O que é o Sistema Individual de Proteção contra Quedas (SPIQ)
O Sistema Individual de Proteção contra Quedas é o conjunto de EPIs e componentes de conexão usado para impedir que o trabalhador atinja um nível inferior em caso de escorregão, perda de equilíbrio ou falha de apoio. Na prática, ele funciona como uma “cadeia” de elementos: cinturão (onde o corpo é sustentado) + elemento de ligação (talabarte/trava-quedas) + conectores + ponto de ancoragem/linha de vida. A segurança depende de três fatores: seleção correta (tipo adequado à tarefa), compatibilidade entre componentes (conexões e resistências coerentes) e ajuste/uso correto (ergonomia e regulagens).
Componentes do sistema: função, pontos de atenção e erros comuns
Cinturão de segurança tipo paraquedista
É o EPI principal do sistema. Deve envolver tronco, cintura e coxas para distribuir esforços em caso de retenção de queda e permitir suspensão com menor risco de lesões. Normalmente possui pontos de ancoragem no dorsal (costas) e/ou peitoral (frontal), além de argolas laterais para posicionamento quando aplicável.
- Uso típico: retenção de queda (ponto dorsal/peitoral conforme projeto e procedimento), posicionamento (argolas laterais), restrição (ponto apropriado conforme sistema).
- Atenção: tamanho correto, fivelas íntegras, costuras sem desgaste, fitas sem cortes/queimaduras, argolas sem deformação/corrosão.
- Erro comum: usar cinturão inadequado (ex.: cinturão abdominal) para retenção de queda; usar argolas laterais como ponto principal de retenção de queda quando o fabricante não prevê.
Talabartes (elementos de ligação)
Talabarte é o elemento que conecta o cinturão ao ponto de ancoragem/linha de vida. Pode ser simples (um ramo) ou duplo (dois ramos) para progressão com transferência de conexão. Pode ser de fita, corda ou cabo, com diferentes comprimentos e tipos de conectores.
- Uso típico: restrição de movimentação, posicionamento (quando combinado com cinturão e ponto adequado), retenção de queda (quando projetado para isso e, em geral, com absorvedor).
- Atenção: comprimento influencia diretamente o risco de queda e a distância de queda; talabarte de posicionamento não é automaticamente um talabarte de retenção.
- Erro comum: usar talabarte sem absorvedor em situação com possibilidade de queda livre significativa; usar talabarte longo em local onde a folga abaixo é pequena.
Absorvedor de energia
É um componente (muitas vezes integrado ao talabarte) que reduz a força de impacto transmitida ao corpo e ao sistema durante a retenção de queda, por meio de rasgo controlado ou deformação prevista pelo fabricante.
- Uso típico: retenção de queda com talabarte.
- Atenção: o absorvedor aumenta o comprimento efetivo do sistema durante a atuação (ele “abre”), exigindo cálculo de folga.
- Erro comum: desconsiderar a abertura do absorvedor e trabalhar com folga insuficiente, aumentando risco de impacto em nível inferior.
Trava-quedas (visão geral)
Trava-quedas é um dispositivo que se desloca com o usuário e trava automaticamente ao detectar aceleração/queda. Pode ser do tipo retrátil (SRL) ou para linha rígida/flexível (ex.: em cabo de aço ou corda, conforme sistema). É indicado quando se deseja reduzir distância de queda e melhorar a dinâmica de movimentação em acesso vertical.
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- Uso típico: acesso vertical (escadas, estruturas), movimentação com necessidade de retenção de queda com menor queda livre.
- Atenção: compatibilidade com a linha (diâmetro/material), sentido de instalação, ponto de conexão no cinturão (dorsal/peitoral conforme fabricante), e limitação de uso em arestas vivas quando não previsto.
- Erro comum: usar trava-quedas em linha não compatível (diâmetro diferente, corda inadequada), ou conectar em ponto não previsto do cinturão.
Conectores (mosquetões, ganchos e malhas rápidas)
Conectores unem os componentes do sistema. Podem ser mosquetões com trava (automática/rosca), ganchos de grande abertura, conectores específicos para ancoragem e malhas rápidas (quando previstas). A escolha deve considerar abertura, formato, resistência e risco de carregamento incorreto.
