O que é trabalho social com famílias no SUAS (na prática)
Trabalho social com famílias é um conjunto organizado de ações profissionais, planejadas e registradas, voltadas a apoiar famílias a enfrentar vulnerabilidades e/ou situações de violação de direitos, ampliando acesso a políticas públicas, fortalecendo vínculos e promovendo autonomia. Ele não é uma “conversa pontual”: envolve diagnóstico, pactuação de objetivos, acompanhamento, articulação com a rede e avaliação periódica do que mudou (ou não) na vida da família.
Para organizar bem, é útil pensar em três camadas: (1) o que a família demanda e o que o serviço identifica, (2) qual modalidade de intervenção é adequada e (3) como registrar, monitorar e articular para que os encaminhamentos virem acesso real a direitos.
Modalidades de intervenção: diferenciar para não “fazer tudo igual”
Acompanhamento
Acompanhamento é um processo continuado, com objetivos pactuados, ações combinadas, prazos e reavaliações. Pressupõe vínculo profissional, regularidade de contatos e registro sistemático. É indicado quando há necessidade de continuidade para superar barreiras de acesso, reorganizar rotinas familiares, reduzir riscos, fortalecer cuidados e sustentar mudanças ao longo do tempo.
- Exemplo: família com insegurança alimentar recorrente, baixa renda, crianças com faltas escolares e dificuldade de acesso a serviços de saúde. Não basta encaminhar: é preciso acompanhar para garantir que o acesso aconteça e se mantenha.
Orientação
Orientação é uma intervenção pontual ou de curta duração, focada em informação qualificada, esclarecimento de direitos, organização de documentos, explicação de fluxos e apoio para tomada de decisão. Pode ocorrer em atendimento individual, familiar ou em grupo.
- Exemplo: explicar como solicitar segunda via de documentos, como agendar atendimento na rede de saúde, quais comprovantes são necessários para determinado benefício local.
Encaminhamento
Encaminhamento é a formalização do direcionamento para outro serviço/política, com justificativa, informações essenciais e, quando necessário, contato prévio com o destino. Encaminhar não é “despachar”: exige acompanhamento do resultado (se foi atendido, se houve barreiras, se precisa de reencaminhamento).
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- Exemplo: encaminhar para unidade de saúde para avaliação de saúde mental, registrando motivo, urgência, dados de contato e combinando retorno para checar se conseguiu atendimento.
Intervenções coletivas (grupos e ações comunitárias)
Intervenções coletivas são estratégias planejadas com famílias e comunidade para fortalecer vínculos, ampliar repertórios, construir apoio mútuo e trabalhar temas comuns (cuidado, orçamento doméstico, acesso a serviços, parentalidade, prevenção de violências, organização do cotidiano). Elas não substituem o acompanhamento quando há necessidade de plano individual/familiar, mas podem ser parte dele.
- Exemplo: grupo de famílias com crianças pequenas para organizar rotinas de cuidado, acesso à creche, vacinação e estratégias de apoio entre vizinhos.
Como organizar o trabalho social com famílias: fluxo prático em 7 passos
1) Triagem qualificada e definição do tipo de resposta
Ao receber a demanda (espontânea, busca ativa, encaminhamento), faça perguntas-chave para decidir se será orientação, encaminhamento, intervenção coletiva e/ou acompanhamento:
- O que motivou a procura hoje?
- Há risco imediato (violência, ameaça, abandono, situação de rua, negligência grave, exploração)?
- O problema é pontual (informação/documento) ou exige continuidade?
- Quais barreiras impedem o acesso a direitos (documentos, transporte, desconhecimento, saúde, vínculos fragilizados, conflitos, dependência de terceiros)?
- Quais recursos a família já tem (rede de apoio, renda, serviços próximos, habilidades)?
Decisão prática: se a necessidade é resolvível com informação e um passo simples, priorize orientação. Se depende de outro serviço, encaminhe e combine retorno. Se há múltiplas barreiras e recorrência, estruture acompanhamento com plano.
2) Construção de vínculo e leitura da dinâmica familiar
Antes de “prescrever” ações, compreenda como a família funciona no cotidiano: quem cuida de quem, como circula a renda, como são tomadas decisões, quais conflitos existem, quais são as prioridades da família. Use linguagem simples e evite termos técnicos na conversa, mantendo o registro técnico no prontuário.
