NR-35 para Iniciantes: Inspeção, Conservação, Armazenamento e Vida Útil dos Equipamentos

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Conceito: por que inspecionar, conservar e controlar a vida útil

Em trabalho em altura, a segurança do sistema depende de componentes que precisam estar íntegros e funcionando como projetados: cinturão tipo paraquedista, talabartes, absorvedor de energia, trava-quedas, conectores (mosquetões), cordas, fitas, anéis, pontos de ancoragem e linhas de vida. A inspeção e a conservação têm três objetivos práticos: (1) identificar danos antes do uso, (2) retirar de serviço o que não é confiável e (3) manter rastreabilidade (saber quem usou, quando foi inspecionado e quando deve ser substituído).

Existem dois níveis principais de verificação: inspeção pré-uso (rápida e obrigatória antes de cada utilização) e inspeção periódica (mais detalhada, registrada e feita em intervalos definidos pelo fabricante e pela gestão de segurança). Ambas devem seguir as instruções do fabricante e os critérios internos de rejeição.

Rotina de inspeção pré-uso (passo a passo prático)

1) Preparação

  • Escolha um local bem iluminado e limpo.
  • Tenha as mãos limpas (óleo e graxa podem mascarar danos e contaminar fitas).
  • Separe o conjunto completo que será usado (cinturão + conexão + elemento de ligação + dispositivo de retenção/antiqueda + capacete com jugular quando aplicável).

2) Cinturão tipo paraquedista

Como inspecionar:

  • Fitas: passe a mão ao longo de toda a fita procurando cortes, desfiados, abrasão, “pelos” excessivos, endurecimento, brilho por atrito, queimadura por calor/faísca e manchas químicas.
  • Costuras: observe se há pontos rompidos, fios soltos, costura “aberta”, padrão irregular ou sinais de tração (costura esticada).
  • Fivelas e reguladores: verifique trincas, deformações, rebarbas, corrosão e se travam corretamente ao ajustar.
  • Pontos de engate (D-rings/anéis): procure ovalização, empeno, trincas, corrosão e desgaste por atrito.
  • Etiquetas/identificação: confirme se a etiqueta está legível (modelo, lote/serial, data, normas, fabricante). Etiqueta ilegível compromete rastreabilidade.

Teste funcional rápido: vista o cinturão e ajuste; confirme que não há folgas anormais, que as fivelas não “escorregam” e que os pontos de engate estão posicionados corretamente.

3) Talabarte e absorvedor de energia

  • Fita/corda do talabarte: procure cortes, abrasão, desfiados, nós não previstos, endurecimento, sinais de calor.
  • Absorvedor: verifique se está intacto e não acionado. Sinais típicos de acionamento: costuras de rasgo abertas, fita “esticada”, capa rompida, comprimento alterado.
  • Conectores nas extremidades: inspecione como no item de mosquetões (abaixo).
  • Etiqueta do talabarte/absorvedor: deve estar legível e compatível com o uso (ex.: comprimento, norma, identificação).

4) Mosquetões e conectores

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  • Corpo: trincas, amassados, deformação, corrosão, desgaste em áreas de contato.
  • Gatilho: deve abrir e fechar sem travar; retorno por mola firme.
  • Trava: deve funcionar completamente (rosca/automática), sem “pular” ou ficar frouxa.
  • Rebarbas: qualquer rebarba pode cortar fita/corda.

Teste funcional: abra/feche o gatilho algumas vezes; acione a trava; confirme fechamento total e ausência de folga anormal.

5) Trava-quedas (retrátil ou guiado) e linhas/cordas associadas

Trava-quedas retrátil (SRL):

  • Carcaça: sem trincas, deformações ou parafusos soltos.
  • Fita/cabo: sem cortes, fios rompidos, corrosão (no cabo), deformações, dobras permanentes.
  • Recolhimento: deve recolher suavemente, sem “engasgar”.
  • Travamento: puxe com um tranco curto para verificar se trava.
  • Indicador de queda (se existir): verifique se não está acionado.

Trava-quedas guiado em linha rígida/flexível:

  • Dispositivo: sem trincas, corrosão, deformações; mecanismo de travamento livre.
  • Compatibilidade: confirme que é o modelo correto para a linha/corda especificada.
  • Teste: deslize no sentido permitido e simule travamento conforme instrução do fabricante.

