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Médico-Legista da Polícia Civil: Medicina Legal Aplicada aos Concursos

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Toxicologia forense na prática do Médico-Legista: coleta, interpretação e limitações

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

+ Exercício

Quando indicar exames toxicológicos na rotina pericial

Exames toxicológicos são indicados quando há suspeita de exposição a substâncias capazes de causar ou contribuir para morte, incapacidade ou alteração comportamental relevante ao fato investigado. A indicação deve ser guiada por: circunstâncias (achados no local, relatos, frascos/embalagens), sinais clínico-necrópsicos compatíveis (odor, cianose, edema pulmonar, aspiração, congestão visceral inespecífica), histórico médico e possibilidade de responsabilidade penal/civil (direção veicular, custódia, ambiente de trabalho).

Situações típicas de indicação

  • Morte súbita ou inesperada sem causa anatômica suficiente, especialmente em jovens.
  • Achados sugestivos no local: seringas, comprimidos, pó, cachimbos, frascos de solventes, carvão ativado, vômitos com odor característico.
  • Suspeita de intoxicação por álcool/drogas em acidentes, quedas, afogamentos, incêndios, mortes em custódia.
  • Possível envenenamento (acesso a pesticidas/rodenticidas, conflitos familiares, ambiente ocupacional).
  • Investigação de violência sexual com suspeita de submissão química (benzodiazepínicos, GHB, cetamina), respeitando janela de detecção.
  • Internação prévia com uso de múltiplos fármacos (risco de interação, superdosagem iatrogênica ou erro de administração).
  • Corpos putrefeitos ou exumados: priorizar matrizes mais estáveis (humor vítreo, fígado, cabelo) e interpretar limitações.

Amostras: o que coletar, quando e por quê

A escolha da matriz biológica define a sensibilidade, a janela de detecção e a robustez interpretativa. Em perícia, recomenda-se coletar múltiplas amostras para confirmar achados, reduzir falsos negativos e permitir reanálise.

Sangue periférico

Por que coletar: melhor correlação com efeito farmacológico no momento próximo ao óbito, menor risco de contaminação por redistribuição pós-morte quando comparado ao sangue central.

  • Preferência: veia femoral (punção) ou ilíaca; evitar câmaras cardíacas como amostra única.
  • Volume sugerido: 10–20 mL (idealmente em dois frascos, para contraprova).
  • Conservação: frasco com anticoagulante (EDTA) e conservante (fluoreto de sódio) quando disponível, especialmente para álcool e algumas drogas suscetíveis a degradação.
  • Limitações: redistribuição pós-morte (ex.: antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos, opioides), hemólise, putrefação, contaminação por conteúdo gástrico em sangue central.

Urina

Por que coletar: excelente para triagem e evidência de exposição (metabólitos), janela de detecção geralmente maior que no sangue.

  • Coleta: punção vesical ou cateterização em necropsia; em vivos, coleta supervisionada conforme protocolo.
  • Volume sugerido: 30–50 mL.
  • Limitações: correlação fraca com intoxicação aguda (pode estar positiva sem efeito atual); anúria/ausência de urina em choque/hemorragia; adulteração não se aplica no cadáver, mas há degradação em putrefação.

Humor vítreo

Por que coletar: matriz relativamente protegida da putrefação e da redistribuição; útil para álcool, eletrólitos e algumas drogas.

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  • Coleta: aspiração com agulha fina no canto lateral do olho, preferencialmente bilateral (registrar lado e volume).
  • Volume sugerido: 2–5 mL por olho (quando possível).
  • Limitações: nem todas as drogas difundem bem; volumes pequenos; risco de contaminação se técnica inadequada.

Conteúdo gástrico

Por que coletar: útil em suspeita de ingestão recente, overdose oral e para identificar comprimidos/cápsulas não absorvidos.

  • Coleta: aspirar e/ou coletar todo o conteúdo, registrando volume total e aspecto; se muito volumoso, homogeneizar e coletar alíquota representativa, mantendo registro do volume total.
  • Limitações: presença de droga no estômago não prova intoxicação (pode não ter sido absorvida); contaminação por refluxo; degradação em putrefação.

Fígado

Por que coletar: órgão de metabolismo e depósito; útil quando sangue está indisponível/degradado e em putrefação.

  • Coleta: 50–100 g de parênquima (preferir lobo direito), evitando vesícula biliar e conteúdo intestinal.
  • Limitações: concentrações não se traduzem diretamente em níveis circulantes; variabilidade por congestão, esteatose e redistribuição.

