O que é adequação (suitability) e por que ela é essencial
Adequação (ou suitability) é o processo de compatibilizar a recomendação/oferta de um produto de investimento com o perfil do investidor e com suas necessidades reais. Na prática, significa verificar se o produto faz sentido para: objetivos, horizonte de investimento, situação financeira, tolerância a risco, liquidez necessária e capacidade de perda.
Em CPA-10, a ideia central é: não basta o produto ser “bom”; ele precisa ser adequado para aquele cliente. Um investimento com grande oscilação pode ser inadequado para quem precisa do dinheiro em curto prazo, mesmo que tenha potencial de retorno maior.
O que a adequação busca evitar
- Desalinhamento de prazo: cliente precisa resgatar em 3 meses e entra em produto com baixa liquidez ou volatilidade alta.
- Risco acima do suportável: cliente não tolera oscilações e entra em produto que pode cair no curto prazo.
- Comprometimento do orçamento: cliente investe valores que deveria manter como reserva para despesas essenciais.
- Expectativa irreal: cliente acredita que “não tem risco” quando há risco de mercado, crédito ou liquidez.
Termos recorrentes (com definições objetivas)
Suitability
Conjunto de procedimentos para coletar informações do cliente, classificar o perfil e restringir/adequar a oferta de produtos conforme regras internas e boas práticas. Envolve registro e evidências do atendimento.
Horizonte de investimento
É o prazo em que o cliente pretende manter o dinheiro investido antes de usar. Pode ser:
- Curto: até 12 meses
- Médio: 1 a 5 anos
- Longo: acima de 5 anos
Quanto menor o horizonte, maior tende a ser a importância de liquidez e estabilidade.
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Liquidez necessária
É o quanto o cliente precisa conseguir transformar em dinheiro (resgatar) com rapidez, sem perdas relevantes. A liquidez pode ser:
- Imediata/diária: resgate a qualquer momento (ou em D+0/D+1, dependendo do produto).
- Com prazo: resgate em datas específicas, carência, ou com prazo de cotização e liquidação.
Capacidade de perda
É a condição financeira do cliente de suportar uma perda temporária ou até permanente sem comprometer necessidades essenciais. Difere de tolerância a risco: alguém pode aceitar risco (tolerância alta), mas não poder perder (capacidade baixa), por exemplo, se tem dívidas altas e pouca reserva.
Dimensões analisadas na adequação
1) Objetivos
O objetivo define a “função” do investimento. Exemplos comuns:
- Reserva de emergência: prioridade em liquidez e baixo risco.
- Compra planejada (carro, entrada de imóvel): prazo definido, busca por previsibilidade.
- Acumulação de patrimônio: pode aceitar mais oscilação se o prazo for longo.
- Renda: foco em fluxo de pagamentos (quando aplicável) e estabilidade.
2) Horizonte e necessidade de liquidez
Um produto pode ser inadequado se o cliente precisar do dinheiro antes do prazo recomendado. Mesmo que exista “resgate”, pode haver risco de vender em momento ruim (por oscilação) ou perder rentabilidade (por regras do produto).
3) Situação financeira
Inclui renda, estabilidade de emprego, dívidas, tamanho da reserva, dependentes e compromissos. Um cliente com orçamento apertado tende a precisar de mais liquidez e menor volatilidade.
4) Tolerância a risco (comportamental)
É como o cliente reage a oscilações. Perguntas típicas avaliam se ele:
- Fica desconfortável com quedas temporárias.
- Resgata no pânico quando vê perda.
- Entende que retorno maior costuma envolver mais risco.
5) Conhecimento e experiência
Não é “prova”, mas ajuda a calibrar a comunicação e a adequação. Um cliente iniciante pode precisar de produtos mais simples e de explicações mais claras sobre riscos e prazos.
Perfis típicos e como interpretar (conservador, moderado, arrojado)
Instituições podem ter questionários e regras próprias, mas as categorias abaixo são comuns. O ponto-chave é entender que o perfil é uma síntese do comportamento e das condições do cliente, não um “rótulo” fixo.
