O que o editor melhora (e por quê)
Na edição jornalística, o editor atua como o “segundo par de olhos” responsável por transformar um bom rascunho em um texto publicável: mais focado, coerente, preciso e consistente. O objetivo não é “reescrever por gosto”, e sim garantir que o material entregue ao público esteja claro, completo no essencial e alinhado ao ângulo proposto.
Em termos práticos, o editor costuma intervir em cinco frentes:
- Foco: o texto responde rapidamente “o que aconteceu e por que importa” sem dispersar em detalhes laterais.
- Ângulo: a matéria sustenta uma perspectiva principal (ex.: impacto no consumidor, falha de gestão, disputa política) e não troca de direção no meio.
- Coerência e encadeamento lógico: ideias e fatos aparecem na ordem que o leitor precisa para entender, sem saltos.
- Consistência de tom: o texto mantém o mesmo registro (informativo, explicativo, investigativo) e evita adjetivos que soem opinativos.
- Precisão e atribuição: afirmações são atribuídas a fontes, dados têm origem clara e termos são usados corretamente.
Diagnóstico editorial: perguntas que guiam a edição
Antes de cortar ou mexer na ordem, o editor faz um diagnóstico rápido do texto. Use estas perguntas como “raio-x”:
- Lead e topo: o começo entrega o essencial (fato + contexto mínimo + relevância)?
- Promessa: o texto promete algo (explicar, revelar, comparar) e cumpre?
- Ângulo: qual é a frase de uma linha que define o ângulo? Se não dá para dizer, falta foco.
- Provas: cada afirmação importante tem dado, documento, observação ou fala atribuída?
- Contraponto: há espaço para a parte citada/afetada responder quando necessário?
- Leitor: um leitor sem contexto entende siglas, cargos, locais e números?
Técnicas de edição: como fortalecer o texto
1) Cortar sem perder o essencial (técnica do “núcleo + suporte”)
Um corte bom preserva o núcleo informativo e remove suporte redundante. Para isso, separe:
- Núcleo: o que muda a compreensão do fato (o que, quem, quando, onde, como, por quê, consequência).
- Suporte: exemplos, contexto, histórico mínimo, detalhes de bastidor, descrições.
Passo a passo prático para cortar:
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- Marque o núcleo em cada parágrafo (uma frase).
- Elimine repetições: se duas frases dizem o mesmo, fique com a mais específica.
- Troque listas longas por síntese: “X, Y e Z” vira “três medidas, incluindo X”.
- Converta citações longas em indiretas quando a literalidade não acrescenta.
- Guarde o melhor detalhe: escolha um dado/episódio que represente o todo e corte o resto.
Exemplo (antes/depois):
ANTES: Segundo a Secretaria, a obra começou em março e, desde então, passou por várias etapas. A secretaria explicou que houve atrasos por causa das chuvas, e também porque a empresa teve dificuldade de contratar mão de obra. A secretaria disse ainda que o cronograma foi refeito duas vezes e que agora a previsão é terminar em novembro, se não chover muito.DEPOIS: A Secretaria afirma que a obra, iniciada em março, atrasou por chuvas e falta de mão de obra e agora tem previsão de entrega em novembro.2) Reorganizar parágrafos (ordem de leitura, não ordem de apuração)
O repórter apura em uma sequência; o leitor entende em outra. A edição reorganiza para reduzir esforço cognitivo.
Modelos úteis de organização:
- Do mais importante ao detalhamento: fato principal → consequência → explicação → reações → próximos passos.
- Problema–causa–impacto–resposta: o que ocorreu → por que ocorreu → quem foi afetado → o que será feito.
- Comparação: situação atual → referência (antes/outro lugar/regra) → diferença → implicação.
Passo a passo prático para reorganizar:
- Escreva em uma linha o que o leitor precisa entender ao final.
- Liste os blocos do texto (1 frase por parágrafo).
- Agrupe por função: fato, contexto, evidência, reação, serviço, próximos passos.
- Reordene os blocos para que cada parágrafo responda a uma pergunta que o anterior abriu.
- Reescreva transições (conectores) para evitar “saltos”.
3) Checar atribuições e “quem disse o quê”
Um dos pontos mais comuns de retrabalho editorial é atribuição fraca: frases que parecem afirmação do veículo quando deveriam estar claramente atribuídas, ou citações sem contexto.
O editor verifica:
- Atribuição explícita em afirmações sensíveis (acusação, números, promessas, justificativas).
- Identificação suficiente da fonte (cargo, órgão/empresa, relação com o fato).
- Coerência de fala: a citação combina com o que foi descrito antes?
- Contexto mínimo: por que essa fonte é relevante aqui?
Erros típicos e correções:
| Problema | Risco | Correção editorial |
|---|---|---|
| “Especialistas dizem que…” | Generalização sem base | Nomeie e qualifique: “Para a pesquisadora X, da instituição Y…” |
| “A empresa admitiu…” (sem aspas) | Interpretação do repórter | Use citação ou descreva com precisão: “A empresa afirmou que…” |
| Citação longa e genérica | Texto arrastado | Recorte o trecho mais informativo e resuma o resto |
| Fonte citada sem cargo | Perda de credibilidade | Inclua cargo e contexto: “diretor de…, responsável por…” |
4) Padronizar estilo (consistência que evita ruído)
Padronização não é “enfeite”: ela impede que o leitor tropece em variações desnecessárias. O editor costuma aplicar um padrão interno (manual de redação) e, quando não há, cria consistência dentro do próprio texto.
