Edição jornalística: revisão, coerência, cortes e fortalecimento do texto

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que o editor melhora (e por quê)

Na edição jornalística, o editor atua como o “segundo par de olhos” responsável por transformar um bom rascunho em um texto publicável: mais focado, coerente, preciso e consistente. O objetivo não é “reescrever por gosto”, e sim garantir que o material entregue ao público esteja claro, completo no essencial e alinhado ao ângulo proposto.

Em termos práticos, o editor costuma intervir em cinco frentes:

  • Foco: o texto responde rapidamente “o que aconteceu e por que importa” sem dispersar em detalhes laterais.
  • Ângulo: a matéria sustenta uma perspectiva principal (ex.: impacto no consumidor, falha de gestão, disputa política) e não troca de direção no meio.
  • Coerência e encadeamento lógico: ideias e fatos aparecem na ordem que o leitor precisa para entender, sem saltos.
  • Consistência de tom: o texto mantém o mesmo registro (informativo, explicativo, investigativo) e evita adjetivos que soem opinativos.
  • Precisão e atribuição: afirmações são atribuídas a fontes, dados têm origem clara e termos são usados corretamente.

Diagnóstico editorial: perguntas que guiam a edição

Antes de cortar ou mexer na ordem, o editor faz um diagnóstico rápido do texto. Use estas perguntas como “raio-x”:

  • Lead e topo: o começo entrega o essencial (fato + contexto mínimo + relevância)?
  • Promessa: o texto promete algo (explicar, revelar, comparar) e cumpre?
  • Ângulo: qual é a frase de uma linha que define o ângulo? Se não dá para dizer, falta foco.
  • Provas: cada afirmação importante tem dado, documento, observação ou fala atribuída?
  • Contraponto: há espaço para a parte citada/afetada responder quando necessário?
  • Leitor: um leitor sem contexto entende siglas, cargos, locais e números?

Técnicas de edição: como fortalecer o texto

1) Cortar sem perder o essencial (técnica do “núcleo + suporte”)

Um corte bom preserva o núcleo informativo e remove suporte redundante. Para isso, separe:

  • Núcleo: o que muda a compreensão do fato (o que, quem, quando, onde, como, por quê, consequência).
  • Suporte: exemplos, contexto, histórico mínimo, detalhes de bastidor, descrições.

Passo a passo prático para cortar:

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  1. Marque o núcleo em cada parágrafo (uma frase).
  2. Elimine repetições: se duas frases dizem o mesmo, fique com a mais específica.
  3. Troque listas longas por síntese: “X, Y e Z” vira “três medidas, incluindo X”.
  4. Converta citações longas em indiretas quando a literalidade não acrescenta.
  5. Guarde o melhor detalhe: escolha um dado/episódio que represente o todo e corte o resto.

Exemplo (antes/depois):

ANTES: Segundo a Secretaria, a obra começou em março e, desde então, passou por várias etapas. A secretaria explicou que houve atrasos por causa das chuvas, e também porque a empresa teve dificuldade de contratar mão de obra. A secretaria disse ainda que o cronograma foi refeito duas vezes e que agora a previsão é terminar em novembro, se não chover muito.
DEPOIS: A Secretaria afirma que a obra, iniciada em março, atrasou por chuvas e falta de mão de obra e agora tem previsão de entrega em novembro.

2) Reorganizar parágrafos (ordem de leitura, não ordem de apuração)

O repórter apura em uma sequência; o leitor entende em outra. A edição reorganiza para reduzir esforço cognitivo.

Modelos úteis de organização:

  • Do mais importante ao detalhamento: fato principal → consequência → explicação → reações → próximos passos.
  • Problema–causa–impacto–resposta: o que ocorreu → por que ocorreu → quem foi afetado → o que será feito.
  • Comparação: situação atual → referência (antes/outro lugar/regra) → diferença → implicação.

