Componentes do freio a tambor de motocicletas e ajustes de acionamento

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Construção do freio a tambor (visão geral funcional)

No freio a tambor, a desaceleração acontece por atrito entre as sapatas (com lonas) e a superfície interna do tambor. Ao acionar o pedal ou manete, um mecanismo mecânico (varão ou cabo) gira um came/expansor, que empurra as sapatas para fora. As molas retornam as sapatas quando o acionamento é liberado. A regulagem do sistema compensa o desgaste das lonas e mantém o curso do comando dentro do normal.

Componentes e o que observar em cada um

Cubo/tambor

O tambor geralmente faz parte do conjunto da roda (muito comum em traseira) e gira junto com ela. A parte interna do tambor é a pista onde as lonas encostam. Problemas típicos do tambor: superfície interna marcada, ovalização (frenagem “pulsando”), contaminação por óleo/graxa e superaquecimento (vidramento).

  • Indícios externos: aquecimento anormal após uso leve, cheiro forte de material queimado, frenagem irregular.
  • Indício ao rodar: sensação de “trancos” ou pulsação ao frear pode indicar tambor ovalizado ou sapatas com contato irregular.

Espelho de freio (placa de freio)

É a placa fixa onde ficam montados o came/expansor, o eixo/pivô das sapatas e os pontos de apoio. Ela não gira com a roda (fica ancorada ao braço oscilante por uma haste/torque arm, dependendo do modelo). Se o espelho estiver desalinhado, com folgas no encaixe ou com pontos de apoio gastos, a frenagem pode ficar irregular e ruidosa.

  • O que observar: folga no encaixe do espelho, sinais de atrito indevido, deformações e pontos de apoio com desgaste.

Sapatas (lonas)

As sapatas são duas “meias-luas” com material de atrito (lona) rebitado ou colado. Quando o came abre as sapatas, as lonas encostam no tambor. O desgaste aumenta o curso do pedal/manete e reduz eficiência. Contaminação por óleo/graxa causa perda de atrito e pode gerar “agarre” intermitente.

  • Sintomas ligados às sapatas: curso excessivo, frenagem fraca, ruído metálico (quando a lona acaba e o suporte encosta), travamento por contaminação/vidramento.
  • Desgaste desigual: pode indicar came travando, molas fracas, pontos de apoio gastos ou tambor irregular.

Molas de retorno

As molas puxam as sapatas de volta quando você solta o comando. Se estiverem fracas, deformadas ou com corrosão, as sapatas podem não retornar totalmente, causando arrasto (a roda fica “presa”), aquecimento e consumo acelerado das lonas.

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  • Sintomas: retorno lento do pedal/manete, roda com resistência ao girar, aquecimento e cheiro de freio.

Came/expansor

É o eixo com um perfil excêntrico (came) que, ao girar, empurra as sapatas para fora. Ele trabalha em contato com as sapatas e gira dentro do espelho de freio. Se estiver seco, oxidado ou com folga, pode gerar acionamento duro, travamento, retorno ruim e frenagem irregular.

  • Sintomas: pedal duro ou “aos trancos”, travamento momentâneo, retorno incompleto.

Eixo/pivô das sapatas

Além do came, as sapatas se apoiam em um pino/eixo fixo (pivô). Esse ponto guia o movimento. Folga, desgaste ou sujeira nesse apoio pode causar ruído, contato irregular e desgaste desigual das lonas.

Alavanca de acionamento

Fica do lado de fora do espelho e é presa ao eixo do came. Quando o varão/cabo puxa, a alavanca gira o came. A posição dessa alavanca influencia a “alavancagem” (força x curso). Se montada fora do ângulo correto, pode resultar em curso excessivo, pouca força ou regulagem no limite.

Varão ou cabo

O acionamento pode ser por varão (com rosca e porca de ajuste, comum em traseiro) ou por cabo (mais comum em alguns dianteiros e scooters). Folga excessiva aumenta o curso; falta de folga pode deixar o freio “pegando”. Cabo desfiando ou com atrito interno deixa o acionamento pesado e impreciso.

  • O que observar: varão empenado, rosca danificada, cabo com fios rompidos, capa rachada, pontos de atrito e falta de alinhamento.

Regulagem por porca/ajustador

A regulagem compensa o desgaste das lonas ajustando a folga entre sapata e tambor. Em varão, a porca no tirante aproxima o ponto de acionamento; em cabo, o ajustador (na manete ou no espelho) altera a tensão do cabo.

Objetivo da regulagem: manter um curso inicial livre (folga) e, após isso, um acionamento progressivo sem “fim de curso” no pedal/manete.

Indicador de desgaste (quando existente)

Alguns freios a tambor têm um marcador: uma seta/ponteiro no espelho e uma escala. Conforme as lonas gastam, o ponteiro se aproxima do limite. Se o indicador estiver no limite com a regulagem correta, é sinal de que as lonas estão no fim.

  • Atenção: indicador fora de posição pode ocorrer por montagem errada da alavanca no eixo do came ou regulagem excessiva para “mascarar” desgaste.

Sintomas específicos do freio a tambor e o que eles sugerem

Frenagem irregular (pulsação, “pega e solta”)

  • Possíveis causas: tambor ovalizado, superfície interna com pontos altos/baixos, sapatas contaminadas, came travando, pontos de apoio gastos.
  • Como se manifesta: ao frear, a moto dá pequenas “puxadas” ou o pedal pulsa.

