O que o controle de qualidade verifica (e por quê)
O controle de qualidade na pintura anticorrosiva confirma se o filme aplicado atende ao que foi especificado para proteger o metal: espessura adequada (nem “magro” nem “gordo”), cobertura e uniformidade (sem falhas e variações), atenção a áreas críticas (cantos, arestas e soldas) e aderência (a tinta precisa “agarrar” no substrato/camada anterior). A inspeção deve ser feita por etapas: durante a aplicação (película úmida), após cura/repintura (película seca) e antes da entrega (aceitação/rejeição).
Medição de espessura de película úmida (WFT): conceito e uso
Conceito
WFT (Wet Film Thickness) é a espessura da tinta ainda molhada, medida imediatamente após a aplicação. Ela serve para ajustar a aplicação em tempo real e prever a espessura seca (DFT). É especialmente útil para evitar: (1) filme abaixo do mínimo (baixa barreira anticorrosiva) e (2) filme excessivo (escorridos, enrugamento, solvente preso).
Instrumento
Medidor de película úmida (pente/“comb”) com dentes graduados.
Passo a passo prático (WFT com pente)
- 1) Escolha o ponto: meça em área representativa, evitando bordas imediatas e pontos já escorridos. Em peças grandes, faça várias medições por face.
- 2) Encoste o pente: pressione o pente perpendicularmente ao filme, até tocar o substrato.
- 3) Leia a marca: identifique o maior dente que ficou “molhado” e o próximo que ficou “seco”. A WFT está entre esses valores.
- 4) Registre: anote WFT, local, hora e demão (ex.: “2ª demão, face externa, 180–200 µm”).
- 5) Ajuste na hora: se WFT estiver baixa, aumente carga (mais tinta por passada) ou reduza velocidade/distância; se estiver alta, reduza carga e corrija técnica para evitar escorridos.
Estimativa de DFT a partir de WFT
Uma forma prática de estimar a espessura seca é usar o percentual de sólidos por volume do produto (informado na ficha técnica). Regra prática:
DFT ≈ WFT × (Sólidos por volume)Exemplo: se WFT = 200 µm e sólidos por volume = 60% (0,60), então DFT ≈ 120 µm. Use isso para “mirar” a WFT durante a aplicação.
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Medição de espessura de película seca (DFT): conceito e uso
Conceito
DFT (Dry Film Thickness) é a espessura após secagem/cura, medida para confirmar conformidade com a especificação por demão e/ou total do sistema. DFT é o parâmetro mais usado para aceitação, pois representa a barreira real formada.
Instrumentos e calibração (essencial)
- Medidor magnético/eletrônico para substrato ferroso (aço) ou não ferroso (alumínio/galvanizado), conforme o caso.
- Calibração/ajuste: use placa zero (substrato sem tinta) e folhas padrão (shims) para checar leituras. Faça verificação no início do turno e quando houver troca de operador/medidor.
Passo a passo prático (DFT)
- 1) Confirme a cura mínima: meça após o tempo mínimo indicado para manuseio/repintura/medição (conforme ficha técnica). Filme “verde” pode dar leitura instável e sofrer dano.
- 2) Defina um plano de pontos: distribua medições por área, incluindo zonas críticas (próximo a soldas, cantos, regiões de difícil acesso).
- 3) Faça leituras repetidas: em cada área, realize múltiplas leituras e registre média e dispersão. Evite medir em poeira, respingos ou sobre escorridos (a menos que o objetivo seja diagnosticar defeito).
- 4) Compare com critérios: verifique mínimo, máximo e média permitidos pela especificação do sistema.
Erros comuns na medição de DFT
- Medir sobre rugosidade extrema sem considerar variação: a leitura pode oscilar; aumente número de pontos e use média.
- Medir em cantos vivos: a sonda pode não assentar bem; meça próximo ao canto e faça inspeção visual específica do canto.
- Não ajustar o medidor: leituras “certinhas” podem estar sistematicamente erradas.
Avaliação de cobertura e uniformidade
O que observar
- Cobertura: ausência de transparência, falhas, “janelas” e pontos sem tinta.
- Uniformidade: cor, brilho e textura consistentes; sem manchas, “nuvens” ou variação de listras de aplicação.
- Contaminação superficial: poeira presa, partículas, pelos, respingos secos.
Passo a passo prático (inspeção visual padronizada)
- 1) Iluminação: use luz forte e ângulo rasante (lanterna) para revelar ondulações, casca de laranja, crateras e escorridos.
- 2) Distância e ângulo: inspecione de perto (20–50 cm) e de longe (1–2 m) para perceber uniformidade geral.
- 3) Marcação: marque defeitos com fita/etiqueta e numere para retrabalho controlado.
- 4) Registro: fotografe e anote localização (face, vão, cordão de solda X, canto Y) para rastreabilidade.
