NR-35 para Iniciantes: Comunicação, Supervisão em Campo e Boas Práticas de Execução Segura

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que muda na execução: comunicação e supervisão como barreiras de segurança

Mesmo com planejamento, PT e equipamentos corretos, a execução em campo falha quando a equipe não compartilha o mesmo “quadro mental” da tarefa. Comunicação e supervisão ativa funcionam como barreiras: alinham expectativas, detectam desvios cedo e coordenam ações entre quem está em altura e quem está no solo.

Neste capítulo, o foco é a prática: como conduzir briefing inicial, diálogos de segurança, checar entendimento do procedimento e supervisionar durante a tarefa, além de técnicas simples de comunicação (sinais, rádio e confirmação de mensagens críticas), gestão de interferências e disciplina operacional.

Briefing inicial (pré-tarefa): como conduzir em 10–15 minutos

Objetivo do briefing

Garantir que todos saibam: o que será feito, como será feito, quais são os pontos críticos, quem decide o quê e como a equipe vai se comunicar. O briefing não substitui documentos; ele transforma o procedimento em ações coordenadas.

Passo a passo prático do briefing

  • 1) Reunir as pessoas certas no local certo: equipe em altura, apoio no solo, operador de equipamento (se houver), supervisor e, quando aplicável, interface com operação/manutenção. Faça próximo ao ponto de acesso, com boa visibilidade do local.
  • 2) Declarar o escopo em uma frase: “Vamos substituir o trecho X da calha no nível Y, usando acesso Z, com isolamento da área abaixo.” Evite escopo genérico.
  • 3) Repassar o método de trabalho em etapas: descreva a sequência real (subida, posicionamento, execução, movimentações, descida). Use linguagem simples e aponte fisicamente para os locais.
  • 4) Destacar 3–5 pontos críticos: por exemplo, transições de acesso, movimentação lateral, manuseio de ferramentas, proximidade de interferências, necessidade de manter área isolada.
  • 5) Definir papéis operacionais do momento: quem lidera a execução em altura, quem faz apoio no solo, quem controla acesso/isolamento, quem comunica com operação, quem autoriza pausa/retomada.
  • 6) Combinar o plano de comunicação: canal de rádio, sinais manuais, palavras-chave, como confirmar mensagens críticas e o que fazer se perder comunicação.
  • 7) Confirmar interferências e controles em campo: energia elétrica próxima, linhas de processo, tráfego de pessoas/veículos, vento/chuva, ruído, iluminação, áreas com queda de objetos. Verifique se o cenário real bate com o previsto.
  • 8) Checagem de entendimento (obrigatória): peça para 2–3 pessoas explicarem “como vamos fazer” e “o que parar a tarefa”. Isso revela lacunas sem constranger.
  • 9) Definir gatilhos de parada e replanejamento: exemplos: mudança de rota de acesso, interferência nova, perda de comunicação, aumento de vento, entrada de terceiros na área isolada, ferramenta sem retenção.
  • 10) Registrar o essencial: anote no controle de campo (ou no verso do plano/ordem) os combinados de comunicação, papéis e pontos críticos. Registro curto e útil.

Modelo de roteiro de briefing (para o supervisor)

Escopo (1 frase): ________________________________  Duração estimada: ___h___min  Equipe: ________  Rádio/canal: ________
Etapas: 1) ________ 2) ________ 3) ________
Pontos críticos (3–5): 1) ________ 2) ________ 3) ________
Interferências: elétrica (sim/não) | processo (sim/não) | tráfego (sim/não) | ruído (sim/não)
Papéis: líder em altura ________ | apoio no solo ________ | controle de área ________ | interface operação ________
Mensagens críticas (confirmar): “PARAR”, “LIBERADO”, “DESCENDO”, “CARGA SUSPENSA”, “SEM COMUNICAÇÃO”
Gatilhos de parada: ________________________________
Checagem de entendimento (nomes): ________ / ________ / ________

Diálogos de Segurança (DDS) durante a execução: curtos e acionáveis

Quando fazer

  • Antes de iniciar uma etapa crítica (ex.: movimentar material, mudar de posição, iniciar corte/furação).
  • Após uma interrupção (pausa, troca de equipe, mudança de condição).
  • Quando surgir interferência nova (tráfego, operação iniciando atividade próxima, ruído que impede rádio).