Perfil conservador
- Prioridades: preservação do capital, previsibilidade, liquidez.
- Tolerância a oscilações: baixa.
- Horizonte típico: curto a médio (pode ser longo, mas com baixa tolerância a volatilidade).
- Produtos que tendem a alinhar: investimentos de menor volatilidade e com foco em estabilidade e liquidez (ex.: pós-fixados de alta liquidez, fundos com baixa volatilidade, conforme política e regras internas).
- Alertas de adequação: evitar produtos com grande variação de preço no curto prazo ou com baixa liquidez quando o cliente pode precisar resgatar.
Perfil moderado
- Prioridades: equilíbrio entre segurança e rentabilidade.
- Tolerância a oscilações: média; aceita variações desde que compreenda o prazo.
- Horizonte típico: médio a longo.
- Produtos que tendem a alinhar: combinações (diversificação) entre ativos mais estáveis e parcela com maior risco/volatilidade, respeitando objetivo e prazo (ex.: fundos multimercado com risco controlado, fundos de renda fixa com maior variação, parcela em renda variável de forma proporcional, conforme suitability).
- Alertas de adequação: alinhar expectativa de retorno e explicar que oscilações podem ocorrer, especialmente na parcela de maior risco.
Perfil arrojado
- Prioridades: crescimento de patrimônio no longo prazo.
- Tolerância a oscilações: alta; aceita quedas relevantes no curto prazo.
- Horizonte típico: longo.
- Produtos que tendem a alinhar: maior exposição a ativos com volatilidade e risco mais elevados, sempre com diversificação e entendimento de riscos (ex.: fundos de ações, maior parcela em renda variável, produtos com marcação a mercado mais sensível, conforme regras internas).
- Alertas de adequação: reforçar risco de perdas, necessidade de prazo e disciplina para não resgatar em momentos desfavoráveis.
Como conectar perfil x características de produtos (mapa mental prático)
| Característica do produto | Tende a ser mais adequada para | Exige atenção quando |
|---|---|---|
| Alta liquidez (resgate rápido) | Conservador e objetivos de curto prazo | Cliente busca retorno alto sem aceitar risco; explicar trade-off |
| Baixa liquidez (carência/prazos) | Objetivos de longo prazo e cliente com reserva formada | Cliente pode precisar do dinheiro; risco de “forçar resgate” |
| Baixa volatilidade | Conservador, curto prazo, reserva | Cliente quer retorno acima do esperado para baixo risco |
| Alta volatilidade | Arrojado, longo prazo | Cliente tem horizonte curto ou reage mal a perdas |
| Risco de crédito (dependência do emissor) | Perfis que entendem emissor/garantias e diversificam | Concentração em um emissor; explicar limites e diversificação |
| Marcação a mercado (variação de preço) | Quem aceita oscilações e tem prazo | Cliente pode resgatar antes; explicar possibilidade de perda no resgate |
Passo a passo prático de suitability no atendimento
Passo 1 — Abertura e objetivo do contato
Defina se o cliente quer investir um valor novo, realocar investimentos existentes ou planejar um objetivo específico. Perguntas úteis:
- “Qual é o objetivo desse dinheiro?”
- “Você tem uma data aproximada para usar esse valor?”
- “Esse valor é parte da sua reserva de emergência?”
Passo 2 — Coleta estruturada de informações
Coletar dados para perfil e adequação. Exemplos de blocos:
- Prazo/horizonte: quando pretende usar.
- Liquidez: precisa de resgate a qualquer momento? Quanto?
- Situação financeira: renda, dívidas, reserva, estabilidade.
- Experiência: já investiu em produtos com oscilação? Como reagiu?
- Tolerância a risco: aceita ver o investimento cair temporariamente?
Boa prática: usar o questionário oficial da instituição e evitar “ajudar” o cliente a responder para encaixar em um produto.
