O que a ECU faz “por trás” das leituras
A ECU (Unidade de Comando do Motor) recebe sinais de sensores, transforma esses sinais em valores numéricos (engenharia) e, a partir deles, consulta tabelas (mapas) e aplica estratégias de correção para comandar atuadores como injetores, bobinas, corpo de borboleta eletrônico, válvula de purga do cânister e atuadores de marcha lenta. Na prática, a ECU executa um ciclo repetitivo: medir → calcular → corrigir → comandar → monitorar.
Entradas e saídas: como a ECU “enxerga” o motor
- Entradas analógicas: variam continuamente (ex.: tensão do TPS, tensão do MAP, sinal do sensor de O2 tipo narrowband). A ECU lê por um conversor A/D (analógico-digital) e converte para unidades úteis.
- Entradas digitais: estados 0/1 ou pulsos (ex.: rotação via CKP, fase via CMP, chave de embreagem/freio, sinal de velocidade VSS em alguns sistemas). A ECU mede frequência, período e contagem de pulsos.
- Entradas resistivas: sensores NTC (ECT/IAT) mudam resistência com temperatura. A ECU aplica uma tensão de referência e mede a queda de tensão para inferir resistência/temperatura.
- Saídas: normalmente por PWM (controle por largura de pulso) ou comando on/off. Injetores e bobinas são comandados por drivers de potência, com tempos muito precisos.
Como a ECU converte sinais em valores (tensão, frequência, resistência)
1) Sensores de tensão (0–5 V): exemplo prático
Sensores como TPS, MAP (em muitos modelos) e alguns sensores de pressão entregam uma tensão proporcional. A ECU lê essa tensão e aplica uma curva de calibração (tabela) para obter o valor físico.
Exemplo (TPS): 0,5 V em borboleta fechada e 4,5 V em borboleta aberta. A ECU converte para % de abertura.
%TPS = (V_lida - V_fechada) / (V_aberta - V_fechada) * 100Se a tensão de “fechada” estiver fora do esperado (por desgaste, mau contato ou adaptação perdida), a ECU pode interpretar uma pequena abertura como maior do que é, alterando marcha lenta, enriquecimento e corte em desaceleração.
2) Sensores por frequência/pulsos: rotação e sincronismo
CKP e CMP geram pulsos. A ECU mede o tempo entre dentes (período) para calcular RPM e identificar posição do virabrequim.
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RPM ≈ 60 / (tempo_por_volta_em_segundos)Na prática, a ECU usa a contagem de dentes e falhas (rodas fônicas) para sincronizar ignição e injeção. Falhas no sinal (ruído, folga, sensor fraco) podem causar perda de sincronismo, cortes e falhas de combustão.
3) Sensores NTC (ECT/IAT): resistência virando temperatura
ECT (temperatura do motor) e IAT (temperatura do ar) são NTC: quanto mais quente, menor a resistência. A ECU mede a tensão no divisor resistivo e consulta uma tabela interna (resistência ↔ temperatura).
Sintoma típico de leitura errada: se o ECT “trava frio”, a ECU enriquece como se estivesse em aquecimento, elevando consumo e marcha lenta; se “trava quente”, pode empobrecer e dificultar partida a frio.
Mapas e tabelas: como a ECU decide o que fazer
Um mapa é uma tabela (geralmente 2D ou 3D) que retorna um valor base a partir de duas ou mais variáveis. Depois, a ECU aplica correções (temperatura, tensão da bateria, transientes, feedback da sonda, etc.).
Variáveis principais para calcular carga do motor
A ECU precisa estimar carga (quanto ar entra) para definir combustível e ignição. Os métodos mais comuns:
- Speed-density (MAP + RPM): usa pressão no coletor (MAP), rotação e temperatura do ar (IAT) para estimar massa de ar. Muito comum.
- MAF + RPM: usa medição direta de massa de ar (MAF). A rotação ajuda em filtros e plausibilidade.
Por que falhas em sensores deslocam o cálculo de carga:
- MAP lendo alto (pressão maior do que a real) → ECU entende mais carga → injeta mais combustível e pode atrasar/alterar ignição → consumo alto, fumaça, lenta pesada.
- MAP lendo baixo → ECU entende menos carga → mistura pobre, falta de potência, engasgos.
- MAF subestimando → mistura pobre, correções positivas de fuel trim, possível P0171.
- MAF superestimando → mistura rica, correções negativas, possível P0172.