Corda/linha de vida flexível (quando aplicável ao conjunto):

  • Procure capa cortada, alma exposta, achatamento, endurecimento, manchas químicas, queimaduras, abrasão.
  • Verifique terminações (costuras, olhais, prensagens) e protetores de borda quando existentes.

6) Componentes de ancoragem e linhas de vida (inspeção visual antes de conectar)

  • Ponto/olhal/argola: sem trincas, corrosão severa, deformação, folgas anormais.
  • Chumbadores/parafusos/placas: sem afrouxamento, corrosão, fissuras na base, sinais de arrancamento.
  • Linha de vida: sem fios rompidos (cabo de aço), corrosão, deformações, tensão inadequada, terminais danificados.
  • Absorvedores/indicadores do sistema: não acionados.

Regra prática: se você não consegue confirmar a integridade e a identificação do componente, não conecte.

Inspeção periódica (detalhada e registrada)

A inspeção periódica complementa a pré-uso e deve ser feita em intervalos definidos (ex.: conforme fabricante, intensidade de uso e ambiente agressivo). Ela inclui registro formal, verificação de rastreabilidade e, quando aplicável, critérios dimensionais (ex.: desgaste de conectores) e checagens funcionais completas de dispositivos.

Checklist sugerido para inspeção periódica

  • Conferir identificação: número de patrimônio/serial, lote, data de fabricação, data de aquisição, histórico de uso.
  • Verificar validade/vida útil definida pelo fabricante e política interna.
  • Inspecionar 100% das fitas/cordas/cabos (incluindo áreas “escondidas” sob protetores e costuras).
  • Checar costuras com lupa/boa iluminação quando necessário.
  • Checar conectores: funcionamento, travas, desgaste e corrosão.
  • Checar dispositivos: trava-quedas retrátil/guiado (travamento, recolhimento, indicadores).
  • Checar componentes de ancoragem/linhas de vida: integridade, corrosão, fixações, terminais, absorvedores.
  • Registrar resultado, responsável, data e próxima inspeção.

Critérios de rejeição (retirar de serviço imediatamente)

Use sempre os critérios do fabricante como referência principal. Abaixo, critérios práticos comuns de rejeição/retirada de serviço:

Têxteis (fitas, cintos, talabartes, costuras)

  • Cortes, rasgos, perfurações (mesmo pequenos, especialmente próximos a costuras e pontos de carga).
  • Abrasão severa com redução visível de largura/espessura, desfiamento intenso.
  • Costuras rompidas, abertas, com fios soltos em áreas estruturais.
  • Sinais de calor: derretimento, endurecimento, brilho anormal, queimaduras.
  • Contaminação química: manchas com odor, descoloração forte, rigidez localizada (quando não for possível garantir descontaminação).
  • Nós não previstos em cordas/talabartes (reduzem resistência).
  • Absorvedor acionado ou com indícios de acionamento.

Metálicos (mosquetões, anéis, fivelas, olhais, terminais)

  • Trincas, deformações (ovalização, empeno), amassados.
  • Corrosão que comprometa a seção do material ou o funcionamento.
  • Gatilho/trava que não fecha totalmente, não trava, ou trava intermitente.
  • Rebarbas que possam cortar fitas/cordas.
  • Desgaste excessivo em áreas de contato (canaletas profundas).

Dispositivos (trava-quedas retrátil/guiado)

  • Falha no travamento no teste funcional.
  • Recolhimento irregular, travamentos, ruídos anormais, retorno fraco.
  • Indicador de queda acionado (quando existir) ou suspeita de queda.
  • Carcaça danificada (trincas, deformação, parafusos faltando).

Identificação e rastreabilidade

  • Etiqueta ilegível/ausente quando impede confirmar modelo, norma, serial/lote e vida útil.
  • Histórico desconhecido (equipamento “sem dono”, sem registro, sem data de inspeção).

Exemplos fotográficos descritivos: o que procurar (guia visual em palavras)

Exemplo 1 — Fita com abrasão

Como aparece: superfície “peluda”, fibras soltas, bordas desfiadas e afinamento da fita em um trecho que costuma roçar na estrutura. Ação: se a abrasão for intensa ou próxima a costuras/pontos de carga, retirar de serviço.