Itens comuns de padronização:
- Nomes e cargos: primeira menção completa; depois, forma curta consistente.
- Números e medidas: mesma lógica (ex.: “R$ 2,3 milhões” vs “2,3 milhões de reais”).
- Datas e horários: formato uniforme e com referência temporal clara.
- Siglas: escreva por extenso na primeira ocorrência.
- Topônimos: cidade/estado quando necessário para situar.
5) Corrigir imprecisões (o “quase certo” não serve)
Imprecisão pode ser sutil: um verbo forte demais, um número sem base, uma relação de causa e efeito sugerida sem prova. O editor busca precisão de linguagem.
Trocas típicas para ganhar precisão:
- “Aumentou muito” → “subiu X%” (com fonte) ou “subiu” (se não houver dado).
- “Gerou caos” → “provocou filas de até X minutos” (se medido/relatado).
- “Foi por causa de” → “ocorreu após” ou “segundo…” quando causalidade não está demonstrada.
Fluxo de edição na prática: do rascunho ao publicável
Um fluxo simples e eficiente costuma seguir esta ordem (que evita retrabalho):
- Leitura corrida (sem mexer): identificar foco, ângulo e buracos.
- Macroedição: estrutura, ordem dos blocos, o que entra/sai.
- Checagens editoriais: atribuições, números, nomes, coerência interna.
- Microedição: frases, repetições, verbos, pontuação, clareza.
- Padronização: estilo, unidades, siglas, grafias.
- Última leitura: como leitor comum, buscando ambiguidades.
Simulação de “ida e volta” entre repórter e editor
A seguir, uma simulação realista de troca de mensagens e comentários em um texto sobre atraso em obra pública. O objetivo é mostrar como o editor pede ajustes, apuração extra e negocia prazo sem travar a publicação.
1) Editor devolve com comentários (macro + apuração)
Editor (comentários no texto):
- Foco/ângulo: “O texto começa com histórico da obra. Precisamos abrir com o impacto: o que está atrasado e o que isso muda para quem usa o serviço.”
- Buraco de informação: “Você diz ‘custos subiram’, mas não há número nem documento. Tem aditivo? Qual valor total atualizado?”
- Atribuição: “Trecho ‘a empresa não cumpriu prazos’ está como afirmação. Quem diz isso? Tribunal? Prefeitura? Relatório?”
- Contraponto: “Temos posição da empresa? Se não, precisamos tentar de novo e registrar a tentativa.”
- Ordem: “Sugiro: 1) atraso e impacto; 2) cronograma e valores; 3) justificativas; 4) fiscalização/órgãos; 5) próximos passos.”
Editor (pedido objetivo):
- “Me traga em 40 minutos: valor inicial, valor atualizado (se houver), documento que sustenta, e resposta da empresa (mesmo que ‘não respondeu’).”
2) Repórter responde e negocia prazo
Repórter: “Consigo o valor inicial no edital e o atualizado nos aditivos do portal. A empresa não atendeu; vou ligar mais uma vez e mandar e-mail. Preciso de 1h para fechar com números e reabrir o texto.”
Editor: “Ok, 1h. Mas me manda em 20 min um parágrafo de abertura refeito com impacto + atraso confirmado, para eu já ir ajustando o topo.”
3) Repórter entrega apuração extra e novo topo
Repórter: “Achei dois aditivos: total passou de R$ 10,2 mi para R$ 12,8 mi (documentos anexados). A secretaria atribui atraso às chuvas e à troca de fornecedor. Empresa respondeu por e-mail dizendo que ‘segue o cronograma revisado’ e que ‘não comenta contratos’.”
Editor (ajustes finais e alinhamento de tom):
- “Ótimo. Vou trocar ‘não cumpriu prazos’ por ‘teve prazos revistos’ e atribuir ao relatório X.”
- “Vou reduzir a fala da secretaria para o trecho mais informativo e colocar os números no segundo parágrafo.”
- “No final, incluo ‘próxima etapa’ e ‘o que falta’ para o leitor entender o que vem agora.”
4) Última checagem rápida (antes de publicar)
Editor: “Confirma: o valor atualizado é soma dos aditivos ou valor global do contrato? E a data do aditivo mais recente?”
Repórter: “É valor global atualizado conforme último termo aditivo (data: 12/08). Vou deixar isso explícito no texto.”
Checklist editorial (use como rotina)
- Foco e ângulo
- Consigo resumir o ângulo em 1 frase?
- O topo entrega fato + relevância sem rodeio?
- Há trechos que puxam para outro assunto? Corte ou justifique.
- Estrutura e lógica
- Cada parágrafo responde a uma pergunta aberta pelo anterior?
- Contexto aparece antes de detalhes técnicos?
- Há transições claras (sem saltos temporais ou de tema)?
- Atribuição e precisão
- Afirmações sensíveis estão atribuídas?
- Números têm fonte e unidade (R$, %, km, meses)?
- Evitei causalidade não comprovada (“por causa de”)?
- Equilíbrio e direito de resposta
- O lado citado/criticado foi procurado?
- Se não respondeu, isso está registrado com método (ligação/e-mail/data)?
- Clareza e concisão
- Há repetições de informação ou de palavras?
- Citações longas foram enxugadas mantendo o sentido?
- Jargões, siglas e termos técnicos estão explicados?
- Padronização
- Nomes/cargos consistentes do começo ao fim?
- Datas, horários, valores e grafias no mesmo padrão?
- Risco de ambiguidade
- Pronomes (“ele/ela/isso”) têm referente claro?
- Há frases que podem ser interpretadas como opinião?