O que caracteriza a Renda Fixa
Renda fixa é o conjunto de investimentos em que as regras de remuneração são definidas no momento da aplicação (ou são determináveis por um índice de referência). Na prática, você empresta dinheiro a um emissor e recebe de volta o principal acrescido de juros, conforme condições do título: taxa, indexador, prazo, forma de pagamento e regras de resgate.
Apesar do nome, “fixa” não significa que o valor do investimento não muda no caminho. Em muitos títulos, o preço pode variar antes do vencimento por causa da marcação a mercado (explicada mais adiante). O que é “fixo” é a regra de remuneração.
Quem emite títulos de renda fixa
- Governo: emite títulos públicos para financiar suas atividades (ex.: Tesouro Direto).
- Bancos: captam recursos via títulos bancários (ex.: CDB, LCI, LCA).
- Empresas: captam recursos no mercado via títulos corporativos (ex.: debêntures).
Formas de remuneração: prefixada, pós-fixada e híbrida (inflação)
1) Prefixada
A taxa é conhecida no momento da aplicação. Exemplo: 12% ao ano. Se você levar até o vencimento, a rentabilidade contratada é aquela (desconsiderando impostos e custos, quando houver).
Quando costuma fazer sentido: quando você acredita que as taxas de juros vão cair no futuro e quer “travar” uma taxa alta hoje, ou quando precisa de previsibilidade para um objetivo com data.
2) Pós-fixada
A remuneração acompanha um indexador, geralmente a taxa DI/CDI (muito comum em produtos bancários) ou a Selic (no caso de alguns títulos públicos). Exemplo: 100% do CDI ou CDI + 0,20% a.a..
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Como interpretar: se o CDI subir, sua rentabilidade tende a subir; se cair, tende a cair. É comum em investimentos com foco em liquidez e menor oscilação de preço quando comparados a prefixados longos.
3) Híbrida (inflação)
Combina um índice de inflação (geralmente IPCA) com uma taxa fixa adicional. Exemplo: IPCA + 6% a.a.. A ideia é proteger o poder de compra, pois parte do retorno acompanha a inflação.
Quando costuma fazer sentido: objetivos de médio e longo prazo (ex.: aposentadoria, faculdade), em que a inflação é um risco relevante.
Marcação a mercado (introdução): por que o preço varia quando os juros mudam
Marcação a mercado é a atualização do preço de um título pelo valor que ele teria se fosse negociado “hoje” no mercado, considerando as taxas de juros vigentes. Mesmo que você não venda, a corretora/banco pode mostrar oscilações no valor do seu investimento.
Intuição do porquê isso acontece
Imagine um título prefixado que paga 10% a.a.. Se, depois que você comprou, o mercado passar a exigir 12% a.a. para títulos semelhantes (mesmo prazo e risco), o seu título de 10% fica menos atrativo. Para alguém querer comprá-lo, o preço precisa cair, de forma que a rentabilidade implícita se aproxime de 12%.
O inverso também ocorre: se as taxas de mercado caem, um título antigo com taxa maior fica mais valioso, e o preço tende a subir.
Como isso afeta o investidor
- Se você leva até o vencimento: em geral, o efeito da marcação a mercado não altera a regra de remuneração contratada (você tende a receber conforme a taxa/indexador do título, respeitando as condições e riscos do emissor).
- Se você vende antes do vencimento: o preço do dia importa. Você pode ter ganho (se o preço subiu) ou perda (se o preço caiu), mesmo em renda fixa.
- Quanto maior o prazo e quanto mais “travada” a taxa (prefixada ou inflação longa), maior tende a ser a sensibilidade do preço às mudanças de juros.
Exemplo prático (sem matemática pesada)
- Você compra um título prefixado para 3 anos a
11% a.a.. - Depois de alguns meses, as taxas para 3 anos sobem para
13% a.a.. - Seu título antigo (11%) tende a aparecer com valor menor na marcação a mercado.
- Se você precisar vender nesse momento, pode realizar prejuízo. Se puder manter até o vencimento, a oscilação tende a se “dissipar” ao longo do tempo, convergindo para o valor de resgate.
Principais títulos no contexto CPA-10
Tesouro Direto (títulos públicos)
São títulos emitidos pelo governo federal. Em geral, são referência de menor risco de crédito no mercado local, pois o emissor é o Tesouro Nacional (ainda assim, há risco de mercado se vender antes do vencimento).
- Tipos comuns (por remuneração): prefixados, pós-fixados (ligados à Selic) e híbridos (inflação + taxa).
- Liquidez: normalmente alta, com possibilidade de venda antes do vencimento (sujeita a preço de mercado).
- Uso típico: reserva com menor oscilação tende a ser associada a pós-fixados; objetivos com data podem usar prefixados; proteção de longo prazo pode usar inflação + taxa.
CDB (Certificado de Depósito Bancário)
Título emitido por bancos para captação. O investidor empresta ao banco e recebe juros. É comum encontrar CDB pós-fixado (percentual do CDI), mas existem prefixados e híbridos.
- Risco de crédito: depende do banco emissor (em geral, bancos menores pagam mais para captar).
- Liquidez: varia muito. Pode ter liquidez diária ou vencimento com carência.
- Tributação: geralmente incide Imposto de Renda sobre os rendimentos, seguindo tabela regressiva conforme prazo.
