NR-17 aplicada à realidade da Caixa: por que ergonomia é critério técnico e não “conforto”
Ergonomia, no contexto da NR-17, é o conjunto de requisitos e métodos para adaptar o trabalho às características psicofisiológicas do trabalhador, buscando desempenho seguro e eficiente, com redução de sobrecarga musculoesquelética e cognitiva. Em unidades da Caixa, isso se traduz em adequações objetivas em postos com computador (atendimento, retaguarda, administrativo), em tarefas com repetitividade (digitação, manuseio de documentos, autenticação), em demandas de atenção sustentada (conferência, análise) e em situações de pressão temporal (filas, metas, picos de atendimento).
Na prática, o médico do trabalho precisa articular três frentes: (1) identificar e qualificar queixas osteomusculares e sinais de alerta; (2) conduzir ou apoiar uma Análise Ergonômica do Trabalho (AET) com foco em fatores de risco reais (postura, repetição, força, organização, ambiente); (3) propor condutas clínicas e medidas organizacionais/engenharia com registro, prazos e acompanhamento de efetividade.
Postos típicos na Caixa e principais fatores de risco ergonômico
Atendimento/caixa com computador
- Postura estática prolongada (sentado com tronco inclinado, ombros elevados, punhos em extensão).
- Repetitividade (teclado/mouse, carimbos, manuseio de documentos, autenticação).
- Alcances inadequados (monitor lateral, teclado distante, telefone sem headset).
- Organização: picos de demanda, filas, interrupções frequentes, multitarefa.
- Ambiente: reflexos no monitor, iluminação excessiva, ruído, ar-condicionado direcionado.
Atividades administrativas/retaguarda
- Digitação e uso intensivo de mouse com baixa variabilidade de tarefas.
- Trabalho visual (telas múltiplas, leitura de documentos) com risco de fadiga ocular e cefaleia.
- Estações compartilhadas (hot desk) sem ajuste individual.
- Pressão por prazos e atenção sustentada (carga mental).
DORT/LMERT: como pensar clinicamente no contexto ocupacional
DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) é um termo guarda-chuva para quadros dolorosos e disfuncionais em membros superiores, coluna e cintura escapular associados a exposição ocupacional (repetição, postura, força, vibração, compressão, organização do trabalho e fatores psicossociais). Em banco, é comum a combinação de repetitividade + postura estática + alta demanda cognitiva.
Queixas frequentes e hipóteses comuns
- Punho/mão: tenossinovites, síndrome do túnel do carpo, dedo em gatilho.
- Cotovelo: epicondilalgia lateral/medial.
- Ombro: síndrome dolorosa do ombro, tendinopatias do manguito, bursites.
- Pescoço: cervicalgia mecânica, cefaleia cervicogênica.
- Coluna lombar: lombalgia mecânica por postura sentada prolongada e sedentarismo.
Sinais de alerta (red flags) que mudam a conduta
- Déficit neurológico: perda de força progressiva, atrofia, queda de objetos, alteração de marcha.
- Sintomas neurológicos importantes: parestesias persistentes noturnas, hipoestesia em dermátomos, dor irradiada com sinais radiculares.
- Sinais sistêmicos: febre, perda ponderal, dor noturna intensa não mecânica.
- Trauma recente ou suspeita de fratura/lesão aguda.
- Comprometimento funcional relevante: incapacidade de realizar AVDs, limitação importante de amplitude.
Na presença de red flags, priorize avaliação clínica completa, exames complementares quando indicados e encaminhamento oportuno (ortopedia, neurologia, reumatologia), sem “atribuir ao trabalho” de forma automática.
Diferenciais diagnósticos úteis na triagem
- Doenças inflamatórias (artrites, tendinites inflamatórias) vs. dor mecânica: rigidez matinal prolongada, múltiplas articulações, sinais sistêmicos.
- Neuropatias compressivas (túnel do carpo, compressão ulnar) vs. dor miofascial: padrão de parestesia, testes provocativos, piora noturna.