3) Definição do foco do acompanhamento (problema central e fatores associados)
Transforme uma demanda ampla (“está tudo difícil”) em um foco trabalhável. Uma boa prática é separar:
- Problema central: o que mais impacta a vida agora.
- Fatores associados: o que mantém o problema (falta de documentos, saúde, violência, desemprego, ausência de rede, baixa escolaridade, etc.).
- Potencialidades: recursos e capacidades existentes (apoio de parentes, habilidades de trabalho, vínculo com escola, etc.).
4) Pactuação do Plano de Acompanhamento Familiar
O plano é um acordo de trabalho: define objetivos, ações, responsáveis, prazos e como será avaliado. Ele deve ser realista, priorizar o que é mais urgente e respeitar o ritmo da família. Evite planos longos e genéricos; prefira poucos objetivos bem definidos.
5) Execução das ações (combinando modalidades)
Um bom acompanhamento combina: atendimentos familiares, contatos telefônicos/visitas quando cabível, intervenções coletivas, encaminhamentos com retorno e articulação com rede. A regra é: cada ação precisa ter finalidade e estar ligada a um objetivo do plano.
6) Monitoramento e registro
Registre: o que foi pactuado, o que foi feito, o que mudou, quais barreiras surgiram, quais decisões técnicas foram tomadas e por quê. O registro protege a família (continuidade do cuidado) e a equipe (rastreabilidade de decisões).
7) Reavaliação periódica e redefinição de metas
Em intervalos definidos (ex.: mensal, bimestral), revise o plano: objetivos alcançados, pendências, novos riscos, necessidade de intensificar ações ou articular com outro serviço. Reavaliação não é burocracia: é ajuste de rota.
Plano de acompanhamento: como elaborar (objetivos, ações, responsabilidades, prazos e avaliação)
Estrutura mínima recomendada
| Elemento | O que deve conter | Dica prática |
|---|---|---|
| Objetivo | Resultado esperado na vida da família (claro e verificável) | Comece com verbos como “regularizar”, “acessar”, “organizar”, “reduzir”, “fortalecer” |
| Ações | Passos concretos para chegar ao objetivo | Quebre em tarefas pequenas e executáveis |
| Responsáveis | Quem faz o quê (família, equipe, rede) | Evite “CRAS” genérico: indique função/equipe quando possível |
| Prazos | Datas ou janelas de tempo | Use prazos curtos para primeiros passos (7–15 dias) |
| Indicadores de acompanhamento | Como saber se avançou | Prefira evidências simples: “matrícula efetivada”, “consulta realizada”, “documento emitido” |
| Avaliação | Quando e como revisar | Agende a revisão no momento da pactuação |
Como escrever objetivos com foco em autonomia e acesso a direitos
Objetivos bem formulados evitam dois extremos: (a) metas inalcançáveis (“resolver a vida”), (b) metas burocráticas (“fazer encaminhamento”). Um objetivo orientado à autonomia e direitos descreve uma mudança concreta que aumenta capacidade de escolha e acesso contínuo a serviços.
- Fraco: “Encaminhar para saúde.”
- Melhor: “Garantir acesso regular ao cuidado em saúde para a criança, com consultas e vacinação em dia, reduzindo faltas por barreiras de transporte e agendamento.”
- Fraco: “Orientar sobre trabalho.”
- Melhor: “Apoiar a reorganização de renda familiar com inserção em oportunidade de trabalho/qualificação e planejamento de despesas essenciais.”
Passo a passo para montar o plano (modelo operacional)
- Liste 3 a 5 necessidades identificadas (da família e da equipe).
- Classifique por urgência e impacto (o que, se não for enfrentado, piora tudo?).
- Escolha 1 a 3 objetivos prioritários para o próximo ciclo (ex.: 30–60 dias).
- Para cada objetivo, defina ações em três níveis: ações da família, ações do serviço, ações da rede.
- Defina prazos curtos para as primeiras ações e prazos maiores para resultados.
- Defina como será verificado (evidência/indicador).
- Agende a reavaliação e registre no prontuário.
Critérios de priorização: quem acompanhar primeiro e com qual intensidade
Quando a demanda é maior que a capacidade, priorizar é uma decisão técnica e ética. Critérios práticos (podem ser combinados):
- Risco imediato ou recorrente (violência, ameaça, negligência grave, exploração, expulsão/remoção, fome intensa).
