Quando indicar exames toxicológicos na rotina pericial
Exames toxicológicos são indicados quando há suspeita de exposição a substâncias capazes de causar ou contribuir para morte, incapacidade ou alteração comportamental relevante ao fato investigado. A indicação deve ser guiada por: circunstâncias (achados no local, relatos, frascos/embalagens), sinais clínico-necrópsicos compatíveis (odor, cianose, edema pulmonar, aspiração, congestão visceral inespecífica), histórico médico e possibilidade de responsabilidade penal/civil (direção veicular, custódia, ambiente de trabalho).
Situações típicas de indicação
- Morte súbita ou inesperada sem causa anatômica suficiente, especialmente em jovens.
- Achados sugestivos no local: seringas, comprimidos, pó, cachimbos, frascos de solventes, carvão ativado, vômitos com odor característico.
- Suspeita de intoxicação por álcool/drogas em acidentes, quedas, afogamentos, incêndios, mortes em custódia.
- Possível envenenamento (acesso a pesticidas/rodenticidas, conflitos familiares, ambiente ocupacional).
- Investigação de violência sexual com suspeita de submissão química (benzodiazepínicos, GHB, cetamina), respeitando janela de detecção.
- Internação prévia com uso de múltiplos fármacos (risco de interação, superdosagem iatrogênica ou erro de administração).
- Corpos putrefeitos ou exumados: priorizar matrizes mais estáveis (humor vítreo, fígado, cabelo) e interpretar limitações.
Amostras: o que coletar, quando e por quê
A escolha da matriz biológica define a sensibilidade, a janela de detecção e a robustez interpretativa. Em perícia, recomenda-se coletar múltiplas amostras para confirmar achados, reduzir falsos negativos e permitir reanálise.
Sangue periférico
Por que coletar: melhor correlação com efeito farmacológico no momento próximo ao óbito, menor risco de contaminação por redistribuição pós-morte quando comparado ao sangue central.
- Preferência: veia femoral (punção) ou ilíaca; evitar câmaras cardíacas como amostra única.
- Volume sugerido: 10–20 mL (idealmente em dois frascos, para contraprova).
- Conservação: frasco com anticoagulante (EDTA) e conservante (fluoreto de sódio) quando disponível, especialmente para álcool e algumas drogas suscetíveis a degradação.
- Limitações: redistribuição pós-morte (ex.: antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos, opioides), hemólise, putrefação, contaminação por conteúdo gástrico em sangue central.
Urina
Por que coletar: excelente para triagem e evidência de exposição (metabólitos), janela de detecção geralmente maior que no sangue.
- Coleta: punção vesical ou cateterização em necropsia; em vivos, coleta supervisionada conforme protocolo.
- Volume sugerido: 30–50 mL.
- Limitações: correlação fraca com intoxicação aguda (pode estar positiva sem efeito atual); anúria/ausência de urina em choque/hemorragia; adulteração não se aplica no cadáver, mas há degradação em putrefação.
Humor vítreo
Por que coletar: matriz relativamente protegida da putrefação e da redistribuição; útil para álcool, eletrólitos e algumas drogas.
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- Coleta: aspiração com agulha fina no canto lateral do olho, preferencialmente bilateral (registrar lado e volume).
- Volume sugerido: 2–5 mL por olho (quando possível).
- Limitações: nem todas as drogas difundem bem; volumes pequenos; risco de contaminação se técnica inadequada.
Conteúdo gástrico
Por que coletar: útil em suspeita de ingestão recente, overdose oral e para identificar comprimidos/cápsulas não absorvidos.
- Coleta: aspirar e/ou coletar todo o conteúdo, registrando volume total e aspecto; se muito volumoso, homogeneizar e coletar alíquota representativa, mantendo registro do volume total.
- Limitações: presença de droga no estômago não prova intoxicação (pode não ter sido absorvida); contaminação por refluxo; degradação em putrefação.
Fígado
Por que coletar: órgão de metabolismo e depósito; útil quando sangue está indisponível/degradado e em putrefação.
- Coleta: 50–100 g de parênquima (preferir lobo direito), evitando vesícula biliar e conteúdo intestinal.
- Limitações: concentrações não se traduzem diretamente em níveis circulantes; variabilidade por congestão, esteatose e redistribuição.