Passo a passo prático para reorganizar:

  1. Escreva em uma linha o que o leitor precisa entender ao final.
  2. Liste os blocos do texto (1 frase por parágrafo).
  3. Agrupe por função: fato, contexto, evidência, reação, serviço, próximos passos.
  4. Reordene os blocos para que cada parágrafo responda a uma pergunta que o anterior abriu.
  5. Reescreva transições (conectores) para evitar “saltos”.

3) Checar atribuições e “quem disse o quê”

Um dos pontos mais comuns de retrabalho editorial é atribuição fraca: frases que parecem afirmação do veículo quando deveriam estar claramente atribuídas, ou citações sem contexto.

O editor verifica:

  • Atribuição explícita em afirmações sensíveis (acusação, números, promessas, justificativas).
  • Identificação suficiente da fonte (cargo, órgão/empresa, relação com o fato).
  • Coerência de fala: a citação combina com o que foi descrito antes?
  • Contexto mínimo: por que essa fonte é relevante aqui?

Erros típicos e correções:

ProblemaRiscoCorreção editorial
“Especialistas dizem que…”Generalização sem baseNomeie e qualifique: “Para a pesquisadora X, da instituição Y…”
“A empresa admitiu…” (sem aspas)Interpretação do repórterUse citação ou descreva com precisão: “A empresa afirmou que…”
Citação longa e genéricaTexto arrastadoRecorte o trecho mais informativo e resuma o resto
Fonte citada sem cargoPerda de credibilidadeInclua cargo e contexto: “diretor de…, responsável por…”

4) Padronizar estilo (consistência que evita ruído)

Padronização não é “enfeite”: ela impede que o leitor tropece em variações desnecessárias. O editor costuma aplicar um padrão interno (manual de redação) e, quando não há, cria consistência dentro do próprio texto.

Itens comuns de padronização:

  • Nomes e cargos: primeira menção completa; depois, forma curta consistente.
  • Números e medidas: mesma lógica (ex.: “R$ 2,3 milhões” vs “2,3 milhões de reais”).
  • Datas e horários: formato uniforme e com referência temporal clara.
  • Siglas: escreva por extenso na primeira ocorrência.
  • Topônimos: cidade/estado quando necessário para situar.

5) Corrigir imprecisões (o “quase certo” não serve)

Imprecisão pode ser sutil: um verbo forte demais, um número sem base, uma relação de causa e efeito sugerida sem prova. O editor busca precisão de linguagem.

Trocas típicas para ganhar precisão:

  • “Aumentou muito”“subiu X%” (com fonte) ou “subiu” (se não houver dado).
  • “Gerou caos”“provocou filas de até X minutos” (se medido/relatado).
  • “Foi por causa de”“ocorreu após” ou “segundo…” quando causalidade não está demonstrada.

Fluxo de edição na prática: do rascunho ao publicável

Um fluxo simples e eficiente costuma seguir esta ordem (que evita retrabalho):

  1. Leitura corrida (sem mexer): identificar foco, ângulo e buracos.
  2. Macroedição: estrutura, ordem dos blocos, o que entra/sai.
  3. Checagens editoriais: atribuições, números, nomes, coerência interna.
  4. Microedição: frases, repetições, verbos, pontuação, clareza.
  5. Padronização: estilo, unidades, siglas, grafias.
  6. Última leitura: como leitor comum, buscando ambiguidades.

Simulação de “ida e volta” entre repórter e editor

A seguir, uma simulação realista de troca de mensagens e comentários em um texto sobre atraso em obra pública. O objetivo é mostrar como o editor pede ajustes, apuração extra e negocia prazo sem travar a publicação.