- Radiculopatias cervicais vs. dor de ombro: irradiação, alteração sensitiva/força, manobras específicas.
- Fibromialgia e dor crônica generalizada: dor difusa, fadiga, sono não reparador, hipersensibilidade.
- Fatores psicossociais modulando dor: estresse, ansiedade, baixa autonomia, conflitos, que podem amplificar sintomas e reduzir resposta a intervenções isoladas de mobiliário.
Triagem e avaliação de queixas osteomusculares: passo a passo aplicável na unidade
1) Anamnese dirigida (5–10 minutos, objetiva)
- Localização (mapa da dor), lateralidade, irradiação.
- Início e evolução: agudo/subagudo/crônico, relação temporal com mudanças de posto, aumento de demanda, horas extras, campanhas.
- Padrão: piora ao final do turno? melhora em folgas? piora noturna?
- Exposição: tempo em computador/dia, uso de mouse, número de atendimentos, pausas reais, alternância de tarefas, uso de headset.
- Fatores agravantes: postura, alcance, altura de monitor, apoio de antebraço, digitação intensa, pressão por tempo.
- História prévia: episódios anteriores, tratamentos, comorbidades (diabetes, hipotireoidismo, artrites).
- Impacto funcional: limitações no trabalho e fora dele (AVDs), sono, necessidade de medicação.
2) Exame físico focado (orientado por região)
- Inspeção: assimetrias, atrofia, edema, postura (cabeça anteriorizada, ombros elevados).
- Palpação: pontos dolorosos, tensão muscular, sinais inflamatórios.
- Amplitude de movimento ativa e passiva, dor ao movimento.
- Força segmentar e preensão palmar (comparativa).
- Exame neurológico quando houver parestesia: sensibilidade, reflexos, testes provocativos conforme suspeita.
3) Classificação de gravidade e decisão de conduta
- Leve: dor intermitente, sem déficit, melhora com repouso/ajustes simples.
- Moderada: dor frequente, impacto no desempenho, necessidade de intervenção combinada (clínica + organização + ergonomia).
- Grave: déficit neurológico, perda funcional importante, dor refratária, red flags.
4) Conexão com o trabalho (nexo técnico como hipótese, não rótulo)
Registre a hipótese de relação com o trabalho com base em: coerência entre sintomas e exposição (repetição/postura/tempo), melhora em afastamentos, piora em picos de demanda, e achados no posto. Evite conclusões sem AET ou sem avaliação do conjunto de fatores (inclusive extraocupacionais).
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Condutas clínicas e medidas no trabalho: o que costuma funcionar em banco
Medidas clínicas (individual)
- Educação: explicar mecanismo de sobrecarga, importância de microvariações posturais e pausas curtas.
- Analgesia/anti-inflamatórios quando indicados e sem contraindicações, por tempo limitado e com reavaliação.
- Fisioterapia: foco em controle de dor, mobilidade, fortalecimento de cintura escapular, estabilização cervical/lombar, treino funcional.
- Exercícios orientados (curtos e factíveis): mobilidade torácica, alongamentos leves, fortalecimento progressivo.
- Encaminhamentos conforme suspeita: ortopedia (lesões estruturais), neurologia (neuropatias/radiculopatias), reumatologia (inflamatórias), oftalmologia (fadiga visual persistente).
Medidas de organização do trabalho (coletivas e de gestão)
- Pausas programadas: preferir pausas curtas distribuídas (micro-pausas) a uma única pausa longa, especialmente em tarefas repetitivas e de atenção sustentada.
- Alternância de tarefas: intercalar atendimento/digitação com atividades de menor repetitividade (conferência em pé, organização de documentos, tarefas de orientação ao cliente), evitando blocos longos de mesma demanda motora.
- Gestão de picos: reforço de equipe em horários críticos, triagem de atendimento, escalas que evitem sobrecarga contínua.
- Metas e tempo: revisar indicadores que induzam aceleração contínua sem pausas; alinhar com liderança para permitir pausas reais.
