Princípios de comunicação operacional
Comunicações operacionais são o conjunto de técnicas e procedimentos usados para transmitir informações críticas durante atendimentos, garantindo que a mensagem seja recebida, compreendida e confirmada com o mínimo de ambiguidade. Em ocorrências, a comunicação precisa ser: clara (sem “achismos”), concisa (sem excesso), completa (com dados essenciais), confirmada (com retorno) e padronizada (mesma estrutura para todos).
Objetivos práticos
- Reduzir erros de entendimento (endereços, riscos, recursos, ordens).
- Manter disciplina de rede (evitar congestionamento do canal).
- Registrar eventos e decisões para rastreabilidade.
- Permitir interoperabilidade com outras forças (PM, SAMU, Defesa Civil, concessionárias).
Fonia: como falar no rádio de forma eficiente
Fonia é a técnica de transmissão por voz. A regra é “pensar antes de apertar o PTT”: organize a mensagem mentalmente, fale em ritmo constante e use termos padronizados. Evite gírias, ironias, abreviações não previstas e frases longas.
Boas práticas de fonia
- Identificação: chame o destinatário e identifique-se (quem chama e para quem).
- Mensagem em blocos: local, situação, ação, necessidade, segurança.
- Confirmação: solicite e aguarde o “ciente/recebido” e, quando necessário, peça repetição.
- Dicção e ritmo: fale pausadamente; números e endereços devem ser ditos com clareza.
- Evite simultaneidade: aguarde o canal livre; se houver “dobrada”, repita após pausa.
Erros comuns de fonia (e como corrigir)
- Mensagem vaga: “tá feio aqui” → substitua por dados: “fumaça densa, vítimas presas, risco de colapso”.
- Sem localização: “chega logo” → informe ponto de referência, acesso e obstáculos.
- Sem pedido objetivo: “preciso de ajuda” → “solicito 1 ABT e 1 USB, prioridade”.
- Excesso de detalhes: transmita o essencial e complemente por outro meio quando possível.
Prioridade de tráfego e disciplina de rede
Disciplina de rede é o conjunto de regras para manter o canal utilizável. Em incidentes com múltiplas equipes, a prioridade evita que mensagens críticas sejam “engolidas” por conversas paralelas.
Regras de disciplina de rede
- Canal é recurso operacional: use apenas para serviço.
- Uma mensagem por vez: aguarde o término e confirmação antes de nova transmissão.
- PTT: pressione, aguarde fração de segundo e então fale (evita cortar o início).
- Tempo de transmissão: seja breve; se a mensagem for longa, divida em partes.
- Silêncio operacional: quando determinado pelo comando, apenas tráfego essencial.
Prioridade (modelo prático)
Os termos exatos podem variar por corporação, mas o raciocínio é constante: mensagens de risco à vida e segurança operacional têm precedência.
- Emergência: risco iminente à vida/colapso/Mayday operacional (ex.: bombeiro em perigo, explosão iminente).
- Urgente: mudança crítica de cenário (ex.: vítima localizada, necessidade imediata de reforço).
- Rotina: atualizações e coordenação normal.
Chamadas, identificação e endereçamento de mensagens
Chamadas padronizadas reduzem dúvidas sobre quem deve agir. Use sempre o destinatário primeiro, depois o emissor, e aguarde resposta antes de transmitir o conteúdo.
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Estrutura recomendada de chamada
- 1) Destinatário
- 2) Emissor
- 3) Intenção (ex.: “passagem de ocorrência”, “solicitação”, “atualização”)
Exemplo: “Central, Alfa 02, passagem de ocorrência.”
Confirmação e repetição
Para dados críticos (endereço, número de vítimas, produtos perigosos, ordens), aplique confirmação por repetição: o receptor repete os pontos essenciais para validar.
Exemplo: “Confirma: acesso pela Rua X, número 120, portão azul?”
Códigos operacionais e padronização (quando previstos)
Algumas corporações utilizam códigos operacionais (numéricos ou alfanuméricos) para padronizar status, deslocamento, chegada, solicitação de apoio e condições de risco. Use apenas os códigos previstos em norma local e evite “inventar” abreviações. Quando houver equipes de diferentes instituições, prefira linguagem clara em vez de códigos internos, a menos que todos compartilhem o mesmo padrão.
Quando usar linguagem clara
- Interoperabilidade com outras forças e agências.
- Ocorrências complexas com múltiplos setores.
- Quando há risco de interpretação divergente.