1) Editor devolve com comentários (macro + apuração)

Editor (comentários no texto):

  • Foco/ângulo: “O texto começa com histórico da obra. Precisamos abrir com o impacto: o que está atrasado e o que isso muda para quem usa o serviço.”
  • Buraco de informação: “Você diz ‘custos subiram’, mas não há número nem documento. Tem aditivo? Qual valor total atualizado?”
  • Atribuição: “Trecho ‘a empresa não cumpriu prazos’ está como afirmação. Quem diz isso? Tribunal? Prefeitura? Relatório?”
  • Contraponto: “Temos posição da empresa? Se não, precisamos tentar de novo e registrar a tentativa.”
  • Ordem: “Sugiro: 1) atraso e impacto; 2) cronograma e valores; 3) justificativas; 4) fiscalização/órgãos; 5) próximos passos.”

Editor (pedido objetivo):

  • “Me traga em 40 minutos: valor inicial, valor atualizado (se houver), documento que sustenta, e resposta da empresa (mesmo que ‘não respondeu’).”

2) Repórter responde e negocia prazo

Repórter: “Consigo o valor inicial no edital e o atualizado nos aditivos do portal. A empresa não atendeu; vou ligar mais uma vez e mandar e-mail. Preciso de 1h para fechar com números e reabrir o texto.”

Editor: “Ok, 1h. Mas me manda em 20 min um parágrafo de abertura refeito com impacto + atraso confirmado, para eu já ir ajustando o topo.”

3) Repórter entrega apuração extra e novo topo

Repórter: “Achei dois aditivos: total passou de R$ 10,2 mi para R$ 12,8 mi (documentos anexados). A secretaria atribui atraso às chuvas e à troca de fornecedor. Empresa respondeu por e-mail dizendo que ‘segue o cronograma revisado’ e que ‘não comenta contratos’.”

Editor (ajustes finais e alinhamento de tom):

  • “Ótimo. Vou trocar ‘não cumpriu prazos’ por ‘teve prazos revistos’ e atribuir ao relatório X.”
  • “Vou reduzir a fala da secretaria para o trecho mais informativo e colocar os números no segundo parágrafo.”
  • “No final, incluo ‘próxima etapa’ e ‘o que falta’ para o leitor entender o que vem agora.”

4) Última checagem rápida (antes de publicar)

Editor: “Confirma: o valor atualizado é soma dos aditivos ou valor global do contrato? E a data do aditivo mais recente?”

Repórter: “É valor global atualizado conforme último termo aditivo (data: 12/08). Vou deixar isso explícito no texto.”

Checklist editorial (use como rotina)

  • Foco e ângulo
    • Consigo resumir o ângulo em 1 frase?
    • O topo entrega fato + relevância sem rodeio?
    • Há trechos que puxam para outro assunto? Corte ou justifique.
  • Estrutura e lógica
    • Cada parágrafo responde a uma pergunta aberta pelo anterior?
    • Contexto aparece antes de detalhes técnicos?
    • Há transições claras (sem saltos temporais ou de tema)?
  • Atribuição e precisão
    • Afirmações sensíveis estão atribuídas?
    • Números têm fonte e unidade (R$, %, km, meses)?
    • Evitei causalidade não comprovada (“por causa de”)?
  • Equilíbrio e direito de resposta
    • O lado citado/criticado foi procurado?
    • Se não respondeu, isso está registrado com método (ligação/e-mail/data)?
  • Clareza e concisão
    • Há repetições de informação ou de palavras?
    • Citações longas foram enxugadas mantendo o sentido?
    • Jargões, siglas e termos técnicos estão explicados?
  • Padronização
    • Nomes/cargos consistentes do começo ao fim?
    • Datas, horários, valores e grafias no mesmo padrão?
  • Risco de ambiguidade
    • Pronomes (“ele/ela/isso”) têm referente claro?
    • Há frases que podem ser interpretadas como opinião?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao editar uma matéria, qual ação melhor representa o objetivo do editor como “segundo par de olhos”?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O editor melhora o texto para torná-lo publicável: mais focado e coerente, com tom consistente e afirmações bem atribuídas e precisas, sem mudar o ângulo por gosto.

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