NR-35 para Iniciantes: EPIs para Trabalho em Altura e Critérios de Seleção do Sistema Individual

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

O que é o Sistema Individual de Proteção contra Quedas (SPIQ)

O Sistema Individual de Proteção contra Quedas é o conjunto de EPIs e componentes de conexão usado para impedir que o trabalhador atinja um nível inferior em caso de escorregão, perda de equilíbrio ou falha de apoio. Na prática, ele funciona como uma “cadeia” de elementos: cinturão (onde o corpo é sustentado) + elemento de ligação (talabarte/trava-quedas) + conectores + ponto de ancoragem/linha de vida. A segurança depende de três fatores: seleção correta (tipo adequado à tarefa), compatibilidade entre componentes (conexões e resistências coerentes) e ajuste/uso correto (ergonomia e regulagens).

Componentes do sistema: função, pontos de atenção e erros comuns

Cinturão de segurança tipo paraquedista

É o EPI principal do sistema. Deve envolver tronco, cintura e coxas para distribuir esforços em caso de retenção de queda e permitir suspensão com menor risco de lesões. Normalmente possui pontos de ancoragem no dorsal (costas) e/ou peitoral (frontal), além de argolas laterais para posicionamento quando aplicável.

  • Uso típico: retenção de queda (ponto dorsal/peitoral conforme projeto e procedimento), posicionamento (argolas laterais), restrição (ponto apropriado conforme sistema).
  • Atenção: tamanho correto, fivelas íntegras, costuras sem desgaste, fitas sem cortes/queimaduras, argolas sem deformação/corrosão.
  • Erro comum: usar cinturão inadequado (ex.: cinturão abdominal) para retenção de queda; usar argolas laterais como ponto principal de retenção de queda quando o fabricante não prevê.

Talabartes (elementos de ligação)

Talabarte é o elemento que conecta o cinturão ao ponto de ancoragem/linha de vida. Pode ser simples (um ramo) ou duplo (dois ramos) para progressão com transferência de conexão. Pode ser de fita, corda ou cabo, com diferentes comprimentos e tipos de conectores.

  • Uso típico: restrição de movimentação, posicionamento (quando combinado com cinturão e ponto adequado), retenção de queda (quando projetado para isso e, em geral, com absorvedor).
  • Atenção: comprimento influencia diretamente o risco de queda e a distância de queda; talabarte de posicionamento não é automaticamente um talabarte de retenção.
  • Erro comum: usar talabarte sem absorvedor em situação com possibilidade de queda livre significativa; usar talabarte longo em local onde a folga abaixo é pequena.

Absorvedor de energia

É um componente (muitas vezes integrado ao talabarte) que reduz a força de impacto transmitida ao corpo e ao sistema durante a retenção de queda, por meio de rasgo controlado ou deformação prevista pelo fabricante.

  • Uso típico: retenção de queda com talabarte.
  • Atenção: o absorvedor aumenta o comprimento efetivo do sistema durante a atuação (ele “abre”), exigindo cálculo de folga.
  • Erro comum: desconsiderar a abertura do absorvedor e trabalhar com folga insuficiente, aumentando risco de impacto em nível inferior.

Trava-quedas (visão geral)

Trava-quedas é um dispositivo que se desloca com o usuário e trava automaticamente ao detectar aceleração/queda. Pode ser do tipo retrátil (SRL) ou para linha rígida/flexível (ex.: em cabo de aço ou corda, conforme sistema). É indicado quando se deseja reduzir distância de queda e melhorar a dinâmica de movimentação em acesso vertical.

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  • Uso típico: acesso vertical (escadas, estruturas), movimentação com necessidade de retenção de queda com menor queda livre.
  • Atenção: compatibilidade com a linha (diâmetro/material), sentido de instalação, ponto de conexão no cinturão (dorsal/peitoral conforme fabricante), e limitação de uso em arestas vivas quando não previsto.
  • Erro comum: usar trava-quedas em linha não compatível (diâmetro diferente, corda inadequada), ou conectar em ponto não previsto do cinturão.

Conectores (mosquetões, ganchos e malhas rápidas)

Conectores unem os componentes do sistema. Podem ser mosquetões com trava (automática/rosca), ganchos de grande abertura, conectores específicos para ancoragem e malhas rápidas (quando previstas). A escolha deve considerar abertura, formato, resistência e risco de carregamento incorreto.

