Tipos de sistemas fotovoltaicos: on-grid, off-grid e híbrido na prática

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

+ Exercício

Visão geral: o que muda entre on-grid, off-grid e híbrido

Os três tipos de sistemas fotovoltaicos se diferenciam principalmente por: (1) como a energia é convertida e distribuída (arquitetura), (2) se existe ou não armazenamento em baterias, (3) como ocorre a interação com a rede elétrica e (4) quais componentes e proteções entram na instalação. Na prática, a escolha impacta diretamente o diagrama elétrico, o dimensionamento dos equipamentos, o espaço físico (baterias, quadros, ventilação) e a forma de operação (economia na conta, autonomia, backup).

TipoConceitoObjetivo principalComponentes “marcantes”
On-grid (conectado à rede)Gera energia e injeta na rede; normalmente sem bateriasReduzir consumo/conta e compensar energiaInversor grid-tie, medição bidirecional, proteções AC/DC específicas
Off-grid (isolado)Opera sem rede; energia é armazenada e gerenciada localmenteAutonomia onde não há rede (ou rede inviável)Banco de baterias, controlador de carga, inversor isolado, monitoramento de SOC
HíbridoCombina rede + solar + baterias (e opcional gerador)Economia + backup + gestão de demandaInversor híbrido, baterias, lógica de prioridades, integração com rede/gerador

Sistema on-grid (grid-tie) na prática

Arquitetura e fluxo de energia

No on-grid, os módulos fotovoltaicos alimentam um inversor grid-tie (string inverter ou microinversores). O inversor sincroniza com a rede (tensão, frequência e fase) e injeta energia em corrente alternada no quadro da instalação. Quando a geração excede o consumo instantâneo, o excedente vai para a rede; quando a geração é menor, a rede complementa.

  • Sem baterias (na maioria dos casos): simplifica a instalação e reduz custo, mas não fornece energia em falta de rede (o inversor desliga por segurança).
  • Comportamento em queda de energia: inversor grid-tie interrompe a injeção (anti-ilhamento), então a casa/comércio fica sem energia mesmo com sol, a menos que exista solução híbrida/backup dedicada.

Aplicações típicas

  • Residências urbanas: foco em reduzir conta e compensar consumo diurno.
  • Comércios: bom encaixe quando há consumo durante o horário solar (ar-condicionado, iluminação, equipamentos).
  • Indústrias leves: redução de demanda diurna e previsibilidade de custos.

Vantagens e limitações

  • Vantagens: menor custo por kWp instalado; menos manutenção (sem baterias); alta eficiência; instalação mais simples.
  • Limitações: não fornece backup em falta de rede; depende de disponibilidade e regras da concessionária; exige atenção a requisitos de conexão e medição.

Componentes e o que muda na instalação

Principais blocos: arranjo FV (strings), proteções e seccionamento em CC, inversor grid-tie, proteções em CA, conexão ao quadro e ponto de medição.

  • Inversor grid-tie: deve ser homologado/compatível com a rede local, com funções de sincronismo e anti-ilhamento. Verifique faixa de tensão MPPT, tensão máxima de entrada, corrente por MPPT e potência AC nominal.
  • Strings e MPPT: o projeto das strings (quantidade de módulos em série/paralelo) precisa respeitar limites do inversor (tensão máxima em frio e corrente máxima).
  • Proteções CC: chave seccionadora em CC, dispositivos de proteção contra surtos (DPS) em CC e, quando aplicável, fusíveis por string (especialmente em paralelos).
  • Proteções CA: disjuntor dedicado do inversor no quadro, DPS em CA, e seccionamento acessível conforme necessidade do projeto.
  • Medição: normalmente envolve medidor bidirecional (ou configuração de medição conforme padrão local). O ponto de conexão e o arranjo do quadro devem permitir a medição correta do fluxo importado/exportado.

