Topografia e orientação são competências diretamente ligadas a operações de busca e salvamento (SAR), resposta a desastres, reconhecimento de área, deslocamento de guarnições e evacuações. Em provas, o tema costuma aparecer em leitura de cartas, escalas, coordenadas, azimute/rumo e cálculos simples de distância e tempo.
1) Conceitos essenciais para provas e operações
Topografia x Cartografia (visão prática)
- Topografia: representação e medição de detalhes de uma área em escala relativamente grande (maior nível de detalhe), útil para planejamento local (ex.: encosta, vale, acessos, obstáculos).
- Cartografia: representação de áreas maiores em mapas/carta, com generalização de elementos (ex.: carta topográfica 1:50.000).
Elementos básicos de uma carta topográfica
- Legenda: símbolos (estradas, rios, edificações, vegetação, linhas de transmissão, etc.).
- Escala: relação entre distância no mapa e distância real.
- Curvas de nível: linhas que unem pontos de mesma altitude.
- Grade de coordenadas: pode ser geográfica (latitude/longitude) ou UTM (metros).
- Norte: pode haver indicação de norte geográfico (verdadeiro), norte magnético e norte da grade (UTM).
2) Coordenadas: como localizar e informar posição
Coordenadas geográficas (latitude/longitude)
São expressas em graus (°), minutos (') e segundos (") ou em graus decimais. Em operações, aparecem em GPS e em alguns mapas. Em prova, é comum pedir interpretação: hemisfério, sinal (N/S, E/W) e leitura correta.
- Latitude: varia de 0° (Equador) a 90° (polos), Norte (N) ou Sul (S).
- Longitude: varia de 0° (Greenwich) a 180°, Leste (E) ou Oeste (W).
Coordenadas UTM (mais comuns em cartas topográficas)
O sistema UTM usa coordenadas em metros: Easting (E) e Northing (N), dentro de uma zona UTM. A leitura é prática para medir deslocamentos e planejar rotas.
- E (Leste/Oeste): aumenta para leste.
- N (Norte/Sul): aumenta para norte.
- Em geral, a carta traz linhas de grade (quadrículas) com valores nas bordas.
Passo a passo: como obter uma coordenada UTM no mapa
- 1) Identifique a zona UTM e o datum indicados na carta (informação marginal).
- 2) Localize o ponto no interior de uma quadrícula (entre duas linhas verticais e duas horizontais).
- 3) Leia primeiro o Easting da linha vertical à esquerda do ponto.
- 4) Estime os metros adicionais até o ponto (dividindo a quadrícula em décimos, se necessário).
- 5) Faça o mesmo para o Northing, usando a linha horizontal inferior do ponto.
- 6) Informe no padrão: Zona + E + N (ex.: 23K 345000E 7392000N), conforme a convenção adotada.
Aplicação operacional: em busca por desaparecido em mata, a equipe pode dividir a área por quadrículas UTM e atribuir setores, registrando achados e trilhas por coordenadas para facilitar revezamento e continuidade.
3) Escalas e medições: distância real, tempo e velocidade
Tipos de escala
- Numérica: 1:50.000 (1 unidade no mapa = 50.000 unidades no terreno).
- Gráfica: barra graduada, útil quando o mapa foi ampliado/reduzido.
Como calcular distância real pela escala (prova)
Regra: Distância real = distância no mapa × denominador da escala (ajustando unidades).
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Exemplo: em uma carta 1:50.000, uma distância de 3 cm no mapa corresponde a: 3 cm × 50.000 = 150.000 cm = 1.500 m = 1,5 km.
Passo a passo: estimar tempo de deslocamento
- 1) Meça a distância (reta ou seguindo caminho/estrada) usando régua, barbante ou curvímetro.
- 2) Converta pela escala para obter a distância real.
- 3) Defina a velocidade média (depende do terreno e da missão).
- 4) Use: tempo = distância / velocidade.
- 5) Ajuste por fatores operacionais: declividade, carga, vegetação, paradas de segurança, navegação noturna.
Aplicação operacional: em deslizamento com acesso parcial, estimar tempo de chegada de equipes a pé e de transporte de equipamentos auxilia no escalonamento e na janela de sobrevivência.
4) Curvas de nível e relevo: leitura rápida para tomada de decisão
Conceitos-chave
- Curva de nível: liga pontos de mesma altitude.
- Equidistância: diferença de altitude entre curvas consecutivas (ex.: 20 m).
- Curvas próximas: relevo íngreme.
- Curvas espaçadas: relevo suave.
- V nas curvas apontando para montante: indica vale (geralmente com drenagem).
- V invertido apontando para jusante: indica crista/espigão.
Como estimar desnível e declividade (noções de prova)
- Desnível: conte quantas curvas foram cruzadas e multiplique pela equidistância.