Cabelo
Por que coletar: documenta exposição crônica/uso repetido (semanas a meses), útil em suspeita de uso habitual, doping, violência doméstica com intoxicação repetida.
- Coleta: mecha da região occipital, próxima ao couro cabeludo; amarrar indicando a extremidade proximal; registrar comprimento.
- Limitações: não avalia bem intoxicação aguda imediata; contaminação externa (fumaça/pó) exige lavagem e interpretação cautelosa; variações por cor do cabelo, cosméticos e crescimento.
Passo a passo prático: coleta, acondicionamento e rastreabilidade
1) Planejamento da coleta
- Definir hipóteses (álcool? opioide? solvente? pesticida? sedativo?) para orientar matrizes e conservantes.
- Priorizar sangue periférico + urina; adicionar humor vítreo, fígado e conteúdo gástrico conforme cenário.
- Em putrefação/exumação: reforçar humor vítreo (se disponível), fígado e cabelo; considerar músculo quando aplicável pelo laboratório.
2) Técnica e prevenção de contaminação
- Usar recipientes limpos, estéreis quando possível, e instrumentos dedicados por matriz.
- Evitar coletar sangue próximo a cavidade gástrica aberta; coletar sangue periférico antes de manipulações extensas.
- Homogeneizar conteúdo gástrico antes de alíquotas, registrando volume total.
3) Acondicionamento e conservação
- Sangue: frasco hermético; preferir com EDTA e fluoreto de sódio quando indicado; refrigerar (2–8°C) e, se demora, congelar conforme rotina do laboratório.
- Urina: frasco hermético; refrigerar/congelar conforme prazo.
- Humor vítreo: tubo pequeno bem vedado; refrigerar.
- Fígado: recipiente amplo, vedado; refrigerar/congelar.
- Cabelo: envelope de papel (evitar plástico para não reter umidade), seco, identificado com orientação proximal/distal.
- Agentes voláteis: usar frascos apropriados, totalmente vedados, com mínimo espaço de ar (headspace) quando orientado; manter refrigerado e enviar rapidamente.
4) Identificação e documentação mínima por amostra
- Identificação do caso (número, nome/ID quando houver), data/hora e local da coleta.
- Tipo de amostra, sítio anatômico (ex.: sangue femoral direito), volume/peso.
- Conservantes utilizados.
- Condições do corpo relevantes (putrefação, queimadura, tempo estimado até coleta, transfusões/infusões conhecidas).
- Solicitação analítica: triagem e confirmatórios, substâncias-alvo, e necessidade de quantificação.
5) Cadeia de custódia aplicada à toxicologia
Na toxicologia, a rastreabilidade é crucial porque pequenas falhas (troca de frascos, vedação inadequada, armazenamento incorreto) podem invalidar resultados.
- Lacrar cada recipiente com selo inviolável e identificar no próprio frasco e no lacre.
- Registrar transferências: quem coletou, quem recebeu, horários, condições de armazenamento e transporte.
- Armazenamento em local controlado (acesso restrito), com registro de temperatura quando aplicável.
- Contraprova: sempre que possível, fracionar amostras (dois frascos) para permitir reanálise independente.
Noções essenciais de farmacocinética para interpretação pericial
Absorção, distribuição, metabolismo e excreção
- Absorção: via oral pode deixar droga no estômago; via inalatória (solventes) pode ter rápida ação e pouca evidência em conteúdo gástrico.
- Distribuição: drogas lipofílicas acumulam em tecidos (fígado, gordura, cérebro), influenciando redistribuição pós-morte.
- Metabolismo: presença de metabólitos pode indicar uso anterior e não apenas contaminação; insuficiência hepática altera níveis.
- Excreção: urina concentra metabólitos; insuficiência renal prolonga meia-vida.
Meia-vida, tempo desde a exposição e janela de detecção
Resultado negativo não exclui exposição se a coleta ocorreu fora da janela de detecção ou se a substância tem meia-vida curta (ex.: algumas drogas sedativas de curta ação). Por isso, combinar matrizes (sangue + urina + humor vítreo) aumenta a robustez.
Redistribuição pós-morte (RPM)
Após o óbito, drogas podem difundir de órgãos ricos (pulmões, fígado, coração) para o sangue, elevando concentrações em sangue central. Por isso, sangue periférico é preferível para quantificação e interpretação.
