NR-35 para Iniciantes: Acesso, Circulação e Posto de Trabalho em Altura com Controle de Quedas

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Conceito: acesso, circulação e posto de trabalho com controle de quedas

Em trabalho em altura, grande parte dos incidentes acontece antes mesmo de “começar a tarefa”: ao subir, descer, transitar e se posicionar. Por isso, acesso (como chegar), circulação (como se mover) e posto de trabalho (como permanecer e executar) devem ser organizados para reduzir a exposição à queda e evitar escorregões, tropeços e perda de equilíbrio.

O objetivo prático é garantir três condições ao longo de todo o percurso e durante a execução:

  • Estabilidade: estruturas firmes, niveladas, com capacidade e travamentos adequados.
  • Pontos de apoio: mãos e pés sempre com apoio seguro (preferencialmente “três pontos de contato” em escadas) e guarda-corpos onde aplicável.
  • Movimentação controlada: rotas definidas, transições planejadas e posicionamento que minimize alcance excessivo e deslocamentos desnecessários.

Organização do acesso: escadas, plataformas, andaimes, passarelas e estruturas fixas

1) Escadas (portáteis e fixas): uso seguro e estabilidade

Escadas são meios de acesso, não “posto de trabalho” (salvo situações específicas e controladas). A segurança depende de instalação correta, apoio firme e forma de subir/descer.

  • Base firme e nivelada: evitar apoiar em piso escorregadio, irregular ou sobre materiais soltos. Se necessário, usar sapatas antiderrapantes e niveladores apropriados.
  • Ângulo adequado (escada de encosto): regra prática 4:1 (para cada 4 m de altura, 1 m de afastamento da base).
  • Fixação/amarração: sempre que possível, prender a escada no topo e/ou na base para evitar deslizamento lateral ou recuo.
  • Prolongamento acima do patamar: a escada deve ultrapassar o nível de desembarque o suficiente para permitir pegada segura na transição.
  • Três pontos de contato: ao subir/descer, manter duas mãos e um pé, ou duas pernas e uma mão, evitando carregar volumes que impeçam a pegada.
  • Degraus limpos e secos: lama, graxa, poeira e tinta aumentam risco de escorregão; limpar antes do uso.
  • Proibição de improvisos: não usar escada danificada, com degraus empenados, montantes trincados ou travas defeituosas.

Passo a passo: como preparar uma escada de encosto para acesso

  1. Escolha o local: piso firme, sem tráfego de veículos e sem portas abrindo contra a escada.
  2. Posicione no ângulo 4:1 e confirme que os montantes estão apoiados igualmente.
  3. Trave e estabilize: use travas, sapatas e, se possível, amarre no topo.
  4. Verifique a área de desembarque: patamar livre, sem obstáculos e com ponto de apoio para as mãos.
  5. Defina a regra de subida: uma pessoa por vez, sem transportar ferramentas soltas nas mãos (usar bolsa, cinto ou sistema de içamento).

2) Plataformas de trabalho: permanência segura e guarda-corpos

Plataformas (fixas ou móveis) devem permitir execução com postura estável, área suficiente e proteção coletiva contra queda.

  • Guarda-corpo completo: travessão superior, intermediário e rodapé, quando aplicável ao risco de queda de pessoas e materiais.
  • Piso antiderrapante: preferir superfícies com aderência; evitar acúmulo de água, óleo e resíduos.
  • Acesso integrado: escada marinheiro, escada interna ou acesso projetado para a plataforma; evitar “pular” ou subir por estruturas não destinadas.
  • Capacidade de carga: respeitar limite de pessoas, ferramentas e materiais; distribuir carga para não concentrar peso em bordas.
  • Bloqueio de movimentação (plataformas móveis): travar rodízios e estabilizadores antes de subir.

3) Andaimes: montagem, circulação e prevenção de quedas e tropeços

Andaimes exigem atenção especial à estabilidade, ao piso e ao acesso. Tropeços em pranchas mal assentadas e quedas por falta de guarda-corpo são falhas recorrentes.

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  • Base e nivelamento: usar sapatas, placas de base e niveladores; nunca apoiar diretamente em tijolos soltos, blocos instáveis ou calços improvisados.
  • Travamentos e amarrações: garantir contraventamentos e ancoragens conforme o tipo e altura do andaime.
  • Piso completo e fixado: pranchas/plataformas sem vãos perigosos, bem apoiadas e travadas para não bascular.
  • Acesso por escada interna: evitar subir pela estrutura externa do andaime.
  • Guarda-corpos e rodapés: instalar em todos os níveis de trabalho onde houver risco de queda.
  • Organização do nível: manter o piso livre de sobras de material, cabos e ferramentas.

Passo a passo: checklist rápido antes de usar um andaime

  1. Olhe a base: está nivelada, com sapatas e sem afundamento?
  2. Confirme travamentos: há contraventamentos e ancoragens onde necessário?
  3. Verifique o piso: está completo, sem vãos e sem peças soltas?
  4. Cheque proteção coletiva: guarda-corpo e rodapé instalados?
  5. Teste o acesso: escada interna firme e desembarque seguro?
  6. Observe housekeeping: sem cabos atravessando e sem materiais soltos?