Passagem de ocorrência: roteiro objetivo
Passagem de ocorrência é o relato operacional para informar situação, ações e necessidades. Um roteiro fixo ajuda a não esquecer itens críticos. Abaixo, um modelo prático que pode ser adaptado:
Roteiro “L-S-A-N-S” (Local–Situação–Ação–Necessidades–Segurança)
- Local: endereço completo, referência, melhor acesso, obstáculos.
- Situação: tipo de ocorrência, cenário atual, vítimas, riscos.
- Ação: o que já foi feito e o que está em andamento.
- Necessidades: recursos adicionais, apoio de outras forças, equipamentos específicos.
- Segurança: perigos (energia, gás, colapso, tráfego), perímetro, EPI/EPR.
Exemplo de passagem de ocorrência (incêndio em edificação)
Central, Alfa 02, passagem de ocorrência. Local: Rua das Palmeiras, 120, acesso pela lateral direita, portão preto. Situação: incêndio em residência térrea, fumaça densa, possível 1 vítima no interior segundo vizinhos, risco de botijão de GLP. Ação: linha de ataque montada, busca iniciada, ventilação ainda não realizada. Necessidades: solicito 1 viatura de apoio e 1 unidade de APH em prontidão. Segurança: isolar frente da casa, atenção a possível colapso de forro e presença de GLP. Ciente?Exemplo de passagem de ocorrência (acidente de trânsito)
Central, Bravo 01, passagem de ocorrência. Local: Av. Central, km 3, sentido bairro-centro, referência posto X. Situação: colisão carro x moto, 2 vítimas, uma consciente com dor em membro inferior, outra ao solo com rebaixamento de consciência. Risco: tráfego intenso e vazamento leve de combustível. Ação: sinalização iniciada, avaliação primária em andamento. Necessidades: solicitar apoio de trânsito e 1 unidade avançada se disponível. Segurança: estabelecer perímetro e eliminar fontes de ignição. Ciente?Relatórios objetivos e atualização de status
Relatórios objetivos são atualizações curtas para manter comando e central situados. Use “status + motivo + próximo passo”. Evite narrativas.
Modelo de atualização rápida
- Status: “no local”, “em deslocamento”, “em atendimento”, “em retorno”, “liberado”.
- Motivo/condição: “vítima localizada”, “fogo confinado”, “necessita reforço”.
- Próximo passo: “iniciando rescaldo”, “transportando”, “aguardando perícia”.
Exemplo: “Central, Alfa 02 no local, fogo confinado ao quarto, iniciando rescaldo e ventilação.”
Interoperabilidade em incidentes: comunicação com outras forças
Interoperabilidade é a capacidade de diferentes instituições atuarem juntas com comunicação compreensível e coordenada. Em incidentes com múltiplas agências, priorize linguagem clara, identifique funções e confirme entendimentos.
Práticas para interoperabilidade
- Definir ponto de contato: um responsável por falar com cada agência (evita mensagens conflitantes).
- Canal/ponte de comunicação: quando houver, usar canal comum; se não, usar mensageiro/telefone institucional conforme protocolo.
- Vocabulário comum: “vítima”, “perímetro”, “zona quente/morna/fria” (se adotado), “ponto de encontro”.
- Confirmação cruzada: peça repetição do que foi entendido em ordens críticas.
Exemplo de mensagem para apoio de trânsito
Trânsito, aqui Bravo 01. Solicito bloqueio total da Av. Central no km 3, sentido bairro-centro, por atendimento com vítimas e risco de combustível. Ponto de bloqueio: retorno antes do posto X. Confirma bloqueio e tempo estimado?Exemplo de mensagem para concessionária de energia
Concessionária de energia, aqui Comando do Incidente. Solicito desligamento urgente da rede no endereço Rua das Palmeiras, 120, por incêndio com risco elétrico. Confirma protocolo e previsão de chegada?Registro de eventos: o que anotar e quando transmitir
Registro de eventos é a cronologia mínima do que ocorreu, útil para coordenação, auditoria e aprendizado operacional. Pode ser feito por um registrador designado (quando houver) ou pelo próprio comandante/equipe, conforme rotina local.
Itens essenciais do registro
- Horários: acionamento, saída, chegada, início de ações críticas, controle, encerramento.
- Decisões: mudanças de estratégia, pedidos de reforço, evacuações.
- Recursos: viaturas no local, equipes, apoio externo.
- Riscos: identificação e medidas de mitigação.
- Vítimas: quantidade, estado geral, destino (sem detalhes desnecessários no rádio).