- IAT/ECT incoerentes alteram densidade do ar e enriquecimentos, mudando a carga “calculada” e as correções.
Estratégias principais da ECU (com detalhes práticos)
1) Tempo de injeção (Pulse Width): do valor base às correções
O comando do injetor é o tempo em milissegundos que ele fica energizado (pulse width). A ECU parte de um valor base (mapa) e aplica correções.
Entradas típicas: carga (MAP/MAF), RPM, ECT, IAT, tensão da bateria, feedback da sonda (malha fechada), pressão de combustível (em sistemas com sensor), etanol/gasolina (quando flex com sensor/estratégia).
Correções comuns:
- Compensação por tensão da bateria: com tensão baixa, o injetor abre mais lentamente; a ECU aumenta o tempo para compensar.
- Enriquecimento de aquecimento: com ECT frio, aumenta PW para estabilidade e partida.
- Malha fechada (sonda): ajusta mistura em tempo real (STFT) e aprende correções (LTFT).
Exemplo prático: em lenta, um motor pequeno pode trabalhar com PW na faixa de ~2 a 4 ms (varia muito por projeto). Em aceleração leve, PW sobe de forma proporcional à carga.
2) Avanço de ignição: mapa base e correções
A ECU define o ponto de ignição em graus antes do PMS (BTDC). Existe um mapa base de avanço em função de carga e RPM, e várias correções:
- Temperatura do motor/ar: em alta temperatura, pode reduzir avanço para proteger contra detonação.
- Detonação (knock): ao detectar batida de pino, a ECU retarda o ponto e pode reaprender (estratégia adaptativa).
- Partida e marcha lenta: o avanço pode ser usado como “atuador” para estabilizar a lenta (controle fino de torque).
Sintoma quando cálculo de carga está errado: se a ECU “acha” que o motor está em carga alta, pode reduzir avanço e o carro fica fraco; se “acha” carga baixa, pode avançar demais e aumentar risco de detonação (dependendo do sistema e combustível).
3) Enriquecimento em aceleração (transiente)
Quando você acelera, o ar aumenta muito rápido. Parte do combustível pode “grudar” no coletor/parede (efeito de filme), e a sonda demora a responder. Por isso a ECU aplica enriquecimento transiente baseado principalmente em:
- ΔTPS (variação rápida do TPS) e/ou ΔMAP (mudança de pressão)
- RPM e temperatura
Falha típica: TPS com ruído ou “buracos” gera enriquecimento indevido (consumo alto, engasgos) ou falta de enriquecimento (buraco na aceleração).
4) Corte de combustível em desaceleração (DFCO)
No freio-motor, a ECU pode cortar injeção para economizar e reduzir emissões. Condições comuns para ativar DFCO:
- TPS em posição de fechado (ou abaixo de um limiar)
- RPM acima de um valor mínimo
- ECT acima de uma temperatura mínima (motor já aquecido)
- Velocidade do veículo acima de um limiar (em muitos sistemas)
O que acontece se algo falha:
- TPS indicando aberto mesmo com pedal solto → DFCO não entra → consumo maior e possível “pipoco” no escape.
- VSS ausente em sistemas que dependem dele → DFCO pode ficar limitado.
5) Controle de marcha lenta: ar + combustível + ignição
A marcha lenta é controlada por uma combinação de:
- Controle de ar: atuador de marcha lenta (IAC) ou borboleta eletrônica (ETC) ajusta a passagem de ar.
- Controle de combustível: PW ajustado para manter rotação estável.
- Controle de ignição: pequenas variações de avanço ajudam a estabilizar torque sem “caçar” tanto no ar.
Entradas importantes: ECT (lenta mais alta a frio), carga elétrica (farol, desembaçador), carga do A/C, direção hidráulica elétrica, tensão da bateria.
Sintomas comuns de estratégia “brigando”: lenta oscilando quando há ar falso, corpo de borboleta sujo, IAC travando, ou MAP/MAF incoerente. A ECU tenta corrigir, mas o erro de medição desloca o controle.
6) Diagnóstico a bordo (OBD): plausibilidade e monitoramento
Além de controlar, a ECU monitora se os sinais “fazem sentido” e se o resultado do controle está dentro do esperado. Ela usa:
- Testes elétricos: curto a positivo/terra, circuito aberto (ex.: sensor desconectado).
- Testes de plausibilidade: comparação entre sensores (ex.: TPS vs MAP, MAF vs MAP, ECT vs IAT em partida fria).
