Conceito: por que inspecionar, conservar e controlar a vida útil
Em trabalho em altura, a segurança do sistema depende de componentes que precisam estar íntegros e funcionando como projetados: cinturão tipo paraquedista, talabartes, absorvedor de energia, trava-quedas, conectores (mosquetões), cordas, fitas, anéis, pontos de ancoragem e linhas de vida. A inspeção e a conservação têm três objetivos práticos: (1) identificar danos antes do uso, (2) retirar de serviço o que não é confiável e (3) manter rastreabilidade (saber quem usou, quando foi inspecionado e quando deve ser substituído).
Existem dois níveis principais de verificação: inspeção pré-uso (rápida e obrigatória antes de cada utilização) e inspeção periódica (mais detalhada, registrada e feita em intervalos definidos pelo fabricante e pela gestão de segurança). Ambas devem seguir as instruções do fabricante e os critérios internos de rejeição.
Rotina de inspeção pré-uso (passo a passo prático)
1) Preparação
- Escolha um local bem iluminado e limpo.
- Tenha as mãos limpas (óleo e graxa podem mascarar danos e contaminar fitas).
- Separe o conjunto completo que será usado (cinturão + conexão + elemento de ligação + dispositivo de retenção/antiqueda + capacete com jugular quando aplicável).
2) Cinturão tipo paraquedista
Como inspecionar:
- Fitas: passe a mão ao longo de toda a fita procurando cortes, desfiados, abrasão, “pelos” excessivos, endurecimento, brilho por atrito, queimadura por calor/faísca e manchas químicas.
- Costuras: observe se há pontos rompidos, fios soltos, costura “aberta”, padrão irregular ou sinais de tração (costura esticada).
- Fivelas e reguladores: verifique trincas, deformações, rebarbas, corrosão e se travam corretamente ao ajustar.
- Pontos de engate (D-rings/anéis): procure ovalização, empeno, trincas, corrosão e desgaste por atrito.
- Etiquetas/identificação: confirme se a etiqueta está legível (modelo, lote/serial, data, normas, fabricante). Etiqueta ilegível compromete rastreabilidade.
Teste funcional rápido: vista o cinturão e ajuste; confirme que não há folgas anormais, que as fivelas não “escorregam” e que os pontos de engate estão posicionados corretamente.
3) Talabarte e absorvedor de energia
- Fita/corda do talabarte: procure cortes, abrasão, desfiados, nós não previstos, endurecimento, sinais de calor.
- Absorvedor: verifique se está intacto e não acionado. Sinais típicos de acionamento: costuras de rasgo abertas, fita “esticada”, capa rompida, comprimento alterado.
- Conectores nas extremidades: inspecione como no item de mosquetões (abaixo).
- Etiqueta do talabarte/absorvedor: deve estar legível e compatível com o uso (ex.: comprimento, norma, identificação).
4) Mosquetões e conectores
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- Corpo: trincas, amassados, deformação, corrosão, desgaste em áreas de contato.
- Gatilho: deve abrir e fechar sem travar; retorno por mola firme.
- Trava: deve funcionar completamente (rosca/automática), sem “pular” ou ficar frouxa.
- Rebarbas: qualquer rebarba pode cortar fita/corda.
Teste funcional: abra/feche o gatilho algumas vezes; acione a trava; confirme fechamento total e ausência de folga anormal.
5) Trava-quedas (retrátil ou guiado) e linhas/cordas associadas
Trava-quedas retrátil (SRL):
- Carcaça: sem trincas, deformações ou parafusos soltos.
- Fita/cabo: sem cortes, fios rompidos, corrosão (no cabo), deformações, dobras permanentes.
- Recolhimento: deve recolher suavemente, sem “engasgar”.
- Travamento: puxe com um tranco curto para verificar se trava.
- Indicador de queda (se existir): verifique se não está acionado.
Trava-quedas guiado em linha rígida/flexível:
- Dispositivo: sem trincas, corrosão, deformações; mecanismo de travamento livre.
- Compatibilidade: confirme que é o modelo correto para a linha/corda especificada.
- Teste: deslize no sentido permitido e simule travamento conforme instrução do fabricante.