- Boas práticas: preferir conectores com trava automática em aplicações com muitas conexões/desconexões; usar formato que evite “carga cruzada” (carregamento no eixo menor).
- Atenção: evitar conexão em estruturas que forcem o conector a trabalhar torcido; verificar se o gancho fecha completamente e se a trava engata.
- Erro comum: conectar dois elementos no mesmo conector de forma que gere carga lateral; “engarrafar” o conector em olhais pequenos, impedindo fechamento total.
Capacete com jugular e EPIs complementares
Em trabalho em altura, o capacete deve possuir jugular para reduzir risco de queda do capacete durante movimentação e em caso de impacto. EPIs complementares variam conforme a tarefa e o ambiente.
- Capacete com jugular: verificar integridade do casco, suspensão interna, ajuste e fecho da jugular.
- Óculos/face shield: quando houver partículas, poeira, esmerilhamento, risco de respingos.
- Luvas: para manuseio de cabos, cordas, chapas, arestas; escolher material conforme risco (abrasão/corte).
- Calçado: solado antiderrapante e compatível com a superfície (telhado metálico, laje, estrutura).
- Protetor auricular/respiratório: conforme ruído e contaminantes do ambiente.
- Vestimenta: evitar roupas muito folgadas que possam enroscar; atenção a objetos soltos (cordões, crachás).
Como selecionar o conjunto adequado conforme a tarefa
A seleção deve partir do modo de proteção necessário. Abaixo, uma visão prática dos quatro cenários mais comuns: restrição, posicionamento, retenção de queda e acesso por corda (visão geral quando aplicável). Em todos eles, o conjunto deve ser compatível entre si e com o ponto de ancoragem/linha de vida disponível.
1) Restrição de movimentação (impedir que a queda aconteça)
Objetivo: limitar o deslocamento para que o trabalhador não alcance a borda/área de risco. É a configuração preferível quando é possível garantir que não haverá queda.
- Componentes típicos: cinturão tipo paraquedista + talabarte/linha de restrição com comprimento ajustado + conectores adequados.
- Ponto-chave: o comprimento deve ser ajustado para que, mesmo com o corpo estendido, não seja possível ultrapassar a zona segura.
- Erro típico: usar comprimento “sobrando” que permite chegar à borda; tratar restrição como retenção e não considerar dinâmica de queda.
2) Posicionamento (trabalhar com as mãos livres, sustentado)
Objetivo: manter o trabalhador posicionado em um local (ex.: poste, estrutura metálica) com estabilidade para executar a tarefa. Em geral, o posicionamento não substitui a retenção de queda quando existe risco de queda livre; pode ser necessário um sistema adicional de retenção.
- Componentes típicos: cinturão paraquedista com argolas laterais + talabarte de posicionamento (muitas vezes ajustável) + conectores apropriados.
- Ponto-chave: avaliar se existe risco de queda. Se houver, prever também um sistema de retenção (ex.: trava-quedas ou talabarte com absorvedor conectado ao ponto dorsal/peitoral conforme fabricante).
- Erro típico: usar apenas o posicionamento em local com possibilidade de queda livre.
3) Retenção de queda (quando a queda pode ocorrer)
Objetivo: permitir a movimentação e, se ocorrer queda, reter com segurança reduzindo força de impacto e evitando colisão com nível inferior.
- Componentes típicos (opção A): cinturão paraquedista + talabarte com absorvedor de energia + conectores compatíveis.
- Componentes típicos (opção B): cinturão paraquedista + trava-quedas (retrátil ou em linha) + conectores compatíveis.
- Ponto-chave: verificar folga abaixo (distância livre) considerando comprimento do sistema, abertura do absorvedor (se houver), altura do usuário e margem de segurança.
- Erro típico: usar talabarte longo sem considerar folga; conectar em ponto baixo aumentando queda livre; usar conector inadequado gerando carga cruzada.
