O que são títulos, chamadas e “olhos” (e o que cada um precisa entregar)
Em jornalismo, título, subtítulo, intertítulo e chamada são peças de síntese com funções diferentes. O objetivo comum é orientar a leitura com precisão, concisão e hierarquia — sem criar interpretações erradas nem prometer o que o texto não sustenta.
- Título: a frase mais visível. Deve dizer o fato principal (o “o quê” mais relevante) com o máximo de fidelidade e o mínimo de palavras.
- Subtítulo (linha fina): complementa o título com um segundo dado essencial (contexto, número, recorte, consequência imediata, local, prazo). Ajuda a reduzir ambiguidades do título.
- Intertítulos: “placas” dentro do texto. Organizam a leitura e deixam claro o que vem a seguir em cada bloco (mudança de assunto, etapa, personagem, dado).
- Chamada: texto curto que convida para a leitura (na capa, home, redes, newsletter). Precisa ser fiel ao conteúdo e indicar por que importa sem exagero.
- Olho: destaque gráfico de uma frase curta (geralmente uma citação ou dado). Serve para reforçar um ponto relevante já comprovado no texto, não para introduzir informação nova ou controversa sem contexto.
Princípios que evitam distorção: precisão, concisão e hierarquia
1) Precisão: o título não pode “aumentar” o que o texto não prova
Um título fiel é aquele que o leitor consegue confirmar ao ler a matéria. Para isso, ele precisa respeitar:
- Escopo: o que vale para um bairro não vira “a cidade”; o que vale para um estudo preliminar não vira “comprovado”.
- Causalidade: correlação não vira causa (“X causa Y”) sem base explícita.
- Grau de certeza: “pode”, “deve”, “indica”, “estima” e “confirma” não são intercambiáveis.
- Agente correto: quem fez o quê? “Governo”, “prefeitura”, “secretaria”, “empresa” e “justiça” têm papéis diferentes.
2) Concisão: cortar sem perder o núcleo do fato
Concisão não é “encurtar a qualquer custo”, e sim remover o que não muda o entendimento. Um bom teste é: se eu tirar esta palavra, o leitor ainda entende o fato principal sem distorção?
- Prefira verbos fortes e específicos (“aprova”, “suspende”, “anuncia”, “recua”) em vez de genéricos (“faz”, “diz”, “coloca”).
- Evite adjetivos opinativos (“polêmico”, “absurdo”, “histórico”) a menos que sejam atribuídos e contextualizados.
- Use números quando forem o diferencial (valor, prazo, quantidade), mas não empilhe dados demais no título.
3) Hierarquia: o que vai no título vs. no subtítulo
O título carrega o primeiro nível de informação (o fato). O subtítulo pode carregar o segundo nível (detalhe que reduz dúvida ou mostra impacto). Uma regra prática:
- Título: fato + recorte principal (quem/ação/objeto).
- Subtítulo: número/prazo/local/condição/efeito imediato.
Quando o título fica “genérico” para caber, o subtítulo é onde você recupera precisão.
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Erros comuns (e como corrigir)
Exagero e “promessa” não sustentada
O exagero aparece quando o título promete mais do que o texto entrega, ou quando transforma uma hipótese em certeza.
| Problema | Exemplo ruim | Por que é ruim | Alternativa melhor |
|---|---|---|---|
| Generalização | “Cidade fica sem médicos” | Se o texto fala de uma unidade ou região, o título amplia indevidamente | “Posto do bairro X fica sem médicos por 3 dias” |
| Causalidade indevida | “Novo imposto vai quebrar pequenos negócios” | “Vai quebrar” é previsão forte e pode ser opinião | “Setor teme impacto de novo imposto em pequenos negócios” |
| Certeza sem base | “Estudo prova que café cura…” | “Prova” exige evidência robusta; “cura” é absoluto | “Estudo sugere associação entre café e…” |
| Clickbait | “Você não vai acreditar no que aconteceu…” | Não informa o fato, só cria suspense | “Ônibus colide com poste e deixa 12 feridos” |
Ambiguidade (o leitor entende outra coisa)
Ambiguidade costuma vir de sujeito oculto, verbo vago ou falta de contexto mínimo.
