O que muda no título para web: precisão + CTR + intenção de busca
No jornalismo digital, o título precisa cumprir três funções ao mesmo tempo: (1) ser preciso (promessa factual que o texto entrega), (2) gerar CTR (taxa de cliques, ou seja, convencer a pessoa a abrir) e (3) combinar com a intenção de busca (o que o usuário quer resolver ao pesquisar). Um bom título não “grita”; ele reduz incerteza com informação específica e relevante.
Precisão: a promessa factual
Precisão é o compromisso entre título e conteúdo. O título deve refletir o que está confirmado no texto, com recortes claros (o quê, quem, onde, quando, quanto, por quê, como) e sem extrapolar causa, culpa ou impacto. Em vez de “Polêmica” ou “Reviravolta”, prefira o fato verificável: “Projeto X é aprovado na comissão Y por Z votos”.
CTR: atrair sem distorcer
CTR melhora quando o título oferece valor imediato (o que a pessoa ganha ao clicar) e especificidade (números, local, público afetado, prazo). O erro comum é tentar “aumentar o clique” com ambiguidade (“Você não vai acreditar…”) e esconder o assunto. Isso pode até gerar cliques, mas tende a aumentar rejeição, reduzir confiança e prejudicar distribuição.
Intenção de busca: responder ao que a pessoa quer
Intenção de busca é o objetivo por trás do termo pesquisado. Em notícias e serviço, costuma cair em quatro padrões:
- Informacional: “o que aconteceu”, “por que”, “como funciona”.
- Navegacional: busca por um órgão, pessoa, programa, documento (“edital X”, “lei Y pdf”).
- Transacional: quer fazer algo (“inscrição”, “consulta”, “agendar”).
- Investigativa/comparativa: quer avaliar opções (“melhor”, “diferença entre”, “vale a pena”).
O título deve sinalizar claramente qual dessas necessidades o texto atende. Se a matéria é explicativa, um título puramente declarativo pode perder buscas do tipo “como”/“o que muda”.
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Elementos de um bom título para web
1) Clareza imediata
O leitor deve entender o assunto sem abrir. Evite pronomes sem referência (“isso”, “aquilo”), metáforas internas e termos vagos (“medida”, “mudança”, “crise”) sem especificar qual.
2) Especificidade que orienta o clique
Inclua o recorte mais útil: local, público, valor, prazo, etapa do processo, fonte oficial. Exemplo de especificidade:
- Vago: “Governo anuncia mudanças no imposto”
- Específico: “Governo propõe alíquota de 18% no imposto X; texto vai ao Congresso na terça”
3) Termos-chave naturais (sem “encher”)
Use no título as palavras que as pessoas realmente usam para procurar o tema (nome do programa, cidade, imposto, benefício, doença, órgão). Evite sinônimos raros só por estilo. Se o termo oficial é pouco conhecido, combine: “Imposto sobre X (sigla Y)”.
4) Promessa compatível com o conteúdo
Se o texto não tem resposta completa, o título deve refletir isso: “entenda”, “veja o que se sabe”, “o que falta esclarecer”. Evite afirmar causalidade (“X causa Y”) quando o conteúdo só mostra correlação ou hipótese.
5) Limites éticos: o que evitar
- Clickbait: suspense artificial, “você”, “chocante”, “ninguém esperava”, sem entregar algo proporcional.
- Generalizações: “brasileiros”, “o país”, “todo mundo” quando o recorte é parcial.
- Sentença sem base: “fracassa”, “destrói”, “humilha” sem evidência e contexto.
- Ambiguidade proposital: esconder o sujeito (“Empresa faz anúncio”) quando o nome é central.
Variações de título e quando usar cada uma
Título principal (headline)
É a âncora editorial e de SEO. Deve ser o mais completo possível dentro do espaço, com o termo-chave e o fato central. Use quando o objetivo é ser encontrado e ser entendido rapidamente.
Linha fina (deck)
Complementa o título com contexto, consequência direta ou números. Útil quando o título precisa ser curto, mas a matéria exige precisão adicional. A linha fina pode responder “o que muda para quem” ou “qual é o próximo passo”.
Subtítulo (em páginas e AMP/variações)
Funciona como reforço de intenção: “Entenda”, “Veja perguntas e respostas”, “Confira o passo a passo”, “O que diz o edital”. Use quando o texto tem formato de serviço ou explicação e você quer alinhar expectativa.
Push notification
Tem pouco espaço e contexto. Precisa de identificação imediata (assunto + impacto) e, quando necessário, localização. Evite abreviações obscuras. Se a pessoa não entende em 2 segundos, não clica.
Post social (feed)
Disputa atenção com outros conteúdos. Pode ser mais conversacional, mas sem perder o fato. Muitas vezes funciona melhor com recorte humano/impacto (“Quem é afetado”, “quanto custa”, “a partir de quando”) e com termos que as pessoas reconhecem. Evite “threadbait” e promessas vagas.
Alertas/Breaking
Priorize o fato novo e verificável. Se ainda há incerteza, sinalize: “Polícia investiga…”, “Defesa diz…”, “Segundo o boletim…”. Não antecipe conclusões.
Passo a passo prático para construir títulos (com checklist)
Passo 1 — Defina o “fato central” em uma frase
Escreva uma frase simples com sujeito + verbo + complemento, sem adjetivos. Exemplo: “A prefeitura reajustou a tarifa de ônibus em 8% a partir de 1º de março”.
Passo 2 — Identifique a intenção dominante
- Se é notícia: “o que aconteceu” + “qual impacto imediato”.
- Se é serviço: “como fazer” + “prazo” + “regras”.