4) Acesso por corda (visão geral quando aplicável)
Objetivo: acessar e trabalhar suspenso por cordas com técnicas específicas. Em geral, envolve duas linhas (trabalho e segurança) e dispositivos próprios (descensores, bloqueadores, trava-quedas em linha), além de treinamento e procedimentos específicos.
- Componentes em visão geral: cinturão paraquedista (muitas vezes com assento/cadeirinha conforme sistema) + dispositivos de progressão/descida + trava-quedas em linha de segurança + conectores adequados + capacete com jugular.
- Ponto-chave: compatibilidade entre cordas e dispositivos (diâmetro, tipo), e redundância (linha principal e linha de segurança).
- Erro típico: improvisar com componentes não projetados para acesso por corda; misturar dispositivos incompatíveis com o diâmetro/material da corda.
Compatibilidade entre componentes: como evitar “misturas perigosas”
Mesmo com todos os itens certificados, o conjunto pode ficar inseguro se houver incompatibilidade mecânica ou funcional. Use os critérios abaixo antes de liberar o uso:
- Compatibilidade de conexão: o conector deve fechar completamente no ponto de ancoragem e no ponto do cinturão, sem ficar apoiado em quinas que forcem abertura ou carga lateral.
- Compatibilidade funcional: talabarte de posicionamento não substitui talabarte com absorvedor para retenção; trava-quedas deve ser do tipo e modelo compatível com a linha e com o ponto de conexão do cinturão.
- Compatibilidade dimensional: diâmetro de corda/linha conforme exigência do dispositivo; abertura do gancho adequada ao ponto de ancoragem; comprimento do talabarte adequado à folga.
- Compatibilidade com arestas: se houver risco de contato com bordas/arestas, verificar se o componente é aprovado para essa condição; caso contrário, prever proteção de aresta ou outro arranjo.
- Compatibilidade de uso simultâneo: evitar múltiplos elementos no mesmo conector quando isso gerar carga cruzada, interferência de travas ou risco de desconexão acidental.
Exemplos práticos: combinações corretas e incorretas
Exemplo 1 — Manutenção em cobertura com risco de alcançar a borda
Combinação correta (restrição): cinturão paraquedista + talabarte/linha de restrição ajustada para não permitir chegar à borda + conector compatível com ponto de ancoragem. Por que é correta: impede a queda (não há queda livre).
Combinação incorreta: cinturão paraquedista + talabarte longo “sobrando” que permite alcançar a borda. Problema: o sistema deixa de ser restrição e pode virar retenção sem absorvedor/sem folga calculada.
Exemplo 2 — Trabalho em estrutura com necessidade de mãos livres
Combinação correta (posicionamento + retenção quando necessário): cinturão paraquedista com argolas laterais + talabarte de posicionamento ajustável nas laterais e um segundo sistema de retenção (ex.: trava-quedas retrátil no dorsal) quando houver risco de queda. Por que é correta: posiciona para executar a tarefa e mantém proteção contra queda.
Combinação incorreta: usar apenas talabarte de posicionamento nas argolas laterais em local com possibilidade de queda livre. Problema: posicionamento não foi feito para absorver dinâmica de queda como sistema principal.
Exemplo 3 — Acesso vertical em escada fixa/estrutura
Combinação correta (retenção com menor queda livre): cinturão paraquedista + trava-quedas compatível com linha vertical (ou retrátil) + conectores adequados. Por que é correta: trava rapidamente e reduz distância de queda.
Combinação incorreta: usar trava-quedas em corda/linha de diâmetro incompatível ou invertido (sentido errado). Problema: pode não travar no momento correto.
Exemplo 4 — Conectores e pontos de ancoragem
Combinação correta: gancho com abertura adequada ao ponto de ancoragem, fechando totalmente, com trava funcionando e sem interferência. Por que é correta: mantém resistência no eixo principal e reduz risco de abertura acidental.
Combinação incorreta: conector “forçado” em olhal pequeno, ficando parcialmente aberto, ou com carga cruzada. Problema: perda significativa de resistência e risco de falha.
Passo a passo prático: seleção do SPIQ antes da atividade
Passo 1 — Defina o modo de proteção exigido
- Se for possível impedir que o trabalhador alcance a borda: priorize restrição.