  • Boas práticas: preferir conectores com trava automática em aplicações com muitas conexões/desconexões; usar formato que evite “carga cruzada” (carregamento no eixo menor).
  • Atenção: evitar conexão em estruturas que forcem o conector a trabalhar torcido; verificar se o gancho fecha completamente e se a trava engata.
  • Erro comum: conectar dois elementos no mesmo conector de forma que gere carga lateral; “engarrafar” o conector em olhais pequenos, impedindo fechamento total.

Capacete com jugular e EPIs complementares

Em trabalho em altura, o capacete deve possuir jugular para reduzir risco de queda do capacete durante movimentação e em caso de impacto. EPIs complementares variam conforme a tarefa e o ambiente.

  • Capacete com jugular: verificar integridade do casco, suspensão interna, ajuste e fecho da jugular.
  • Óculos/face shield: quando houver partículas, poeira, esmerilhamento, risco de respingos.
  • Luvas: para manuseio de cabos, cordas, chapas, arestas; escolher material conforme risco (abrasão/corte).
  • Calçado: solado antiderrapante e compatível com a superfície (telhado metálico, laje, estrutura).
  • Protetor auricular/respiratório: conforme ruído e contaminantes do ambiente.
  • Vestimenta: evitar roupas muito folgadas que possam enroscar; atenção a objetos soltos (cordões, crachás).

Como selecionar o conjunto adequado conforme a tarefa

A seleção deve partir do modo de proteção necessário. Abaixo, uma visão prática dos quatro cenários mais comuns: restrição, posicionamento, retenção de queda e acesso por corda (visão geral quando aplicável). Em todos eles, o conjunto deve ser compatível entre si e com o ponto de ancoragem/linha de vida disponível.

1) Restrição de movimentação (impedir que a queda aconteça)

Objetivo: limitar o deslocamento para que o trabalhador não alcance a borda/área de risco. É a configuração preferível quando é possível garantir que não haverá queda.

  • Componentes típicos: cinturão tipo paraquedista + talabarte/linha de restrição com comprimento ajustado + conectores adequados.
  • Ponto-chave: o comprimento deve ser ajustado para que, mesmo com o corpo estendido, não seja possível ultrapassar a zona segura.
  • Erro típico: usar comprimento “sobrando” que permite chegar à borda; tratar restrição como retenção e não considerar dinâmica de queda.

2) Posicionamento (trabalhar com as mãos livres, sustentado)

Objetivo: manter o trabalhador posicionado em um local (ex.: poste, estrutura metálica) com estabilidade para executar a tarefa. Em geral, o posicionamento não substitui a retenção de queda quando existe risco de queda livre; pode ser necessário um sistema adicional de retenção.

  • Componentes típicos: cinturão paraquedista com argolas laterais + talabarte de posicionamento (muitas vezes ajustável) + conectores apropriados.
  • Ponto-chave: avaliar se existe risco de queda. Se houver, prever também um sistema de retenção (ex.: trava-quedas ou talabarte com absorvedor conectado ao ponto dorsal/peitoral conforme fabricante).
  • Erro típico: usar apenas o posicionamento em local com possibilidade de queda livre.

3) Retenção de queda (quando a queda pode ocorrer)

Objetivo: permitir a movimentação e, se ocorrer queda, reter com segurança reduzindo força de impacto e evitando colisão com nível inferior.

  • Componentes típicos (opção A): cinturão paraquedista + talabarte com absorvedor de energia + conectores compatíveis.
  • Componentes típicos (opção B): cinturão paraquedista + trava-quedas (retrátil ou em linha) + conectores compatíveis.
  • Ponto-chave: verificar folga abaixo (distância livre) considerando comprimento do sistema, abertura do absorvedor (se houver), altura do usuário e margem de segurança.
  • Erro típico: usar talabarte longo sem considerar folga; conectar em ponto baixo aumentando queda livre; usar conector inadequado gerando carga cruzada.

4) Acesso por corda (visão geral quando aplicável)

Objetivo: acessar e trabalhar suspenso por cordas com técnicas específicas. Em geral, envolve duas linhas (trabalho e segurança) e dispositivos próprios (descensores, bloqueadores, trava-quedas em linha), além de treinamento e procedimentos específicos.