- Presença de crianças/adolescentes com sinais de desproteção (evasão escolar, trabalho infantil, ausência de cuidados).
- Pessoas com deficiência, idosos dependentes ou cuidadores sobrecarregados sem rede de apoio.
- Barreiras múltiplas de acesso (sem documentos, sem transporte, baixa compreensão de fluxos, isolamento social).
- Reincidência de demandas semelhantes sem resolução (indicando que só encaminhar não está funcionando).
- Ausência de rede (família sem apoio comunitário e sem vínculos com serviços).
- Complexidade intersetorial (necessita saúde, educação, habitação, justiça, trabalho, etc. de forma coordenada).
Intensidade sugerida (exemplo de gradação):
- Alta: contatos semanais/quinzenais + articulação ativa com rede + reuniões técnicas.
- Média: contatos mensais + checagem de encaminhamentos + participação em grupo.
- Baixa: orientação/encaminhamento com retorno programado para verificar acesso.
Gestão de casos complexos: articulação CRAS–CREAS e rede intersetorial
O que caracteriza um caso complexo
Um caso tende a ser complexo quando há múltiplos fatores (violência, saúde mental, uso problemático de substâncias, conflito familiar intenso, ameaça de perda de moradia, evasão escolar, desemprego crônico), muitos serviços envolvidos e alto risco de descontinuidade (faltas, mudança de endereço, resistência por experiências negativas anteriores).
Princípios operacionais para não “perder” o caso
- Um ponto focal: definir quem coordena o caso (referência) e quem substitui em ausência.
- Plano único e compartilhável: um plano base com objetivos e responsabilidades, evitando que cada serviço faça um plano desconectado.
- Ritmo de monitoramento: periodicidade definida para checar encaminhamentos e mudanças.
- Registro de decisões: o que foi decidido, por quem, quando, e qual justificativa técnica.
- Gestão de barreiras: mapear por que a família não acessa (documento, transporte, medo, horários, estigma) e criar soluções.
Articulação CRAS–CREAS: quando e como acionar
Em situações que envolvem violação de direitos e necessidade de atendimento especializado, a articulação entre equipes é decisiva. Na prática, isso significa:
- Definir o motivo da articulação: qual risco/violação está presente e qual resposta especializada é necessária.
- Compartilhar informações essenciais (com cuidado e pertinência): composição familiar, histórico resumido, riscos atuais, ações já tentadas, barreiras encontradas.
- Evitar duplicidade: alinhar quem fará quais contatos e quais objetivos cada serviço assumirá.
- Manter acompanhamento do acesso: mesmo quando outro serviço assume parte do atendimento, é importante monitorar se a família está conseguindo chegar e permanecer.
Rede intersetorial: transformar encaminhamento em acesso real
Encaminhamentos falham quando ficam apenas no papel. Para aumentar efetividade:
- Contato prévio com o serviço de destino em casos prioritários (confirmar fluxo, documentos, possibilidade de acolhimento).
- Encaminhamento com informação completa: motivo, urgência, dados de contato, disponibilidade de horários, barreiras (ex.: sem transporte).
- Devolutiva combinada: definir como o serviço retornará informação (data, canal, responsável).
- Plano de contingência: se não conseguir atendimento em X dias, qual alternativa (outro equipamento, outra unidade, ação emergencial).
Reuniões técnicas de caso: roteiro e boas práticas
Quando convocar
- Quando há risco elevado e decisões precisam ser coordenadas.
- Quando há muitos serviços envolvidos e ações estão contraditórias.
- Quando encaminhamentos não se concretizam e é preciso destravar barreiras.
- Quando há mudança importante (agravamento, nova violência, perda de moradia).
Roteiro objetivo (30–60 minutos)
- Abertura: objetivo da reunião e participantes.
- Resumo do caso (5 min): fatos essenciais, riscos, potencialidades.
- O que já foi feito: ações e resultados (incluindo não comparecimentos e motivos).
- Problema central do momento: qual é a prioridade das próximas 2–4 semanas.
- Decisões: ações, responsáveis, prazos, forma de retorno.
- Registro e próximos passos: quem registra, onde, e data de reavaliação.