Corda/linha de vida flexível (quando aplicável ao conjunto):
- Procure capa cortada, alma exposta, achatamento, endurecimento, manchas químicas, queimaduras, abrasão.
- Verifique terminações (costuras, olhais, prensagens) e protetores de borda quando existentes.
6) Componentes de ancoragem e linhas de vida (inspeção visual antes de conectar)
- Ponto/olhal/argola: sem trincas, corrosão severa, deformação, folgas anormais.
- Chumbadores/parafusos/placas: sem afrouxamento, corrosão, fissuras na base, sinais de arrancamento.
- Linha de vida: sem fios rompidos (cabo de aço), corrosão, deformações, tensão inadequada, terminais danificados.
- Absorvedores/indicadores do sistema: não acionados.
Regra prática: se você não consegue confirmar a integridade e a identificação do componente, não conecte.
Inspeção periódica (detalhada e registrada)
A inspeção periódica complementa a pré-uso e deve ser feita em intervalos definidos (ex.: conforme fabricante, intensidade de uso e ambiente agressivo). Ela inclui registro formal, verificação de rastreabilidade e, quando aplicável, critérios dimensionais (ex.: desgaste de conectores) e checagens funcionais completas de dispositivos.
Checklist sugerido para inspeção periódica
- Conferir identificação: número de patrimônio/serial, lote, data de fabricação, data de aquisição, histórico de uso.
- Verificar validade/vida útil definida pelo fabricante e política interna.
- Inspecionar 100% das fitas/cordas/cabos (incluindo áreas “escondidas” sob protetores e costuras).
- Checar costuras com lupa/boa iluminação quando necessário.
- Checar conectores: funcionamento, travas, desgaste e corrosão.
- Checar dispositivos: trava-quedas retrátil/guiado (travamento, recolhimento, indicadores).
- Checar componentes de ancoragem/linhas de vida: integridade, corrosão, fixações, terminais, absorvedores.
- Registrar resultado, responsável, data e próxima inspeção.
Critérios de rejeição (retirar de serviço imediatamente)
Use sempre os critérios do fabricante como referência principal. Abaixo, critérios práticos comuns de rejeição/retirada de serviço:
Têxteis (fitas, cintos, talabartes, costuras)
- Cortes, rasgos, perfurações (mesmo pequenos, especialmente próximos a costuras e pontos de carga).
- Abrasão severa com redução visível de largura/espessura, desfiamento intenso.
- Costuras rompidas, abertas, com fios soltos em áreas estruturais.
- Sinais de calor: derretimento, endurecimento, brilho anormal, queimaduras.
- Contaminação química: manchas com odor, descoloração forte, rigidez localizada (quando não for possível garantir descontaminação).
- Nós não previstos em cordas/talabartes (reduzem resistência).
- Absorvedor acionado ou com indícios de acionamento.
Metálicos (mosquetões, anéis, fivelas, olhais, terminais)
- Trincas, deformações (ovalização, empeno), amassados.
- Corrosão que comprometa a seção do material ou o funcionamento.
- Gatilho/trava que não fecha totalmente, não trava, ou trava intermitente.
- Rebarbas que possam cortar fitas/cordas.
- Desgaste excessivo em áreas de contato (canaletas profundas).
Dispositivos (trava-quedas retrátil/guiado)
- Falha no travamento no teste funcional.
- Recolhimento irregular, travamentos, ruídos anormais, retorno fraco.
- Indicador de queda acionado (quando existir) ou suspeita de queda.
- Carcaça danificada (trincas, deformação, parafusos faltando).
Identificação e rastreabilidade
- Etiqueta ilegível/ausente quando impede confirmar modelo, norma, serial/lote e vida útil.
- Histórico desconhecido (equipamento “sem dono”, sem registro, sem data de inspeção).
Exemplos fotográficos descritivos: o que procurar (guia visual em palavras)
Exemplo 1 — Fita com abrasão
Como aparece: superfície “peluda”, fibras soltas, bordas desfiadas e afinamento da fita em um trecho que costuma roçar na estrutura. Ação: se a abrasão for intensa ou próxima a costuras/pontos de carga, retirar de serviço.
