Controle de qualidade na pintura anticorrosiva: espessura, aderência e correção de defeitos

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que o controle de qualidade verifica (e por quê)

O controle de qualidade na pintura anticorrosiva confirma se o filme aplicado atende ao que foi especificado para proteger o metal: espessura adequada (nem “magro” nem “gordo”), cobertura e uniformidade (sem falhas e variações), atenção a áreas críticas (cantos, arestas e soldas) e aderência (a tinta precisa “agarrar” no substrato/camada anterior). A inspeção deve ser feita por etapas: durante a aplicação (película úmida), após cura/repintura (película seca) e antes da entrega (aceitação/rejeição).

Medição de espessura de película úmida (WFT): conceito e uso

Conceito

WFT (Wet Film Thickness) é a espessura da tinta ainda molhada, medida imediatamente após a aplicação. Ela serve para ajustar a aplicação em tempo real e prever a espessura seca (DFT). É especialmente útil para evitar: (1) filme abaixo do mínimo (baixa barreira anticorrosiva) e (2) filme excessivo (escorridos, enrugamento, solvente preso).

Instrumento

Medidor de película úmida (pente/“comb”) com dentes graduados.

Passo a passo prático (WFT com pente)

  • 1) Escolha o ponto: meça em área representativa, evitando bordas imediatas e pontos já escorridos. Em peças grandes, faça várias medições por face.
  • 2) Encoste o pente: pressione o pente perpendicularmente ao filme, até tocar o substrato.
  • 3) Leia a marca: identifique o maior dente que ficou “molhado” e o próximo que ficou “seco”. A WFT está entre esses valores.
  • 4) Registre: anote WFT, local, hora e demão (ex.: “2ª demão, face externa, 180–200 µm”).
  • 5) Ajuste na hora: se WFT estiver baixa, aumente carga (mais tinta por passada) ou reduza velocidade/distância; se estiver alta, reduza carga e corrija técnica para evitar escorridos.

Estimativa de DFT a partir de WFT

Uma forma prática de estimar a espessura seca é usar o percentual de sólidos por volume do produto (informado na ficha técnica). Regra prática:

DFT ≈ WFT × (Sólidos por volume)

Exemplo: se WFT = 200 µm e sólidos por volume = 60% (0,60), então DFT ≈ 120 µm. Use isso para “mirar” a WFT durante a aplicação.

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Medição de espessura de película seca (DFT): conceito e uso

Conceito

DFT (Dry Film Thickness) é a espessura após secagem/cura, medida para confirmar conformidade com a especificação por demão e/ou total do sistema. DFT é o parâmetro mais usado para aceitação, pois representa a barreira real formada.

Instrumentos e calibração (essencial)

  • Medidor magnético/eletrônico para substrato ferroso (aço) ou não ferroso (alumínio/galvanizado), conforme o caso.
  • Calibração/ajuste: use placa zero (substrato sem tinta) e folhas padrão (shims) para checar leituras. Faça verificação no início do turno e quando houver troca de operador/medidor.

Passo a passo prático (DFT)

  • 1) Confirme a cura mínima: meça após o tempo mínimo indicado para manuseio/repintura/medição (conforme ficha técnica). Filme “verde” pode dar leitura instável e sofrer dano.
  • 2) Defina um plano de pontos: distribua medições por área, incluindo zonas críticas (próximo a soldas, cantos, regiões de difícil acesso).
  • 3) Faça leituras repetidas: em cada área, realize múltiplas leituras e registre média e dispersão. Evite medir em poeira, respingos ou sobre escorridos (a menos que o objetivo seja diagnosticar defeito).
  • 4) Compare com critérios: verifique mínimo, máximo e média permitidos pela especificação do sistema.

Erros comuns na medição de DFT

  • Medir sobre rugosidade extrema sem considerar variação: a leitura pode oscilar; aumente número de pontos e use média.
  • Medir em cantos vivos: a sonda pode não assentar bem; meça próximo ao canto e faça inspeção visual específica do canto.
  • Não ajustar o medidor: leituras “certinhas” podem estar sistematicamente erradas.

Avaliação de cobertura e uniformidade

O que observar

  • Cobertura: ausência de transparência, falhas, “janelas” e pontos sem tinta.
  • Uniformidade: cor, brilho e textura consistentes; sem manchas, “nuvens” ou variação de listras de aplicação.
  • Contaminação superficial: poeira presa, partículas, pelos, respingos secos.

Passo a passo prático (inspeção visual padronizada)

  • 1) Iluminação: use luz forte e ângulo rasante (lanterna) para revelar ondulações, casca de laranja, crateras e escorridos.
  • 2) Distância e ângulo: inspecione de perto (20–50 cm) e de longe (1–2 m) para perceber uniformidade geral.
  • 3) Marcação: marque defeitos com fita/etiqueta e numere para retrabalho controlado.
  • 4) Registro: fotografe e anote localização (face, vão, cordão de solda X, canto Y) para rastreabilidade.