- Treinamento: uso correto de headset, ajuste de cadeira/monitor, boas práticas de mouse/teclado.
Adaptações e recursos (engenharia/ambiente)
- Headset para quem usa telefone com frequência, evitando pinçamento cervical (telefone no ombro).
- Mouse adequado (tamanho compatível, pegada neutra), apoio de antebraço quando possível.
- Suporte de monitor e/ou ajuste de altura para alinhar campo visual.
- Apoio para os pés quando a altura da cadeira necessária para o teclado/mesa impedir apoio plantar.
- Controle de reflexos (posicionamento do monitor perpendicular a janelas, persianas, ajuste de luminárias).
Análise Ergonômica do Trabalho (AET) bem construída: estrutura prática
Uma AET útil para a Caixa não é apenas “checklist de cadeira”. Ela descreve o trabalho real (como é feito sob pressão, com interrupções e variabilidade), identifica determinantes de sobrecarga e propõe medidas com prioridade, responsáveis e critérios de verificação. O médico pode participar como demandante técnico, validador clínico e articulador com SESMT/ergonomia/gestão.
1) Definição do escopo e da demanda
- Qual unidade/setor e quais funções (caixa, atendimento, retaguarda, administrativo).
- Motivo: aumento de queixas, afastamentos, mudança de layout, implantação de sistema, reforma.
- População exposta: número de trabalhadores, turnos, postos compartilhados.
2) Levantamento de informações (documental e de campo)
- Dados de saúde: queixas recorrentes, regiões corporais, gravidade, recorrência, restrições.
- Organização: jornada, pausas praticadas, metas, picos, rotatividade, horas extras.
- Ambiente: iluminação, ruído, temperatura, reflexos, espaço.
- Equipamentos: modelos de cadeiras, mesas, monitores, periféricos, presença de headset.
3) Observação do trabalho real
- Mapear tarefas por blocos (ex.: atendimento, digitação, conferência, impressão, autenticação).
- Registrar posturas típicas e “posturas de exceção” (picos, filas, falhas de sistema).
- Identificar interrupções e multitarefa (alternância rápida entre teclado, mouse, documentos, telefone).
- Verificar alcances e apoios (antebraço, punho, apoio plantar).
4) Identificação de fatores de risco e priorização
- Biomecânicos: repetição, força, postura sustentada, compressão local, alcance.
- Cognitivos/organizacionais: pressão temporal, variabilidade, autonomia, pausas inviáveis.
- Ambientais: reflexos, iluminação inadequada, ruído, desconforto térmico.
Priorize intervenções por combinação de: gravidade do impacto (dor/afastamentos), número de pessoas expostas, facilidade de implementação e custo/benefício.
5) Plano de ação com recomendações verificáveis
- Recomendação descrita de forma objetiva (o que mudar, onde, para quem).
- Responsável (gestão local, manutenção, TI, compras, ergonomia).
- Prazo e etapa (piloto, expansão).
- Critério de sucesso (redução de queixas, adesão a pausas, ajuste de postos, indicadores de desconforto).
Checklist técnico de ajustes em estação com computador (NR-17 na prática)
Cadeira
- Altura ajustada para permitir pés apoiados no chão ou em apoio.
- Encosto com suporte lombar; orientar uso com tronco apoiado, evitando “sentar na ponta”.
- Assento com profundidade que não comprima a região poplítea (deixar folga atrás do joelho).
- Braços (se existentes) ajustados para apoiar sem elevar ombros; se atrapalharem aproximação da mesa, reavaliar ajuste/uso.
Mesa e espaço de trabalho
- Altura compatível com digitação com ombros relaxados e cotovelos próximos ao corpo.
- Espaço para aproximação do tronco e para movimentação de pernas.
- Itens de uso frequente dentro de alcance confortável (evitar torções repetidas).
Monitor
- Posicionado à frente, evitando rotação cervical contínua.
- Altura para manter pescoço neutro (evitar flexão sustentada); ajustar com suporte se necessário.
- Distância confortável para leitura sem projeção da cabeça à frente.