  • Componentes em visão geral: cinturão paraquedista (muitas vezes com assento/cadeirinha conforme sistema) + dispositivos de progressão/descida + trava-quedas em linha de segurança + conectores adequados + capacete com jugular.
  • Ponto-chave: compatibilidade entre cordas e dispositivos (diâmetro, tipo), e redundância (linha principal e linha de segurança).
  • Erro típico: improvisar com componentes não projetados para acesso por corda; misturar dispositivos incompatíveis com o diâmetro/material da corda.

Compatibilidade entre componentes: como evitar “misturas perigosas”

Mesmo com todos os itens certificados, o conjunto pode ficar inseguro se houver incompatibilidade mecânica ou funcional. Use os critérios abaixo antes de liberar o uso:

  • Compatibilidade de conexão: o conector deve fechar completamente no ponto de ancoragem e no ponto do cinturão, sem ficar apoiado em quinas que forcem abertura ou carga lateral.
  • Compatibilidade funcional: talabarte de posicionamento não substitui talabarte com absorvedor para retenção; trava-quedas deve ser do tipo e modelo compatível com a linha e com o ponto de conexão do cinturão.
  • Compatibilidade dimensional: diâmetro de corda/linha conforme exigência do dispositivo; abertura do gancho adequada ao ponto de ancoragem; comprimento do talabarte adequado à folga.
  • Compatibilidade com arestas: se houver risco de contato com bordas/arestas, verificar se o componente é aprovado para essa condição; caso contrário, prever proteção de aresta ou outro arranjo.
  • Compatibilidade de uso simultâneo: evitar múltiplos elementos no mesmo conector quando isso gerar carga cruzada, interferência de travas ou risco de desconexão acidental.

Exemplos práticos: combinações corretas e incorretas

Exemplo 1 — Manutenção em cobertura com risco de alcançar a borda

Combinação correta (restrição): cinturão paraquedista + talabarte/linha de restrição ajustada para não permitir chegar à borda + conector compatível com ponto de ancoragem. Por que é correta: impede a queda (não há queda livre).

Combinação incorreta: cinturão paraquedista + talabarte longo “sobrando” que permite alcançar a borda. Problema: o sistema deixa de ser restrição e pode virar retenção sem absorvedor/sem folga calculada.

Exemplo 2 — Trabalho em estrutura com necessidade de mãos livres

Combinação correta (posicionamento + retenção quando necessário): cinturão paraquedista com argolas laterais + talabarte de posicionamento ajustável nas laterais e um segundo sistema de retenção (ex.: trava-quedas retrátil no dorsal) quando houver risco de queda. Por que é correta: posiciona para executar a tarefa e mantém proteção contra queda.

Combinação incorreta: usar apenas talabarte de posicionamento nas argolas laterais em local com possibilidade de queda livre. Problema: posicionamento não foi feito para absorver dinâmica de queda como sistema principal.

Exemplo 3 — Acesso vertical em escada fixa/estrutura

Combinação correta (retenção com menor queda livre): cinturão paraquedista + trava-quedas compatível com linha vertical (ou retrátil) + conectores adequados. Por que é correta: trava rapidamente e reduz distância de queda.

Combinação incorreta: usar trava-quedas em corda/linha de diâmetro incompatível ou invertido (sentido errado). Problema: pode não travar no momento correto.

Exemplo 4 — Conectores e pontos de ancoragem

Combinação correta: gancho com abertura adequada ao ponto de ancoragem, fechando totalmente, com trava funcionando e sem interferência. Por que é correta: mantém resistência no eixo principal e reduz risco de abertura acidental.

Combinação incorreta: conector “forçado” em olhal pequeno, ficando parcialmente aberto, ou com carga cruzada. Problema: perda significativa de resistência e risco de falha.

Passo a passo prático: seleção do SPIQ antes da atividade

Passo 1 — Defina o modo de proteção exigido

  • Se for possível impedir que o trabalhador alcance a borda: priorize restrição.
  • Se a tarefa exige sustentação para mãos livres: considere posicionamento (e avalie necessidade de retenção adicional).
  • Se existe chance real de queda: selecione retenção de queda (talabarte com absorvedor ou trava-quedas).
  • Se a execução for por cordas: aplicar acesso por corda com componentes específicos e redundância (visão geral).