- Sujeito indefinido: “Autoriza aumento de tarifa” (quem autoriza?). Corrija: “Agência X autoriza aumento…”
- Verbo genérico: “Anuncia medida” (qual?). Corrija: “Anuncia corte de…”
- Termo técnico sem tradução: “Município adota outorga onerosa” (o leitor entende?). Corrija no subtítulo: “medida permite…”
Viés e enquadramento indevido
Mesmo com fatos corretos, o título pode induzir interpretação por escolha de palavras, ordem de informações ou omissão do contexto essencial.
- Verbos que julgam: “Prefeito admite falha” vs. “Prefeito diz que houve falha”. “Admite” sugere confissão; use apenas se houver esse sentido claro na fala/ato.
- Rótulos: “radical”, “extremista”, “populista”, “negacionista” exigem critério editorial e base; quando possível, descreva o comportamento (“defende X”, “nega Y”).
- Ordem que acusa: “Empresa X é investigada e nega irregularidades” (ok) vs. “Empresa X nega irregularidades em investigação” (pode soar como defesa antes do fato). Ajuste para o que é mais relevante e comprovado.
Passo a passo prático para escrever um bom título (com subtítulo)
Passo 1 — Extraia o “núcleo verificável” em 1 frase
Antes de pensar em estilo, escreva uma frase simples com o fato central, como se fosse um registro:
Quem fez o quê, onde, quando (se necessário) e com qual efeito imediato.Exemplo de núcleo: “A prefeitura suspendeu por 30 dias as obras da avenida X após decisão judicial.”
Passo 2 — Defina o recorte: qual é o aspecto mais relevante para o leitor?
O mesmo fato pode ser titulado pelo ângulo de impacto, dinheiro, prazo, serviço, conflito, segurança, etc. Escolha um recorte principal para o título; o resto vai para o subtítulo.
Passo 3 — Escreva 5 versões rápidas (sem se apegar)
Produza variações curtas. Não edite demais ainda. A meta é ter opções para comparar precisão e clareza.
Passo 4 — Checagem de fidelidade (mini-checklist)
- O título afirma algo que o texto não comprova?
- Há palavra que aumenta o grau de certeza (“garante”, “prova”, “sempre”, “nunca”)? É justificável?
- O sujeito está claro (quem fez)?
- O leitor pode entender outra coisa? (teste de ambiguidade)
- Há julgamento embutido (adjetivo/verbos avaliativos)? É necessário?
Passo 5 — Ajuste para concisão sem perder precisão
Corte redundâncias (“nesta segunda-feira”, “no dia de hoje”) se não forem essenciais. Troque locuções por verbos diretos. Remova “muletas” (“sobre”, “em relação a”, “no que diz respeito a”).
Passo 6 — Escreva o subtítulo para fechar lacunas
O subtítulo deve responder a uma dúvida que o título deixa. Exemplos de lacunas comuns:
- Qual o impacto? (quantos afetados, quanto custa, o que muda)
- Qual o prazo? (a partir de quando, até quando)
- Qual o local? (bairro, órgão, trecho)
- Qual a condição? (se aprovado, se mantida decisão, se chover etc.)
Intertítulos: como guiar a leitura sem repetir o título
Intertítulos funcionam melhor quando são informativos, não “poéticos” nem genéricos. Eles devem antecipar o conteúdo do bloco.
| Intertítulo fraco | Problema | Intertítulo melhor |
|---|---|---|
| “Entenda” | Não diz o que será explicado | “O que muda no cronograma das obras” |
| “Repercussão” | Vago | “Comerciantes relatam queda de movimento” |
| “Polêmica” | Carrega julgamento | “Vereadores divergem sobre o custo do projeto” |
Uma técnica prática é escrever intertítulos como respostas a perguntas que o leitor faria ao avançar:
- “Por que isso aconteceu?”
- “Quem é afetado?”
- “O que acontece agora?”
- “O que dizem os lados?”
Chamadas e olhos: como destacar sem “forçar”
Chamadas: promessa proporcional ao conteúdo
Uma chamada eficiente traz o fato + o motivo de relevância, sem suspense artificial. Ela pode ser um pouco mais conversacional que o título, mas não pode inventar consequência nem exagerar.
