Por que ética e conduta são cobradas na CPA-10
No atendimento a clientes em instituições financeiras, ética e conduta significam agir com integridade e responsabilidade, seguindo normas internas, regras de autorregulação e boas práticas de mercado. Na prova, o foco costuma estar em reconhecer comportamentos proibidos (ou inadequados) e escolher a conduta correta em situações do dia a dia: comunicação clara, ausência de promessas, tratamento de conflitos de interesse, sigilo e prioridade ao interesse do cliente dentro das regras.
Princípios essenciais de conduta no relacionamento com o cliente
1) Transparência (clareza e completude das informações)
Transparência é apresentar informações relevantes de forma clara, completa e compreensível, sem “letras miúdas” escondendo pontos importantes. Inclui explicar características do produto, riscos, prazos, carências, liquidez, custos e condições de resgate.
- Boa prática: usar linguagem simples, confirmar entendimento e registrar a entrega de materiais/informações.
- Erro comum em prova: informar apenas o “lado bom” (ex.: rentabilidade passada) e omitir riscos, prazos ou custos.
2) Veracidade (não induzir ao erro)
Veracidade é comunicar fatos corretos, sem exageros, sem promessas e sem criar expectativas irreais. A comunicação deve ser fiel ao que o produto pode entregar e ao que está documentado.
- Boa prática: diferenciar claramente “possibilidade” de “garantia”.
- Erro comum: afirmar que um produto “não tem risco” quando há risco de mercado, crédito, liquidez ou oscilação de cota.
3) Conflito de interesses (identificar, evitar e tratar)
Conflito de interesses ocorre quando o interesse do profissional/instituição (por exemplo, meta, comissão, campanha interna) pode influenciar a recomendação, prejudicando o cliente. A conduta esperada é evitar que o conflito determine a oferta e, quando aplicável, dar transparência ao cliente e seguir políticas internas.
- Boa prática: oferecer alternativas adequadas e justificar tecnicamente a indicação.
- Erro comum: direcionar o cliente para o produto “da campanha” sem considerar se é apropriado.
4) Confidencialidade (sigilo e proteção de dados)
Confidencialidade é proteger informações do cliente (dados pessoais, financeiros, objetivos, patrimônio, operações) e utilizá-las apenas para finalidades legítimas do atendimento, conforme regras internas e legais. O sigilo vale também em conversas informais e em ambientes compartilhados.
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- Boa prática: evitar comentar casos de clientes, mesmo sem citar nome, quando houver chance de identificação.
- Erro comum: enviar dados sensíveis por canais inadequados ou compartilhar informações com terceiros sem base legal/consentimento.
5) Prioridade ao interesse do cliente dentro das normas
Priorizar o interesse do cliente significa buscar a solução mais adequada aos objetivos e restrições do cliente, respeitando regras, políticas e limites do produto. Não é “fazer qualquer coisa que o cliente quer”, e sim orientar com responsabilidade, inclusive recusando operações inadequadas.
- Boa prática: explicar por que determinada operação não é indicada e oferecer alternativas compatíveis.
- Erro comum: executar uma aplicação claramente incompatível apenas porque o cliente insistiu, sem orientação e sem seguir os procedimentos exigidos.
Referências conceituais: autorregulação e governança de conduta
No mercado brasileiro, além das normas legais e regulatórias, existem regras de autorregulação e padrões de governança de conduta que orientam a relação com o cliente. Em termos práticos para prova e atendimento, isso se traduz em:
- Regras e códigos de conduta que exigem comunicação clara, tratamento justo e diligência no atendimento.
- Controles internos (políticas, procedimentos, registros) para reduzir riscos de venda inadequada e falhas de informação.
- Supervisão e trilhas de evidência: capacidade de comprovar o que foi informado, ofertado e contratado.
- Gestão de conflitos: políticas para evitar que incentivos comerciais prejudiquem o cliente.
Em questões de múltipla escolha, a alternativa correta geralmente é a que combina: informação completa + linguagem adequada + registro + respeito às regras + foco no cliente.
Situações práticas cobradas e como agir
Situação 1: Oferta inadequada (venda/indicação imprópria)
O que é: oferecer um produto que não combina com as necessidades, objetivos, horizonte de tempo, tolerância a risco ou restrições do cliente, ou que o cliente não compreende.
Exemplo prático: cliente diz que precisa do dinheiro em curto prazo e não aceita oscilações; o atendente tenta direcionar para um produto com variação de preço e possibilidade de perdas no resgate antecipado.
Como evitar (passo a passo):
- Passo 1 — Entender a demanda real: perguntar objetivo, prazo, necessidade de liquidez e restrições (ex.: “pode precisar do dinheiro antes?”).
- Passo 2 — Checar entendimento: confirmar se o cliente compreende risco, possibilidade de perdas e condições de resgate.
- Passo 3 — Apresentar opções compatíveis: oferecer alternativas coerentes com o que o cliente declarou, comparando pontos-chave (risco, liquidez, custos).
- Passo 4 — Explicitar limitações: se o produto tem carência, marcação a mercado, volatilidade ou penalidades, deixar isso evidente.