- Declividade aproximada: declividade (%) = (desnível / distância horizontal) × 100.
Exemplo: equidistância 20 m. Entre dois pontos, cruza-se 5 intervalos de curvas: desnível = 5 × 20 = 100 m. Se a distância horizontal é 1.000 m, declividade = (100/1000)×100 = 10%.
Aplicação operacional: em busca em encosta, escolher rotas por espigões pode reduzir risco de queda e facilitar comunicação visual; vales podem concentrar neblina, água e dificultar progressão.
5) Orientação: azimute, rumo e referência de norte
Azimute
É o ângulo medido no sentido horário a partir do norte (0° a 360°) até a direção do alvo. Ex.: leste = 90°, sul = 180°, oeste = 270°.
Rumo
É uma forma de expressar direção usando quadrantes (NE, SE, SW, NW), com ângulo de 0° a 90° a partir do norte ou sul em direção ao leste ou oeste. Ex.: N 30° E.
Conversões rápidas (típicas de prova)
- Azimute 30° = rumo N 30° E.
- Azimute 120° (entre 90 e 180) = rumo S 60° E (180 − 120 = 60).
- Azimute 210° (entre 180 e 270) = rumo S 30° W (210 − 180 = 30).
- Azimute 300° (entre 270 e 360) = rumo N 60° W (360 − 300 = 60).
Norte verdadeiro, magnético e declinação magnética
- Norte verdadeiro (geográfico): direção do Polo Norte geográfico.
- Norte magnético: direção indicada pela bússola (varia no tempo e no espaço).
- Declinação magnética: ângulo entre norte verdadeiro e norte magnético (leste ou oeste), informado na carta.
Em provas, pode aparecer como ajuste simples: para converter um azimute medido no mapa (referido ao norte verdadeiro/grade) para uso na bússola (norte magnético), aplica-se a declinação conforme o enunciado e o diagrama da carta.
6) Bússola: uso básico e procedimentos práticos
Partes e noções operacionais
- Seta de direção (para onde você quer ir).
- Limbo graduado (0–360°).
- Agulha magnética (aponta para o norte magnético).
- Linhas de orientação (para alinhar com o norte no limbo).
Passo a passo: seguir um azimute no terreno
- 1) Defina o azimute (do mapa ou do objetivo).
- 2) Ajuste a declinação magnética se o procedimento/questão exigir.
- 3) Gire o limbo até o valor do azimute ficar alinhado com a marca de referência.
- 4) Com a bússola nivelada, gire o corpo até a agulha magnética coincidir com as linhas de orientação ("agulha no norte").
- 5) Siga na direção da seta, escolhendo um ponto de referência visível (árvore, poste, canto de edificação) para caminhar até ele e repetir.
Passo a passo: obter azimute de um ponto visível
- 1) Aponte a seta de direção para o alvo.
- 2) Gire o limbo até alinhar as linhas de orientação com a agulha.
- 3) Leia o azimute na marca de referência.
Aplicação operacional: em busca noturna com visibilidade reduzida, seguir azimutes curtos entre pontos de referência diminui deriva e facilita retorno ao ponto de partida (azimute de ida e de volta, com 180° de diferença).
7) GPS: uso básico, limitações e boas práticas
O que o GPS entrega (para prova e prática)
- Posição (lat/long ou UTM), altitude (com variação), velocidade, rumo de deslocamento.
- Waypoints: pontos marcados (ex.: último avistamento, base, ponto de extração).
- Tracklog: trilha percorrida (útil para retorno e auditoria da busca).
Passo a passo: marcar ponto e navegar até ele
- 1) Configure o sistema de coordenadas conforme a carta/planejamento (UTM ou lat/long) e o datum indicado.
- 2) No local de interesse, salve um waypoint com nome padronizado (ex.: PONTO-EXTRACAO-01).
- 3) Selecione “Ir para” o waypoint e acompanhe direção e distância.
- 4) Mantenha o track gravando para permitir retorno e para repassar a rota a outra equipe.
Limitações comuns (cobráveis em prova)
- Erros por cobertura de copa, cânions urbanos, clima e geometria de satélites.
- Diferença de datum pode deslocar a posição no mapa.
- Bateria e fragilidade: sempre ter plano alternativo (mapa + bússola).
Aplicação operacional: em enchentes, registrar pontos de alagamento e rotas seguras por waypoints acelera o planejamento de evacuação e a logística de suprimentos.
8) Interpretação de cartas e planejamento de deslocamento (rural e urbano)
Planejamento em área rural (SAR e desastres)
- Defina objetivo e restrições: tempo, clima, risco, comunicação.
- Escolha linhas de referência: cristas, rios, estradas vicinais, aceiros.
