar novas vítimas).
- Acionar recursos corretos (brigada, resgate interno, SAMU/192, Bombeiros/193, segurança patrimonial, etc.).
- Registrar e comunicar (informações essenciais para coordenação e posterior investigação).
Sequência prática: acionamento, isolamento, avaliação inicial, comunicação e coordenação
Abaixo está uma sequência simples e aplicável em campo. Ajuste ao procedimento da empresa e ao cenário.
1) Acionamento (alarme e mobilização)
Quando acionar: qualquer queda com retenção, pessoa suspensa, pessoa inconsciente, travamento de acesso, risco de queda iminente, ou evento que ultrapasse a capacidade de controle imediato da equipe.
- Interrompa a atividade e sinalize “emergência”.
- Acione o plano pelo canal definido (rádio, telefone, alarme local).
- Chame o resgate interno (e/ou brigada) e, se aplicável, serviços externos conforme gravidade e tempo de chegada.
Regra de ouro: acione cedo. Em trabalho em altura, “esperar para ver” costuma piorar o desfecho.
2) Isolamento e controle do cenário
O isolamento evita novas vítimas e mantém o local organizado para o resgate.
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- Isole a área abaixo e ao redor (risco de queda de objetos e de pessoas).
- Controle acessos: apenas equipe de resgate e apoio essencial.
- Elimine/controle energias perigosas relacionadas ao evento (ex.: desligar máquinas, bloquear movimentação de ponte rolante, interromper tráfego de veículos, controlar fontes de calor). Faça isso sem criar novos riscos.
- Estabilize o sistema quando possível: impedir balanço, evitar contato com arestas, reduzir risco de choque/impacto.
3) Avaliação inicial (sem prometer procedimento médico)
A avaliação inicial serve para decidir prioridades e estratégia de resgate. Não substitui atendimento médico.
- Verifique responsividade (a vítima responde a comandos?).
- Identifique riscos imediatos: suspensão, contato com estrutura, risco de nova queda, proximidade de eletricidade, ambiente confinado, intempéries.
- Entenda o mecanismo do evento: queda com retenção? mal súbito? trauma por impacto? Isso muda a urgência e o método.
- Determine se há necessidade de resgate imediato (ex.: vítima suspensa e consciente, mas sem apoio para os pés; vítima inconsciente; risco de agravamento).
Importante: não execute manobras médicas para as quais você não é treinado e autorizado. Foque em resgatar com segurança e acionar atendimento.
4) Comunicação (o que informar e como)
Comunicação curta e padronizada reduz erros. Use um roteiro.
- Onde: local exato (planta, setor, coordenadas internas, ponto de acesso).
- O quê: tipo de ocorrência (queda com retenção, pessoa suspensa, mal súbito, etc.).
- Quantos: número de vítimas e condição aparente (consciente/inconsciente).
- Riscos: eletricidade, tráfego, altura aproximada, acesso difícil, clima.
- Recursos: o que já foi mobilizado (brigada, resgate interno, ambulância).
- Contato: nome e canal do líder no local.
Evite “achismos” e termos vagos. Se não souber, diga “não confirmado”.
5) Coordenação com brigada e serviços externos
Quando brigada/serviços externos chegam, a transição deve ser organizada.
- Defina um ponto de encontro e alguém para recepcionar e guiar.
- Entregue um briefing com as informações essenciais (roteiro acima).
- Informe sobre ancoragens e acessos disponíveis e restrições do local.
- Mantenha um responsável pela gestão do isolamento e outro pela logística (equipamentos, iluminação, controle de tráfego).
Suspensão inerte: o que é, por que é crítica e o que fazer de imediato
Conceito
Suspensão inerte é a condição em que uma pessoa fica suspensa pelo cinto/arnês após uma queda retida ou durante uma suspensão prolongada, com pouca ou nenhuma movimentação. Nessa situação, pode ocorrer comprometimento da circulação e mal-estar progressivo. O risco aumenta quando a pessoa está imóvel, com dor, medo, hipotermia, ou quando o arnês está mal ajustado.
Por que o tempo importa
Em geral, quanto mais tempo a pessoa permanece suspensa e imóvel, maior a chance de piora do quadro. Por isso, o plano de resgate deve buscar reduzir o tempo de suspensão e evitar demora na decisão. Não há um “tempo seguro universal” aplicável a todos os casos; o que existe é a necessidade de resposta rápida e coordenada.
