NR-35 para Iniciantes: Noções de Ancoragem, Pontos de Ancoragem e Linhas de Vida

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Noções essenciais de ancoragem (o “ponto fixo” do seu sistema)

Ancoragem é o conjunto formado por ponto de ancoragem (onde você se conecta) e, quando existir, por linha de vida e seus componentes (absorvedor, conectores, carro, esticadores, etc.). Na prática, é o “lado fixo” do sistema que precisa suportar as forças de uma queda e manter o trabalhador em posição segura.

Resistência (o que significa “aguentar” uma queda)

Um ponto de ancoragem precisa ter resistência adequada para o uso previsto. Para iniciantes, o mais importante é entender que não basta “parecer firme”: a força de uma queda pode ser muito maior do que o peso do trabalhador. Por isso, priorize pontos projetados e identificados para ancoragem (pontos certificados, olhais/argolas de ancoragem, linhas de vida instaladas por empresa habilitada). Evite improvisos como tubulações, guarda-corpo não projetado para ancoragem, eletrocalhas, dutos e estruturas sem confirmação de uso.

Localização do ponto (onde ancorar muda o risco)

A posição do ponto de ancoragem influencia diretamente o risco de queda, a distância de queda e o balanço lateral. Em geral, quanto mais alto e alinhado com o trabalho estiver o ponto, melhor o controle do movimento e menor a chance de bater em obstáculos.

  • Acima da cabeça: tende a reduzir distância de queda e efeito pêndulo.
  • Na altura do peito/cintura: pode aumentar a distância de queda e a força no sistema.
  • Abaixo dos pés: aumenta muito a distância de queda e exige atenção máxima à folga e ao fator de queda.

Direção de carga (para onde a força “puxa”)

Todo ponto/linha de vida tem uma direção principal de trabalho. A carga de uma queda não é apenas “para baixo”; pode ter componente lateral, especialmente quando o trabalhador está deslocado do alinhamento do ponto. Use o ponto conforme indicado (placa, manual, projeto) e evite conectar de modo que a força atue “de lado” em um componente que foi pensado para tração em outra direção.

Fator de queda (entenda por que “cair pouco” pode ser pior)

O fator de queda é uma relação entre a distância de queda e o comprimento do elemento que segura a queda (talabarte/linha). Sem entrar em fórmulas, guarde a regra prática: quanto mais baixo o ponto de ancoragem em relação ao seu ponto de conexão no cinto, maior tende a ser o fator de queda e maior a força no sistema. Por isso, sempre que possível, ancore acima do ponto de conexão do cinturão e use elementos com absorção de energia quando aplicável.

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Folga (clearance): espaço livre para não bater em nada

Folga é o espaço livre abaixo do trabalhador necessário para que, em uma queda, o sistema consiga parar a queda antes de haver impacto com piso, estrutura, máquinas ou níveis inferiores. A folga depende do tipo de sistema (talabarte com absorvedor, trava-quedas, linha de vida), do alongamento do sistema e da altura do trabalhador. Na rotina, trate a folga como uma checagem obrigatória: se não há espaço suficiente, o sistema pode até “segurar”, mas o trabalhador pode colidir com obstáculos.

Efeito pêndulo (queda com balanço lateral)

O efeito pêndulo acontece quando o trabalhador está afastado lateralmente do ponto de ancoragem. Em uma queda, além de descer, ele pode balançar em direção ao ponto, colidindo com estruturas (vigas, quinas, fachadas). Para reduzir: mantenha-se o mais alinhado possível com o ponto/linha, use ancoragens mais altas, planeje pontos intermediários e evite trabalhar “muito de lado” em relação ao ponto.

Tipos comuns de pontos de ancoragem (visão geral)

Abaixo estão tipos frequentes. O critério principal é: usar apenas o que é previsto para ancoragem e compatível com o sistema.

  • Ponto de ancoragem fixo certificado: olhal/argola/chapa instalada permanentemente e identificada. Vantagens: padronização e rastreabilidade. Atenção: respeitar indicação de uso e inspeções.
  • Chumbadores/olhais estruturais: quando especificados para ancoragem. Atenção: não usar “parafuso qualquer” ou fixação sem comprovação.
  • Estruturas metálicas específicas (viga/coluna) com ponto projetado: quando o projeto/identificação permite. Atenção: evitar bordas cortantes e pontos com risco de abrasão.
  • Ancoragem temporária por cinta/strap (quando prevista): usada em estruturas adequadas, com proteção contra arestas. Atenção: posicionamento correto, proteção de borda e compatibilidade com conectores.
  • Ancoragem em escada/andaime/guarda-corpo: em geral, não é ponto de ancoragem, salvo se houver projeto/identificação específica para essa finalidade.