Passo 3 — Classificação do perfil e validação
Após o questionário, o cliente é enquadrado em um perfil (ex.: conservador/moderado/arrojado). Valide com linguagem simples:
- “Pelo seu prazo e sua reação a oscilações, seu perfil ficou classificado como X. Isso faz sentido para você?”
- “Se houver queda temporária, você conseguiria manter o investimento até o prazo?”
Passo 4 — Checagem de adequação do produto (antes de ofertar)
Confirme se o produto:
- Atende ao objetivo (ex.: reserva, compra, longo prazo).
- É compatível com o horizonte (prazo recomendado vs. prazo do cliente).
- Atende à liquidez necessária (carência, cotização, liquidação).
- Está dentro do risco aceito e da capacidade de perda.
- Respeita restrições (ex.: produto permitido apenas para certos perfis).
Passo 5 — Comunicação de riscos, custos e condições (linguagem do cliente)
Explique o que pode dar errado e em que situações. Exemplos de frases:
- Oscilação: “Esse investimento pode variar no dia a dia. Se você resgatar em um momento de queda, pode realizar perda.”
- Liquidez: “O resgate não é imediato; há prazo de cotização e de pagamento. Se precisar do dinheiro antes, pode não ser adequado.”
- Capacidade de perda: “Você consegue manter esse valor investido mesmo se houver uma queda temporária de X%?”
Boa prática: evitar promessas de rentabilidade e evitar termos técnicos sem explicação.
Passo 6 — Registro e evidências do atendimento
Suitability envolve documentar:
- Respostas do questionário e data de atualização do perfil.
- Produto ofertado e justificativa de adequação (objetivo, prazo, risco, liquidez).
- Ciência do cliente sobre riscos e condições relevantes.
O registro protege o cliente (transparência) e a instituição (rastreabilidade).
Passo 7 — Tratamento de desenquadramento (quando o cliente quer algo incompatível)
Se o cliente solicitar um produto incompatível com o perfil ou com as informações coletadas, a abordagem deve:
- Explicar o motivo do desenquadramento (prazo, risco, liquidez).
- Oferecer alternativas adequadas ao objetivo.
- Seguir as regras internas (pode haver bloqueio, alerta formal, necessidade de termo de ciência, ou impedimento de aplicação, conforme política).
Exemplo prático: cliente conservador, com necessidade de resgate em 6 meses, pede um produto com alta volatilidade. A orientação é mostrar o risco de precisar resgatar em queda e sugerir opções com maior liquidez e menor oscilação para aquele prazo.
Exemplos de cenários de adequação (com raciocínio)
Cenário 1 — Reserva de emergência
Cliente: precisa de acesso rápido, pode usar a qualquer momento. Foco de adequação: liquidez alta e baixa volatilidade. Perguntas-chave: “Quanto você precisa disponível imediatamente?” “Esse valor cobre quantos meses de despesas?”
Cenário 2 — Objetivo em 18 meses (compra planejada)
Cliente: tem data aproximada e não quer surpresas. Foco de adequação: compatibilidade de prazo e risco de oscilações no período. Perguntas-chave: “Se houver oscilação no meio do caminho, você consegue manter até a data?”
Cenário 3 — Longo prazo (acumulação) com tolerância alta
Cliente: horizonte acima de 5 anos, aceita oscilações. Foco de adequação: diversificação e alinhamento com risco, evitando concentração e garantindo que a liquidez não será necessária no curto prazo. Perguntas-chave: “Você tem reserva separada para imprevistos?” “Qual queda temporária você suportaria sem resgatar?”
Checklist rápido para o dia a dia do atendimento
- Tenho clareza do objetivo do dinheiro?
- O horizonte do cliente é compatível com o produto?
- Existe liquidez necessária (valor e prazo) mapeada?
- O cliente tem capacidade de perda (financeira) e tolerância (emocional) compatíveis?
- Expliquei riscos e condições de resgate em linguagem simples?
- Registrei as informações e a justificativa de adequação?
- Se houve desenquadramento, segui o procedimento e ofereci alternativas?