Inspeção de cantos, arestas e soldas (zonas críticas)
Cantos e arestas tendem a receber menor espessura (efeito de retração do filme) e são pontos de início de corrosão. Soldas podem apresentar porosidade, respingos e irregularidade que geram falhas de cobertura e crateras.
Checklist prático para cantos/arestas
- Verificar “quebra de aresta”: aresta muito viva dificulta formação de filme uniforme; se houver falha recorrente, planeje correção mecânica local (arredondamento leve) antes de repintar.
- Stripe coat (demão de reforço): quando especificado, confirme se foi aplicado em arestas, parafusos, cantos e soldas antes das demãos cheias.
- Inspeção com luz rasante: procure “falta de tinta” na linha do canto e microfalhas.
Checklist prático para soldas
- Poros e mordeduras: podem virar crateras/bolhas; identificar e tratar antes de “fechar” com acabamento.
- Respingos: geram pontos altos que “somem” sob a tinta e depois descascam; remover e retocar.
- Perfil irregular: exige atenção na aplicação para não deixar sombras sem cobertura.
Testes simples de aderência (triagem em campo)
Testes simples ajudam a decidir rapidamente se a camada está firme ou se há risco de descascamento. Eles não substituem ensaios normativos quando exigidos, mas são úteis como triagem e para investigar falhas.
1) Teste da fita (cross-cut simplificado)
Objetivo: verificar se há destacamento ao redor de cortes, indicando baixa aderência entre camadas ou ao substrato.
- Materiais: estilete afiado, régua, fita adesiva de boa qualidade, escova macia.
- Passo a passo: (1) faça uma grade de cortes leves (sem “arrebentar” o metal) em área discreta; (2) escove o pó; (3) aplique a fita pressionando bem; (4) puxe a fita em ângulo constante e rápido; (5) avalie se houve arrancamento de lascas.
- Interpretação prática: se a tinta sai em placas ou levanta nas bordas dos cortes, há problema de aderência e a área deve ser investigada e retrabalhada.
2) Teste de risco (coin/scratch test)
Objetivo: avaliar resistência ao destacamento por risco e identificar se o filme está frágil ou mal curado.
- Passo a passo: (1) com uma moeda ou ponta controlada, faça um risco moderado; (2) observe se o filme lasca além do risco; (3) compare com áreas boas.
- Interpretação prática: lascamento amplo indica baixa coesão/aderência ou cura inadequada.
3) Teste do pano com solvente (quando aplicável)
Objetivo: checar cura superficial e sensibilidade a solvente (principalmente em sistemas que exigem cura completa).
- Passo a passo: (1) umedeça levemente um pano com solvente recomendado; (2) esfregue um número fixo de passadas em pequena área; (3) observe amolecimento, transferência de cor ou marcação.
- Atenção: use apenas solvente compatível e em área de teste; se houver amolecimento excessivo, adie repintura/manuseio e investigue causa (tempo, temperatura, mistura, espessura alta).
Mapa de defeitos comuns: diagnóstico, correção imediata e prevenção
| Defeito | Sinais | Causas prováveis | Correção imediata | Prevenção |
|---|---|---|---|---|
| Bolhas | Bolhas arredondadas; podem estourar e virar crateras | Umidade/contaminação sob a película; solvente preso por filme muito espesso; repintura fora de janela; aquecimento ao sol; porosidade em solda | Isolar área; remover bolhas até base firme (lixar/raspar); limpar; deixar secar/ventilar; repintar em camadas controladas | Controlar espessura; respeitar tempos/janelas; evitar pintar com superfície fria que condensa; reforçar preparo em soldas/poros |
| Crateras / olho de peixe | “Buracos” circulares com borda; filme se afasta | Contaminação por silicone, óleo, graxa, desmoldante; ar comprimido contaminado; pano com amaciante; névoa de lubrificante | Parar aplicação; identificar fonte; lixar até eliminar crateras; limpar com desengraxante adequado; repintar | Controle rigoroso de limpeza; filtrar ar e drenar compressor; proibir silicone na área; panos limpos sem aditivos |
| Descascamento | Placas soltando; bordas levantadas | Baixa aderência por contaminação; lixamento insuficiente entre demãos; repintura fora da janela; incompatibilidade entre camadas; cura inadequada | Remover toda tinta solta até borda firme; criar “feather edge” (borda suave); limpar; aplicar primer/selador compatível; repintar | Respeitar janela de repintura; promover ancoragem entre demãos; verificar compatibilidade; controlar cura e espessura |
| Enrugamento | Aspecto de “pele enrugada” após secagem | Demão muito carregada; solvente preso; repintura precoce; temperatura alta acelerando superfície e prendendo solvente abaixo | Se leve: aguardar cura e lixar nivelando; se severo: remover camada enrugada e refazer | Aplicar demãos mais finas; respeitar intervalo entre demãos; ajustar diluição e técnica; evitar pintar sob sol forte |
| Perda de brilho / manchamento | Áreas foscas, “nuvens”, diferença de brilho | Variação de espessura; pulverização seca (overspray); contaminação; cura irregular por temperatura/umidade; mistura inadequada | Lixar leve para uniformizar (se permitido); limpar; aplicar demão de acabamento uniforme | Manter técnica consistente; controlar distância/pressão; evitar corrente de ar que seca no voo; homogeneizar mistura |
| Casca de laranja | Textura granulada, semelhante a casca de fruta | Viscosidade alta; atomização inadequada; distância grande; secagem rápida; pressão incorreta; bico inadequado | Se aceitável: pode permanecer; se não: lixar e reaplicar com ajuste de viscosidade/atomização | Ajustar diluição conforme ficha; regular pistola; manter distância e velocidade; evitar vento/calor excessivo |
| Escorridos | “Lágrimas” e acúmulo vertical | Excesso de tinta; velocidade baixa; distância curta; cantos recebendo carga extra; viscosidade baixa | Se fresco: “puxar” com pincel/rolo com cuidado (quando aplicável) e redistribuir; se seco: raspar/lixar o alto, nivelar e retocar | Aplicar em passadas cruzadas controladas; reduzir carga; atenção em cantos; ajustar viscosidade e técnica |
Fluxo de retrabalho seguro (lixar, limpar, repintar)
Retrabalho deve restaurar desempenho sem “maquiar” defeitos. Use um fluxo padronizado para evitar que o defeito retorne.