- Se a tarefa exige sustentação para mãos livres: considere posicionamento (e avalie necessidade de retenção adicional).
- Se existe chance real de queda: selecione retenção de queda (talabarte com absorvedor ou trava-quedas).
- Se a execução for por cordas: aplicar acesso por corda com componentes específicos e redundância (visão geral).
Passo 2 — Escolha o cinturão correto e o ponto de conexão
- Verifique se o cinturão é tipo paraquedista e se possui pontos (dorsal/peitoral/laterais) adequados ao sistema.
- Selecione o ponto de conexão conforme orientação do fabricante do cinturão e do dispositivo (talabarte/trava-quedas).
Passo 3 — Selecione o elemento de ligação e estime a folga necessária
- Para retenção com talabarte: preferir talabarte com absorvedor quando aplicável.
- Para acesso vertical/movimentação: avaliar trava-quedas (retrátil ou em linha) compatível.
- Confirme se há distância livre suficiente abaixo considerando: comprimento do talabarte/dispositivo, possível abertura do absorvedor, altura do ponto de conexão no corpo e margem de segurança.
Passo 4 — Garanta compatibilidade dos conectores e do ponto de ancoragem
- Teste o encaixe: o conector deve fechar e travar sem esforço anormal.
- Evite carga cruzada: o conector deve trabalhar no eixo principal.
- Evite “duas peças brigando” no mesmo conector: se houver interferência, use arranjo previsto (ex.: conectores dedicados, pontos separados).
Passo 5 — Verifique EPIs complementares conforme riscos da tarefa
- Capacete com jugular ajustada.
- Óculos/luvas/calçado conforme superfície e ferramentas.
- Proteções adicionais conforme ambiente (ruído/poeira).
Guia de verificação: CA, inspeção, ajustes e ergonomia
1) Conferência de CA e identificação
- Localize a etiqueta do EPI e confirme CA válido (Certificado de Aprovação) e identificação do fabricante/modelo.
- Verifique se o item está dentro do prazo/condição de uso conforme política interna e recomendações do fabricante (vida útil, histórico de inspeções).
- Não use EPI sem identificação legível.
2) Inspeção visual e tátil (antes de cada uso)
- Fitas e costuras: procurar cortes, desgaste por abrasão, fibras soltas, queimaduras, manchas de produtos químicos, costuras rompidas.
- Partes metálicas: deformação, trincas, corrosão, rebarbas, funcionamento de travas e molas.
- Absorvedor: verificar se há sinais de acionamento (rasgo/abertura) ou danos; se acionado, retirar de uso.
- Trava-quedas retrátil: testar recolhimento e travamento conforme instrução do fabricante (sem “trancos” anormais).
- Capacete: casco sem trincas, suspensão íntegra, jugular e fechos funcionando.
3) Ajuste correto do cinturão (checklist rápido)
- Cintura e peitoral: firmes, sem comprimir excessivamente a respiração.
- Perneiras: ajustadas para não “correr” nem gerar pontos de pressão; permitir mobilidade.
- Ponto dorsal: na posição correta nas costas (nem muito baixo nem deslocado lateralmente).
- Sobras de fita: organizadas nos passadores para não enroscar.
4) Ergonomia e usabilidade (evitar fadiga e erros)
- Escolha talabartes/dispositivos que permitam a movimentação necessária sem improvisos (ex.: comprimento adequado, ajuste fácil com luvas).
- Evite conexões em locais que obriguem o trabalhador a operar o conector “no tato” sem visibilidade; prefira arranjos que facilitem inspeção.
- Se o trabalho envolver permanência suspensa/posicionada, avalie acessórios e configurações que reduzam desconforto (sempre conforme sistema previsto e compatível).
5) Critérios de reprovação imediata (retirar de uso)
- Etiqueta/CA ilegível ou ausente.
- Costuras danificadas, fitas cortadas, queimadas ou com desgaste severo.
- Conectores com trava falhando, deformados ou com corrosão relevante.
- Absorvedor com indício de acionamento.
- Trava-quedas com funcionamento irregular (não recolhe, não trava no teste previsto).