Passo 2 — Escolha o cinturão correto e o ponto de conexão

  • Verifique se o cinturão é tipo paraquedista e se possui pontos (dorsal/peitoral/laterais) adequados ao sistema.
  • Selecione o ponto de conexão conforme orientação do fabricante do cinturão e do dispositivo (talabarte/trava-quedas).

Passo 3 — Selecione o elemento de ligação e estime a folga necessária

  • Para retenção com talabarte: preferir talabarte com absorvedor quando aplicável.
  • Para acesso vertical/movimentação: avaliar trava-quedas (retrátil ou em linha) compatível.
  • Confirme se há distância livre suficiente abaixo considerando: comprimento do talabarte/dispositivo, possível abertura do absorvedor, altura do ponto de conexão no corpo e margem de segurança.

Passo 4 — Garanta compatibilidade dos conectores e do ponto de ancoragem

  • Teste o encaixe: o conector deve fechar e travar sem esforço anormal.
  • Evite carga cruzada: o conector deve trabalhar no eixo principal.
  • Evite “duas peças brigando” no mesmo conector: se houver interferência, use arranjo previsto (ex.: conectores dedicados, pontos separados).

Passo 5 — Verifique EPIs complementares conforme riscos da tarefa

  • Capacete com jugular ajustada.
  • Óculos/luvas/calçado conforme superfície e ferramentas.
  • Proteções adicionais conforme ambiente (ruído/poeira).

Guia de verificação: CA, inspeção, ajustes e ergonomia

1) Conferência de CA e identificação

  • Localize a etiqueta do EPI e confirme CA válido (Certificado de Aprovação) e identificação do fabricante/modelo.
  • Verifique se o item está dentro do prazo/condição de uso conforme política interna e recomendações do fabricante (vida útil, histórico de inspeções).
  • Não use EPI sem identificação legível.

2) Inspeção visual e tátil (antes de cada uso)

  • Fitas e costuras: procurar cortes, desgaste por abrasão, fibras soltas, queimaduras, manchas de produtos químicos, costuras rompidas.
  • Partes metálicas: deformação, trincas, corrosão, rebarbas, funcionamento de travas e molas.
  • Absorvedor: verificar se há sinais de acionamento (rasgo/abertura) ou danos; se acionado, retirar de uso.
  • Trava-quedas retrátil: testar recolhimento e travamento conforme instrução do fabricante (sem “trancos” anormais).
  • Capacete: casco sem trincas, suspensão íntegra, jugular e fechos funcionando.

3) Ajuste correto do cinturão (checklist rápido)

  • Cintura e peitoral: firmes, sem comprimir excessivamente a respiração.
  • Perneiras: ajustadas para não “correr” nem gerar pontos de pressão; permitir mobilidade.
  • Ponto dorsal: na posição correta nas costas (nem muito baixo nem deslocado lateralmente).
  • Sobras de fita: organizadas nos passadores para não enroscar.

4) Ergonomia e usabilidade (evitar fadiga e erros)

  • Escolha talabartes/dispositivos que permitam a movimentação necessária sem improvisos (ex.: comprimento adequado, ajuste fácil com luvas).
  • Evite conexões em locais que obriguem o trabalhador a operar o conector “no tato” sem visibilidade; prefira arranjos que facilitem inspeção.
  • Se o trabalho envolver permanência suspensa/posicionada, avalie acessórios e configurações que reduzam desconforto (sempre conforme sistema previsto e compatível).

5) Critérios de reprovação imediata (retirar de uso)

  • Etiqueta/CA ilegível ou ausente.
  • Costuras danificadas, fitas cortadas, queimadas ou com desgaste severo.
  • Conectores com trava falhando, deformados ou com corrosão relevante.
  • Absorvedor com indício de acionamento.
  • Trava-quedas com funcionamento irregular (não recolhe, não trava no teste previsto).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao selecionar um sistema para retenção de queda com talabarte e absorvedor de energia, qual verificação é essencial para evitar impacto em nível inferior?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na retenção de queda com absorvedor, a folga deve considerar o comprimento do sistema e a abertura do absorvedor durante a atuação, além da altura do ponto de conexão e uma margem de segurança, para evitar colisão com nível inferior.

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