NR-35 para Iniciantes: Condições Impeditivas e Critérios para Suspender a Atividade com Segurança

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que são condições impeditivas (e por que elas existem)

Condições impeditivas são situações objetivas que tornam o trabalho em altura inseguro naquele momento, mesmo que a equipe esteja treinada e usando EPI. Elas podem surgir antes do início da atividade (no checklist do turno) ou durante a execução (mudança de clima, interferências, falha de equipamento, etc.). A regra prática é: se a condição elimina ou reduz de forma relevante a eficácia das medidas de controle (proteções coletivas, ancoragens, sistemas de acesso, comunicação, resgate), a atividade deve ser suspensa até correção.

Na prática, “suspender” não significa abandonar o local de forma abrupta: significa interromper a execução, estabilizar a situação e retirar a equipe de forma segura, com comunicação e registro.

Condições impeditivas mais comuns (o que observar e como decidir)

1) Clima: vento, chuva, tempestade e calor extremo

  • Vento forte: aumenta risco de desequilíbrio, efeito “vela” em lonas/chapas, oscilação de plataformas e dificuldade de manuseio de ferramentas. Gatilho objetivo: rajadas que dificultem manter postura estável, movimentem materiais soltos ou impeçam comunicação normal. Se houver anemômetro disponível, use o limite definido no procedimento interno do local.
  • Chuva/garoa: reduz atrito em pisos, escadas, telhados e estruturas metálicas; aumenta risco de escorregamento e de falhas em conexões. Gatilho objetivo: superfície molhada sem controle (tapetes antiderrapantes, passarelas, proteção), gotejamento sobre área de acesso, ou necessidade de caminhar sobre cobertura lisa.
  • Tempestade/raios: risco crítico em estruturas elevadas e metálicas. Gatilho objetivo: presença de relâmpagos/ trovões na região ou alerta meteorológico local; suspender imediatamente e descer pela rota mais segura.
  • Calor extremo: aumenta fadiga, desidratação e erros. Gatilho objetivo: sinais de exaustão (tontura, confusão, câimbras), pausas insuficientes, ou impossibilidade de hidratação/descanso conforme procedimento.

2) Iluminação insuficiente e ofuscamento

  • Baixa iluminância: dificulta leitura de pontos de ancoragem, inspeção de conectores, identificação de bordas e obstáculos. Gatilho objetivo: não conseguir inspecionar visualmente mosquetões, talabartes, linhas de vida e piso de circulação sem “adivinhar”.
  • Ofuscamento: sol baixo ou refletores mal posicionados podem “apagar” degraus e bordas. Gatilho objetivo: necessidade de fechar os olhos/virar o rosto para caminhar ou conectar-se.

3) Integridade de estruturas e superfícies de trabalho

  • Estrutura com corrosão, trincas, deformações, fixações soltas: risco de colapso local ou falha de ponto de apoio/ancoragem. Gatilho objetivo: qualquer deformação visível, ruído anormal, vibração excessiva, parafusos faltantes, soldas trincadas, guarda-corpo frouxo, piso “cedendo”.
  • Coberturas frágeis (telhas translúcidas, fibrocimento, áreas não projetadas para carga): risco de ruptura. Gatilho objetivo: ausência de passarela/plataforma apropriada ou sinalização de fragilidade sem proteção coletiva instalada.
  • Escadas, andaimes, plataformas: componentes faltantes, travamentos ausentes, rodízios sem trava, piso danificado. Gatilho objetivo: qualquer item fora de conformidade do fabricante ou do checklist do equipamento.

4) Interferências e simultaneidade de atividades

  • Tráfego de pessoas/veículos sob a área: risco de queda de objetos e colisões com equipamentos de acesso. Gatilho objetivo: área abaixo sem isolamento efetivo ou com circulação não controlada.
  • Trabalhos simultâneos (solda, jateamento, içamento, movimentação de cargas): risco de projeções, calor, fumaça, impacto e perda de visibilidade. Gatilho objetivo: içamento passando sobre a equipe, faíscas atingindo linhas/cordas, poeira impedindo visão de conexões.
  • Interferência elétrica: proximidade de rede energizada ou equipamentos com cabos expostos. Gatilho objetivo: distância insegura não controlada, ausência de bloqueio/etiquetagem quando aplicável, ou identificação de condutor exposto.

5) Fadiga, mal-estar e limitação física momentânea

  • Fadiga reduz atenção e coordenação motora. Gatilho objetivo: bocejos frequentes, lentidão, erros repetidos em tarefas simples (ex.: conectar mosquetão errado), tremores, dificuldade de manter equilíbrio.
  • Mal-estar (tontura, náusea, dor intensa): aumenta risco de queda e falha de julgamento. Gatilho objetivo: qualquer sintoma que impeça execução estável e comunicação clara.