Exemplo 2 — Costura estrutural comprometida
Como aparece: linhas de costura com falhas, pontos “pulados”, fios soltos e abertura visível entre as camadas. Ação: rejeição imediata.
Exemplo 3 — Mosquetão com trava falhando
Como aparece: gatilho fecha, mas a trava não completa o curso; ao sacudir, a trava “volta” sozinha. Ação: rejeição imediata (risco de abertura acidental).
Exemplo 4 — Conector com corrosão
Como aparece: pontos de ferrugem, aspereza ao toque, corrosão em áreas de articulação do gatilho. Ação: se afetar funcionamento ou houver perda de material, rejeitar; se superficial e sem prejuízo funcional, seguir critério do fabricante e inspeção periódica mais frequente.
Exemplo 5 — Absorvedor acionado
Como aparece: capa rasgada e fita interna alongada; costuras de rasgo abertas; comprimento do conjunto maior do que o normal. Ação: retirar de serviço e substituir (não “rearma”).
Exemplo 6 — Corda com alma exposta
Como aparece: capa rompida com fios internos visíveis, achatamento e rigidez em um ponto (possível esmagamento). Ação: rejeição imediata.
Rastreabilidade: identificação, controle e histórico
Rastreabilidade é a capacidade de relacionar cada equipamento a um código único e ao seu histórico. Isso evita uso de itens vencidos, sem inspeção ou envolvidos em incidentes.
- Identificação única: etiqueta patrimonial, gravação permitida pelo fabricante, ou tag (sem danificar o material).
- Registro mínimo: data de fabricação/aquisição, início de uso, inspeções, ocorrências (queda, impacto, contaminação), manutenções e descarte.
- Controle de vida útil: seguir limite do fabricante; quando não houver, adotar política interna conservadora baseada em uso/ambiente e inspeções.
Modelo de ficha de controle (exemplo)
| Campo | Exemplo de preenchimento |
|---|---|
| Código do equipamento | EPI-ALT-000123 |
| Tipo | Cinturão paraquedista |
| Marca/Modelo | Modelo X |
| Serial/Lote | S/N 8F29A |
| Data de fabricação | 2024-03 |
| Data de aquisição | 2024-05-10 |
| Início de uso | 2024-06-01 |
| Vida útil (fabricante) | 10 anos (condicionada a inspeções) |
| Inspeção pré-uso | Usuário (antes de cada uso) |
| Inspeção periódica | A cada 6 meses |
| Última inspeção | 2025-12-15 |
| Próxima inspeção | 2026-06-15 |
| Status | Aprovado / Quarentena / Reprovado |
| Observações | Sem danos; etiqueta legível |
Modelo de registro de inspeção periódica (checklist resumido)
REGISTRO DE INSPEÇÃO PERIÓDICA – TRABALHO EM ALTURA Data: ____/____/____ Inspetor: ____________ Assinatura: ____________ Equipamento (código): ____________ Tipo: ____________ Marca/Modelo: ____________ Serial/Lote: ____________ 1) Identificação/etiqueta legível: ( ) Sim ( ) Não 2) Fitas/cordas: cortes/abrasão/desfiado? ( ) Não ( ) Sim – onde: ____________ 3) Costuras: íntegras? ( ) Sim ( ) Não – onde: ____________ 4) Metálicos: trincas/deformação/corrosão? ( ) Não ( ) Sim – onde: ____________ 5) Conectores: gatilho fecha? trava funciona? ( ) Sim ( ) Não 6) Dispositivo (se houver): recolhe/trava ok? ( ) Sim ( ) Não 7) Absorvedor acionado/indicador de queda? ( ) Não ( ) Sim 8) Limpeza/contaminação química suspeita? ( ) Não ( ) Sim Resultado: ( ) Aprovado ( ) Quarentena ( ) Reprovado/Descartar Ação tomada: ____________ Próxima inspeção: ____/____/____Higienização: como limpar sem danificar
A limpeza inadequada reduz a resistência de fitas e cordas e pode travar mecanismos. Sempre siga o fabricante; como regra geral:
- Têxteis: remover sujeira com escova macia e pano úmido; usar sabão neutro quando permitido; enxaguar bem; secar à sombra e em local ventilado (sem sol direto, sem fonte de calor).
