CPA-10: Fundos de Investimento — Estrutura, Taxas e Funcionamento

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é um fundo de investimento (conceito e estrutura)

Um fundo de investimento é uma forma coletiva de investir: várias pessoas aplicam recursos em um mesmo “condomínio” e, em troca, recebem cotas. O dinheiro reunido forma o patrimônio líquido (PL) do fundo, que é aplicado em ativos conforme a política definida no regulamento (por exemplo: títulos públicos, CDBs, debêntures, ações, cotas de outros fundos, entre outros).

Em vez de cada investidor comprar ativos diretamente, o fundo centraliza a gestão e a administração. O resultado (ganhos e perdas) é refletido no preço da cota, que varia diariamente (ou conforme a regra do fundo).

Conceitos-chave

  • Condomínio: estrutura coletiva; os cotistas são “condôminos” do patrimônio do fundo, proporcionalmente às cotas que possuem.
  • Cota: “unidade” do fundo. Ao aplicar, o investidor compra cotas; ao resgatar, vende cotas.
  • Patrimônio Líquido (PL): valor total do fundo (ativos menos despesas e obrigações), calculado diariamente.
  • Valor da cota: preço de cada cota. Em geral: cota = PL / número de cotas.
  • Aplicação: entrada de recursos no fundo; o investidor recebe cotas pelo valor da cota do dia de cotização.
  • Resgate: saída de recursos; o investidor devolve cotas e recebe dinheiro conforme o prazo de cotização e liquidação.

Como o fundo funciona na prática: aplicação, cotização e resgate

Passo a passo de uma aplicação

  1. Escolha do fundo: o investidor avalia objetivo, risco, custos, prazos e regras (lâmina e regulamento).
  2. Envio da ordem de aplicação: feita no canal do distribuidor (banco/corretora).
  3. Cotização da aplicação: define por qual valor de cota o investidor entrará. Ex.: D+0, D+1 etc. (depende do fundo e do horário de corte).
  4. Conversão em cotas: o valor aplicado é dividido pelo valor da cota na data de cotização.
  5. Início da exposição ao risco: a partir da cotização, a variação da cota passa a refletir ganhos/perdas para o cotista.

Exemplo numérico (simplificado): aplicação de R$ 5.000. Se a cota na data de cotização for R$ 1,2500, o investidor recebe 5.000 / 1,25 = 4.000 cotas.

Passo a passo de um resgate

  1. Envio da ordem de resgate: o cotista solicita o resgate total ou parcial.
  2. Cotização do resgate: define o valor de cota usado para calcular o resgate (ex.: D+0, D+1, D+30, conforme o fundo).
  3. Liquidação financeira: data em que o dinheiro cai na conta do investidor (ex.: D+1, D+2, D+5 etc.).

Exemplo prático: o fundo tem cotização de resgate em D+1 e liquidação em D+2. Se o investidor pede resgate na segunda-feira (D), o valor da cota usado será o de terça (D+1) e o dinheiro será pago na quarta (D+2), considerando dias úteis e regras do fundo.

Entendendo “prazo de cotização” x “prazo de liquidação”

  • Cotização: quando se “trava” o valor da cota para aplicação ou resgate.
  • Liquidação: quando o dinheiro efetivamente entra (resgate) ou sai (aplicação, quando aplicável) da conta do investidor.

Fundos com ativos menos líquidos (por exemplo, crédito privado com baixa negociação ou estratégias mais complexas) tendem a ter prazos maiores de cotização e/ou liquidação, para permitir que o gestor ajuste a carteira sem prejudicar o fundo.

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Principais participantes do fundo e responsabilidades

Administrador

  • Responsável pela constituição e pelo funcionamento do fundo.
  • Garante que o fundo siga as regras do regulamento e da regulamentação aplicável.
  • Coordena prestadores de serviço (gestor, custodiante, auditor etc.).
  • Divulga informações do fundo (ex.: valor da cota, PL, relatórios).