Exemplo 2 — Costura estrutural comprometida

Como aparece: linhas de costura com falhas, pontos “pulados”, fios soltos e abertura visível entre as camadas. Ação: rejeição imediata.

Exemplo 3 — Mosquetão com trava falhando

Como aparece: gatilho fecha, mas a trava não completa o curso; ao sacudir, a trava “volta” sozinha. Ação: rejeição imediata (risco de abertura acidental).

Exemplo 4 — Conector com corrosão

Como aparece: pontos de ferrugem, aspereza ao toque, corrosão em áreas de articulação do gatilho. Ação: se afetar funcionamento ou houver perda de material, rejeitar; se superficial e sem prejuízo funcional, seguir critério do fabricante e inspeção periódica mais frequente.

Exemplo 5 — Absorvedor acionado

Como aparece: capa rasgada e fita interna alongada; costuras de rasgo abertas; comprimento do conjunto maior do que o normal. Ação: retirar de serviço e substituir (não “rearma”).

Exemplo 6 — Corda com alma exposta

Como aparece: capa rompida com fios internos visíveis, achatamento e rigidez em um ponto (possível esmagamento). Ação: rejeição imediata.

Rastreabilidade: identificação, controle e histórico

Rastreabilidade é a capacidade de relacionar cada equipamento a um código único e ao seu histórico. Isso evita uso de itens vencidos, sem inspeção ou envolvidos em incidentes.

  • Identificação única: etiqueta patrimonial, gravação permitida pelo fabricante, ou tag (sem danificar o material).
  • Registro mínimo: data de fabricação/aquisição, início de uso, inspeções, ocorrências (queda, impacto, contaminação), manutenções e descarte.
  • Controle de vida útil: seguir limite do fabricante; quando não houver, adotar política interna conservadora baseada em uso/ambiente e inspeções.

Modelo de ficha de controle (exemplo)

CampoExemplo de preenchimento
Código do equipamentoEPI-ALT-000123
TipoCinturão paraquedista
Marca/ModeloModelo X
Serial/LoteS/N 8F29A
Data de fabricação2024-03
Data de aquisição2024-05-10
Início de uso2024-06-01
Vida útil (fabricante)10 anos (condicionada a inspeções)
Inspeção pré-usoUsuário (antes de cada uso)
Inspeção periódicaA cada 6 meses
Última inspeção2025-12-15
Próxima inspeção2026-06-15
StatusAprovado / Quarentena / Reprovado
ObservaçõesSem danos; etiqueta legível

Modelo de registro de inspeção periódica (checklist resumido)

REGISTRO DE INSPEÇÃO PERIÓDICA – TRABALHO EM ALTURA  Data: ____/____/____  Inspetor: ____________  Assinatura: ____________  Equipamento (código): ____________  Tipo: ____________  Marca/Modelo: ____________  Serial/Lote: ____________  1) Identificação/etiqueta legível: ( ) Sim ( ) Não  2) Fitas/cordas: cortes/abrasão/desfiado? ( ) Não ( ) Sim – onde: ____________  3) Costuras: íntegras? ( ) Sim ( ) Não – onde: ____________  4) Metálicos: trincas/deformação/corrosão? ( ) Não ( ) Sim – onde: ____________  5) Conectores: gatilho fecha? trava funciona? ( ) Sim ( ) Não  6) Dispositivo (se houver): recolhe/trava ok? ( ) Sim ( ) Não  7) Absorvedor acionado/indicador de queda? ( ) Não ( ) Sim  8) Limpeza/contaminação química suspeita? ( ) Não ( ) Sim  Resultado: ( ) Aprovado ( ) Quarentena ( ) Reprovado/Descartar  Ação tomada: ____________  Próxima inspeção: ____/____/____

Higienização: como limpar sem danificar

A limpeza inadequada reduz a resistência de fitas e cordas e pode travar mecanismos. Sempre siga o fabricante; como regra geral:

  • Têxteis: remover sujeira com escova macia e pano úmido; usar sabão neutro quando permitido; enxaguar bem; secar à sombra e em local ventilado (sem sol direto, sem fonte de calor).
  • Metálicos: pano limpo e seco; se houver umidade, secar completamente; não usar produtos agressivos que acelerem corrosão.
  • Dispositivos: não abrir carcaças; evitar jatos de água/solventes; manter limpo e seco; se houver contaminação interna suspeita (areia, cimento, tinta), encaminhar para avaliação conforme fabricante.
  • Proibido (salvo orientação do fabricante): solventes, cloro, água sanitária, desengraxantes fortes, lavagem em máquina, secagem em estufa/aquecedor.