Linhas de vida: o que são e quando usar

Linha de vida é um sistema que permite conexão e movimentação ao longo de um percurso, mantendo o trabalhador conectado a um elemento de ancoragem contínuo. Pode ser horizontal ou vertical. Aqui o foco é entender uso e limites, sem dimensionamento estrutural.

Linha de vida horizontal (LVH)

Usada para deslocamento ao longo de uma borda, cobertura, passarela, estrutura ou área extensa. Pode ser rígida (trilho) ou flexível (cabo/corda) conforme projeto.

  • Quando faz sentido: atividades com deslocamento lateral frequente, necessidade de manter conexão contínua e pontos fixos limitados.
  • Cuidados comuns: respeitar número máximo de usuários, usar carro/dispositivo compatível, atenção ao vão (pode haver maior deflexão), evitar arestas e calor, seguir orientação de instalação e inspeção.
  • Limites típicos: não improvisar “cabo esticado” como linha de vida; não alterar tensionamento/ancoragens; não usar se houver danos, corrosão, deformações ou ausência de identificação.

Linha de vida vertical (LVV)

Usada em escadas fixas, torres, postes e estruturas verticais, permitindo subida/descida com dispositivo deslizante (trava-quedas guiado) compatível com o cabo/trilho.

  • Quando faz sentido: acessos verticais repetitivos, necessidade de proteção durante ascensão/descensão.
  • Cuidados comuns: usar o dispositivo correto para aquele cabo/trilho, observar sentido de instalação, manter o corpo alinhado, evitar “trancos” e não usar com conectores inadequados.
  • Limites típicos: não usar com cabo/trilho danificado, sem terminal adequado, com pontos de fixação comprometidos ou sem inspeção/documentação.

Critérios práticos de escolha (sem cálculo estrutural)

Para selecionar ponto/linha de vida de forma segura no dia a dia, use perguntas simples:

  • É um ponto/sistema destinado a ancoragem? Tem identificação, placa, manual ou registro?
  • Está no lugar certo? Ajuda a reduzir queda, folga e pêndulo?
  • Permite a tarefa com menos desconexões? Facilita 100% de conexão quando aplicável?
  • É compatível com meus conectores e dispositivo? (dimensão, formato, risco de carga no gatilho, risco de abertura).
  • Está íntegro e inspecionado? Sem corrosão, trincas, deformações, cortes, fios rompidos, soldas suspeitas, afrouxamento.

Checagens antes do uso: passo a passo (ponto de ancoragem e linha de vida)

Use este roteiro como “checklist mental” antes de conectar:

1) Identificação e finalidade

  • Procure placa/etiqueta do ponto ou da linha de vida (quando existir) com informações de uso.
  • Confirme que é destinado a ancoragem de segurança (não confundir com ponto de içamento, amarração de carga ou fixação de equipamento).
  • Verifique se há indicação de quantidade de usuários permitida (especialmente em linhas de vida).

2) Integridade visual e tátil

  • Metal: corrosão severa, trincas, deformações, soldas com aspecto irregular, parafusos frouxos, folgas anormais.
  • Cabo/corda (linhas flexíveis): fios rompidos, amassados, “gaiola de passarinho”, corrosão, desgaste por atrito, nós indevidos, terminais danificados.
  • Trilho (linha rígida): empeno, fixações soltas, sujeira que impeça o carro, batentes ausentes.
  • Arestas: presença de quinas cortantes no caminho do talabarte/linha. Se houver, usar proteção adequada ou mudar o ponto.

3) Documentação e status de inspeção

  • Confirme se o sistema possui registro de inspeção dentro do prazo definido pela empresa/procedimento.
  • Se o ponto/linha de vida não tem identificação ou não há evidência de inspeção, trate como não liberado até validação.

4) Compatibilidade com conectores e dispositivos

  • Verifique se o conector (mosquetão) trabalha no eixo principal e fecha completamente.
  • Evite conexão que gere carga no gatilho (o conector pressionado contra a estrutura pode abrir).
  • Em linhas de vida, use carro/dispositivo indicado (não “adaptar” com mosquetão direto onde não é previsto).
  • Confirme que o sistema escolhido é coerente com o seu método (restrição de queda, retenção de queda, posicionamento, acesso por corda, conforme procedimento interno).