Registro de decisões: modelo simples
Reunião técnica de caso – Registro de decisões Data: __/__/____ Local/Canal: ________ Participantes: _______________________________ Síntese do caso (objetiva): ____________________________________________ Riscos atuais identificados: ___________________________________________ Decisões e encaminhamentos: 1) Ação: ____________________ Responsável: ______ Prazo: __/__/__ Evidência/retorno: ______ 2) Ação: ____________________ Responsável: ______ Prazo: __/__/__ Evidência/retorno: ______ Barreiras previstas e estratégias: ______________________________________ Data da reavaliação: __/__/____ Responsável pelo registro: __________________Acompanhamento de encaminhamentos: checklist para não virar “fila de papéis”
- O encaminhamento foi entregue/explicado à família em linguagem simples?
- A família tem documentos, transporte e horário compatível?
- Foi informado o que dizer/solicitar no serviço de destino?
- Foi agendado retorno para checar se conseguiu atendimento?
- Houve resposta do serviço de destino? Se não, quem fará contato?
- Se não acessou, qual foi o motivo real (e não apenas “não foi”)?
- Qual ajuste no plano é necessário (novo fluxo, apoio para deslocamento, intervenção coletiva, intensificar acompanhamento)?
Exemplos de planos resumidos (modelos práticos)
Exemplo 1 — Vulnerabilidade socioeconômica com barreiras de acesso
| Item | Plano resumido |
|---|---|
| Foco | Insegurança alimentar e desorganização de acesso a serviços (documentos/saúde/escola) |
| Objetivo 1 (30 dias) | Regularizar documentação básica para viabilizar acesso a serviços e benefícios |
| Ações |
|
| Responsáveis | Responsável familiar + referência técnica |
| Prazos | Checklist em 7 dias; emissão/solicitação em até 20 dias |
| Indicadores | Protocolo de solicitação emitido; documento entregue |
| Objetivo 2 (60 dias) | Garantir acompanhamento de saúde e reduzir faltas escolares por barreiras logísticas |
| Ações |
|
| Avaliação | Revisão bimestral do plano com verificação de acessos e barreiras remanescentes |
Exemplo 2 — Caso complexo com violação de direitos e múltiplos serviços
| Item | Plano resumido |
|---|---|
| Foco | Conflito familiar intenso e suspeita de violência, com impacto em crianças e rotina de cuidados |
| Critério de priorização | Risco recorrente + presença de crianças + baixa rede de apoio |
| Objetivo 1 (imediato: 7–14 dias) | Reduzir risco imediato e organizar medidas de proteção e acesso ao atendimento especializado |
| Ações |
|
| Responsáveis | Referência técnica (coordenação do caso) + equipe especializada (atendimento específico) + serviços acionados |
| Prazos | Reunião técnica: até 7 dias; retorno à família: até 14 dias |
| Indicadores | Reunião realizada e registrada; atendimento especializado iniciado; plano pactuado |
| Objetivo 2 (30–90 dias) | Fortalecer capacidades protetivas e reorganizar rotina familiar com suporte da rede |
| Ações |
|
| Avaliação | Revisão mensal com atualização de riscos, adesão e necessidade de intensificar ações |
Ferramentas rápidas para o dia a dia da equipe
Matriz “demanda x resposta” (para decidir a modalidade)
| Situação observada | Resposta principal | Complemento recomendado |
|---|---|---|
| Dúvida sobre direito/fluxo/documento | Orientação | Retorno curto para confirmar resolução |
| Necessita serviço externo e família tem condições de acessar | Encaminhamento | Checagem do resultado em 15–30 dias |
| Necessita serviço externo, mas há barreiras (documentos, transporte, medo) | Acompanhamento | Encaminhamento com apoio ativo + plano |
| Demandas comuns a várias famílias (rotina, cuidado, acesso) | Intervenção coletiva | Triagem para casos que precisam plano individual |
| Risco/violação e múltiplos serviços | Gestão de caso | Reunião técnica + registro de decisões + monitoramento intensivo |
Checklist de qualidade do plano (antes de finalizar)
- Os objetivos estão escritos como mudanças na vida da família (não como procedimentos)?
- Há no máximo 3 objetivos prioritários por ciclo?
- As ações estão distribuídas entre família, equipe e rede (sem sobrecarregar um lado só)?
- Os prazos são realistas e há data de reavaliação?
- Está claro como será verificado o avanço (indicadores simples)?
- Há estratégia para barreiras previsíveis (documentos, transporte, horários, cuidado com crianças)?
- As decisões relevantes estão registradas com justificativa técnica?