Inspeção de cantos, arestas e soldas (zonas críticas)

Cantos e arestas tendem a receber menor espessura (efeito de retração do filme) e são pontos de início de corrosão. Soldas podem apresentar porosidade, respingos e irregularidade que geram falhas de cobertura e crateras.

Checklist prático para cantos/arestas

  • Verificar “quebra de aresta”: aresta muito viva dificulta formação de filme uniforme; se houver falha recorrente, planeje correção mecânica local (arredondamento leve) antes de repintar.
  • Stripe coat (demão de reforço): quando especificado, confirme se foi aplicado em arestas, parafusos, cantos e soldas antes das demãos cheias.
  • Inspeção com luz rasante: procure “falta de tinta” na linha do canto e microfalhas.

Checklist prático para soldas

  • Poros e mordeduras: podem virar crateras/bolhas; identificar e tratar antes de “fechar” com acabamento.
  • Respingos: geram pontos altos que “somem” sob a tinta e depois descascam; remover e retocar.
  • Perfil irregular: exige atenção na aplicação para não deixar sombras sem cobertura.

Testes simples de aderência (triagem em campo)

Testes simples ajudam a decidir rapidamente se a camada está firme ou se há risco de descascamento. Eles não substituem ensaios normativos quando exigidos, mas são úteis como triagem e para investigar falhas.

1) Teste da fita (cross-cut simplificado)

Objetivo: verificar se há destacamento ao redor de cortes, indicando baixa aderência entre camadas ou ao substrato.

  • Materiais: estilete afiado, régua, fita adesiva de boa qualidade, escova macia.
  • Passo a passo: (1) faça uma grade de cortes leves (sem “arrebentar” o metal) em área discreta; (2) escove o pó; (3) aplique a fita pressionando bem; (4) puxe a fita em ângulo constante e rápido; (5) avalie se houve arrancamento de lascas.
  • Interpretação prática: se a tinta sai em placas ou levanta nas bordas dos cortes, há problema de aderência e a área deve ser investigada e retrabalhada.

2) Teste de risco (coin/scratch test)

Objetivo: avaliar resistência ao destacamento por risco e identificar se o filme está frágil ou mal curado.

  • Passo a passo: (1) com uma moeda ou ponta controlada, faça um risco moderado; (2) observe se o filme lasca além do risco; (3) compare com áreas boas.
  • Interpretação prática: lascamento amplo indica baixa coesão/aderência ou cura inadequada.

3) Teste do pano com solvente (quando aplicável)

Objetivo: checar cura superficial e sensibilidade a solvente (principalmente em sistemas que exigem cura completa).

  • Passo a passo: (1) umedeça levemente um pano com solvente recomendado; (2) esfregue um número fixo de passadas em pequena área; (3) observe amolecimento, transferência de cor ou marcação.
  • Atenção: use apenas solvente compatível e em área de teste; se houver amolecimento excessivo, adie repintura/manuseio e investigue causa (tempo, temperatura, mistura, espessura alta).

Mapa de defeitos comuns: diagnóstico, correção imediata e prevenção

DefeitoSinaisCausas prováveisCorreção imediataPrevenção
BolhasBolhas arredondadas; podem estourar e virar craterasUmidade/contaminação sob a película; solvente preso por filme muito espesso; repintura fora de janela; aquecimento ao sol; porosidade em soldaIsolar área; remover bolhas até base firme (lixar/raspar); limpar; deixar secar/ventilar; repintar em camadas controladasControlar espessura; respeitar tempos/janelas; evitar pintar com superfície fria que condensa; reforçar preparo em soldas/poros
Crateras / olho de peixe“Buracos” circulares com borda; filme se afastaContaminação por silicone, óleo, graxa, desmoldante; ar comprimido contaminado; pano com amaciante; névoa de lubrificanteParar aplicação; identificar fonte; lixar até eliminar crateras; limpar com desengraxante adequado; repintarControle rigoroso de limpeza; filtrar ar e drenar compressor; proibir silicone na área; panos limpos sem aditivos
DescascamentoPlacas soltando; bordas levantadasBaixa aderência por contaminação; lixamento insuficiente entre demãos; repintura fora da janela; incompatibilidade entre camadas; cura inadequadaRemover toda tinta solta até borda firme; criar “feather edge” (borda suave); limpar; aplicar primer/selador compatível; repintarRespeitar janela de repintura; promover ancoragem entre demãos; verificar compatibilidade; controlar cura e espessura
EnrugamentoAspecto de “pele enrugada” após secagemDemão muito carregada; solvente preso; repintura precoce; temperatura alta acelerando superfície e prendendo solvente abaixoSe leve: aguardar cura e lixar nivelando; se severo: remover camada enrugada e refazerAplicar demãos mais finas; respeitar intervalo entre demãos; ajustar diluição e técnica; evitar pintar sob sol forte
Perda de brilho / manchamentoÁreas foscas, “nuvens”, diferença de brilhoVariação de espessura; pulverização seca (overspray); contaminação; cura irregular por temperatura/umidade; mistura inadequadaLixar leve para uniformizar (se permitido); limpar; aplicar demão de acabamento uniformeManter técnica consistente; controlar distância/pressão; evitar corrente de ar que seca no voo; homogeneizar mistura
Casca de laranjaTextura granulada, semelhante a casca de frutaViscosidade alta; atomização inadequada; distância grande; secagem rápida; pressão incorreta; bico inadequadoSe aceitável: pode permanecer; se não: lixar e reaplicar com ajuste de viscosidade/atomizaçãoAjustar diluição conforme ficha; regular pistola; manter distância e velocidade; evitar vento/calor excessivo
Escorridos“Lágrimas” e acúmulo verticalExcesso de tinta; velocidade baixa; distância curta; cantos recebendo carga extra; viscosidade baixaSe fresco: “puxar” com pincel/rolo com cuidado (quando aplicável) e redistribuir; se seco: raspar/lixar o alto, nivelar e retocarAplicar em passadas cruzadas controladas; reduzir carga; atenção em cantos; ajustar viscosidade e técnica

