Quando usar HVLP, convencional e airless (e o que muda na regulagem)
Na pintura anticorrosiva, a pistola define como a tinta é atomizada (quebrada em gotículas) e depositada no metal. Isso afeta diretamente: espessura por demão, nível de névoa (overspray), acabamento (casca de laranja), produtividade e risco de defeitos como escorrimento e falhas em arestas.
- HVLP (High Volume Low Pressure): alta vazão de ar e baixa pressão na capa de ar. Tende a ter maior transferência (menos névoa) e bom controle, porém pode exigir tinta bem ajustada e ritmo mais lento para atingir espessura.
- Convencional (ar comprimido): atomização forte, acabamento fino, mas geralmente mais névoa e menor eficiência de transferência. Útil para peças menores e acabamentos onde o nivelamento é crítico.
- Airless: atomização por alta pressão do fluido (sem ar na pistola). Alta produtividade e capacidade de aplicar altas espessuras (primers ricos, epóxis de alto sólidos). Exige atenção a pressão, bico e técnica para evitar “dedos” no leque, excesso de material e marcas.
Configuração do equipamento: bico, pressão, vazão, distância, leque e velocidade
1) Seleção do bico (nozzle/tip)
O bico determina vazão e largura do leque. A escolha deve considerar: tipo de tinta (sólidos), espessura desejada, geometria da peça e produtividade.
- HVLP/convencional (bico de fluido): escolha o diâmetro conforme a viscosidade e o teor de sólidos. Materiais mais “pesados” (epóxi alto sólidos) pedem bicos maiores; acabamentos mais finos pedem menores. Regra prática: se você precisa abrir demais o ajuste de fluido para “alimentar” a pistola, o bico pode estar pequeno; se fica difícil controlar e escorre fácil, pode estar grande.
- Airless (tip com código): o código do tip normalmente indica ângulo do leque e orifício. Ex.: um tip “517” costuma significar leque ~10" a 12" a uma distância padrão e orifício 0,017". Orifícios maiores aumentam vazão e espessura, mas elevam risco de escorrimento e “cauda” no leque se a pressão estiver baixa.
2) Pressão
A pressão deve ser a mínima que gere atomização uniforme e acabamento adequado, reduzindo névoa e desgaste.
- HVLP/convencional: ajuste a pressão no regulador próximo à pistola (ou na entrada) e valide no teste de leque. Pressão alta demais aumenta névoa e resseca a borda do leque; baixa demais gera gota grossa e casca de laranja.
- Airless: comece com pressão moderada e aumente até desaparecerem “dedos”/listras no leque. Pressão excessiva aumenta névoa, repique e desgaste do tip.
3) Vazão (controle de fluido) e leque
Vazão e leque devem ser ajustados juntos para entregar uma faixa molhada contínua, sem encharcar.
- Leque: abra o leque para áreas planas e feche para cantos, perfis e peças estreitas. Leque muito aberto em perfil estreito aumenta overspray e desperdício.
- Fluido: ajuste para que, na velocidade de aplicação escolhida, a película fique “molhada” e uniforme, sem escorrer. Se você precisa andar muito devagar para cobrir, falta vazão ou a tinta está muito viscosa; se escorre mesmo andando rápido, há excesso de vazão, distância curta demais ou diluição excessiva.
4) Distância e ângulo
A distância controla a energia das gotículas e a largura efetiva do leque.
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- HVLP/convencional: mantenha distância consistente (tipicamente na faixa curta a média, conforme pistola e leque) e pistola perpendicular à superfície. “Arquear” o braço afina as bordas e engrossa o centro.
- Airless: distância constante é crítica para evitar faixas e variação de espessura. Aproxime demais e aumenta risco de escorrimento; afaste demais e perde cobertura e cria textura.
5) Velocidade de aplicação
Velocidade é o “terceiro ajuste” junto com vazão e distância. O objetivo é manter uma faixa molhada contínua, com sobreposição correta, atingindo a espessura especificada sem defeitos.
- Se a textura fica áspera/casca de laranja: aumente um pouco a velocidade ou reduza vazão ou melhore atomização (pressão) ou ajuste viscosidade.
- Se escorre: aumente velocidade, reduza vazão, aumente distância levemente e evite parar com o gatilho acionado.
Preparação do produto: mistura, catalisador, indução, peneiramento e viscosidade
Checklist de preparação (passo a passo)
- Homogeneização: agite/misture a base até levantar pigmentos do fundo. Use haste/misturador adequado e tempo suficiente para uniformizar cor e sólidos.
- Proporção: meça base e catalisador (quando houver) com copo graduado/balança. Erros de proporção causam cura incompleta, perda de resistência e entupimentos por gel.
- Mistura: adicione catalisador à base e misture por tempo definido, raspando laterais e fundo do recipiente.
