Capa do Ebook gratuito Médico-Legista da Polícia Civil: Medicina Legal Aplicada aos Concursos

Médico-Legista da Polícia Civil: Medicina Legal Aplicada aos Concursos

Novo curso

16 páginas

Sexologia forense e exames periciais em violência sexual

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Conceitos médico-legais essenciais em violência sexual

Sexologia forense, no contexto pericial, é o conjunto de procedimentos médico-legais voltados a examinar pessoas e vestígios relacionados a crimes contra a dignidade sexual, com foco em: (1) identificar e descrever achados corporais e extragenitais; (2) coletar e preservar vestígios biológicos; (3) responder quesitos com linguagem técnica, objetiva e limitada ao que o exame permite demonstrar.

Para concursos, é fundamental diferenciar o que é conceito jurídico do que é inferência pericial. A perícia descreve achados e compatibilidades; não “prova” consentimento, dinâmica completa ou autoria isoladamente.

Conjunção carnal e atos libidinosos (interface com a perícia)

  • Conjunção carnal: cópula vaginal com penetração do pênis na vagina. A perícia pode identificar sinais compatíveis com penetração vaginal recente (lesões, espermatozoides, DNA, secreções), mas a ausência de achados não exclui a ocorrência.

  • Atos libidinosos: atos de natureza sexual diversos da conjunção carnal (ex.: penetração anal ou oral, manipulação genital, fricção, ejaculação sobre o corpo, uso de objetos). A perícia busca vestígios e lesões compatíveis com o ato alegado e com o intervalo temporal.

Sinais específicos e inespecíficos: como interpretar

Em violência sexual, muitos achados são inespecíficos (podem ocorrer em outras situações) e poucos são altamente sugestivos quando associados ao contexto e à cronologia.

Continue em nosso aplicativo

Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.

ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Achados mais sugestivos (dependem do contexto): presença de sêmen/espermatozoides em local compatível; DNA masculino em swab vaginal/anal/oral em vítima que relata ausência de relação sexual consensual recente; lesões agudas em hímen/vestíbulo/períneo/ânus com cronologia compatível; lesões de contenção (equimoses em punhos/braços) associadas a relato de imobilização.

  • Achados inespecíficos: hiperemia, pequenas escoriações, fissuras superficiais, dor à palpação, alterações antigas do hímen, secreções vaginais comuns, lesões cutâneas sem padrão, ausência de lesões genitais (muito frequente).

Limite pericial clássico: não é possível inferir consentimento apenas por lesões ou sua ausência. Também não é possível datar com precisão absoluta o momento do ato; trabalha-se com “compatível com lesão recente/antiga” e com janelas de detecção de vestígios.

Protocolos de atendimento pericial: dignidade, privacidade e redução de revitimização

Princípios operacionais

  • Ambiente: sala reservada, aquecida, com biombo, lençóis, iluminação adequada e materiais organizados para reduzir tempo de exposição.

  • Comunicação: linguagem simples, avisar cada etapa antes de tocar, permitir pausas, oferecer acompanhante quando cabível, evitar perguntas repetitivas e desnecessárias.

  • Consentimento informado: explicar finalidade do exame, limites e possibilidade de recusa de etapas específicas. Registrar recusas.

  • Minimização de revitimização: colher apenas história necessária para orientar coleta (o “mínimo suficiente”), evitando detalhes narrativos que já constem em depoimentos.

  • Cuidados com vulneráveis: em crianças/adolescentes, priorizar abordagem não sugestiva, presença de responsável quando indicado e técnicas de exame adequadas à faixa etária; evitar manobras invasivas desnecessárias.

História dirigida mínima (para orientar o exame e a coleta)

Coletar informações objetivas: tipo de contato (vaginal/anal/oral/objeto), uso de preservativo, ejaculação e local, uso de lubrificante, tempo desde o fato, higiene pós-fato (banho, escovação, ducha, troca de roupa), micção/defecação, menstruação, atividade sexual consensual recente, uso de medicamentos, dor/sangramento, perda de consciência, e se houve contenção física.

Exame médico-legal em vítima: passo a passo prático

1) Preparação e triagem de prioridades

  • Prioridade clínica: se houver risco imediato (hemorragia, trauma grave, intoxicação, rebaixamento de consciência), estabilizar e encaminhar atendimento emergencial antes do exame pericial completo. Registrar o motivo de eventual exame parcial.

  • Planejamento de coleta: com base no intervalo temporal e no tipo de ato, definir quais swabs e quais roupas/itens coletar.

2) Exame geral e documentação de lesões extragenitais

  • Inspeção sistemática: couro cabeludo, face, pescoço, tronco, membros, mãos/unhas, região glútea e coxas. Procurar lesões de contenção, defesa e arrasto.

  • Descrição padronizada: localização anatômica, dimensões, forma, coloração, bordas, orientação e sinais associados (dor, edema). Diferenciar lesões recentes de antigas quando possível, com linguagem de compatibilidade.