Travamento ou freio “agarrando”

  • Possíveis causas: falta de folga na regulagem, cabo/varão sem retorno livre, molas fracas, came oxidado, contaminação que faz a lona “grudar”, espelho desalinhado.
  • Como se manifesta: roda não gira livre após soltar o comando; aquecimento rápido.

Ruído metálico

  • Possíveis causas: lona no fim (metal com metal), mola solta/quebrada, sapata mal assentada, tambor marcado.
  • Como se manifesta: chiado forte, raspagem ou som de atrito metálico principalmente ao acionar.

Curso excessivo do pedal/manete

  • Possíveis causas: desgaste das lonas, regulagem frouxa, cabo esticando, varão com folga, alavanca montada em ângulo desfavorável, came com folga.
  • Como se manifesta: precisa “afundar” muito o pedal/manete para começar a frear; às vezes chega perto do fim de curso.

Verificação externa antes de abrir (checklist prático)

Antes de desmontar, dá para identificar muita coisa apenas observando o acionamento e o comportamento do conjunto. Faça a verificação com a moto parada e a roda livre para girar (quando possível).

1) Verificar o curso do pedal/manete

O que fazer: acione lentamente até sentir o início da frenagem. Observe se o curso livre é muito grande ou quase inexistente.

  • Curso livre excessivo: sugere necessidade de regulagem, desgaste de lonas ou folgas no acionamento.
  • Quase sem curso livre: sugere regulagem apertada demais (risco de arrasto e aquecimento).

2) Verificar retorno do comando

O que fazer: acione e solte algumas vezes. O pedal/manete deve voltar rápido e sempre para a mesma posição.

  • Retorno lento ou incompleto: pode indicar cabo com atrito, varão desalinhado, came travando ou molas fracas.

3) Verificar folga e “arrasto” na roda

O que fazer: com o freio solto, gire a roda. Ela deve girar livre, sem ruído de raspagem contínua.

  • Arrasto constante: regulagem apertada, retorno ruim, contaminação ou componentes internos travando.
  • Arrasto intermitente: possível tambor ovalizado ou sapatas com contato irregular.

4) Verificar alinhamento do varão/cabo

O que fazer: observe o caminho do varão/cabo até a alavanca no espelho. Ele deve trabalhar em linha, sem ângulos forçados.

  • Varão desalinhado: pode enroscar, aumentar atrito e prejudicar retorno.
  • Cabo com curvas fechadas: aumenta esforço e pode causar acionamento “aos trancos”.

5) Verificar a alavanca no espelho e a regulagem por porca/ajustador

O que fazer: observe se a porca/ajustador está no fim da rosca (muito apertada) para conseguir frear. Isso costuma indicar lonas gastas ou alavanca mal posicionada no eixo do came.

  • Regulagem no limite: forte indício de desgaste de lonas ou necessidade de correção de montagem/ângulo da alavanca.

6) Verificar indicador de desgaste (se houver)

O que fazer: localize a seta/ponteiro e a marca de limite no espelho. Acione o freio e observe a posição do ponteiro.

  • Ponteiro próximo/na marca de limite: indica lonas próximas do fim, mesmo que ainda “dê para regular”.
  • Ponteiro fora do padrão com regulagem estranha: pode indicar alavanca montada fora de posição.

Passo a passo: regulagem básica do acionamento (sem abrir o tambor)

Regulagem por varão (porca no tirante)

  1. Solte o freio totalmente e confirme que a roda gira livre.

  2. Localize a porca de ajuste no varão, próxima à alavanca do freio no espelho.

  3. Aperte a porca aos poucos para reduzir o curso livre. Faça em pequenas etapas e teste o pedal a cada ajuste.

  4. Confirme folga mínima: o pedal deve ter um pequeno curso livre antes de começar a frear, e a roda deve continuar girando livre com o freio solto.

  5. Teste de retorno: acione e solte; verifique se a alavanca no espelho volta totalmente ao batente (quando houver) e se não fica “meio acionada”.

Regulagem por cabo (ajustador)

  1. Verifique o estado do cabo externamente: fios rompidos, capa danificada e curvas muito fechadas.

  2. Use o ajustador (na manete ou no espelho) para retirar excesso de folga, mantendo um pequeno curso livre.

  3. Trave a contraporca (quando existir) para o ajuste não se perder com vibração.

  4. Teste de arrasto: com o comando solto, a roda deve girar livre; se estiver “pegando”, devolva um pouco de folga.

Dicas de diagnóstico rápido combinando sintomas + verificação externa

SintomaO que checar por foraSuspeitas comuns
Curso excessivoPorca/ajustador no limite; indicador de desgasteLonas gastas; alavanca mal posicionada; folgas no varão/cabo
Freio agarrandoRoda com arrasto; retorno lento; pouca folgaRegulagem apertada; cabo com atrito; molas fracas; came travando
Frenagem pulsandoArrasto intermitente ao girar a rodaTambor ovalizado; contato irregular das sapatas
Ruído metálicoSom ao girar a roda ou ao acionar; resposta ásperaLona no fim; mola solta; tambor marcado

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao ajustar um freio a tambor por varão ou cabo sem abrir o tambor, qual resultado indica que a regulagem ficou correta?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A regulagem correta deixa uma folga inicial (curso livre) e garante que o conjunto retorne totalmente, sem arrasto na roda. Isso evita aquecimento e mantém o acionamento progressivo.

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