Fluxo de retrabalho seguro (lixar, limpar, repintar)

Retrabalho deve restaurar desempenho sem “maquiar” defeitos. Use um fluxo padronizado para evitar que o defeito retorne.

1) Delimitar e avaliar

  • Marque a área com defeito e amplie a inspeção ao redor (defeitos raramente são pontuais).
  • Verifique se o problema é superficial (textura, escorrido) ou aderência/contaminação (descascamento, olho de peixe recorrente).

2) Remover até base firme

  • Lixamento: remova o defeito e crie transição suave (feather edge) para não deixar degrau visível.
  • Remoção de tinta solta: qualquer borda levantada deve sair; pintar por cima de tinta solta garante falha futura.
  • Em cantos/soldas: use abrasivo adequado para alcançar reentrâncias; não deixe “sombras” sem preparo.

3) Limpeza e controle de contaminação

  • Remova pó do lixamento (aspiração/pano apropriado).
  • Se houver suspeita de óleo/silicone, faça limpeza direcionada com produto adequado e panos limpos (troca frequente para não espalhar).
  • Garanta que a superfície esteja seca antes de repintar.

4) Repintura controlada

  • Recompor o sistema: se o retrabalho expôs primer ou metal, reconstituir as camadas necessárias (não “pular” etapa).
  • Controle de WFT: medir durante o retoque para evitar excesso (escorridos/enrugamento) e falta (baixa proteção).
  • Uniformização: em acabamentos aparentes, pode ser necessário “esfumar” a borda e aplicar demão mais ampla para igualar brilho/cor.

5) Reinspeção

  • Após cura mínima, medir DFT na área retrabalhada e ao redor.
  • Repetir inspeção visual com luz rasante e, se aplicável, teste simples de aderência em ponto discreto.

Critérios práticos para aceitar/rejeitar antes da entrega

Quando aceitar

  • DFT conforme especificação (mínimos e máximos) e com distribuição coerente nas áreas medidas.
  • Cobertura completa: sem falhas, transparências, “janelas” ou pontos sem tinta, especialmente em cantos e soldas.
  • Sem defeitos críticos: ausência de bolhas, descascamento, crateras extensas, enrugamento severo.
  • Aderência satisfatória nos testes de triagem (sem arrancamento significativo).
  • Acabamento uniforme dentro do padrão acordado (textura e brilho aceitáveis para o tipo de peça/uso).

Quando rejeitar (exigir retrabalho)

  • DFT abaixo do mínimo em áreas relevantes (principalmente cantos/arestas/soldas) ou acima do máximo com sinais de defeitos associados (escorridos, enrugamento, solvente preso).
  • Descascamento, perda de aderência no teste de fita, ou tinta soltando ao toque/risco moderado.
  • Olho de peixe recorrente (indica contaminação ativa) sem eliminação da causa.
  • Bolhas ou crateras que exponham camadas inferiores ou criem caminho para corrosão.
  • Falhas em cantos e soldas: falta de cobertura, poros aparentes, sombras sem tinta, respingos “telegráficos” com risco de destacamento.

Modelo simples de registro de inspeção (para padronizar)

ItemO que registrarExemplo
IdentificaçãoPeça/lote, data, aplicador, tinta/demãoLote 24-01, 3ª demão acabamento
CondiçõesTemperatura/umidade (se disponível), tempo de cura24 °C, 65% UR, 18 h após aplicação
WFTFaixa medida e pontos180–200 µm em 6 pontos
DFTMédia, mínimo, máximo, locais críticosMédia 125 µm; mín 95 µm em canto
DefeitosTipo, localização, extensãoEscorrido 10 cm na face B
AçãoAceito/retrabalho e métodoRetrabalho: lixar, limpar, repintar 1 demão

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a aplicação de tinta anticorrosiva, qual é o principal objetivo de medir a espessura de película úmida (WFT) imediatamente após pintar?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A WFT é medida com a tinta ainda molhada para corrigir a técnica na hora e prever a DFT (usando sólidos por volume), evitando tanto falta de espessura quanto excesso que pode causar escorridos, enrugamento e solvente preso.

Próximo capitúlo

Manutenção e repintura de estruturas metálicas: limpeza, inspeção periódica e retoques anticorrosivos

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