Cabelo

Por que coletar: documenta exposição crônica/uso repetido (semanas a meses), útil em suspeita de uso habitual, doping, violência doméstica com intoxicação repetida.

  • Coleta: mecha da região occipital, próxima ao couro cabeludo; amarrar indicando a extremidade proximal; registrar comprimento.
  • Limitações: não avalia bem intoxicação aguda imediata; contaminação externa (fumaça/pó) exige lavagem e interpretação cautelosa; variações por cor do cabelo, cosméticos e crescimento.

Passo a passo prático: coleta, acondicionamento e rastreabilidade

1) Planejamento da coleta

  • Definir hipóteses (álcool? opioide? solvente? pesticida? sedativo?) para orientar matrizes e conservantes.
  • Priorizar sangue periférico + urina; adicionar humor vítreo, fígado e conteúdo gástrico conforme cenário.
  • Em putrefação/exumação: reforçar humor vítreo (se disponível), fígado e cabelo; considerar músculo quando aplicável pelo laboratório.

2) Técnica e prevenção de contaminação

  • Usar recipientes limpos, estéreis quando possível, e instrumentos dedicados por matriz.
  • Evitar coletar sangue próximo a cavidade gástrica aberta; coletar sangue periférico antes de manipulações extensas.
  • Homogeneizar conteúdo gástrico antes de alíquotas, registrando volume total.

3) Acondicionamento e conservação

  • Sangue: frasco hermético; preferir com EDTA e fluoreto de sódio quando indicado; refrigerar (2–8°C) e, se demora, congelar conforme rotina do laboratório.
  • Urina: frasco hermético; refrigerar/congelar conforme prazo.
  • Humor vítreo: tubo pequeno bem vedado; refrigerar.
  • Fígado: recipiente amplo, vedado; refrigerar/congelar.
  • Cabelo: envelope de papel (evitar plástico para não reter umidade), seco, identificado com orientação proximal/distal.
  • Agentes voláteis: usar frascos apropriados, totalmente vedados, com mínimo espaço de ar (headspace) quando orientado; manter refrigerado e enviar rapidamente.

4) Identificação e documentação mínima por amostra

  • Identificação do caso (número, nome/ID quando houver), data/hora e local da coleta.
  • Tipo de amostra, sítio anatômico (ex.: sangue femoral direito), volume/peso.
  • Conservantes utilizados.
  • Condições do corpo relevantes (putrefação, queimadura, tempo estimado até coleta, transfusões/infusões conhecidas).
  • Solicitação analítica: triagem e confirmatórios, substâncias-alvo, e necessidade de quantificação.

5) Cadeia de custódia aplicada à toxicologia

Na toxicologia, a rastreabilidade é crucial porque pequenas falhas (troca de frascos, vedação inadequada, armazenamento incorreto) podem invalidar resultados.

  • Lacrar cada recipiente com selo inviolável e identificar no próprio frasco e no lacre.
  • Registrar transferências: quem coletou, quem recebeu, horários, condições de armazenamento e transporte.
  • Armazenamento em local controlado (acesso restrito), com registro de temperatura quando aplicável.
  • Contraprova: sempre que possível, fracionar amostras (dois frascos) para permitir reanálise independente.

Noções essenciais de farmacocinética para interpretação pericial

Absorção, distribuição, metabolismo e excreção

  • Absorção: via oral pode deixar droga no estômago; via inalatória (solventes) pode ter rápida ação e pouca evidência em conteúdo gástrico.
  • Distribuição: drogas lipofílicas acumulam em tecidos (fígado, gordura, cérebro), influenciando redistribuição pós-morte.
  • Metabolismo: presença de metabólitos pode indicar uso anterior e não apenas contaminação; insuficiência hepática altera níveis.
  • Excreção: urina concentra metabólitos; insuficiência renal prolonga meia-vida.

Meia-vida, tempo desde a exposição e janela de detecção

Resultado negativo não exclui exposição se a coleta ocorreu fora da janela de detecção ou se a substância tem meia-vida curta (ex.: algumas drogas sedativas de curta ação). Por isso, combinar matrizes (sangue + urina + humor vítreo) aumenta a robustez.

Redistribuição pós-morte (RPM)

Após o óbito, drogas podem difundir de órgãos ricos (pulmões, fígado, coração) para o sangue, elevando concentrações em sangue central. Por isso, sangue periférico é preferível para quantificação e interpretação.