- Controle de reflexos: monitor perpendicular a janelas; uso de persianas quando aplicável.
Teclado e mouse
- Teclado alinhado ao corpo; punhos em posição neutra (evitar extensão sustentada).
- Mouse próximo ao teclado, reduzindo abdução de ombro e alcance.
- Alternar mão do mouse quando possível e treinável; considerar mouse vertical/ergonômico em casos selecionados.
- Evitar apoio rígido comprimindo punho/antebraço; preferir apoio de antebraço na mesa quando viável.
Iluminação e conforto ambiental
- Iluminação suficiente para leitura sem ofuscamento; ajustar luminárias e evitar reflexos diretos no monitor.
- Ruído: identificar fontes (fila, equipamentos) e medidas de mitigação quando possível.
- Temperatura: evitar fluxo de ar direto em pescoço/ombros (que pode aumentar desconforto muscular).
Pausas e alternância: como prescrever de forma aplicável
Recomendação genérica (“fazer pausas”) costuma falhar. O que funciona é prescrever como e quando, alinhado com a operação.
Modelo prático de micro-pausas
- Inserir pausas curtas e frequentes para reduzir carga estática e repetitiva (ex.: 30–60 segundos a cada bloco de trabalho contínuo), com mudança de postura e relaxamento de mãos/ombros.
- Em picos de atendimento, negociar “janelas” de pausa por revezamento entre postos.
- Orientar pausas ativas simples: abrir/fechar mãos, mobilidade cervical suave, retração escapular, levantar e caminhar brevemente.
Alternância de tarefas (job rotation inteligente)
- Alternar tarefas com demandas diferentes (motor fino vs. deslocamento/organização; tela intensa vs. atendimento presencial).
- Evitar alternância apenas nominal (trocar de tarefa mantendo a mesma postura e repetição).
- Planejar escala com blocos curtos em tarefas altamente repetitivas.
Como documentar recomendações e acompanhar efetividade
Registro mínimo recomendado (clínico e ergonômico)
- Queixa e hipótese: região, intensidade, padrão, relação com trabalho, fatores agravantes.
- Achados: exame físico direcionado, limitações funcionais, sinais de alerta ausentes/presentes.
- Exposição: tempo em computador, repetitividade, pausas, uso de telefone, posto compartilhado.
- Medidas propostas: clínicas (tratamento/encaminhamento) e no trabalho (ajustes, pausas, alternância, recursos).
- Critérios de reavaliação: prazo (ex.: 2–6 semanas), indicadores (dor, função, uso de medicação, tolerância ao turno).
Modelo de recomendação objetiva (exemplo)
Recomendação: adequar posto de trabalho com ajuste de cadeira (altura e encosto lombar), elevar monitor para alinhamento visual e disponibilizar headset para uso telefônico frequente. Implementar micro-pausas curtas distribuídas e alternância de tarefas em blocos ao longo do turno. Prazo: 15 dias para adequações físicas; 7 dias para ajuste de escala. Reavaliação médica: 30 dias, com registro de intensidade de dor e impacto funcional.Acompanhamento: o que medir para saber se funcionou
- Redução de intensidade/frequência de dor referida e melhora funcional.
- Adesão real a pausas e alternância (observação e feedback da equipe).
- Redução de uso de analgésicos por demanda e de recorrência de atendimentos.
- Correção mantida dos ajustes (especialmente em postos compartilhados).
Erros comuns na aplicação da NR-17 em postos bancários (e como evitar)
- Focar só no mobiliário e ignorar organização do trabalho: correção exige pausas viáveis, alternância e gestão de picos.
- Padronizar ajuste para todos: estação deve permitir regulagem e orientação individual, principalmente em hot desk.
- Recomendações sem responsável e prazo: sem plano de ação, a AET vira documento inerte.
- Tratar DORT apenas com medicação sem reduzir exposição: tende a cronificar e aumentar recorrência.
- Não reavaliar: ergonomia é ciclo de melhoria; ajustes precisam de verificação e correção.