- Metálicos: pano limpo e seco; se houver umidade, secar completamente; não usar produtos agressivos que acelerem corrosão.
- Dispositivos: não abrir carcaças; evitar jatos de água/solventes; manter limpo e seco; se houver contaminação interna suspeita (areia, cimento, tinta), encaminhar para avaliação conforme fabricante.
- Proibido (salvo orientação do fabricante): solventes, cloro, água sanitária, desengraxantes fortes, lavagem em máquina, secagem em estufa/aquecedor.
Armazenamento e transporte: evitar danos invisíveis
Armazenamento correto
- Guardar em bolsa/caixa limpa, seca e ventilada.
- Evitar sol, calor, umidade, poeira abrasiva e contato com produtos químicos (tintas, solventes, ácidos, cimento).
- Não deixar pendurado por longos períodos de forma que deforme fitas ou conectores.
- Separar têxteis de ferramentas e peças cortantes.
Transporte correto
- Transportar em bolsa dedicada, evitando arrasto no chão e esmagamento por cargas.
- Não colocar sob materiais pesados (risco de deformar conectores e danificar dispositivos).
- Após trabalho em ambiente úmido/salgado, secar e limpar antes de guardar.
Procedimento de quarentena e substituição (quando houver não conformidade)
Quando colocar em quarentena
- Dúvida sobre integridade (queda, impacto, arraste, esmagamento, contaminação química, aquecimento).
- Falha em teste funcional (trava, recolhimento, travamento).
- Etiqueta ilegível/ausente ou histórico desconhecido.
- Qualquer dano observado que ainda precise de avaliação técnica.
Passo a passo de quarentena
- Interromper o uso imediatamente e substituir por item aprovado.
- Identificar fisicamente o item: tag “NÃO USAR – QUARENTENA”, com data e motivo.
- Isolar em local/armário de quarentena (separado de itens liberados).
- Registrar a ocorrência no controle do equipamento (motivo, fotos, quem retirou de serviço, local).
- Avaliar conforme fabricante e procedimento interno:
- Se o fabricante exigir descarte após queda/acionamento: reprovar e descartar.
- Se for possível inspeção técnica/manutenção autorizada: encaminhar e manter em quarentena até laudo.
- Decisão: liberar (com registro) ou reprovar (descarte controlado).
- Substituição: emitir requisição/retirada de novo item, atualizar inventário e garantir que o usuário receba equipamento com inspeção em dia.
Descarte controlado (para evitar reuso indevido)
- Inutilizar têxteis (ex.: cortar fitas) e marcar como descartado, conforme política interna.
- Segregar metálicos/dispositivos para descarte/retorno ao fabricante quando aplicável.
- Atualizar status no registro:
REPROVADO/DESCARTADOcom data e responsável.
Vida útil: como interpretar na prática
Vida útil não é apenas “tempo de prateleira”. Ela depende de: intensidade de uso, ambiente (marinho, químico, poeira abrasiva), exposição a UV, manutenção e ocorrências (quedas/impactos). Regras práticas:
- Se houve queda com carga no sistema ou acionamento do absorvedor/indicador: tratar como retirada imediata do componente afetado e, quando aplicável, do conjunto conforme orientação do fabricante.
- Se não é possível comprovar idade/histórico: não usar até regularizar rastreabilidade; se não regularizar, descartar.
- Ambiente agressivo: reduzir intervalo de inspeção periódica e reforçar cuidados de limpeza/armazenamento.
Rotina rápida (cartão de bolso) para o usuário
ANTES DE USAR (2–5 min): 1) Etiqueta legível e inspeção em dia? 2) Fitas/cordas: cortes, abrasão, desfiado, queimadura, manchas químicas? 3) Costuras: pontos rompidos ou abertos? 4) Metálicos: trinca, deformação, corrosão, rebarba? 5) Mosquetões: abre/fecha e trava 100%? 6) Trava-quedas: recolhe e trava no tranco? SE QUALQUER DÚVIDA: NÃO USAR → QUARENTENA → REGISTRAR → SUBSTITUIR