Formato recomendado (2–4 minutos)

  • O que vai mudar agora? (etapa seguinte)
  • Qual é o risco principal desta etapa?
  • Qual controle não pode falhar? (ex.: isolamento, retenção de ferramentas, comunicação)
  • Como vamos confirmar? (frase de confirmação, teste de rádio, sinal combinado)

O DDS não é palestra. É um “reset” rápido para manter foco e disciplina operacional.

Checagem de entendimento do procedimento: técnicas simples que funcionam

Por que checar entendimento

Em trabalho em altura, um erro de interpretação vira erro de execução: alguém se posiciona no lugar errado, movimenta material sem aviso, remove uma barreira “só por um minuto” ou assume que o outro entendeu. Checar entendimento reduz suposições.

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Técnicas práticas

  • Teach-back (repetição com as próprias palavras): peça para o executante explicar a etapa crítica e o que fará se algo sair do previsto.
  • Perguntas fechadas com verificação: “Qual é a palavra para parada imediata?” “Qual canal do rádio?” “Quem controla o acesso?”
  • Simulação rápida: antes de subir, simule no solo o fluxo de comunicação: “vou subir”, “posicionado”, “iniciando”, “parar”.
  • Checagem cruzada: um membro do solo descreve a etapa do pessoal em altura e vice-versa. Se houver divergência, ajuste antes de iniciar.

Supervisão ativa em campo: o que observar e como intervir

Conceito de supervisão ativa

Supervisão ativa é presença técnica e comportamental durante a tarefa, com foco em detectar desvios cedo, reforçar controles críticos e coordenar interfaces. Não é “vigiar”; é manter a operação dentro do método combinado.

Como fazer na prática

  • Posicionamento do supervisor: fique onde consiga ver o acesso, a borda/abertura relevante e a área isolada abaixo. Evite ficar “preso” em escritório ou distante.
  • Ritmo de varredura: alterne observação de (1) equipe em altura, (2) equipe no solo, (3) interferências externas (tráfego, operação, terceiros), (4) comunicação.
  • Intervenção em 3 níveis:
    • Correção imediata (desvio crítico): parar e corrigir antes de continuar.
    • Orientação (desvio não crítico): ajustar e reforçar o combinado.
    • Melhoria (oportunidade): registrar e incorporar no próximo briefing.
  • Regra do “pare e alinhe”: se houver dúvida sobre o próximo passo, a instrução é parar, descer a carga mental (respirar, reorganizar) e alinhar via rádio/voz antes de executar.

Comunicação e coordenação entre equipe em altura e equipe no solo

Princípios de comunicação segura

  • Clareza: frases curtas, sem ambiguidade.
  • Um comando por vez: evite “faz isso e aquilo” em uma mensagem.
  • Confirmação: mensagens críticas exigem repetição/retorno.
  • Canal único: defina um canal principal; evite conversas paralelas durante etapa crítica.
  • Sem suposições: se não ouviu/entendeu, peça repetição.

Rádio: padrão simples de fraseologia

Use um padrão fixo para reduzir ruído e erro:

  • Chamada: “Solo para Altura 1”
  • Mensagem: “Área abaixo isolada e liberada”
  • Confirmação: “Altura 1 confirma: área isolada e liberada”

Mensagens críticas que devem ser confirmadas

MensagemQuando usarConfirmação obrigatória
PARARRisco imediato, dúvida, interferência inesperadaRepetir “PARAR” e informar status (“parado e seguro”)
LIBERADOCondição verificada (ex.: área isolada, trajeto livre)Repetir “LIBERADO” + o que foi liberado
DESCENDOInício de descida/movimentação que altera riscoSolo confirma “ciente, área livre”
CARGA SUSPENSAMovimentação de material por corda/guinchoTodos confirmam “ciente” e área abaixo vazia
SEM COMUNICAÇÃOFalha de rádio/sinalParar e migrar para plano B (sinal/voz/retorno)