1) Delimitar e avaliar
- Marque a área com defeito e amplie a inspeção ao redor (defeitos raramente são pontuais).
- Verifique se o problema é superficial (textura, escorrido) ou aderência/contaminação (descascamento, olho de peixe recorrente).
2) Remover até base firme
- Lixamento: remova o defeito e crie transição suave (feather edge) para não deixar degrau visível.
- Remoção de tinta solta: qualquer borda levantada deve sair; pintar por cima de tinta solta garante falha futura.
- Em cantos/soldas: use abrasivo adequado para alcançar reentrâncias; não deixe “sombras” sem preparo.
3) Limpeza e controle de contaminação
- Remova pó do lixamento (aspiração/pano apropriado).
- Se houver suspeita de óleo/silicone, faça limpeza direcionada com produto adequado e panos limpos (troca frequente para não espalhar).
- Garanta que a superfície esteja seca antes de repintar.
4) Repintura controlada
- Recompor o sistema: se o retrabalho expôs primer ou metal, reconstituir as camadas necessárias (não “pular” etapa).
- Controle de WFT: medir durante o retoque para evitar excesso (escorridos/enrugamento) e falta (baixa proteção).
- Uniformização: em acabamentos aparentes, pode ser necessário “esfumar” a borda e aplicar demão mais ampla para igualar brilho/cor.
5) Reinspeção
- Após cura mínima, medir DFT na área retrabalhada e ao redor.
- Repetir inspeção visual com luz rasante e, se aplicável, teste simples de aderência em ponto discreto.
Critérios práticos para aceitar/rejeitar antes da entrega
Quando aceitar
- DFT conforme especificação (mínimos e máximos) e com distribuição coerente nas áreas medidas.
- Cobertura completa: sem falhas, transparências, “janelas” ou pontos sem tinta, especialmente em cantos e soldas.
- Sem defeitos críticos: ausência de bolhas, descascamento, crateras extensas, enrugamento severo.
- Aderência satisfatória nos testes de triagem (sem arrancamento significativo).
- Acabamento uniforme dentro do padrão acordado (textura e brilho aceitáveis para o tipo de peça/uso).
Quando rejeitar (exigir retrabalho)
- DFT abaixo do mínimo em áreas relevantes (principalmente cantos/arestas/soldas) ou acima do máximo com sinais de defeitos associados (escorridos, enrugamento, solvente preso).
- Descascamento, perda de aderência no teste de fita, ou tinta soltando ao toque/risco moderado.
- Olho de peixe recorrente (indica contaminação ativa) sem eliminação da causa.
- Bolhas ou crateras que exponham camadas inferiores ou criem caminho para corrosão.
- Falhas em cantos e soldas: falta de cobertura, poros aparentes, sombras sem tinta, respingos “telegráficos” com risco de destacamento.
Modelo simples de registro de inspeção (para padronizar)
| Item | O que registrar | Exemplo |
|---|---|---|
| Identificação | Peça/lote, data, aplicador, tinta/demão | Lote 24-01, 3ª demão acabamento |
| Condições | Temperatura/umidade (se disponível), tempo de cura | 24 °C, 65% UR, 18 h após aplicação |
| WFT | Faixa medida e pontos | 180–200 µm em 6 pontos |
| DFT | Média, mínimo, máximo, locais críticos | Média 125 µm; mín 95 µm em canto |
| Defeitos | Tipo, localização, extensão | Escorrido 10 cm na face B |
| Ação | Aceito/retrabalho e método | Retrabalho: lixar, limpar, repintar 1 demão |