6) Uso de substâncias e medicamentos que alteram reflexos

  • Álcool e drogas: risco crítico por alteração de julgamento e coordenação. Gatilho objetivo: suspeita fundamentada (odor, fala arrastada, instabilidade) ou teste/controle interno previsto.
  • Medicamentos sedativos/ansiolíticos/antialérgicos: podem causar sonolência. Gatilho objetivo: sonolência, reflexos lentos, dificuldade de foco; aplicar procedimento interno de aptidão para a tarefa.

7) Falta de ancoragem/ponto de conexão seguro

  • Ausência de ponto de ancoragem adequado ao sistema utilizado: não há como garantir retenção de queda. Gatilho objetivo: necessidade de “improvisar” (amarrar em tubulação fina, guarda-corpo não projetado, estrutura sem verificação).
  • Linha de vida indisponível/inoperante: sem possibilidade de conexão contínua. Gatilho objetivo: trechos onde o trabalhador ficaria desconectado para progredir.

8) Equipamentos inadequados, danificados ou incompatíveis

  • Cinturão, talabarte, trava-quedas, conectores com desgaste, cortes, deformações, travas falhando. Gatilho objetivo: qualquer falha no teste funcional (trava do mosquetão não fecha/ não trava; costuras danificadas; absorvedor acionado).
  • Incompatibilidade de sistema: conectores que não assentam corretamente, risco de carga transversal, talabarte curto/long demais para a geometria, trava-quedas incompatível com a linha. Gatilho objetivo: conexão “forçada”, mosquetão trabalhando de lado, ou necessidade de adaptar com nós/peças não previstas.
  • Ferramentas sem retenção quando há risco de queda de objetos. Gatilho objetivo: ferramentas soltas acima de pessoas/áreas sensíveis sem cordins/bolsas apropriadas.

9) Ausência de autorização, isolamento e controles administrativos essenciais

  • Sem liberação formal quando exigida pelo local (permissão de trabalho, autorização de acesso, etc.). Gatilho objetivo: documento obrigatório não emitido/expirado ou condições do documento não atendidas.
  • Isolamento insuficiente: área abaixo e entorno sem barreiras, sinalização e controle de acesso. Gatilho objetivo: pessoas circulando sob a atividade ou barreiras facilmente transpostas.
  • Sem comunicação definida (rádio, sinais, contato visual) em atividade crítica. Gatilho objetivo: perda de comunicação com equipe de apoio/supervisão quando isso é requisito do procedimento.

Procedimento decisório para suspender a atividade com segurança (passo a passo)

Passo 1 — Identificar e declarar a condição impeditiva

Ao perceber uma condição impeditiva, o trabalhador deve interromper a tarefa e verbalizar o motivo de forma objetiva (o que foi visto e qual risco gerou). Use frases curtas e verificáveis, por exemplo: “Linha de vida com dano aparente”, “Chuva deixou a passarela escorregadia”, “Área abaixo sem isolamento”.

Passo 2 — Comunicar imediatamente pelos canais definidos

Comunique ao responsável local (supervisor, encarregado, vigia/observador quando houver) e à equipe envolvida. Se houver rádio, confirme recebimento. Se a condição afetar terceiros (ex.: isolamento), comunique também quem controla a área (operação, segurança patrimonial, tráfego interno).

Passo 3 — Tornar a situação estável antes de descer/retirar

  • Parar movimentos de risco: interromper içamentos relacionados, desligar ferramentas que gerem vibração/projeção, cessar deslocamentos desnecessários.
  • Manter conexão: se estiver conectado a um sistema de proteção contra quedas, permaneça conectado até alcançar um ponto seguro.
  • Organizar materiais: evitar deixar ferramentas soltas; usar bolsas/cordins; não arremessar itens.

Passo 4 — Sinalizar e isolar a área

Se a condição impeditiva envolver risco para terceiros (queda de objetos, instabilidade estrutural, interferência de tráfego), reforce o isolamento com barreiras e sinalização. Se não houver recursos imediatos, solicite apoio e mantenha controle de acesso até a instalação.

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Passo 5 — Retirada segura (descida/retorno) pela rota mais controlada

  • Use a rota prevista e mantenha progressão controlada (sem pressa).
  • Se a condição impeditiva for no acesso (ex.: escada escorregadia), utilize alternativa segura (plataforma, outro acesso) ou aguarde correção.
  • Em caso de tempestade/raios, priorize reduzir exposição e sair de estruturas elevadas/metálicas.

Passo 6 — Registrar a suspensão e bloquear a retomada

Registre o motivo, local, horário, pessoas envolvidas e evidências (foto quando permitido). Identifique o que ficou pendente (ferramentas recolhidas, área isolada, equipamento segregado). Quando aplicável, segregue o equipamento defeituoso (etiqueta “não usar” e envio para inspeção/manutenção).