- Passo 5 — Registrar: manter evidências do que foi informado e do que foi escolhido (conforme procedimentos internos).
Situação 2: Omissão de custos (taxas e despesas)
O que é: não informar custos relevantes que impactam o retorno do cliente, como taxas, despesas, penalidades, spreads, carregamentos (quando existirem), ou condições que reduzam a rentabilidade líquida.
Exemplo prático: apresentar apenas a rentabilidade bruta esperada e não mencionar taxa de administração, taxa de performance (quando aplicável) ou custos de saída, levando o cliente a comparar produtos de forma errada.
Como evitar (passo a passo):
- Passo 1 — Listar custos antes da oferta: tenha um checklist do produto (taxas, despesas, condições de resgate, tributação aplicável conforme regras do produto).
- Passo 2 — Explicar impacto no resultado: mostrar que custo reduz retorno e que comparações devem ser feitas em bases equivalentes (ex.: líquido vs. líquido).
- Passo 3 — Dar exemplo numérico simples: “Se o produto rende X e cobra Y de taxa, o retorno efetivo tende a ser menor do que X”.
- Passo 4 — Entregar material/termos: direcionar o cliente aos documentos e reforçar os pontos críticos (sem esconder em linguagem técnica).
- Passo 5 — Confirmar ciência: perguntar se o cliente entendeu os custos e registrar o aceite conforme o processo.
Situação 3: Promessa de rentabilidade (garantia indevida)
O que é: afirmar ou insinuar que haverá retorno certo, especialmente em produtos com risco de mercado, variação de cota ou risco de crédito. Também é inadequado usar rentabilidade passada como se fosse garantia de retorno futuro.
Exemplo prático: “Pode aplicar tranquilo que vai render X% ao mês” ou “esse fundo sempre sobe, não tem erro”.
Como evitar (passo a passo):
- Passo 1 — Trocar “garantia” por “cenários”: explicar que rentabilidade pode variar e depende de condições de mercado.
- Passo 2 — Explicar o risco associado: indicar quais riscos podem afetar o resultado (ex.: oscilação de preços, crédito, liquidez).
- Passo 3 — Usar linguagem correta: “rentabilidade histórica”, “expectativa”, “projeção não garantida” (quando aplicável), sempre com cautela.
- Passo 4 — Evitar frases absolutas: não usar “certo”, “garantido”, “sem risco” (salvo quando houver garantia formal e condições claras).
- Passo 5 — Formalizar informações: apoiar a conversa em materiais oficiais e registrar o que foi informado.
Boas práticas de comunicação no atendimento (o que a prova costuma valorizar)
Comunicação adequada ao cliente
- Evitar jargões sem explicação (ex.: “volatilidade”, “duration”, “marcação a mercado”). Se usar, definir em linguagem simples.
- Checar compreensão: pedir para o cliente repetir com as próprias palavras os pontos principais (risco, prazo, liquidez, custos).
- Não pressionar: evitar urgência artificial (“última chance hoje”) quando não for fato verificável.
Tratamento justo e não discriminatório
- Oferecer o mesmo padrão de informação e cuidado para todos os clientes.
- Não condicionar qualidade do atendimento a potencial de receita/comissão.
Registro e evidência
Em governança de conduta, não basta “ter falado”: é importante que o processo gere evidências (materiais entregues, termos aceitos, registros do atendimento) conforme as regras internas. Em prova, isso aparece como alternativa correta quando há dúvida entre “apenas explicar verbalmente” versus “explicar e registrar/entregar documentação”.
Checklist rápido para evitar falhas éticas (aplicável no dia a dia)
- Eu expliquei riscos, custos e condições de liquidez?
- Eu deixei claro o que é fato e o que é expectativa?
- Existe conflito de interesse (meta/campanha) influenciando minha oferta?
- O cliente entendeu? Eu confirmei entendimento?
- Eu respeitei sigilo e usei canais adequados?
- Eu registrei/encaminhei os documentos e informações relevantes?
Mini-casos (estilo prova) e conduta correta
Caso A — Cliente quer “algo sem risco” e pede maior retorno
Armadilha: prometer retorno alto com risco baixo ou dizer que “não tem risco”.
Conduta correta: explicar o trade-off risco x retorno, apresentar alternativas compatíveis com a restrição “baixo risco”, deixar claro limites de rentabilidade e não prometer resultado.
Caso B — Produto com taxa relevante não mencionada na conversa
Armadilha: focar apenas na rentabilidade e omitir taxa/condição que reduz retorno.
Conduta correta: informar custos de forma destacada, explicar impacto no retorno e orientar comparação adequada entre produtos.
Caso C — Campanha interna com incentivo para um produto específico
Armadilha: empurrar o produto da campanha para qualquer cliente.
Conduta correta: identificar potencial conflito, priorizar a adequação ao cliente, oferecer opções e justificar tecnicamente a recomendação; seguir políticas internas de tratamento/divulgação de conflitos quando aplicável.
Caso D — Conversa sobre investimentos em local público
Armadilha: comentar valores, estratégias ou dados do cliente em ambiente onde terceiros podem ouvir.
Conduta correta: preservar sigilo, conduzir o atendimento em canal/ambiente apropriado e proteger dados e documentos.