Sinais manuais (quando rádio falha ou há ruído)

Defina sinais antes de iniciar e use apenas os combinados. Exemplo de conjunto mínimo:

  • Parar: braço estendido com palma aberta, movimento firme.
  • Subir/Descer material: polegar para cima/para baixo, movimento repetido.
  • Ok/Entendido: mão em “OK” ou polegar para cima (padronizar um).
  • Sem comunicação: apontar para o rádio e balançar a mão em “não”.

Regras: mantenha contato visual antes de sinalizar; sinalize de forma lenta e repetida; aguarde confirmação do outro lado.

Confirmação de mensagens críticas: técnica do “eco”

Para qualquer comando que altere o estado de segurança (parar, liberar, iniciar movimentação), aplique:

  • Emissor: dá a instrução.
  • Receptor: repete a instrução (eco) e informa ação.
  • Emissor: confirma que entendeu o retorno.

Exemplo: “Solo para Altura 1: PARAR.” → “Altura 1: PARAR, estou parado e seguro.” → “Solo: confirmado.”

Gestão de interferências: como controlar o que muda ao redor

Interferências típicas durante trabalho em altura

  • Energia elétrica: proximidade de rede, painéis, cabos energizados, ferramentas elétricas, extensões no trajeto.
  • Linhas de processo: vapor, gases, fluidos quentes, purgas, válvulas operadas por terceiros, ruído e vibração.
  • Tráfego de pessoas e equipamentos: empilhadeiras, caminhões, ponte rolante, circulação de terceiros sob a área.
  • Outras equipes: manutenção paralela, limpeza, inspeção, operação iniciando rotina próxima.

Passo a passo para gerenciar interferências em campo

  • 1) Identificar no início e revalidar: no briefing, aponte interferências e quem é o “dono” de cada interface (quem fala com operação, quem controla acesso).
  • 2) Criar “zonas” claras: zona de trabalho em altura, zona isolada abaixo, zona de passagem alternativa. Se a passagem alternativa não existir, a tarefa não começa.
  • 3) Monitorar mudanças: supervisor e apoio no solo observam sinais de mudança (veículo se aproximando, operação abrindo linha, aumento de ruído/vento).
  • 4) Acionar gatilho de parada: se a interferência entrar na zona crítica, parar e alinhar. Não “tocar mais um pouco”.
  • 5) Replanejar e comunicar: ajuste o método, reforce isolamento, altere rota, mude canal de rádio, reexecute DDS curto e só então retome.

Disciplina operacional: pausas, hidratação e foco como controle de risco

Por que disciplina operacional entra na NR-35 na prática

Fadiga, desidratação, pressa e distração aumentam erro humano: esquecimento de retenção de ferramenta, falha de comunicação, passos fora de sequência e improvisos. Disciplina operacional é manter o método, mesmo sob pressão.

Boas práticas aplicáveis

  • Pausas programadas: defina micro-pausas (ex.: a cada 45–60 min) para reduzir fadiga e revalidar condições. Em calor, encurte intervalos.
  • Hidratação e alimentação leve: água acessível no solo e, quando aplicável, estratégia para não “esticar” tempo em altura por falta de suporte.
  • Controle de pressa: se houver atraso, ajuste escopo ou equipe; não compense com atalho.
  • Uma tarefa por vez: evite multitarefa em altura (ex.: falar no rádio enquanto executa etapa crítica). Pare, comunique, volte a executar.
  • Gestão de distrações: celular fora da operação; conversas paralelas proibidas durante movimentação de material e transições.

Lista de verificação de supervisão (uso em campo)

Use como checklist rápido (antes e durante). Marque OK, N/A ou Ação.