- Monitores de eficiência: sonda, catalisador, misfire (falha de combustão), EVAP, etc. (dependendo do veículo).
Quando detecta falha, pode gravar DTC, acender MIL e entrar em estratégia de contingência (valor substituto), por exemplo usando um valor fixo de temperatura ou uma carga estimada alternativa.
Seção prática: leitura de parâmetros (PIDs) no scanner
Preparação (passo a passo)
- Aqueça o motor até temperatura de trabalho (ventoinha pode acionar uma vez, quando aplicável).
- Conecte o scanner e selecione dados ao vivo (Live Data).
- Escolha poucos PIDs essenciais para ter atualização rápida (taxa de amostragem maior).
- Observe em duas condições: (a) marcha lenta estabilizada; (b) aceleração leve e progressiva em 2ª/3ª marcha (local seguro).
PIDs recomendados para entender leituras, mapas e estratégias
- RPM
- MAP (kPa) ou MAF (g/s)
- TPS (%) ou posição do pedal (APP) e posição da borboleta (em ETC)
- ECT (°C) e IAT (°C)
- STFT (%) e LTFT (%) (correções de combustível)
- O2/AFR (tensão da sonda narrowband ou lambda/AFR em wideband, quando disponível)
- Tempo de injeção / PW (ms) ou “Injector Pulse Width” (se o scanner oferecer)
- Avanço de ignição (°)
- Velocidade do veículo (VSS)
- Status de malha fechada (Open/Closed Loop)
- Comando de marcha lenta: IAC (passos/%), ou “Throttle Angle” e “Idle Target” (quando disponível)
Comportamento esperado em marcha lenta (motor aquecido)
- ECT: estável em temperatura de trabalho (varia por projeto, frequentemente ~80–100°C).
- TPS: baixo e estável (próximo do valor de borboleta fechada; em borboleta eletrônica pode haver ângulo pequeno controlado).
- MAP: relativamente baixo (vácuo alto). Valores típicos em lenta podem ficar na faixa de ~25–40 kPa, variando com motor e altitude.
- MAF: baixo e estável (em motores pequenos pode ficar poucos g/s; varia bastante).
- STFT: oscilando em torno de 0% em malha fechada; pequenas correções são normais. LTFT tende a ficar mais estável.
- O2 narrowband: com motor aquecido e malha fechada, tende a oscilar (rico/pobre) rapidamente; em wideband, lambda próximo de 1,00 com pequenas variações.
- Avanço: varia levemente enquanto a ECU estabiliza a lenta (normal ver pequenas flutuações).
Comportamento esperado em aceleração leve
- TPS/APP: sobe de forma suave e proporcional ao pedal.
- MAP: aumenta (menos vácuo, mais pressão no coletor). MAF: aumenta em g/s.
- PW: aumenta conforme a carga sobe.
- STFT: pode reagir rapidamente; em alguns momentos pode haver enriquecimento transiente e depois estabilizar.
- Avanço: muda conforme mapa de carga/RPM; pode reduzir um pouco com aumento de carga.
- Malha fechada: geralmente permanece fechada em aceleração leve; em aceleração forte pode ir para malha aberta (depende do sistema).
Roteiro de diagnóstico rápido usando PIDs (passo a passo)
- Verifique coerência ECT/IAT: com motor frio (antes de ligar), ECT e IAT devem estar próximos da temperatura ambiente. Diferença grande sugere sensor/instalação com problema.
- Em lenta, observe MAP/MAF e trims: MAP alto demais (pouco vácuo) com trims positivos pode indicar ar falso; trims muito negativos podem sugerir excesso de combustível ou leitura de carga superestimada.
- Faça aceleração leve e veja se TPS sobe suave e se MAP/MAF acompanham. Se TPS muda mas MAP/MAF não acompanham, suspeite de restrição, falha de sensor ou problema mecânico.
- Compare avanço e resposta: se o avanço cai muito em carga leve sem motivo aparente, verifique leitura de carga (MAP/MAF) e possíveis correções por temperatura/detonação.
- Observe DFCO: em desaceleração com marcha engatada, veja se PW vai próximo de zero (quando o PID existe) e se trims/sonda indicam corte. Se não ocorre, verifique TPS fechado, VSS e condições de habilitação.
Dica prática: quando um sensor falha, a ECU pode usar valor substituto. Nesses casos, o PID pode parecer “plausível”, mas sem variar como deveria (ex.: IAT travada, MAP com resposta lenta). Sempre observe dinâmica (como o valor muda) e não apenas um número parado.