4) Passarelas e passagens elevadas: circulação segura

Passarelas devem ser tratadas como “corredores” em altura: precisam de largura adequada, piso seguro e proteção lateral.

  • Guarda-corpos contínuos ao longo de todo o trajeto, sem interrupções em pontos críticos.
  • Piso antiderrapante e drenagem para evitar lâminas d’água.
  • Iluminação suficiente para enxergar desníveis, degraus e obstáculos.
  • Controle de obstáculos: proibir armazenamento temporário de materiais na passarela.
  • Sinalização de desníveis e marcação de bordas quando aplicável.

5) Estruturas fixas (escadas marinheiro, telhados, estruturas metálicas): pontos de apoio e transições

Estruturas fixas frequentemente induzem improvisos (pisar em vigas estreitas, usar mãos em superfícies cortantes, transitar por áreas sem piso). O controle depende de definir por onde se anda e onde se apoia.

  • Rotas autorizadas: delimitar caminhos seguros (ex.: passadiços, linhas de vida horizontais com pontos de conexão, áreas com piso resistente).
  • Superfícies de apoio: evitar caminhar sobre telhas frágeis, claraboias e chapas sem resistência; usar passarelas/tábuas de distribuição quando previsto.
  • Pontos de transição: planejar a passagem do acesso para o local de trabalho (ex.: da escada para a plataforma, da passarela para a estrutura) com apoio para as mãos e espaço para os pés.
  • Proteção contra cortes e abrasão: bordas vivas podem danificar cabos/linhas e também causar perda de pegada; prever proteção de arestas e rotas afastadas.

Definição de rotas de acesso, pontos de transição e posicionamento do trabalhador

Rotas de acesso: como escolher o “caminho mais seguro”

Uma rota segura reduz deslocamentos, evita cruzar áreas de risco e mantém o trabalhador em superfícies estáveis e protegidas.

  • Menos mudanças de nível: quanto mais transições (subir/descer, passar de escada para estrutura, etc.), maior a chance de erro.
  • Menos interferências: evitar rotas onde haja cabos, mangueiras, materiais e tráfego de pessoas.
  • Preferência por proteção coletiva: sempre que possível, escolher caminhos com guarda-corpos e pisos completos.
  • Compatibilidade com ferramentas: se a tarefa exige ferramentas volumosas, prever içamento/bolsa para não comprometer a subida.

Passo a passo: como mapear e padronizar uma rota de acesso

  1. Desenhe o percurso do ponto de partida até o posto de trabalho (incluindo retorno).
  2. Marque transições (ex.: escada → plataforma; plataforma → telhado; andaime → estrutura).
  3. Para cada transição, defina: onde colocar os pés, onde segurar com as mãos e qual a ordem de movimentos (um de cada vez).
  4. Elimine obstáculos do caminho (cabos, sobras, embalagens) e defina local de passagem de linhas/mangueiras.
  5. Padronize com sinalização simples (setas, barreiras físicas, fitas) e oriente a equipe a usar apenas a rota definida.

Pontos de transição: onde ocorrem as quedas “na troca de apoio”

Transição é o momento em que o trabalhador muda de um sistema/estrutura para outra (ex.: sair da escada e pisar no patamar). É comum ocorrer perda de equilíbrio por falta de espaço, apoio inadequado ou pressa.

  • Crie um “patamar de transição”: área plana, limpa e com espaço para os dois pés antes de seguir.
  • Garanta apoio para as mãos: corrimão, pega-mão ou estrutura projetada para isso.
  • Evite degraus improvisados: nada de subir em travessas, rodapés, caixas ou partes do andaime que não sejam acesso.
  • Controle de linhas e cabos: transições não podem ter cabos atravessando onde o pé vai pisar.

Posicionamento do trabalhador: reduzir alcance, torção e deslocamento

Mesmo com acesso seguro, o posto de trabalho pode induzir quedas quando o trabalhador precisa “se esticar”, girar o corpo ou caminhar sobre bordas para alcançar o ponto de serviço.

  • Trabalhe de frente para a área de execução sempre que possível, evitando torções do tronco.
  • Mantenha o centro de gravidade dentro da base de apoio: não ultrapassar a linha do guarda-corpo, não apoiar o corpo para fora.
  • Reposicione a plataforma (andaime/plataforma móvel) em vez de “alcançar demais”.
  • Altura correta de trabalho: ajustar nível do piso para que a tarefa fique entre a altura da cintura e do peito, reduzindo necessidade de subir em degraus improvisados.

Organização do posto de trabalho: ferramentas, linhas, cabos e housekeeping

Housekeeping em altura: o que muda em relação ao chão

Em altura, um pequeno objeto no piso vira risco de tropeço; um cabo solto vira risco de enrosco; uma ferramenta sem retenção vira risco de queda de objetos. Housekeeping deve ser planejado antes de subir.