Medidas imediatas (sem prometer procedimentos médicos)
- Acione o resgate imediatamente e mantenha comunicação com a vítima.
- Se a vítima estiver consciente, oriente-a a movimentar as pernas e, se houver recurso (ex.: alças/fitas de alívio de suspensão do arnês), buscar apoio para os pés para reduzir desconforto e favorecer circulação.
- Evite esforços improvisados que possam causar nova queda (ex.: puxar a vítima por cordas sem sistema adequado).
- Planeje a retirada considerando acesso seguro e ancoragem apropriada para o resgate.
- Após a retirada, encaminhe para avaliação por equipe de saúde conforme procedimento interno e orientação dos serviços de emergência.
Nota de segurança: não prometa “procedimentos médicos” nem substitua atendimento profissional. O foco do time de trabalho em altura é resgate seguro e acionamento correto.
Como estruturar um plano básico de resgate compatível com a atividade
Um plano básico de resgate é um conjunto de decisões práticas que garante que, se algo acontecer, a equipe sabe quem faz o quê, com quais recursos e por qual caminho. Ele deve ser compatível com o tipo de acesso, altura, ambiente e sistema de proteção usado na tarefa.
Elementos mínimos do plano
- Cenários previstos: queda com retenção, mal súbito, travamento no acesso, necessidade de evacuação.
- Recursos disponíveis: kit de resgate, cordas, dispositivos, conectores, meios de acesso, iluminação, comunicação.
- Papéis e responsabilidades: líder do resgate, resgatista(s), apoio no solo, controlador de acesso, comunicador.
- Meios de acesso e retirada: por onde o resgatista chega, por onde a vítima sai (subida/descida/transferência para plataforma).
- Pontos de ancoragem para resgate: onde ancorar sistemas de resgate (preferencialmente independentes do sistema da vítima quando aplicável).
- Critérios de prontidão: quando a equipe está “apta a iniciar” (equipamentos inspecionados, comunicação testada, rota desobstruída).
- Integração com brigada/externos: ponto de encontro, rota de acesso, informações do local.
Passo a passo para montar o plano (modelo prático)
- Defina o cenário principal: “queda com retenção em linha de vida”, “mal súbito em escada marinheiro”, “trabalhador suspenso em cadeira”, etc.
- Mapeie o local: altura aproximada, obstáculos, arestas, interferências, área de isolamento no solo, rota de acesso.
- Escolha a estratégia de resgate (uma primária e uma alternativa):
- Resgate por descida controlada (quando há ancoragem e espaço para baixar a vítima com segurança).
- Resgate por içamento curto (para aliviar carga e liberar conexão/trava, quando aplicável).
- Resgate por acesso direto (plataforma elevatória/andaime/escada, se disponível e seguro).
- Auto-resgate assistido (quando a vítima está consciente e há meios para ela retornar com orientação e proteção).
- Defina ancoragens de resgate: ponto(s) para o sistema do resgatista e para o sistema de movimentação da vítima, evitando sobrecarga e interferência.
- Liste equipamentos do kit por função (acesso, conexão, movimentação, corte controlado se previsto, comunicação). Não basta “ter kit”; é preciso saber o que será usado em cada etapa.
- Distribua papéis com nomes/funções e substitutos.
- Escreva o roteiro de comunicação (quem aciona quem, por qual canal, e quais informações mínimas).
- Defina critérios de parada: quando interromper tentativa interna e aguardar recurso externo (ex.: risco estrutural, eletricidade não controlada, falta de ancoragem segura, incapacidade técnica).
- Planeje simulação: frequência, cenário, tempo-alvo, lições aprendidas e atualização do plano.
Critérios de prontidão (antes de iniciar a tarefa)
- Tempo de resposta compatível com o risco: equipe e recursos posicionados para agir sem demora.
- Kit de resgate no local (não “no almoxarifado”).
- Acesso ao local desobstruído (rotas e chaves liberadas).
- Comunicação testada (rádio/celular com sinal e canal definido).
- Equipe designada e ciente do plano (sem depender de “quem estiver por perto”).