5) Checagem de folga e rota de queda

  • Olhe abaixo e ao redor: existe espaço livre suficiente?
  • Identifique obstáculos: estruturas, prateleiras, máquinas, vergalhões, níveis intermediários.
  • Planeje para reduzir pêndulo: mantenha-se alinhado e limite deslocamento lateral sem reposicionar a ancoragem.

Planejando movimentação com 100% de conexão (quando aplicável)

100% de conexão significa manter-se conectado o tempo todo durante deslocamentos e mudanças de ponto, quando o procedimento exigir. Isso é especialmente importante em transições (subir/descida, mudança de área, contorno de obstáculos).

Estratégias comuns para manter conexão contínua

  • Talabarte em Y (duplo): permite alternar conexões, mantendo uma perna conectada enquanto a outra muda de ponto.
  • Linha de vida: reduz a necessidade de desconectar ao longo do percurso (usar carro/dispositivo correto).
  • Pontos intermediários: planejar uma sequência de pontos para evitar trechos “sem ancoragem”.

Passo a passo prático: transição entre pontos com talabarte em Y

  1. Antes de iniciar, identifique o próximo ponto de ancoragem e confirme que ele é adequado (checagens: identificação, integridade, compatibilidade, folga).
  2. Mantenha uma perna conectada ao ponto atual (não solte as duas ao mesmo tempo).
  3. Conecte a segunda perna no novo ponto, garantindo fechamento e trava do conector e posicionamento no eixo principal.
  4. Teste de assentamento: aplique leve tração para confirmar que está bem conectado e sem risco de carga no gatilho.
  5. Só então desconecte a primeira perna do ponto anterior.
  6. Reavalie o alinhamento para reduzir pêndulo e ajuste sua posição de trabalho.

Passo a passo prático: deslocamento em linha de vida horizontal

  1. Confirme o sistema: identificação da LVH, número de usuários, carro/dispositivo compatível e inspeção.
  2. Conecte no ponto indicado (carro no trilho ou dispositivo no cabo), evitando conexões fora do previsto.
  3. Verifique o caminho: obstáculos, mudanças de nível, arestas e pontos onde o carro pode travar.
  4. Desloque-se mantendo o corpo alinhado com a linha, reduzindo afastamento lateral para minimizar pêndulo.
  5. Em transições (entrada/saída da linha), use ponto auxiliar ou talabarte em Y para não ficar desconectado.

Erros comuns a evitar (e por quê)

  • “Dar um jeito” em ponto não identificado: aumenta chance de falha por resistência desconhecida.
  • Conectar abaixo dos pés sem avaliar folga: pode resultar em impacto antes do sistema parar a queda.
  • Trabalhar muito lateral ao ponto: aumenta pêndulo e risco de colisão.
  • Carregar o mosquetão no gatilho: pode abrir sob carga ou vibração.
  • Improvisar linha de vida com corda/cabo sem projeto e sem componentes próprios: risco elevado de ruptura e falha de terminais.

Exemplos práticos de aplicação (situações típicas)

Exemplo 1: manutenção em cobertura com deslocamento lateral

Boa prática: usar linha de vida horizontal instalada e identificada, com carro compatível, mantendo-se alinhado e planejando entrada/saída com ponto auxiliar para 100% de conexão.

Atenção: checar folga (nível inferior, claraboias, beirais), evitar passar o talabarte por cima de quinas sem proteção.

Exemplo 2: subida em estrutura vertical com linha de vida vertical

Boa prática: usar trava-quedas guiado compatível com o cabo/trilho, conectado ao ponto correto do cinturão conforme procedimento, mantendo subida controlada e sem “puxões”.

Atenção: verificar terminais do cabo, fixações e condição do percurso (interferências, corrosão, sujeira no trilho).

Exemplo 3: troca de ponto em área com vários olhais fixos

Boa prática: usar talabarte em Y e sequência de pontos planejada para manter 100% de conexão, escolhendo pontos acima da cabeça quando possível para reduzir fator de queda.

Atenção: evitar conectar em pontos que gerem carga transversal no mosquetão ou contato com arestas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao escolher a localização de um ponto de ancoragem para reduzir risco de queda e colisões, qual opção tende a oferecer melhor controle e menor efeito pêndulo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Pontos mais altos e alinhados com a atividade geralmente reduzem a distância de queda e o efeito pêndulo, melhorando o controle do movimento e diminuindo o risco de colisão com estruturas.

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