  • Fotodocumentação: quando disponível e autorizado, com escala métrica e identificação do segmento corporal, preservando privacidade (evitar exposição desnecessária).

3) Exame anogenital (técnico e respeitoso)

  • Posicionamento: escolher o que ofereça melhor visualização com menor desconforto (ex.: litotomia modificada). Explicar antes de iniciar.

  • Inspeção externa: vulva/vestíbulo/períneo/ânus, buscando escoriações, fissuras, equimoses, edema, sangramento, secreções, dor localizada.

  • Hímen: descrever morfologia e achados (entallhes, roturas, cicatrizes) com cautela. Evitar conclusões categóricas sobre “virgindade”; preferir descrição anatômica e compatibilidade com trauma recente/antigo.

  • Exame anal: inspeção perianal e anal, procurando fissuras, equimoses, lacerações, dor, espasmo, sangramento. Interpretar com cautela: achados podem ocorrer por outras causas.

  • Exame oral: quando houver relato de sexo oral, inspecionar mucosa oral, palato, frênulo, comissuras, e coletar swab oral conforme janela de detecção.

4) Coleta de vestígios biológicos: o que coletar e como

A coleta deve ser orientada pelo relato mínimo e pelo tempo decorrido. Priorizar locais com maior probabilidade de material biológico e menor risco de contaminação.

  • Swabs: vaginal (introito e canal, conforme protocolo), anal (perianal e canal), oral, pele (áreas com possível ejaculação/contato), e swabs de lesões úmidas. Usar swabs estéreis, preferencialmente com coleta dupla (um para triagem e outro para DNA), quando o kit institucional assim prever.

  • Unhas: raspado subungueal ou swab sob unhas quando houver luta/arranhões. Útil para DNA de contato.

  • Roupas e itens: roupas íntimas e externas usadas no evento, lençóis, toalhas, preservativo (se disponível), absorventes. Embalar cada item separadamente, preferir papel (evita umidade e degradação), identificar e lacrar.

  • Amostras de referência: coleta de material da vítima para comparação genética (ex.: swab bucal) conforme protocolo local. Em suspeitos, coletar amostra de referência mediante requisição/ordem e procedimento formal.

5) Janelas de detecção: noções práticas para concursos

As janelas variam com higiene, menstruação, uso de preservativo, lubrificantes e tempo. Em prova, o raciocínio esperado é: quanto mais cedo, maior a chance de recuperar sêmen e DNA; quanto mais tarde, maior a dependência de DNA de contato e de vestígios em roupas/objetos.

  • Swab oral: janela geralmente curta; coleta deve ser precoce, especialmente se houve ingestão de alimentos, escovação ou enxágue.

  • Swab vaginal: tende a ter melhor rendimento nas primeiras dezenas de horas, mas pode haver detecção por mais tempo dependendo das condições. Mesmo com tempo maior, roupas íntimas podem ser mais informativas.

  • Swab anal: janela variável e frequentemente menor que a vaginal; evacuação reduz recuperação. Coletar o quanto antes quando houver relato.

  • Pele: material biológico em pele é facilmente removido por banho/atrito; priorizar coleta precoce e áreas protegidas (dobras, atrás de orelhas, região mamária, abdome inferior, coxas).

Em laudo, evitar afirmar prazos absolutos; preferir: “a probabilidade de detecção diminui com o tempo e com higiene pós-fato”.

6) Cadeia de custódia aplicada à coleta (sem repetir teoria)

No ato da coleta, o foco prático é: identificar corretamente cada amostra, lacrar imediatamente, registrar horário, coletor, local anatômico/objeto, condições (úmido/seco), e manter acondicionamento adequado (seco, refrigerado quando indicado) até entrega formal ao setor responsável.

Exame médico-legal em suspeito: passo a passo prático

Objetivos periciais

  • Documentar lesões compatíveis com luta/contensão (arranhões, mordidas, equimoses).

  • Coletar vestígios biológicos que possam relacionar suspeito e vítima (DNA de contato, secreções, material sob unhas).

  • Registrar condições genitais relevantes (lesões, secreções), sem extrapolar para juízo de culpabilidade.

1) Exame físico e documentação de lesões

  • Inspeção completa com atenção a: mãos/unhas, antebraços, pescoço, tronco, região genital e coxas.

  • Lesões por mordida: descrever e, quando possível, coletar swab da área (saliva) e fotografar com escala.

  • Arranhões: podem conter DNA da vítima; coletar swab da área antes de limpeza.

2) Coleta de vestígios no suspeito

  • Swab peniano: especialmente sulco balanoprepucial e glande; útil para DNA vaginal/anal/oral dependendo do ato e do tempo. Higiene prévia reduz rendimento.

  • Swab escrotal/púbico: pode recuperar DNA de contato.

  • Raspado subungueal: se houve luta.

  • Roupas: apreender e embalar separadamente se ainda forem as do evento.

  • Amostra de referência: swab bucal para perfil genético do suspeito conforme formalidades legais.