Interpretação pericial: níveis terapêuticos, tóxicos e letais

Faixas terapêuticas, tóxicas e letais são referências populacionais e dependem de: tolerância, comorbidades, idade, interações, via de uso, tempo até morte e RPM. Em perícia, a interpretação deve integrar: concentração, matriz, achados, circunstâncias e possibilidade de coexposição.

Como usar as faixas na prática

  • Dentro da faixa terapêutica não exclui contribuição para morte (ex.: sedação + álcool + apneia do sono; ou uso terapêutico em indivíduo vulnerável).
  • Faixa tóxica sugere efeito adverso relevante, mas exige correlação com sinais (depressão respiratória, arritmia, convulsões).
  • Faixa letal aumenta a probabilidade de causalidade, porém há sobreposição com tolerantes (usuários crônicos de opioides/benzodiazepínicos).

Tolerância e sensibilidades individuais

  • Tolerância: usuário crônico pode apresentar concentrações elevadas com menos sinais; isso não elimina risco de morte, especialmente com coingestão.
  • Hipersensibilidade: indivíduos sem tolerância, idosos ou com doença respiratória podem morrer com níveis mais baixos.

Interações medicamentosas e sinergismo

Interações podem ser farmacodinâmicas (somação de efeitos) ou farmacocinéticas (inibição/indução metabólica). Exemplos periciais comuns:

  • Depressores do SNC: álcool + benzodiazepínico + opioide → risco elevado de depressão respiratória mesmo com níveis moderados.
  • Inibição metabólica: alguns antidepressivos podem elevar níveis de outros fármacos metabolizados por vias comuns.
  • Prolongamento de QT: combinação de fármacos com potencial arritmogênico pode precipitar morte súbita.

Falsos positivos e falsos negativos

Triagens imunológicas são úteis, mas podem reagir cruzadamente. Confirmatórios (geralmente cromatografia acoplada à espectrometria) são necessários para afirmar substância específica e quantificar.

  • Falso positivo (triagem): reatividade cruzada com fármacos de uso comum pode simular anfetaminas, opioides ou benzodiazepínicos; exigir confirmação.
  • Falso negativo: coleta tardia, degradação, baixa sensibilidade para certas drogas sintéticas, diluição (infusão), matriz inadequada.
  • Interferências pós-morte: putrefação pode produzir álcool endógeno; por isso, interpretar álcool com matriz e contexto.

Substâncias de interesse: pontos práticos para o Médico-Legista

Álcool (etanol)

  • Matrizes recomendadas: sangue periférico e humor vítreo (comparação ajuda a avaliar artefatos).
  • Cuidados: putrefação pode gerar etanol; humor vítreo tende a ser mais confiável. Conservante (fluoreto) reduz formação/consumo bacteriano.
  • Interpretação: considerar tolerância e coingestão; álcool potencializa depressão respiratória com sedativos e aumenta risco de acidentes.

Drogas de abuso

  • Cocaína/crack: pode causar arritmias, convulsões, hipertermia; metabólitos na urina ajudam a documentar uso. Sangue periférico é chave para quantificação; atenção à instabilidade e ao tempo pós-morte.
  • Anfetaminas/metanfetamina: associadas a agitação, hipertermia, eventos cardiovasculares; urina é útil para triagem, sangue para correlação com efeito.
  • Canabinoides: urina frequentemente positiva por uso prévio; correlação com incapacidade aguda é limitada. Em eventos (ex.: direção), sangue tem maior valor temporal.
  • Opioides (inclui sintéticos): risco de depressão respiratória; tolerância muda faixas. Solicitar painéis que incluam sintéticos quando suspeitos (nem toda triagem detecta todos).

Medicamentos de uso comum relevantes

  • Benzodiazepínicos e hipnóticos: frequentemente contribuem por sinergismo com álcool/opioides; urina pode permanecer positiva por mais tempo; quantificação em sangue ajuda a discutir contribuição.
  • Antidepressivos tricíclicos e antipsicóticos: maior risco de redistribuição pós-morte; preferir sangue periférico e correlacionar com achados e circunstâncias.
  • Paracetamol e salicilatos: podem ser causa de morte por falência hepática/metabólica; conteúdo gástrico pode mostrar ingestão recente; sangue é essencial para quantificação (quando em vivos, curva temporal é crítica).
  • Antihistamínicos sedativos: podem causar sonolência e arritmias em altas doses; atenção a coingestão.