Como transmitir sem expor dados sensíveis
No rádio, evite informações pessoais desnecessárias. Foque em condição clínica geral e logística (ex.: “vítima inconsciente, prioridade alta, encaminhada para unidade de referência”), seguindo normas locais.
Roteiros práticos de mensagens (modelos prontos)
1) Solicitação de reforço
Central, Alfa 02. Solicito reforço: 1 ABT adicional e 1 unidade de APH. Motivo: incêndio com possível vítima e risco de GLP. Local: Rua das Palmeiras, 120. Acesso pela lateral direita.2) Mensagem de risco imediato (emergência)
Rede, emergência, emergência, emergência. Aqui Alfa 02. Risco de colapso estrutural iminente na edificação, iniciando retirada imediata das equipes para ponto seguro ao sul do imóvel. Confirmem retirada.3) Localização de vítima
Comando, aqui Equipe Busca 01. Vítima localizada no quarto dos fundos, consciente, com dificuldade respiratória. Iniciando remoção pela porta lateral direita. Solicito equipe de apoio na saída.4) Transferência de comando (quando aplicável)
Comando, aqui Alfa 01. Assumo comando do incidente a partir deste momento. Situação atual: fogo confinado, busca em andamento, perímetro estabelecido. Alfa 02 mantém setor de ataque. Confirmem ciente.5) Encaminhamento para outra força (coordenação)
PM, aqui Comando do Incidente. Necessário controle de acesso e isolamento de perímetro em 50 metros ao redor do imóvel por risco de explosão de GLP. Ponto de controle: esquina da Rua A com Rua B. Confirma apoio?Exercícios: identificação de falhas de comunicação
Nos exercícios abaixo, identifique o problema e reescreva a mensagem de forma operacional (clara, concisa, completa e confirmada).
Exercício 1: mensagem vaga
Mensagem: “Central, tá complicado aqui, manda mais gente.”
- Falhas a identificar: ausência de local, tipo de ocorrência, necessidade específica, motivo e prioridade.
- Tarefa: reescrever usando o roteiro L-S-A-N-S.
Exercício 2: excesso de informação e sem estrutura
Mensagem: “Chegamos, tem fumaça, um vizinho falou que tem criança, mas não sabe onde, a rua tá cheia, a gente vai tentar entrar pela frente, mas tem um carro…”
- Falhas a identificar: narrativa longa, sem blocos, sem pedido objetivo, sem medidas de segurança.
- Tarefa: dividir em 2 transmissões curtas: (1) situação e riscos, (2) necessidades e segurança.
Exercício 3: números e endereço confusos
Mensagem: “É na 15 com 12, número 3-2-1, acho que é isso.”
- Falhas a identificar: incerteza (“acho”), falta de referência, ausência de confirmação por repetição.
- Tarefa: reescrever com referência fixa e solicitar confirmação do endereço.
Exercício 4: falta de confirmação de ordem
Mensagem: “Todo mundo sai daí agora.”
- Falhas a identificar: sem identificação de quem ordena, sem motivo, sem ponto de reunião, sem confirmação.
- Tarefa: reescrever como mensagem de emergência com ponto seguro e pedido de confirmação.
Exercício 5: interoperabilidade mal conduzida
Mensagem: “PM, faz aí o esquema e segura o povo.”
- Falhas a identificar: pedido genérico, sem perímetro, sem pontos de controle, sem risco descrito.
- Tarefa: reescrever com perímetro (distância), pontos de bloqueio e motivo.
Passo a passo prático: treino de rádio em 10 minutos (simulação)
1) Preparação (1 minuto)
- Defina papéis: Central, Comando, Equipe 1, Equipe 2, Apoio externo.
- Escolha um cenário simples (incêndio residencial ou acidente de trânsito).
2) Padrão de chamada (2 minutos)
- Cada equipe faz uma chamada curta para a Central seguindo: destinatário → emissor → intenção.
- A Central responde confirmando e solicitando a mensagem.
3) Passagem de ocorrência (3 minutos)
- Equipe 1 faz passagem usando L-S-A-N-S.
- Central/Comando repete os pontos críticos (endereço, vítimas, riscos, recursos solicitados) para confirmação.
4) Atualizações e disciplina de rede (2 minutos)
- Equipe 2 transmite uma atualização de status em 10–15 segundos.
- Simule “canal congestionado”: apenas mensagens urgentes passam; as demais aguardam.
5) Interoperabilidade (2 minutos)
- Comando solicita apoio externo com pedido específico (perímetro, bloqueio, desligamento de energia).
- O “apoio externo” confirma entendimento repetindo local e tarefa.