- Indução: quando o produto exigir, aguarde o tempo de indução antes de aplicar. Isso estabiliza a reação e melhora aplicação/acabamento.
- Diluição (se permitida): adicione diluente recomendado em pequenas parcelas, misturando e reavaliando. Evite “corrigir” com solvente em excesso para forçar pulverização: isso reduz espessura e pode aumentar escorrimento e porosidade.
- Peneiramento: passe a tinta por peneira/filtro de tinta antes do copo/vaso de pressão. Reduz grumos e partículas que causam entupimento e pontos.
- Controle de vida útil (pot life): marque horário de mistura e descarte ao final do tempo útil. Material em início de gel aumenta casca de laranja, entope filtros e pode falhar na cura.
Controle de viscosidade (na prática)
Viscosidade influencia atomização, nivelamento e espessura. Faça o controle com método repetível:
- Copo de viscosidade (quando aplicável): meça o tempo de escoamento e ajuste conforme faixa recomendada para o método (HVLP/convencional geralmente exige viscosidade mais baixa que airless).
- Teste de pulverização: mesmo com copo, valide no painel. A viscosidade “ideal” é a que permite atomização uniforme com pressão mínima e sem defeitos.
Testes em painel: padrão de leque, atomização e cobertura
Antes de ir para a estrutura, faça testes em um painel metálico ou cartão apropriado, com o mesmo setup (mangueiras, filtros, pressão e bico).
Passo a passo do teste
- Teste de leque: aplique um “tiro” rápido a uma distância constante. O leque deve ser simétrico, com distribuição uniforme (sem centro encharcado e bordas secas).
- Teste de faixa: faça uma passada de 30–50 cm e observe: textura, brilho (quando aplicável), presença de névoa seca e tendência a escorrer.
- Ajuste fino: altere uma variável por vez (pressão, vazão, leque, distância ou viscosidade) e repita.
- Validação de espessura: após a aplicação, use medidor de espessura de película úmida (WFT) para conferir se a demão está dentro do alvo. Se estiver abaixo, aumente vazão/velocidade mais lenta/segunda demão; se acima, reduza vazão/velocidade mais rápida.
Técnica de aplicação: passadas cruzadas, sobreposição e controle de névoa
Passadas cruzadas (cross-coat)
Passadas cruzadas consistem em aplicar uma demão em um sentido (horizontal, por exemplo) e a seguinte em sentido perpendicular (vertical). Isso melhora uniformidade de espessura e cobertura em perfis e irregularidades.
- Use especialmente em: perfis, chapas com soldas, cantoneiras e regiões com variação de geometria.
- Evite cruzar “molhado sobre molhado” quando o sistema exigir intervalo mínimo; respeite a janela de repintura.
Sobreposição (overlap)
Sobreposição típica de 50% do leque garante espessura uniforme. Sobreposição baixa cria listras e falta de cobertura; alta demais aumenta espessura e risco de escorrimento.
Gatilho e movimento
- Inicie o movimento antes de acionar o gatilho e solte o gatilho antes de parar. Isso evita acúmulo nas extremidades.
- Mantenha a pistola perpendicular e distância constante; mova o corpo/braço sem “arco”.
Controle de névoa (overspray) e repique
- Pressão mínima eficaz: reduz névoa e melhora transferência.
- Distância correta: longe demais gera névoa seca e aspereza; perto demais aumenta repique e escorrimento.
- Direcionamento: em perfis, ajuste o leque e direcione para “abraçar” a peça, evitando jogar material para o ar.
- Ambiente de aplicação: use barreiras/cortinas e exaustão adequada para evitar que névoa retorne e contamine a película fresca.
Como reduzir defeitos comuns: casca de laranja, escorrimento e falhas em arestas
Casca de laranja (textura)
Geralmente ocorre por atomização insuficiente, tinta viscosa, distância grande, secagem rápida na trajetória ou aplicação com camada “seca”.
- Ajustes de equipamento: aumente gradualmente a pressão (HVLP/convencional) ou a pressão do fluido (airless) até uniformizar a atomização; verifique se o bico não está pequeno/entupido.
- Viscosidade: ajuste dentro do recomendado; evite diluir demais (pode virar escorrimento), mas não force aplicação com tinta grossa.
- Técnica: reduza distância e mantenha sobreposição correta para formar faixa molhada contínua.
- Temperatura do produto: tinta muito fria tende a ficar mais viscosa; equalize o material à temperatura de aplicação quando possível.
Escorrimento
Ocorre por excesso de material depositado (vazão alta, velocidade baixa, distância curta), diluição excessiva ou aplicação em superfícies verticais com demão muito carregada.
- Correção imediata: alivie a vazão, aumente a velocidade e mantenha a pistola em movimento constante. Em airless, reduza a pressão se estiver “encharcando” e ajuste o tip se a vazão estiver alta demais.