- Evite armadilhas do relevo: encostas muito íngremes, áreas alagadiças, travessias perigosas.
- Setorização: dividir por quadrículas UTM e atribuir equipes com rotas de entrada/saída.
- Pontos de controle: marcos intermediários para confirmar navegação (interseções de trilhas, pontes, cotas).
Planejamento em área urbana (resposta rápida)
- Rotas alternativas: considerar bloqueios, pontes, túneis, vias de mão única.
- Referências lineares: avenidas, linhas férreas, rios canalizados.
- Pontos críticos: hospitais, abrigos, áreas de risco, locais de concentração de pessoas.
- Comunicação de localização: cruzamentos, marcos e coordenadas (quando necessário) para despacho e integração.
Passo a passo: traçar rota no mapa com pontos de controle
- 1) Marque origem, destino e possíveis obstáculos.
- 2) Trace 2 a 3 rotas candidatas (principal e alternativas).
- 3) Meça distâncias e estime tempos (incluindo margens).
- 4) Defina pontos de controle (PC1, PC2...) e pontos de decisão (onde escolher rota A/B).
- 5) Registre azimutes e distâncias entre PCs para navegação em baixa visibilidade.
- 6) Prepare mensagem curta para repasse: rota, PCs, tempo estimado, riscos.
9) Problemas típicos de prova (com cálculos simples)
Questão 1 (escala e distância)
Enunciado: Em uma carta 1:25.000, a distância entre dois pontos é 8 cm. Qual a distância real em km?
Resolução: 8 cm × 25.000 = 200.000 cm = 2.000 m = 2 km.
Questão 2 (tempo de deslocamento)
Enunciado: Uma guarnição a pé percorre 6 km a 4 km/h em terreno regular. Quanto tempo levará?
Resolução: tempo = 6/4 = 1,5 h = 1 h 30 min.
Questão 3 (desnível por curvas de nível)
Enunciado: A equidistância da carta é 20 m. Entre o ponto A e o ponto B há diferença de 7 intervalos de curvas. Qual o desnível aproximado?
Resolução: desnível = 7 × 20 = 140 m.
Questão 4 (declividade percentual)
Enunciado: Entre dois pontos há desnível de 120 m e distância horizontal de 1.200 m. Calcule a declividade.
Resolução: declividade = (120/1200)×100 = 10%.
Questão 5 (azimute e rumo)
Enunciado: Converta o azimute 240° em rumo.
Resolução: 240° está entre 180° e 270°. Rumo = S (240−180)=60° W → S 60° W.
Questão 6 (azimute de retorno)
Enunciado: Uma equipe seguiu azimute 70° do ponto X ao ponto Y. Qual o azimute aproximado para retornar de Y a X?
Resolução: azimute de retorno = 70° + 180° = 250° (se passar de 360°, subtrair 360°).
Questão 7 (interpretação de relevo por curvas)
Enunciado: Em uma carta, as curvas de nível formam “V” apontando para altitudes maiores ao cruzar um curso d’água. Isso indica vale ou crista?
Resolução: “V” apontando para montante (altitudes maiores) indica vale.
Questão 8 (UTM e deslocamento em metros)
Enunciado: Um ponto A está em 350.000E e um ponto B em 352.500E (mesmo Northing). Qual a distância aproximada no sentido leste-oeste?
Resolução: diferença em E = 2.500 m = 2,5 km.
10) Cenários aplicados a operações de Bombeiros Militares
Busca por pessoa desaparecida em área de mata
- Setorização por UTM para distribuir equipes e registrar áreas varridas.
- Rotas por cristas para reduzir esforço e melhorar comunicação.
- Pontos de extração definidos por acessos viários e proximidade de água/clareiras.
- Registro de track no GPS para retorno seguro e para repasse ao próximo turno.
Resposta a deslizamento em encosta
- Leitura de declividade e identificação de linhas de drenagem (vales) para prever escoamento de lama.
- Planejamento de aproximação evitando áreas com curvas muito próximas (maior inclinação).
- Definição de zonas: quente (risco), morna (apoio) e fria (comando/logística) com referências cartográficas.
Enchentes e alagamentos urbanos
- Mapeamento de pontos críticos (alagamentos, interdições) com coordenadas e marcos urbanos.
- Rotas alternativas planejadas por vias mais altas (inferidas por relevo/altimetria quando disponível).
- Comunicação padronizada de localização: cruzamento + referência + coordenada quando necessário.
Evacuação e deslocamento de equipes em baixa visibilidade
- Azimutes curtos entre pontos de controle para reduzir erro acumulado.
- Azimute de retorno planejado e anotado antes da progressão.
- Checagem cruzada: bússola + GPS + leitura do terreno (curvas/vales/cristas).