- Se é explicativo: “o que muda” + “para quem” + “por quê”.
Passo 3 — Liste 3 a 6 termos-chave prováveis
Inclua nomes próprios e termos populares. Ex.: “tarifa de ônibus”, “passagem”, “reajuste”, “prefeitura”, “cidade X”, “a partir de”. Escolha 1 termo principal para aparecer no começo ou no meio do título (onde a leitura é mais forte).
Passo 4 — Escolha o recorte que aumenta clareza
Pergunte: o que o leitor precisa saber para decidir clicar? Muitas vezes é “quanto”, “quando” e “quem é afetado”.
Passo 5 — Escreva 5 versões rápidas (sem se censurar)
Varie estrutura: com número, com “entenda”, com “veja”, com recorte geográfico, com impacto. Depois refine.
Passo 6 — Aplique o filtro anti-ambiguidade
- O sujeito está nomeado?
- Há algum pronome sem referência?
- O título pode ser interpretado de duas formas?
- Há termos emocionais que não estão no texto?
Passo 7 — Ajuste para legibilidade e ritmo
Prefira ordem direta e evite empilhar muitas informações. Se necessário, mova detalhes para a linha fina. Use pontuação com parcimônia; dois-pontos funcionam bem para separar fato e contexto.
Passo 8 — Checagem de promessa
Leia o título e responda: “O texto entrega exatamente isso?” Se a resposta for “mais ou menos”, reescreva para ficar fiel ao que está confirmado.
Modelos (templates) úteis e éticos
| Objetivo | Template | Exemplo (genérico) |
|---|---|---|
| Notícia objetiva | [Sujeito] [verbo] [o quê] [quando/onde] | Congresso aprova regra X; texto segue para sanção |
| Impacto no leitor | [O quê] muda para [quem] com [medida] | O que muda para MEIs com a proposta de contribuição X |
| Serviço | Como [fazer] no [programa/órgão] e quais são os prazos | Como pedir isenção na taxa X e quais documentos levar |
| Explicativo | Entenda [tema] e por que [fato] aconteceu | Entenda a alta do preço X e o que pode acontecer nos próximos meses |
| Atualização | [Tema]: o que se sabe até agora sobre [fato] | Tempestade em cidade X: o que se sabe até agora sobre os danos |
Prática de A/B conceitual: comparar opções e justificar
A/B conceitual é o exercício de criar duas (ou mais) versões de título e escolher a melhor com base em critérios: intenção de busca, legibilidade, termos-chave e rigor informativo. Não é um teste estatístico aqui; é um método de decisão editorial.
Critérios de comparação (use como rubrica)
- Alinhamento com intenção: responde ao que o usuário quer?
- Termo-chave presente: inclui o nome pelo qual o tema é buscado?
- Especificidade: traz “quanto/quando/quem” quando isso é central?
- Clareza em 1 leitura: dá para entender sem contexto?
- Promessa factual: evita extrapolar e não omite informação essencial?
Exercício 1 — Notícia com número (evitar “aumenta” sem base)
Cenário: órgão oficial publica reajuste de tarifa.
- Opção A: “Passagem de ônibus fica mais cara na cidade X”
- Opção B: “Tarifa de ônibus em cidade X sobe 8% e passa a R$ 5,40 a partir de 1º de março”
Justificativa: B tende a ter melhor CTR e SEO porque inclui termos-chave (“tarifa de ônibus”, “cidade X”), especifica “quanto” e “quando”, reduz ambiguidade e entrega promessa factual. A é compreensível, mas genérica e menos útil para busca.
Exercício 2 — Matéria explicativa (intenção “o que muda”)
Cenário: proposta altera regra que afeta um público específico, mas ainda depende de votação.
- Opção A: “Governo anuncia mudanças para trabalhadores”
- Opção B: “Proposta do governo muda regra X para trabalhadores Y; veja o que já foi apresentado e o que falta aprovar”
Justificativa: B sinaliza estágio do processo (evita afirmar mudança consumada), nomeia a regra (termo-chave) e atende intenção informacional (“veja o que já foi apresentado”). A é ampla e pode ser enganosa por sugerir efeito imediato.
Exercício 3 — Push vs. título do site (mesmo fato, formatos diferentes)
Cenário: decisão judicial relevante com impacto local.
Título do site (mais completo): “Justiça suspende obra X em bairro Y de cidade Z após ação do Ministério Público”
Push (mais curto, ainda claro): “Justiça suspende obra X em cidade Z; entenda o motivo”
Por que muda: no push, você reduz detalhes para caber, mas mantém sujeito + ação + tema. O “entenda” é aceitável quando o texto realmente explica o motivo.
Exercício 4 — Post social (recorte de utilidade sem sensacionalismo)
Cenário: serviço público abre inscrições com prazo.
- Opção A: “Atenção: inscrições abertas!”
- Opção B: “Inscrições para o programa X abrem hoje; prazo vai até 20/02 e cadastro é online”
Justificativa: B entrega utilidade imediata (o quê + prazo + como), melhora compartilhamento e reduz comentários de frustração (“inscrição de quê?”). A pode gerar clique por curiosidade, mas perde em clareza e busca.
Checklist rápido antes de publicar (título + variações)
- O título contém o assunto nomeado (termo-chave principal)?
- Está claro o que aconteceu e para quem (quando relevante)?
- Há número/prazo/local quando isso é decisivo?
- Evita palavras de suspense e julgamento (“chocante”, “bomba”, “humilha”)?
- Se o fato ainda não é definitivo, o título sinaliza isso (“proposta”, “em análise”, “investiga”)?
- As variações (linha fina, push, social) mantêm a mesma promessa factual?