Gestor

  • Responsável pelas decisões de investimento (comprar, vender, alocar, controlar risco dentro da política do fundo).
  • Busca atingir o objetivo do fundo respeitando limites (ex.: concentração, tipos de ativos, derivativos, risco de crédito).

Custodiante

  • Faz a guarda e o controle dos ativos do fundo (registro e liquidação de operações, conciliações).
  • Ajuda a assegurar que os ativos do fundo estejam devidamente registrados e segregados.

Distribuidor

  • Intermedia o relacionamento com o investidor (oferta, aplicação, resgate, extratos).
  • Deve observar regras de adequação do produto ao perfil do cliente (suitability) e transparência de informações.

Observação prática: em muitos casos, uma mesma instituição pode exercer mais de um papel (por exemplo, administrador e distribuidor), desde que respeitadas as regras e segregações exigidas.

Taxas e custos: como afetam a rentabilidade

Taxa de administração

É um percentual ao ano cobrado para remunerar a estrutura do fundo (administração, gestão, controladoria, custódia, distribuição, entre outros, conforme o modelo do fundo). Normalmente é apropriada diariamente e já impacta o valor da cota.

Como aparece na prática: o investidor não “paga um boleto”; a taxa reduz o desempenho do fundo ao longo do tempo, pois é descontada do patrimônio.

Taxa de performance (quando existir)

É cobrada quando o fundo supera um referencial (benchmark) definido (por exemplo, CDI, IPCA, índice de ações). Nem todo fundo tem taxa de performance. Quando existe, o regulamento define:

  • Benchmark (referência de comparação).
  • Percentual da taxa (ex.: 20% do que exceder o benchmark).
  • Periodicidade de cobrança e metodologia.
  • Regras como linha d’água (high-water mark), quando aplicável, para evitar cobrar performance sobre recuperação de perdas.

Exemplo simplificado: se o fundo rende 12% no período e o benchmark rende 10%, o excedente é 2%. Com taxa de performance de 20% sobre o excedente, a taxa seria 0,4% do patrimônio no período (antes de outros detalhes do regulamento).

Outros custos relevantes (podem existir)

  • Taxa de entrada/saída: menos comum; pode ser usada para desestimular movimentações de curto prazo.
  • Despesas operacionais: auditoria, publicações, emolumentos, corretagem (dependendo da estratégia), entre outras, conforme regras do fundo.

Come-cotas: o que é e quando ocorre

Come-cotas é a antecipação do imposto de renda (IR) em alguns fundos, por meio da redução da quantidade de cotas do investidor em datas específicas. Em vez de o investidor pagar o IR “por fora”, o fundo recolhe parte do imposto diminuindo cotas.

Quando existe

Em geral, ocorre em fundos como renda fixa e multimercado (conforme regras tributárias vigentes), tipicamente em duas datas no ano (conhecidas no mercado como maio e novembro). Já fundos de ações, em regra, não têm come-cotas (a tributação costuma ocorrer no resgate), mas o investidor deve sempre confirmar na lâmina/regulamento e nas informações do distribuidor.

Como impacta o investidor

  • O investidor passa a ter menos cotas, mantendo o mesmo valor financeiro líquido após o recolhimento.
  • O efeito econômico é a antecipação do imposto, o que pode reduzir o efeito de juros compostos no longo prazo, comparado a investimentos com tributação apenas no resgate.

Exemplo conceitual: se o investidor tem 10.000 cotas e ocorre come-cotas, ele pode passar a ter, por exemplo, 9.950 cotas (número ilustrativo), refletindo o IR recolhido. O valor da cota não “cai” por causa do imposto; o que muda é a quantidade de cotas do cotista.

Leitura básica da lâmina e do regulamento (o que procurar)

Lâmina (visão rápida e prática)

A lâmina é um resumo com informações essenciais para decisão. Ao analisar, procure:

  • Objetivo e política de investimento: em que o fundo pode investir e qual a estratégia.
  • Classificação (renda fixa, multimercado, ações, cambial) e se usa derivativos.
  • Riscos: risco de mercado, crédito, liquidez, cambial, concentração etc.
  • Taxas: administração e performance (se houver).
  • Prazos: cotização de aplicação e resgate, e liquidação financeira.
  • Aplicação mínima e regras de movimentação.
  • Histórico de rentabilidade e benchmark (lembrando que rentabilidade passada não garante futura).