Armazenamento e transporte: evitar danos invisíveis

Armazenamento correto

  • Guardar em bolsa/caixa limpa, seca e ventilada.
  • Evitar sol, calor, umidade, poeira abrasiva e contato com produtos químicos (tintas, solventes, ácidos, cimento).
  • Não deixar pendurado por longos períodos de forma que deforme fitas ou conectores.
  • Separar têxteis de ferramentas e peças cortantes.

Transporte correto

  • Transportar em bolsa dedicada, evitando arrasto no chão e esmagamento por cargas.
  • Não colocar sob materiais pesados (risco de deformar conectores e danificar dispositivos).
  • Após trabalho em ambiente úmido/salgado, secar e limpar antes de guardar.

Procedimento de quarentena e substituição (quando houver não conformidade)

Quando colocar em quarentena

  • Dúvida sobre integridade (queda, impacto, arraste, esmagamento, contaminação química, aquecimento).
  • Falha em teste funcional (trava, recolhimento, travamento).
  • Etiqueta ilegível/ausente ou histórico desconhecido.
  • Qualquer dano observado que ainda precise de avaliação técnica.

Passo a passo de quarentena

  1. Interromper o uso imediatamente e substituir por item aprovado.
  2. Identificar fisicamente o item: tag “NÃO USAR – QUARENTENA”, com data e motivo.
  3. Isolar em local/armário de quarentena (separado de itens liberados).
  4. Registrar a ocorrência no controle do equipamento (motivo, fotos, quem retirou de serviço, local).
  5. Avaliar conforme fabricante e procedimento interno:
    • Se o fabricante exigir descarte após queda/acionamento: reprovar e descartar.
    • Se for possível inspeção técnica/manutenção autorizada: encaminhar e manter em quarentena até laudo.
  6. Decisão: liberar (com registro) ou reprovar (descarte controlado).
  7. Substituição: emitir requisição/retirada de novo item, atualizar inventário e garantir que o usuário receba equipamento com inspeção em dia.

Descarte controlado (para evitar reuso indevido)

  • Inutilizar têxteis (ex.: cortar fitas) e marcar como descartado, conforme política interna.
  • Segregar metálicos/dispositivos para descarte/retorno ao fabricante quando aplicável.
  • Atualizar status no registro: REPROVADO/DESCARTADO com data e responsável.

Vida útil: como interpretar na prática

Vida útil não é apenas “tempo de prateleira”. Ela depende de: intensidade de uso, ambiente (marinho, químico, poeira abrasiva), exposição a UV, manutenção e ocorrências (quedas/impactos). Regras práticas:

  • Se houve queda com carga no sistema ou acionamento do absorvedor/indicador: tratar como retirada imediata do componente afetado e, quando aplicável, do conjunto conforme orientação do fabricante.
  • Se não é possível comprovar idade/histórico: não usar até regularizar rastreabilidade; se não regularizar, descartar.
  • Ambiente agressivo: reduzir intervalo de inspeção periódica e reforçar cuidados de limpeza/armazenamento.

Rotina rápida (cartão de bolso) para o usuário

ANTES DE USAR (2–5 min):  1) Etiqueta legível e inspeção em dia?  2) Fitas/cordas: cortes, abrasão, desfiado, queimadura, manchas químicas?  3) Costuras: pontos rompidos ou abertos?  4) Metálicos: trinca, deformação, corrosão, rebarba?  5) Mosquetões: abre/fecha e trava 100%?  6) Trava-quedas: recolhe e trava no tranco?  SE QUALQUER DÚVIDA: NÃO USAR → QUARENTENA → REGISTRAR → SUBSTITUIR

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao identificar que a etiqueta de um cinturão está ilegível e o histórico do equipamento é desconhecido, qual é a conduta mais adequada antes de utilizá-lo em trabalho em altura?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Etiqueta ilegível e histórico desconhecido impedem rastreabilidade e são motivo para não usar. A ação indicada é retirar de serviço, colocar em quarentena, identificar, isolar e registrar para avaliação e decisão de liberar ou descartar.

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