  • Ferramentas com retenção: usar talabarte de ferramenta quando houver risco de queda de objetos; manter itens pequenos em bolsas fechadas.
  • Separação de áreas: definir “zona de trabalho” (onde ficam ferramentas em uso) e “zona de passagem” (sempre livre).
  • Gestão de cabos e mangueiras: passar por laterais, suspender quando possível, usar presilhas/abraçadeiras e evitar cruzar rotas de circulação.
  • Controle de sobras: embalagens, arames, abraçadeiras e recortes devem ir para recipiente próprio, não para o piso.
  • Superfície limpa: remover poeira fina, respingos de óleo, lama e água; se não for possível, aplicar medida de contenção (tapetes antiderrapantes, absorventes, bloqueio da área).

Passo a passo: montagem de um posto de trabalho organizado em uma plataforma/andaime

  1. Defina o layout: onde o trabalhador fica, onde ficam ferramentas, e por onde se circula.
  2. Crie uma área de passagem com largura livre e sem cruzamento de cabos.
  3. Instale pontos de apoio para ferramentas: bolsa, bandeja presa, gancho; evite apoiar em guarda-corpo.
  4. Roteie cabos/mangueiras: prenda nas laterais, com folga controlada para não tracionar nem formar laços.
  5. Separe um recipiente de resíduos (saco/caixa fixada) para descarte imediato.
  6. Faça uma varredura final: piso sem peças soltas, sem vãos, sem ferramentas espalhadas.

Boas práticas para evitar escorregões e tropeços

  • Calçado e piso: sola compatível com a superfície; atenção extra em metal molhado, poeira de cimento e tinta fresca.
  • Degraus e desníveis: marcar e manter visíveis; não cobrir com cabos ou materiais.
  • Movimentação com carga: preferir içamento/bolsa; se precisar transportar, manter uma mão livre para apoio e carga junto ao corpo.
  • Comunicação: avisar antes de mover andaime/plataforma, abrir portinhola de acesso ou deslocar materiais que alterem o caminho.

Estudos de caso (com melhorias aplicáveis)

Caso 1: Tropeço em andaime por cabos atravessando o piso

Cenário: equipe executando fixação de suportes em fachada. Extensão elétrica e mangueira de ar comprimido atravessavam a área de passagem no nível do andaime. Um trabalhador tropeçou ao recuar para pegar ferramenta, quase caindo contra o guarda-corpo.

Causas prováveis:

  • Ausência de rota de circulação definida no nível.
  • Cabos sem roteamento e sem fixação lateral.
  • Ferramentas espalhadas no piso, exigindo deslocamentos frequentes.

Melhorias implementadas:

  • Criação de corredor de passagem livre (faixa delimitada) e realocação do ponto de trabalho para reduzir recuos.
  • Roteamento de cabos pela lateral interna do andaime com presilhas a cada trecho, mantendo folga controlada.
  • Uso de bolsa de ferramentas e bandeja fixada, reduzindo idas e voltas.
  • Rotina de limpeza por etapa: ao finalizar cada conjunto de suportes, recolher sobras e organizar cabos antes de avançar.

Caso 2: Transição insegura da escada para o telhado

Cenário: manutenção em cobertura. A escada de encosto terminava abaixo do beiral, exigindo que o trabalhador “puxasse o corpo” para subir no telhado. Havia poeira e folhas no ponto de desembarque.

Causas prováveis:

  • Escada sem prolongamento suficiente acima do patamar.
  • Falta de ponto de apoio para as mãos na transição.
  • Superfície suja no desembarque, aumentando risco de escorregão.

Melhorias implementadas:

  • Substituição por escada com comprimento adequado para ultrapassar o nível de acesso e permitir pegada segura.
  • Instalação de ponto de apoio (pega-mão/estrutura apropriada) no local de transição.
  • Limpeza do ponto de desembarque e implantação de tapete/placa antiderrapante temporária onde aplicável.
  • Padronização da rota: acesso somente pelo ponto definido, com inspeção visual do desembarque antes de cada subida.

Caso 3: Posto de trabalho desorganizado em plataforma elevatória (ferramentas soltas)

Cenário: instalação elétrica em altura usando plataforma elevatória. Ferramentas estavam no piso da cesta; ao movimentar a plataforma, itens rolavam e encostavam nos pés do operador, gerando risco de tropeço e queda de objetos.

Causas prováveis:

  • Ausência de sistema de retenção/armazenamento na cesta.
  • Excesso de ferramentas levadas “por garantia”.
  • Movimentação frequente sem checagem do piso da cesta.

Melhorias implementadas:

  • Uso de bolsa presa à estrutura da cesta e talabartes de ferramenta para itens críticos.
  • Aplicação do método “kit mínimo”: levar apenas o necessário para a etapa.
  • Rotina rápida: antes de qualquer deslocamento, piso da cesta limpo e ferramentas guardadas.
  • Definição de zona de passagem dentro da cesta (área livre para os pés) e zona de ferramentas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar o acesso e a circulação em trabalho em altura, qual medida reduz diretamente o risco de queda durante pontos de transição (ex.: sair da escada e pisar no patamar)?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quedas na transição ocorrem por falta de espaço, apoio inadequado e obstáculos. Um patamar plano e limpo, com pega-mão e sem cabos na área de pisada, melhora estabilidade e controle dos movimentos.

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