Regulamento (regras completas)

O regulamento detalha as “regras do jogo”. Pontos importantes:

  • Limites de concentração (por emissor, por ativo, por modalidade).
  • Condições de resgate: prazos, horários de corte, possibilidade de fechamento para resgates em situações excepcionais (quando previsto).
  • Uso de derivativos: se é para proteção (hedge) ou para alavancagem (quando permitido).
  • Política de crédito (quando aplicável): critérios para comprar títulos privados.
  • Metodologia de cobrança de taxa de performance (benchmark, linha d’água, datas).
  • Tratamento de eventos: amortizações, distribuição de resultados (quando houver), assembleias de cotistas.

Classificação geral de fundos e como o risco se manifesta

Fundos de Renda Fixa

Investem majoritariamente em ativos de renda fixa (públicos e/ou privados). O risco não é “zero”: ele depende do tipo de título e do prazo.

  • Risco de mercado: variação das taxas de juros afeta o preço dos títulos (marcação a mercado). Títulos mais longos tendem a oscilar mais.
  • Risco de crédito: quando há títulos privados, existe risco do emissor não pagar.
  • Risco de liquidez: alguns créditos privados podem ter negociação limitada, influenciando prazos de resgate.

Fundos Multimercado

Podem combinar diferentes classes de ativos (juros, moedas, bolsa, crédito) e usar derivativos. O risco varia muito conforme a estratégia.

  • Risco de mercado: exposição a múltiplos fatores (juros, bolsa, câmbio).
  • Risco de estratégia: decisões do gestor (posicionamento direcional, arbitragem, macro etc.).
  • Risco de alavancagem: quando permitido, perdas podem ser ampliadas.
  • Risco de liquidez: pode ser maior se a carteira tiver ativos menos líquidos ou estruturas complexas.

Fundos de Ações

Investem predominantemente em ações. A cota tende a oscilar mais no curto prazo.

  • Risco de mercado (volatilidade): preços das ações variam por expectativas, resultados, cenário econômico e fluxo de mercado.
  • Risco de concentração: fundos com poucas ações ou foco setorial podem oscilar mais.
  • Risco de liquidez: geralmente menor em ações muito negociadas, mas pode existir em ações de menor negociação.

Fundos Cambiais

Buscam acompanhar a variação de uma moeda (comum: dólar), geralmente por meio de instrumentos atrelados ao câmbio.

  • Risco cambial: a cota oscila conforme a moeda sobe ou desce frente ao real.
  • Risco de mercado: além do câmbio, pode haver impacto de juros e instrumentos usados para replicar a variação.
  • Uso típico: proteção (hedge) de despesas/receitas em moeda estrangeira ou diversificação, lembrando que pode ter perdas quando o real se valoriza.

Checklist prático para comparar dois fundos (aplicável no atendimento)

  • Objetivo: o que o fundo promete fazer e em quais ativos pode investir?
  • Risco: quais riscos são mais relevantes para a estratégia (mercado, crédito, liquidez, cambial, concentração)?
  • Prazos: cotização e liquidação do resgate atendem a necessidade do cliente?
  • Custos: taxa de administração e performance (se houver) são compatíveis com a estratégia?
  • Tributação: há come-cotas? como é o IR no resgate?
  • Transparência: a lâmina e o regulamento deixam claras as regras de resgate, limites e uso de derivativos?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um fundo de investimento, qual afirmação descreve corretamente a diferença entre cotização e liquidação em um resgate?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Cotização determina por qual valor de cota o resgate será calculado. Liquidação é a data em que o pagamento do resgate entra na conta do investidor, podendo ocorrer dias úteis depois.

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