Interpretação pericial: níveis terapêuticos, tóxicos e letais
Faixas terapêuticas, tóxicas e letais são referências populacionais e dependem de: tolerância, comorbidades, idade, interações, via de uso, tempo até morte e RPM. Em perícia, a interpretação deve integrar: concentração, matriz, achados, circunstâncias e possibilidade de coexposição.
Como usar as faixas na prática
- Dentro da faixa terapêutica não exclui contribuição para morte (ex.: sedação + álcool + apneia do sono; ou uso terapêutico em indivíduo vulnerável).
- Faixa tóxica sugere efeito adverso relevante, mas exige correlação com sinais (depressão respiratória, arritmia, convulsões).
- Faixa letal aumenta a probabilidade de causalidade, porém há sobreposição com tolerantes (usuários crônicos de opioides/benzodiazepínicos).
Tolerância e sensibilidades individuais
- Tolerância: usuário crônico pode apresentar concentrações elevadas com menos sinais; isso não elimina risco de morte, especialmente com coingestão.
- Hipersensibilidade: indivíduos sem tolerância, idosos ou com doença respiratória podem morrer com níveis mais baixos.
Interações medicamentosas e sinergismo
Interações podem ser farmacodinâmicas (somação de efeitos) ou farmacocinéticas (inibição/indução metabólica). Exemplos periciais comuns:
- Depressores do SNC: álcool + benzodiazepínico + opioide → risco elevado de depressão respiratória mesmo com níveis moderados.
- Inibição metabólica: alguns antidepressivos podem elevar níveis de outros fármacos metabolizados por vias comuns.
- Prolongamento de QT: combinação de fármacos com potencial arritmogênico pode precipitar morte súbita.
Falsos positivos e falsos negativos
Triagens imunológicas são úteis, mas podem reagir cruzadamente. Confirmatórios (geralmente cromatografia acoplada à espectrometria) são necessários para afirmar substância específica e quantificar.
- Falso positivo (triagem): reatividade cruzada com fármacos de uso comum pode simular anfetaminas, opioides ou benzodiazepínicos; exigir confirmação.
- Falso negativo: coleta tardia, degradação, baixa sensibilidade para certas drogas sintéticas, diluição (infusão), matriz inadequada.
- Interferências pós-morte: putrefação pode produzir álcool endógeno; por isso, interpretar álcool com matriz e contexto.
Substâncias de interesse: pontos práticos para o Médico-Legista
Álcool (etanol)
- Matrizes recomendadas: sangue periférico e humor vítreo (comparação ajuda a avaliar artefatos).
- Cuidados: putrefação pode gerar etanol; humor vítreo tende a ser mais confiável. Conservante (fluoreto) reduz formação/consumo bacteriano.
- Interpretação: considerar tolerância e coingestão; álcool potencializa depressão respiratória com sedativos e aumenta risco de acidentes.
Drogas de abuso
- Cocaína/crack: pode causar arritmias, convulsões, hipertermia; metabólitos na urina ajudam a documentar uso. Sangue periférico é chave para quantificação; atenção à instabilidade e ao tempo pós-morte.
- Anfetaminas/metanfetamina: associadas a agitação, hipertermia, eventos cardiovasculares; urina é útil para triagem, sangue para correlação com efeito.
- Canabinoides: urina frequentemente positiva por uso prévio; correlação com incapacidade aguda é limitada. Em eventos (ex.: direção), sangue tem maior valor temporal.
- Opioides (inclui sintéticos): risco de depressão respiratória; tolerância muda faixas. Solicitar painéis que incluam sintéticos quando suspeitos (nem toda triagem detecta todos).
Medicamentos de uso comum relevantes
- Benzodiazepínicos e hipnóticos: frequentemente contribuem por sinergismo com álcool/opioides; urina pode permanecer positiva por mais tempo; quantificação em sangue ajuda a discutir contribuição.
- Antidepressivos tricíclicos e antipsicóticos: maior risco de redistribuição pós-morte; preferir sangue periférico e correlacionar com achados e circunstâncias.
- Paracetamol e salicilatos: podem ser causa de morte por falência hepática/metabólica; conteúdo gástrico pode mostrar ingestão recente; sangue é essencial para quantificação (quando em vivos, curva temporal é crítica).
- Antihistamínicos sedativos: podem causar sonolência e arritmias em altas doses; atenção a coingestão.