- Estratégia por camadas: em verticais, prefira duas demãos mais controladas em vez de uma muito carregada.
- Sequência de aplicação: aplique primeiro cantos e detalhes com leque menor e menos vazão; depois feche as áreas planas.
Falta de cobertura em arestas, cantos e soldas
Arestas tendem a receber menos película por efeito de “fuga” do leque e por geometria. Isso é crítico em anticorrosão.
- Stripe coat (reforço localizado): aplique uma passada direcionada em arestas, cantos, soldas e parafusos antes da demão geral, com leque reduzido e controle de vazão.
- Ângulo de ataque: em cantoneiras, faça duas passadas com ângulos diferentes (ex.: 45° de cada lado) para “envolver” a aresta.
- Velocidade e distância: não “varra” rápido demais nas arestas; mantenha distância consistente e sobreposição adequada.
- Checagem: use lanterna/inspeção visual e medição de espessura em pontos críticos (arestas e soldas) conforme plano de controle.
Rotina prática de aplicação (do setup ao acabamento)
Passo a passo recomendado
- Montagem: selecione bico/tip, instale filtros corretos (pistola/linha/bomba), verifique mangueiras e conexões.
- Ar comprimido (HVLP/convencional): drene condensado do sistema, confirme reguladores e ajuste pressão na entrada da pistola.
- Preparação da tinta: misture, catalise, aguarde indução (se houver), peneire e ajuste viscosidade.
- Teste em painel: ajuste leque, vazão e pressão até obter faixa uniforme e espessura úmida alvo.
- Aplicação: faça stripe coat em detalhes críticos; depois aplique demão geral com passadas paralelas e 50% de sobreposição; quando indicado, use passadas cruzadas.
- Controle durante a aplicação: monitore textura, névoa e tendência a escorrer; reavalie pressão e filtros se notar pulsação, falhas de atomização ou queda de vazão.
- Pausas: em paradas curtas, alivie pressão (airless) e mantenha a ponta limpa; em paradas longas, siga procedimento de limpeza para evitar cura dentro do equipamento.
Limpeza do equipamento, troca de filtros e prevenção de contaminação entre produtos
Limpeza (HVLP/convencional)
- Esvazie o copo/vaso e retorne o material ao recipiente correto (se permitido pelo procedimento).
- Pré-lavagem: passe solvente/água compatível (conforme o sistema) pelo copo e pulverize em recipiente de descarte até sair limpo.
- Desmontagem parcial: remova bico, capa de ar e agulha conforme manual; limpe com escovas próprias (não use arame que danifica orifícios).
- Inspeção: verifique desgaste de agulha/bico e vedantes; vazamentos e gotejamento na ponta indicam necessidade de ajuste ou troca.
Limpeza (airless)
- Alívio de pressão: execute o procedimento completo de alívio antes de desconectar qualquer componente.
- Flush: circule solvente/água compatível pelo sistema (bomba, mangueira e pistola) até limpar. Use modo recirculação quando disponível.
- Filtro e tip: remova e limpe filtro da pistola e filtro da bomba; limpe o tip e a sede. Tip parcialmente obstruído causa leque irregular e listras.
- Proteção após limpeza: quando recomendado, finalize com fluido de preservação para evitar corrosão interna e ressecamento de vedações.
Troca de filtros: sinais e boas práticas
- Sinais de filtro saturado: queda de vazão, pulsação, atomização irregular, necessidade de aumentar pressão para manter o leque.
- Boa prática: use malha de filtro compatível com o produto (mais fino para acabamentos, mais grosso para primers carregados) e mantenha registro de trocas por horas de uso.
Manutenção do compressor (para sistemas com ar)
- Drenagem de condensado: água no ar causa defeitos e contaminação; drene reservatório e pontos baixos da linha.
- Separação e filtragem: mantenha filtros de particulados e coalescentes em dia; substitua elementos conforme diferencial de pressão/horas.
- Óleo: compressores lubrificados podem arrastar óleo; verifique separadores e evite lubrificantes inadequados na linha de ar.
Como evitar contaminação entre produtos incompatíveis
Resíduos de um produto podem reagir com o próximo (ex.: cura acelerada, gel, grumos, perda de aderência). Para evitar:
- Procedimento de troca: faça flush com solvente/água compatível, depois flush com o diluente do próximo produto (quando aplicável), e só então carregue a tinta.
- Componentes críticos: mangueiras, filtros, copos/vasos e bomba retêm material; não confie apenas em “passar um pouco de solvente”.
- Identificação: dedique mangueiras/copo para famílias de produtos quando possível (ex.: epóxi vs. poliuretano) e etiquete.
- Controle de partículas: mantenha recipientes fechados, use peneira na transferência e evite panos que soltem fiapos na área de mistura.