- Evite: “Veja o que ninguém te contou…”
- Prefira: “Decisão suspende obras da avenida X por 30 dias; entenda os próximos passos”
Olhos: destaque de dado ou fala que não muda de sentido fora do parágrafo
Um olho deve ser escolhido com cuidado porque será lido isoladamente. Use apenas trechos que:
- não dependem de ironia ou contexto para fazer sentido;
- não são acusações sem atribuição clara;
- não distorcem a fala ao recortar.
Exemplo de olho adequado (com atribuição): “A decisão ‘interrompe o cronograma por 30 dias’, diz a prefeitura.”
Laboratório de variações: três títulos para o mesmo texto (factual, serviço, explicativo)
Texto-base (resumo para o exercício)
“A prefeitura suspendeu por 30 dias as obras da Avenida Central após decisão judicial que apontou falhas no licenciamento ambiental. Segundo o tribunal, faltam estudos sobre impacto no trânsito e na drenagem. A prefeitura diz que vai apresentar complementação em até 10 dias e que o cronograma pode ser revisto. Comerciantes da região relatam queda no movimento desde o início das intervenções. A obra custa R$ 48 milhões e prevê a criação de um corredor de ônibus.”
Variação 1 — Título factual (prioriza o fato principal)
- Título: “Justiça suspende obras da Avenida Central por 30 dias”
- Subtítulo: “Decisão cita falhas no licenciamento ambiental; prefeitura diz que entregará complementação em 10 dias”
Revisão anti-ambiguidade: “Justiça” está claro? Se houver mais de um órgão, especifique: “Tribunal X” ou “TJ”.
Variação 2 — Título de serviço (prioriza impacto prático ao leitor)
- Título: “Obras na Avenida Central param por 30 dias: o que muda no trânsito”
- Subtítulo: “Suspensão foi determinada pela Justiça; prefeitura avalia revisão do cronograma e do corredor de ônibus”
Revisão anti-promessa: o texto realmente explica “o que muda no trânsito”? Se só menciona que faltam estudos, ajuste para não prometer serviço que a matéria não entrega: “Obras na Avenida Central param por 30 dias; decisão cobra estudos de trânsito”.
Variação 3 — Título explicativo (prioriza o “por quê”)
- Título: “Por que a Justiça suspendeu as obras da Avenida Central”
- Subtítulo: “Decisão aponta falhas no licenciamento e falta de estudos de impacto; obra custa R$ 48 milhões”
Revisão de hierarquia: se o custo for central para o entendimento, pode subir para o título; se for apenas contexto, fica no subtítulo.
Checklist de revisão final: vieses, erros de interpretação e precisão
1) Teste do leitor apressado
Leia apenas título + subtítulo + olho (se houver). Pergunte: “Um leitor pode sair com uma conclusão errada só com isso?” Se sim, reescreva para reduzir o risco.
2) Teste de equivalência com o texto
Marque no texto a frase (ou dado) que sustenta cada parte do título e do subtítulo. Se você não consegue apontar onde está a sustentação, o título está “adiantando” informação.
3) Teste de termos absolutos
Procure palavras como: “sempre”, “nunca”, “todos”, “ninguém”, “garante”, “prova”, “explode”, “detona”, “escândalo”. Substitua por termos proporcionais ao que está comprovado ou atribua a alguém (com contexto).
4) Teste de atribuição
Se o título contém acusação, avaliação ou previsão, pergunte: isso é fato (documento/decisão/dado) ou fala (alguém disse)? Se for fala, atribua (“diz”, “afirma”, “segundo”).
5) Teste de simetria e enquadramento
Verifique se a escolha de palavras favorece um lado sem necessidade. Exemplos de ajustes:
- De “prefeitura culpa empresa” para “prefeitura atribui atraso à empresa” (reduz julgamento).
- De “empresa se defende” para “empresa nega irregularidades” (mais descritivo).
6) Teste de números e unidades
Se houver números, confira unidade e escala (mil/milhão; dias/meses; km/m). Um erro de unidade no título tem alto impacto e é fácil de passar despercebido.