Integração com genética forense: como o achado vira evidência

Triagem e confirmação

  • Triagem: testes presuntivos para sêmen e outros fluidos podem orientar priorização de amostras.

  • DNA: perfis genéticos podem ser obtidos de sêmen, células epiteliais (DNA de contato), saliva e sangue. Misturas (vítima + agressor) são comuns e exigem interpretação especializada.

Interpretação pericial típica

  • Compatibilidade: “perfil genético masculino detectado” ou “perfil compatível com o suspeito X” (conforme laudo do laboratório).

  • Limites: DNA pode indicar contato, não necessariamente o tipo de ato, o momento exato ou a ausência de consentimento. Contaminação e transferência secundária são possibilidades a serem controladas por protocolo.

Como redigir achados e responder quesitos: objetividade técnica

Estrutura de resposta pericial em violência sexual

  • O que foi examinado: pessoa, data/hora, condições do exame, queixas relevantes ao exame.

  • Achados: descrever, medir, localizar; separar extragenitais e anogenitais.

  • Vestígios coletados: listar amostras, local anatômico/objeto, acondicionamento.

  • Discussão técnica: compatibilidade entre achados e alegações, sem extrapolar.

  • Respostas aos quesitos: diretas, numeradas, com “sim/não/prejudicado” quando cabível, seguidas de breve fundamentação.

Modelos de quesitos frequentes (vítima) e respostas exemplificativas

Q1. Há sinais de conjunção carnal recente?  Q2. Há sinais de violência?  Q3. Há vestígios biológicos compatíveis com ato sexual?  Q4. É possível afirmar se houve consentimento?  Q5. As lesões são compatíveis com o tempo referido?
  • Q1 (exemplo de resposta): “Foram observadas escoriações recentes em vestíbulo vaginal e pequena fissura em comissura posterior, achados compatíveis com trauma recente. Não foram identificados sinais patognomônicos; a ausência de achados específicos não exclui conjunção carnal.”

  • Q2: “Há equimoses em face medial de braços e escoriações lineares em punhos, compatíveis com contenção. Tais achados são inespecíficos e devem ser correlacionados ao contexto.”

  • Q3: “Foram coletados swabs vaginal, anal e oral, além de roupas íntimas. A confirmação de material seminal/DNA dependerá de exame laboratorial.”

  • Q4: “Prejudicado do ponto de vista médico-legal: o exame físico não permite concluir sobre consentimento.”

  • Q5: “A morfologia e aspecto das lesões são compatíveis com lesões recentes, podendo guardar relação temporal com o intervalo informado, sem possibilidade de datação precisa.”

Modelos de quesitos frequentes (suspeito) e respostas exemplificativas

Q1. O examinado apresenta lesões compatíveis com luta/defesa da vítima?  Q2. Há vestígios biológicos que possam relacioná-lo ao fato?  Q3. Há sinais genitais de atividade sexual recente?  Q4. É possível afirmar que o examinado praticou o ato?
  • Q1: “Há escoriações lineares recentes em dorso de mãos e antebraços, compatíveis com arranhões. A origem específica não pode ser determinada apenas pelo exame.”

  • Q2: “Foram coletados swab peniano (glande e sulco balanoprepucial), swab escrotal e raspado subungueal. A eventual identificação de DNA de terceiro dependerá de análise genética.”

  • Q3: “Não há sinais específicos que permitam afirmar atividade sexual recente; foram observadas condições locais sem alterações traumáticas evidentes. Ressalta-se que a ausência de lesões não exclui a prática de ato sexual.”

  • Q4: “Prejudicado: o exame médico-legal, isoladamente, não permite atribuir autoria. Pode apenas descrever achados e vestígios e sua compatibilidade com hipóteses investigativas.”

Pontos de atenção em prova: erros comuns e como evitar

  • Confundir ausência de lesão com ausência de violência: é frequente não haver lesões genitais, especialmente quando há lubrificação, ameaça sem força física, ou intervalo longo.

  • Superestimar “sinais específicos”: hiperemia e pequenas fissuras são comuns e inespecíficas; o valor aumenta com documentação adequada, cronologia e vestígios laboratoriais.

  • Ignorar higiene e troca de roupas: banho e troca reduzem vestígios em pele, mas roupas e itens podem manter material biológico.

  • Responder quesitos com juízo de valor: manter respostas técnicas, com termos como “compatível”, “sugestivo”, “inespecífico”, “prejudicado”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao responder quesitos em um exame médico-legal relacionado à violência sexual, qual conduta está mais alinhada aos limites periciais e à linguagem técnica adequada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A perícia deve ser objetiva e limitada ao que o exame demonstra: descreve achados, coleta vestígios e aponta compatibilidades. Não permite concluir isoladamente sobre consentimento, autoria ou datação precisa; nesses casos, a resposta pode ser prejudicada.

Próximo capitúlo

Identificação humana e genética forense aplicadas ao Médico-Legista da Polícia Civil

Arrow Right Icon
Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.