O que você vai inspecionar no freio a tambor
No freio a tambor, a frenagem acontece quando as lonas (presas às sapatas) são empurradas contra a superfície interna do tambor. A inspeção correta depende de observar três áreas: (1) lonas/sapatas, (2) tambor, e (3) mecanismo interno (came/expansor, pivôs, molas e vedações). O objetivo é identificar desgaste, contaminação e travamentos que reduzem a eficiência e podem causar travamento de roda ou perda de frenagem.
Abertura do conjunto e registro do posicionamento das molas
Antes de remover qualquer peça
- Trabalhe com o conjunto limpo por fora: remover excesso de poeira e barro da região do cubo/espelho ajuda a evitar que sujeira entre no mecanismo ao abrir.
- Alivie o acionamento: deixe o cabo/varão com folga (ajuste no manete/pedal e/ou no esticador do tambor) para que as sapatas não fiquem “abertas” ao retirar a roda/tambor.
- Registre a montagem: antes de soltar molas, faça fotos nítidas do conjunto por ângulos diferentes, focando: posição das molas (superior/inferior), sentido de encaixe, posição da alavanca do came e como as sapatas assentam nos pivôs.
Como abrir com segurança
O conjunto pode estar no cubo da roda (tambor integrado) e as sapatas ficam no espelho (placa de freio). Ao separar roda e espelho, as sapatas e molas ficam expostas. Ao lidar com as molas, evite puxões bruscos: elas têm tensão e podem escapar.
- Separação do conjunto: remova a roda conforme o procedimento do modelo e separe o espelho do cubo com cuidado para não forçar o retentor/vedação.
- Controle das molas: ao remover sapatas, segure-as firmemente e use ferramenta adequada para molas (ou alicate apropriado) para não deformar ganchos e nem “lançar” a mola.
- Ordem prática: normalmente é mais fácil retirar as sapatas como um conjunto (sapata + sapata + molas) e depois desmontar na bancada, mantendo referência visual do que era “lado came” e “lado pivô”.
Dica de marcação rápida
Se as duas sapatas forem visualmente semelhantes, marque discretamente com caneta de tinta (na parte metálica, nunca na lona) qual estava do lado do came e qual do lado do pivô. Isso ajuda a comparar padrões de desgaste e evita inversões na remontagem quando o fabricante não especifica troca de posição.
Inspeção das lonas/sapatas: o que observar e como decidir
1) Espessura útil da lona
A lona é o material de atrito rebitado ou colado na sapata. A espessura mínima varia por fabricante; quando não houver especificação disponível, use como regra prática: não trabalhar com lona próxima do limite e evitar chegar ao ponto em que rebites/metal possam tocar o tambor.
- Como medir: use paquímetro para medir a espessura do material de atrito (sem incluir a sapata metálica). Meça em mais de um ponto (centro e extremidades).
- O que é aceitável: espessura uniforme e com “margem” antes do limite. Se estiver muito fina, programe substituição do par.
2) Desgaste em cunha (desgaste irregular)
Desgaste em cunha é quando uma extremidade da lona está mais gasta que a outra. Isso costuma indicar desalinhamento, came/pivô com movimento irregular, retorno fraco por mola, ou contato desigual com o tambor.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Como identificar: compare a espessura nas duas pontas da mesma sapata e compare uma sapata com a outra.
- O que fazer: se houver cunha evidente, além de trocar as sapatas, investigue o mecanismo interno (came, pivôs, molas e assentamentos) e o estado do tambor (ovalização/pontos de contato).
3) Contaminação por óleo ou graxa
Óleo/graxa na lona reduz drasticamente o atrito e pode causar perda de frenagem e “puxadas”. Contaminação geralmente vem de retentor do cubo, vedação do eixo, excesso de lubrificação no came/pivôs ou vazamento próximo (em alguns modelos, também pode haver contaminação por óleo de corrente arremessado).