Checklist de prontidão de resgate (uso em campo)
Use este checklist como verificação rápida antes do início e durante mudanças no cenário.
| Item | Verificar | Status |
|---|---|---|
| Acionamento | Canal de emergência definido; contatos atualizados; ponto de encontro combinado | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Isolamento | Área de isolamento prevista; cones/fitas disponíveis; controle de acesso designado | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Equipe | Líder do resgate e resgatistas designados; substitutos definidos; todos cientes do roteiro | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Competência | Equipe treinada para o método previsto (descida/içamento/acesso direto) | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Kit de resgate | Completo, compatível e inspecionado; conectores e dispositivos funcionais | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Ancoragens de resgate | Pontos definidos e acessíveis; resistência/adequação confirmada; proteção contra arestas | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Meios de acesso | Plataforma/escada/rota de aproximação disponível e segura; autorização para uso | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Ambiente | Interferências controladas (eletricidade, tráfego, máquinas); iluminação adequada | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Tempo | Estratégia permite reduzir tempo de suspensão; alternativa definida | ( ) OK ( ) Ajustar |
| Simulação | Última simulação dentro do prazo interno; lições aprendidas incorporadas | ( ) OK ( ) Ajustar |
Exercício prático: montar um plano básico de resgate para cenários típicos
Objetivo: treinar a equipe a transformar um cenário em um plano simples, com estratégia, recursos e papéis. Faça em grupo e registre em uma folha padrão.
Modelo de ficha (preencha para cada cenário)
1) Cenário: _____________________________________________ Altura aprox.: ________ Local: ______________________
2) Riscos imediatos: ______________________________________
3) Estratégia primária de resgate: __________________________
4) Estratégia alternativa: _________________________________
5) Acesso do resgatista (rota/meio): ________________________
6) Retirada da vítima (para onde e como): ___________________
7) Ancoragens de resgate (pontos): _________________________
8) Equipamentos necessários (por função): ___________________
9) Papéis:
- Líder do resgate: __________________
- Resgatista 1: ______________________
- Resgatista 2 (se aplicável): ________
- Apoio no solo/isolamento: __________
- Comunicação/acionamento: ___________
10) Comunicação: canal ________ contatos __________________
11) Critérios de parada/escalação para externo: ______________
12) Tempo-alvo para iniciar resgate: ________ Observações: ____________________Cenário A: queda com retenção em estrutura metálica (vítima suspensa)
Descrição: trabalhador conectado a sistema individual sofre escorregão e fica suspenso, consciente, a 8 m do solo, com risco de contato com aresta.
- Desafio: reduzir tempo de suspensão e evitar dano por aresta.
- Estratégia primária sugerida: acesso do resgatista por rota segura (ex.: escada fixa/plataforma existente) e descida controlada da vítima por sistema de resgate ancorado em ponto adequado.
- Estratégia alternativa: acesso direto por plataforma elevatória (se disponível) para estabilizar e transferir a vítima.
- Pontos de atenção: isolamento abaixo; proteção contra arestas; comunicação contínua com a vítima; não sobrecarregar ancoragens.
Cenário B: mal súbito em telhado com acesso por escada
Descrição: trabalhador em telhado baixo (4 m) relata tontura e precisa sair rapidamente, mas com segurança.
- Desafio: retirada rápida sem precipitar queda na movimentação.
- Estratégia primária sugerida: evacuação assistida pelo acesso existente, com apoio de um resgatista para condução e controle do deslocamento.
- Estratégia alternativa: acesso por plataforma para retirada sem uso de escada, se a condição piorar ou se a escada não for segura.
- Pontos de atenção: interromper atividade; manter área isolada; acionar atendimento conforme protocolo; evitar pressa sem controle.
Cenário C: trabalhador travado em acesso vertical (sem conseguir progredir)
Descrição: trabalhador em acesso vertical não consegue subir nem descer por fadiga/pânico, mantendo-se preso ao sistema.
- Desafio: estabilizar, acalmar e criar uma retirada controlada.
- Estratégia primária sugerida: resgatista acessa por rota superior ou inferior segura e realiza transferência assistida para sistema de resgate, permitindo descida controlada ou retorno ao patamar.
- Estratégia alternativa: uso de meio mecânico de acesso (plataforma) para aproximação e retirada.
- Pontos de atenção: comunicação verbal constante; evitar movimentos bruscos; garantir redundância de conexão durante transferência.
Como avaliar o exercício (critérios de qualidade)
- Clareza: qualquer pessoa da equipe entende o plano em 2 minutos?
- Compatibilidade: estratégia combina com o acesso real e com os recursos disponíveis?
- Tempo: o plano reduz tempo de suspensão quando aplicável?
- Segurança do resgatista: há controle para não criar nova vítima?
- Alternativa: existe plano B viável se o acesso principal falhar?
- Prontidão: kit, ancoragens e comunicação estão realmente disponíveis no local?