Passo 7 — Corrigir a causa e validar antes de retomar

A retomada só ocorre após a correção e uma verificação objetiva: iluminação instalada e testada, isolamento completo, ancoragem disponível e aprovada, equipamento substituído, interferência encerrada, condição climática normalizada, estrutura liberada. Se a correção alterar o método de execução, atualize as orientações operacionais do dia e comunique a equipe.

Checklist operacional de início de turno (trabalho em altura)

Use este checklist como rotina antes de subir. Ele ajuda a detectar condições impeditivas cedo, evitando interrupções no alto.

ItemVerificaçãoOK / NÃO OKAção se NÃO OK
ClimaSem chuva/vento forte/alerta de raios; previsão compatível com a duração da tarefaAdiar, reprogramar, instalar proteções adicionais se previsto
IluminaçãoÁrea de acesso e ponto de trabalho com visibilidade suficiente; sem ofuscamento críticoInstalar iluminação/reposicionar refletores
AcessoEscada/andaime/plataforma íntegros, travados, piso firme e limpoInterditar e substituir/corrigir
EstruturaSem trincas, corrosão severa, deformações; guarda-corpos firmes quando existentesInterditar e solicitar avaliação/liberação
AncoragemPontos disponíveis, identificados e compatíveis; possibilidade de conexão contínuaNão iniciar; providenciar sistema adequado
EquipamentosCinturão, talabarte, conectores e trava-quedas inspecionados e funcionaisSegregar e substituir; registrar
FerramentasRetenção contra queda (cordins/bolsas) quando aplicável; organizaçãoProvidenciar retenção/organização antes de subir
InterferênciasSem içamento sobre a área; tráfego controlado; riscos elétricos controladosCoordenar parada/isolamento/bloqueio
IsolamentoBarreiras e sinalização instaladas; controle de acesso definidoInstalar/ajustar antes de iniciar
ComunicaçãoRádio/sinais combinados; contatos definidos; teste rápido realizadoRestabelecer canal e retestar
AptidãoEquipe descansada, hidratada, sem sinais de mal-estar; sem uso de substânciasSubstituir, pausar, acionar procedimento interno
AutorizaçãoLiberação/permissão exigida emitida e válida; condições atendidasNão iniciar; regularizar documentação/condições

Gatilhos objetivos para suspensão imediata (exemplos práticos)

  • Perda de conexão: qualquer situação em que o trabalhador precisaria se desconectar para progredir (sem alternativa segura).
  • Falha funcional de conector: mosquetão não fecha/trava ou apresenta deformação.
  • Absorvedor acionado ou talabarte com corte/queima/desgaste relevante.
  • Superfície escorregadia sem controle (chuva/óleo/poeira) no trajeto de acesso ou no ponto de trabalho.
  • Raios/trovões na região ou alerta meteorológico local durante atividade em estrutura elevada.
  • Isolamento rompido: pessoas circulando sob a área de trabalho ou barreiras removidas.
  • Interferência de içamento: carga passando sobre a equipe ou movimentação sem coordenação.
  • Indício de instabilidade estrutural: estalos, vibração anormal, guarda-corpo solto, piso cedendo.
  • Iluminação insuficiente a ponto de impedir inspeção visual de conexões e bordas.
  • Sinais de fadiga/mal-estar que afetem equilíbrio, atenção ou comunicação.
  • Suspeita de substância com alteração perceptível de coordenação/conduta.
  • Ausência de autorização obrigatória ou condições da autorização não atendidas.

Modelos rápidos de comunicação e registro (para padronizar a suspensão)

Mensagem de rádio/voz (padrão)

“Suspender atividade em altura no ponto [local]. Motivo: [condição objetiva]. Risco: [queda/colapso/queda de objetos/interferência]. Ação imediata: [interrompendo e iniciando retirada segura]. Solicito: [isolamento/manutenção/liberação/iluminação/ancoragem].”

Registro mínimo (o que não pode faltar)

  • Data e horário da suspensão
  • Local exato (estrutura, nível, acesso)
  • Condição impeditiva observada (descrição objetiva)
  • Quem identificou e quem foi comunicado
  • Ações tomadas (sinalização, retirada, segregação de equipamento)
  • Medida corretiva necessária e responsável
  • Critério de validação para retomada (o que será verificado)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao identificar uma condição impeditiva durante o trabalho em altura, qual conduta melhor representa a forma correta de suspender a atividade com segurança?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A suspensão segura envolve interromper, comunicar, estabilizar antes de descer (mantendo conexão e controlando materiais), isolar quando houver risco a terceiros e registrar para bloquear a retomada até correção e validação.

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