- Sinais típicos: lona escurecida e brilhante, odor forte, toque “oleoso”, poeira de freio formando pasta.
- Conduta: em geral, sapata contaminada deve ser substituída. Limpeza pode até remover sujeira superficial, mas o óleo tende a impregnar o material de atrito, retornando o problema e comprometendo a segurança.
4) Descolamento, trincas e vitrificação
- Descolamento: em sapatas coladas, procure bordas levantadas, “bolhas” ou áreas soltas. Qualquer descolamento é motivo para troca imediata.
- Trincas: fissuras no material de atrito ou na base indicam fadiga térmica/impacto. Troque o par.
- Vitrificação (vidrado): superfície muito lisa e brilhante pode indicar superaquecimento e perda de atrito. Se for leve, pode estar associada a uso severo; ainda assim, avalie junto com manchas de calor no tambor e a causa do aquecimento (ajuste, retorno, travamento do came).
Tabela de decisão rápida (lona/sapata)
| Achado | Risco | Ação recomendada |
|---|---|---|
| Espessura baixa ou próxima do limite | Perda de frenagem, dano ao tambor | Trocar o par de sapatas |
| Desgaste em cunha | Frenagem irregular, aquecimento | Trocar sapatas e inspecionar came/pivôs/tambor |
| Óleo/graxa na lona | Frenagem imprevisível | Trocar sapatas e investigar retentor/vedações e excesso de lubrificação |
| Descolamento/trincas | Falha súbita | Troca imediata |
Inspeção do tambor: superfície, geometria e sinais térmicos
1) Sulcos e riscos
Sulcos são canais na superfície interna do tambor causados por partículas abrasivas, rebites expostos ou material duro em contato.
- Como verificar: passe a unha levemente (sem forçar) e observe com luz lateral. Sulcos profundos tendem a gerar ruído e reduzir área de contato.
- Conduta: sulcos leves podem ser monitorados; sulcos profundos podem exigir retífica/substituição conforme limite de diâmetro interno permitido pelo fabricante.
2) Ovalização (tambor fora de redondeza)
Ovalização causa contato irregular: a roda pode frear “pulsando”, com vibração e variação de esforço no pedal/manete.
- Indícios práticos: marcas de contato em faixas alternadas, desgaste irregular nas lonas, sensação de pulsação.
- Verificação: o método correto envolve medição do diâmetro interno em diferentes posições (ex.: 0°/90°/180°/270°) com instrumento apropriado. Diferenças relevantes indicam ovalização.
3) Manchas de calor (superaquecimento)
Manchas azuladas/escurecidas e áreas com aspecto “queimado” indicam aquecimento excessivo, geralmente por ajuste muito apertado, retorno deficiente das sapatas, uso severo ou travamento do came.
- O que procurar: descoloração localizada, superfície com brilho irregular, cheiro de queimado e pó muito fino e escuro.
- Conduta: além de avaliar o tambor, investigue a causa (molas fracas, came travando, pivôs secos, acionamento sem folga).
4) Pontos de contato irregular
O contato ideal deixa uma marcação relativamente uniforme. Quando há pontos brilhantes isolados, significa que só parte da lona está tocando o tambor.
- Como identificar: observe áreas polidas em “ilhas” no tambor e compare com o padrão de desgaste das lonas.
- Possíveis causas: ovalização, sapatas empenadas, assentamento ruim nos pivôs, came com desgaste irregular, molas com tensão desigual.
Inspeção do mecanismo interno: came/expansor, pivôs e molas
1) Came/expansor: folga, travamento e desgaste
O came (ou expansor) é a peça que abre as sapatas quando você aciona o freio. Se ele travar ou trabalhar “duro”, o retorno pode ficar lento e o freio pode arrastar.
- Teste manual: com as sapatas removidas, movimente o came pela alavanca e sinta se há pontos duros, retorno lento ou folga excessiva.
- Inspeção visual: procure desgaste irregular na área de contato com as sapatas e sinais de corrosão no eixo do came.