Agentes voláteis e inalantes
- Exemplos: solventes, combustíveis, anestésicos voláteis.
- Coleta: frascos herméticos adequados, minimizar espaço de ar; refrigerar e enviar rapidamente.
- Limitações: perdas por evaporação e contaminação ambiental; interpretação depende muito do contexto (local fechado, recipientes, odor, ocupação).
Roteiro de decisão: quais amostras escolher em cenários comuns
Suspeita de overdose oral (comprimidos, frascos, vômitos)
- Coletar: sangue periférico, urina, conteúdo gástrico, fígado, humor vítreo.
- Justificativa: quantificação (sangue), evidência de exposição (urina), ingestão recente (gástrico), reserva tecidual (fígado), matriz estável (vítreo).
Suspeita de álcool em morte com putrefação
- Coletar: humor vítreo (prioritário), sangue periférico se possível, urina.
- Justificativa: reduzir risco de etanol pós-morte; comparar matrizes.
Morte em custódia com suspeita de drogas de abuso
- Coletar: sangue periférico (em duplicata), urina, humor vítreo, fígado; considerar cabelo se suspeita de uso crônico relevante.
- Justificativa: robustez probatória e possibilidade de contraprova.
Suspeita de submissão química (janela curta)
- Coletar: urina (prioritária), sangue, e, quando aplicável, cabelo (para documentar exposição em período posterior).
- Justificativa: algumas substâncias desaparecem rapidamente do sangue; urina amplia janela; cabelo pode ajudar quando a coleta é tardia.
Questões comentadas (foco em amostras e leitura de resultados)
1) Em necropsia com suspeita de intoxicação medicamentosa, qual amostra é preferível para quantificação e melhor correlação com efeito no momento próximo ao óbito?
Resposta: sangue periférico (preferencialmente femoral). Comentário: reduz influência de redistribuição pós-morte em comparação ao sangue central e é a matriz mais usada para discutir níveis terapêuticos/tóxicos/letais.
2) Em cadáver em avançada putrefação, qual matriz tende a ser mais útil para interpretação de álcool, reduzindo a chance de artefato por produção pós-morte?
Resposta: humor vítreo. Comentário: é relativamente protegido da contaminação bacteriana e da putrefação; idealmente comparar com sangue periférico e considerar conservantes.
3) Urina positiva para canabinoides, com sangue negativo, em investigação de incapacidade aguda. O que isso sugere?
Resposta: sugere exposição prévia, sem evidência forte de efeito agudo no momento avaliado. Comentário: urina detecta metabólitos por mais tempo; para temporalidade e efeito, o sangue é mais informativo.
4) Em suspeita de ingestão recente de grande quantidade de comprimidos, qual amostra pode demonstrar droga não absorvida e ajudar a reconstruir a via oral?
Resposta: conteúdo gástrico. Comentário: pode conter comprimidos íntegros ou altas concentrações; porém, presença no estômago não prova intoxicação sistêmica sem correlação com sangue e achados.
5) Por que é recomendável coletar duas amostras de sangue periférico em frascos separados quando possível?
Resposta: para permitir contraprova e reanálise independente, fortalecendo a confiabilidade pericial. Comentário: também reduz impacto de eventuais falhas de vedação/contaminação em um único frasco.
6) Triagem imunológica em urina deu positivo para “anfetaminas” em indivíduo que usava medicamento de uso comum. Qual conduta interpretativa é a mais adequada?
Resposta: tratar como resultado presuntivo e solicitar confirmação por método específico (confirmatório) antes de afirmar uso de anfetamina. Comentário: imunensaios podem ter reatividade cruzada, gerando falso positivo.
7) Em suspeita de exposição crônica a drogas (uso repetido ao longo de meses), qual matriz é mais indicada para documentar padrão de uso?
Resposta: cabelo. Comentário: permite segmentação temporal aproximada pelo comprimento; não é a melhor matriz para intoxicação aguda imediata e exige cuidado com contaminação externa.
8) Em caso com suspeita de solventes/inalantes, qual cuidado de acondicionamento é mais crítico?
Resposta: frasco hermético apropriado, com mínima perda por evaporação e transporte refrigerado rápido. Comentário: agentes voláteis se perdem facilmente; vedação e tempo até análise impactam diretamente o resultado.