- Uso típico: objetivos de curto a médio prazo, especialmente quando há opção de liquidez diária e boa taxa.
LCI e LCA
LCI (crédito imobiliário) e LCA (crédito do agronegócio) são títulos bancários lastreados nesses segmentos. Para a pessoa física, um ponto central é que costumam ser isentos de Imposto de Renda sobre os rendimentos (regras podem variar conforme legislação vigente e condições do produto).
- Risco de crédito: do banco emissor (como no CDB).
- Liquidez: frequentemente possuem carência (período mínimo sem resgate). Após a carência, pode haver liquidez no vencimento ou em janelas definidas.
- Remuneração: comum em pós-fixado (ex.: % do CDI) e também prefixado.
- Uso típico: objetivos em que você pode deixar o dinheiro parado até a carência/vencimento e quer eficiência tributária.
Debêntures (nível conceitual)
São títulos de dívida emitidos por empresas (não financeiras, em geral) para financiar projetos e operações. Podem ser prefixadas, pós-fixadas ou híbridas.
- Risco de crédito: da empresa emissora (tende a ser maior que o de títulos públicos e pode variar bastante).
- Liquidez: pode ser menor do que títulos públicos e bancários, dependendo da emissão e do mercado secundário.
- Tributação: em geral há IR; algumas debêntures incentivadas (ligadas a infraestrutura, conforme regras) podem ter isenção para pessoa física.
- Uso típico: busca de retorno maior aceitando mais risco de crédito e, muitas vezes, menor liquidez.
Comparações objetivas: liquidez, risco de crédito, tributação e adequação por objetivo
| Produto | Liquidez (típica) | Risco de crédito | Tributação (pessoa física) | Adequação por objetivo |
|---|---|---|---|---|
| Tesouro Direto | Geralmente alta (venda antes do vencimento possível, com preço de mercado) | Governo federal (referência de menor risco) | Em geral, IR sobre rendimentos | Reserva (pós-fixado), objetivos com data (prefixado), longo prazo com proteção (inflação) |
| CDB | Varia: pode ser diária ou no vencimento/carência | Banco emissor | Em geral, IR sobre rendimentos | Curto/médio prazo; liquidez diária para caixa; travar taxa para objetivos com prazo |
| LCI/LCA | Frequentemente com carência; depois pode variar | Banco emissor | Geralmente isento de IR | Quando pode respeitar carência e busca eficiência tributária |
| Debêntures | Em geral menor e depende do mercado secundário | Empresa emissora | Em geral, IR; incentivadas podem ser isentas | Retorno potencial maior aceitando risco de crédito e menor liquidez |
Passo a passo prático: como escolher um título de renda fixa (roteiro de prova e de atendimento)
Passo 1 — Defina o objetivo e o prazo
- Reserva/curto prazo: priorize liquidez e menor oscilação de preço.
- Objetivo com data definida: alinhe o vencimento do título à data do objetivo.
- Longo prazo: considere proteção contra inflação e tolerância a oscilações no caminho.
Passo 2 — Escolha a forma de remuneração adequada
- Pós-fixado: tende a ser mais estável no curto prazo e acompanha juros.
- Prefixado: dá previsibilidade, mas pode oscilar mais se juros mudarem.
- Inflação + taxa: foca em preservar poder de compra no longo prazo.
Passo 3 — Verifique liquidez e regras de resgate
- Há carência?
- O resgate é apenas no vencimento ou existe mercado/venda antecipada?
- Se houver venda antecipada, o preço é por marcação a mercado?
Passo 4 — Avalie risco de crédito do emissor
- Títulos públicos: foco maior em risco de mercado (se vender antes) do que em risco de crédito.
- Títulos bancários: risco ligado ao banco emissor; compare instituições e condições.
- Títulos corporativos: analise a empresa, garantias e classificação de risco quando disponível.
Passo 5 — Considere a tributação na rentabilidade líquida
- Compare produtos com e sem IR (ex.: CDB vs LCI/LCA) usando a rentabilidade líquida.
- Em produtos com IR, o prazo pode melhorar a alíquota efetiva (tabela regressiva).
Passo 6 — Faça uma checagem final de adequação (perfil x produto)
- Se o cliente pode precisar do dinheiro antes, evite produtos com carência longa ou com grande sensibilidade à marcação a mercado.
- Se o objetivo é preservar poder de compra, priorize títulos atrelados à inflação.
- Se a prioridade é previsibilidade de valor em data certa, alinhe vencimento e prefira estrutura que reduza surpresas no resgate.
Mini-casos para fixação
Caso 1: dinheiro para uma emergência
Necessidade: acesso rápido e baixo risco de oscilação. Direção típica: pós-fixado com alta liquidez (ex.: título público pós-fixado ou CDB com liquidez diária), observando custos e regras de resgate.
Caso 2: pagamento de uma viagem em 18 meses
Necessidade: data definida. Direção típica: título com vencimento próximo da data (prefixado ou pós-fixado, conforme cenário e preferência por previsibilidade), evitando depender de venda antecipada.
Caso 3: objetivo de longo prazo e preocupação com inflação
Necessidade: preservar poder de compra. Direção típica: títulos híbridos (inflação + taxa) com prazo compatível, aceitando oscilações de marcação a mercado no caminho se houver intenção de manter até o vencimento.