2) Pivôs e pontos de apoio das sapatas
As sapatas giram/assentam em pivôs e apoios no espelho. Se houver oxidação, sujeira ou falta de lubrificação adequada, a sapata pode não retornar corretamente, causando arrasto e aquecimento.
- O que observar: marcas de atrito anormais, rebarbas, corrosão e “mordidas” no metal.
- Teste: posicione a sapata no pivô sem mola e verifique se ela se move livremente e assenta sem enroscar.
3) Molas de retorno: integridade e simetria
Molas fracas, deformadas ou com ganchos gastos reduzem o retorno das sapatas e favorecem arrasto.
- Inspeção: compare as molas entre si (comprimento, tensão aparente, corrosão). Procure espiras abertas, ganchos tortos e pontos de desgaste.
- Boa prática: se houver dúvida sobre tensão ou se as molas estiverem muito oxidadas, substitua junto com as sapatas.
Limpeza e lubrificação leve: onde pode e onde não pode
Limpeza do conjunto
- Remoção de pó: limpe o espelho, came e apoios com pano e produto adequado, evitando levantar poeira. Não use ar comprimido para “soprar” pó de freio.
- Tambor: limpe a superfície interna com limpador apropriado e pano sem fiapos, removendo resíduos e marcas de contaminação.
Lubrificação leve (sem contaminar a lona)
A lubrificação deve ser mínima e localizada, apenas em pontos metálicos de articulação/apoio. O erro mais comum é excesso de graxa, que migra para a lona e destrói a frenagem.
- Pontos típicos que podem receber filme fino: eixo do came (na região de giro), pontos de contato metálico das sapatas nos apoios/pivôs (apenas uma película), e articulação externa da alavanca do came (quando aplicável).
- Como aplicar: use cotonete/pincel pequeno para espalhar uma camada muito fina e depois remova excesso com pano. A peça deve ficar “lubrificada”, não “engordurada”.
- Onde não aplicar: nunca na lona, nunca na superfície interna do tambor, e nunca em áreas onde a força centrífuga possa lançar graxa para dentro do tambor.
Checagem do retentor do cubo e vedações quando houver indício de óleo
Se você encontrou lona contaminada ou óleo dentro do tambor, não basta trocar sapatas: é necessário localizar a origem.
- Inspecione o retentor do cubo: procure lábio ressecado, rasgos, deformação e sinais de vazamento ao redor do alojamento.
- Verifique o eixo e espaçadores: riscos no eixo/colar podem permitir passagem de óleo/graxa e também danificar o retentor novo.
- Observe o padrão do vazamento: óleo concentrado próximo ao centro do cubo sugere retentor/vedação; respingos mais externos podem indicar excesso de lubrificação aplicada no mecanismo ou contaminação externa.
- Conduta: ao confirmar falha de vedação, substitua retentor/vedações conforme o modelo e limpe completamente o tambor e o espelho antes de montar sapatas novas.
Passo a passo prático de inspeção (sequência recomendada)
- Separar tambor e espelho e fazer fotos do conjunto antes de mexer nas molas.
- Remover sapatas e molas controlando a tensão, mantendo referência de posição (lado came/lado pivô).
- Inspecionar lonas: espessura em vários pontos, cunha, contaminação, descolamento e trincas.
- Inspecionar tambor: sulcos, manchas de calor, áreas polidas irregulares e indícios de ovalização (medir se necessário).
- Testar came/expansor sem carga: movimento suave, sem travar, sem folga anormal.
- Checar pivôs/apoios: assentamento livre das sapatas e ausência de rebarbas/corrosão.
- Avaliar molas: corrosão, deformação e simetria; substituir se houver dúvida.
- Se houver óleo: inspecionar retentor/vedações e eixo; corrigir a causa antes de montar sapatas novas.
- Limpar e lubrificar levemente apenas pontos metálicos permitidos, removendo qualquer excesso.