Agentes voláteis e inalantes

  • Exemplos: solventes, combustíveis, anestésicos voláteis.
  • Coleta: frascos herméticos adequados, minimizar espaço de ar; refrigerar e enviar rapidamente.
  • Limitações: perdas por evaporação e contaminação ambiental; interpretação depende muito do contexto (local fechado, recipientes, odor, ocupação).

Roteiro de decisão: quais amostras escolher em cenários comuns

Suspeita de overdose oral (comprimidos, frascos, vômitos)

  • Coletar: sangue periférico, urina, conteúdo gástrico, fígado, humor vítreo.
  • Justificativa: quantificação (sangue), evidência de exposição (urina), ingestão recente (gástrico), reserva tecidual (fígado), matriz estável (vítreo).

Suspeita de álcool em morte com putrefação

  • Coletar: humor vítreo (prioritário), sangue periférico se possível, urina.
  • Justificativa: reduzir risco de etanol pós-morte; comparar matrizes.

Morte em custódia com suspeita de drogas de abuso

  • Coletar: sangue periférico (em duplicata), urina, humor vítreo, fígado; considerar cabelo se suspeita de uso crônico relevante.
  • Justificativa: robustez probatória e possibilidade de contraprova.

Suspeita de submissão química (janela curta)

  • Coletar: urina (prioritária), sangue, e, quando aplicável, cabelo (para documentar exposição em período posterior).
  • Justificativa: algumas substâncias desaparecem rapidamente do sangue; urina amplia janela; cabelo pode ajudar quando a coleta é tardia.

Questões comentadas (foco em amostras e leitura de resultados)

1) Em necropsia com suspeita de intoxicação medicamentosa, qual amostra é preferível para quantificação e melhor correlação com efeito no momento próximo ao óbito?

Resposta: sangue periférico (preferencialmente femoral). Comentário: reduz influência de redistribuição pós-morte em comparação ao sangue central e é a matriz mais usada para discutir níveis terapêuticos/tóxicos/letais.

2) Em cadáver em avançada putrefação, qual matriz tende a ser mais útil para interpretação de álcool, reduzindo a chance de artefato por produção pós-morte?

Resposta: humor vítreo. Comentário: é relativamente protegido da contaminação bacteriana e da putrefação; idealmente comparar com sangue periférico e considerar conservantes.

3) Urina positiva para canabinoides, com sangue negativo, em investigação de incapacidade aguda. O que isso sugere?

Resposta: sugere exposição prévia, sem evidência forte de efeito agudo no momento avaliado. Comentário: urina detecta metabólitos por mais tempo; para temporalidade e efeito, o sangue é mais informativo.

4) Em suspeita de ingestão recente de grande quantidade de comprimidos, qual amostra pode demonstrar droga não absorvida e ajudar a reconstruir a via oral?

Resposta: conteúdo gástrico. Comentário: pode conter comprimidos íntegros ou altas concentrações; porém, presença no estômago não prova intoxicação sistêmica sem correlação com sangue e achados.

5) Por que é recomendável coletar duas amostras de sangue periférico em frascos separados quando possível?

Resposta: para permitir contraprova e reanálise independente, fortalecendo a confiabilidade pericial. Comentário: também reduz impacto de eventuais falhas de vedação/contaminação em um único frasco.

6) Triagem imunológica em urina deu positivo para “anfetaminas” em indivíduo que usava medicamento de uso comum. Qual conduta interpretativa é a mais adequada?

Resposta: tratar como resultado presuntivo e solicitar confirmação por método específico (confirmatório) antes de afirmar uso de anfetamina. Comentário: imunensaios podem ter reatividade cruzada, gerando falso positivo.

7) Em suspeita de exposição crônica a drogas (uso repetido ao longo de meses), qual matriz é mais indicada para documentar padrão de uso?

Resposta: cabelo. Comentário: permite segmentação temporal aproximada pelo comprimento; não é a melhor matriz para intoxicação aguda imediata e exige cuidado com contaminação externa.

8) Em caso com suspeita de solventes/inalantes, qual cuidado de acondicionamento é mais crítico?

Resposta: frasco hermético apropriado, com mínima perda por evaporação e transporte refrigerado rápido. Comentário: agentes voláteis se perdem facilmente; vedação e tempo até análise impactam diretamente o resultado.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma necropsia com suspeita de intoxicação medicamentosa, qual amostra é preferível para quantificação e melhor correlação com o efeito no momento próximo ao óbito?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O sangue periférico (idealmente femoral) é a matriz preferida para quantificação e correlação com efeito próximo ao óbito, pois sofre menos influência da redistribuição pós-morte do que o sangue central.

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