ItemOKN/AAção/Observação
Briefing realizado com equipe completa e no local
Escopo e etapas explicados; pontos críticos destacados
Papéis definidos (altura, solo, controle de área, interface)
Plano de comunicação definido (canal, sinais, palavras-chave)
Teste de comunicação (rádio/voz) realizado
Mensagens críticas com confirmação (eco) combinadas
Área abaixo isolada e mantida (sem “furar” isolamento)
Controle de queda de objetos ativo (ferramentas e materiais)
Interferências verificadas (elétrica/processo/tráfego) e sob controle
Sem improvisos: método segue o combinado
DDS curto antes de etapa crítica ou após interrupção
Pausas/hidratação realizadas conforme condição (calor/fadiga)
Supervisor com linha de visão do acesso e da área isolada
Gatilhos de parada conhecidos e respeitados
Registro de desvios e correções feito para aprendizado

Estudos de caso: desvios comuns e como corrigir

Caso 1 — “Eu só vou ajustar rapidinho” (improviso durante a execução)

Cenário: durante a instalação, o executante percebe que falta uma ferramenta e decide “dar um jeito” com outra, sem avisar. A postura muda, o tempo em posição aumenta e a equipe no solo não entende por que a etapa atrasou.

Desvio: mudança de método sem alinhamento e sem DDS curto.

Risco gerado: perda de controle na execução, aumento de fadiga, maior chance de queda de objeto e erro de comunicação.

Como o supervisor deve agir:

  • Parar a etapa (“PARAR” com confirmação).
  • Reforçar: qualquer mudança exige alinhamento rápido.
  • Executar DDS de 2 minutos: novo método, controles e comunicação.
  • Se ferramenta correta for necessária, descer e reorganizar apoio no solo.

Caso 2 — Rádio com ruído e mensagens incompletas

Cenário: ambiente industrial com ruído alto. O solo diz “pode descer”, mas a equipe em altura entende “pode descer material” e inicia movimentação sem área totalmente livre.

Desvio: ausência de fraseologia padrão e falta de confirmação de mensagem crítica.

Risco gerado: movimentação indevida, exposição de terceiros, queda de objeto.

Correção:

  • Adotar padrão: chamada + mensagem + confirmação (eco).
  • Trocar para canal menos congestionado ou usar abafador/auricular compatível.
  • Se ruído impedir, migrar para sinais manuais com contato visual e um “observador” dedicado no solo.

Caso 3 — Interferência de tráfego “invadindo” a área isolada

Cenário: empilhadeira precisa passar e o operador pede para “abrir só um pouco” a área isolada. Um membro do solo cede para não atrasar a produção.

Desvio: quebra de isolamento por pressão operacional.

Risco gerado: pessoas/equipamentos sob a área, aumento de consequência em caso de queda de objeto.

Correção:

  • Parar a atividade em altura até restabelecer isolamento.
  • Acionar interface com operação para rota alternativa ou janela de passagem com tarefa interrompida.
  • Reforçar disciplina: isolamento não é negociável durante execução em altura.

Caso 4 — Fadiga e perda de foco no fim do turno

Cenário: equipe tenta “terminar hoje” e estende o tempo em altura. Começam erros pequenos: ferramenta sem retenção, mensagens não confirmadas, pressa nas transições.

Desvio: disciplina operacional degradada por fadiga e pressa.

Risco gerado: aumento de probabilidade de incidente por erro humano.

Correção:

  • Aplicar pausa obrigatória e DDS curto para revalidar controles.
  • Reavaliar escopo: concluir apenas etapa segura e deixar o restante para retomada planejada.
  • Supervisor reforça: “sem atalho” e “uma etapa por vez”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a execução de um trabalho em altura, qual prática melhor reduz o risco de erro por ruído ou ambiguidade na comunicação via rádio?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A fraseologia padrão (chamada + mensagem + confirmação) e a técnica do “eco” evitam suposições e reduzem erros em comandos críticos, especialmente em ambientes ruidosos.

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NR-35 para Iniciantes: Noções de Emergências, Suspensão Inerte e Plano Básico de Resgate

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