Requisitos práticos do inversor grid-tie (checklist)

  • Compatibilidade elétrica: tensão/frequência da rede (ex.: 127/220 V, 220/380 V), monofásico/bifásico/trifásico.
  • Faixa MPPT: deve casar com a tensão de operação das strings na maior parte do dia.
  • Tensão máxima CC: calcular tensão de circuito aberto (Voc) em condição de menor temperatura do local para não exceder o limite do inversor.
  • Corrente por MPPT: considerar Isc e fator de segurança; evitar exceder corrente máxima de entrada.
  • Comunicação/monitoramento: Wi‑Fi/Ethernet/RS485 para comissionamento e acompanhamento.
  • Homologação e exigências de rede: verificar se o modelo atende às exigências de conexão (anti-ilhamento, limites de tensão/frequência, etc.).

Passo a passo prático: organização da instalação on-grid (visão de campo)

  1. Definir ponto de conexão no quadro: escolher onde o disjuntor do inversor será instalado e como será o encaminhamento do cabo CA até o inversor.
  2. Planejar strings e entrada no inversor: mapear quais módulos formam cada string e em qual MPPT/entrada serão conectados.
  3. Montar e identificar o circuito CC: levar cabos das strings até a caixa de junção/combiner (se houver) e até o inversor, instalando seccionamento e DPS em CC conforme o projeto.
  4. Montar o circuito CA: do inversor ao quadro, com disjuntor dedicado e DPS em CA quando aplicável.
  5. Configurar o inversor: selecionar país/rede, parâmetros de operação e comunicação; conferir leitura de tensão de rede e status de sincronismo.
  6. Testes funcionais: verificar polaridade e tensão CC, energizar o inversor, checar geração, e confirmar que a medição registra importação/exportação corretamente.

Sistema off-grid (isolado) na prática

Arquitetura e fluxo de energia

No off-grid, o sistema precisa produzir e armazenar energia para uso a qualquer hora. Os módulos alimentam um controlador de carga (MPPT/PWM) que gerencia a carga do banco de baterias. Um inversor isolado converte a energia das baterias (CC) em CA para alimentar as cargas. Em muitos casos, há também uma fonte auxiliar (gerador) para recarga em períodos longos sem sol.

  • Energia passa pelas baterias: isso muda o dimensionamento (correntes maiores em CC) e a necessidade de proteção e cabos robustos no barramento de baterias.
  • Autonomia: é o “tempo de operação sem sol” que o banco de baterias consegue sustentar, considerando consumo e profundidade de descarga.

Aplicações típicas

  • Sítios e áreas remotas: sem rede ou com rede muito instável.
  • Telecom/monitoramento: cargas críticas em locais isolados.
  • Bombas e sistemas dedicados: quando a solução é totalmente independente (embora existam arquiteturas específicas para bombeamento).

Vantagens e limitações

  • Vantagens: independência da rede; energia disponível mesmo sem concessionária; possibilidade de operação contínua com gerador de apoio.
  • Limitações: custo e manutenção de baterias; maior complexidade; perdas adicionais (ciclagem de bateria e conversões); necessidade de gestão de carga (evitar sobrecarga do inversor e descarga profunda).

Componentes e o que muda na instalação

  • Banco de baterias: define tensão do sistema (ex.: 12/24/48 V ou bancos em alta tensão em soluções específicas). Exige local ventilado, acesso para manutenção e organização de cabos/barramentos.
  • Controlador de carga (MPPT): dimensionado pela corrente de carga e pela tensão do arranjo FV. Em MPPT, a tensão dos módulos pode ser mais alta e “convertida” para a tensão do banco, aumentando eficiência.
  • Inversor isolado: deve suportar potência contínua e picos de partida (motores, bombas, geladeiras). Alguns modelos integram carregador de baterias (inversor-carregador).
  • Proteções no lado das baterias: disjuntores/fusíveis próximos ao banco, seccionamento e barramentos adequados (correntes elevadas). A queda de tensão em cabos CC é crítica aqui.
  • Monitoramento: medidor de estado de carga (SOC), shunt e/ou BMS (em lítio) para evitar operação fora dos limites.

Autonomia: como pensar de forma prática

Autonomia depende de três números: consumo diário (kWh/dia), dias de autonomia desejados e profundidade de descarga (DoD) aceitável. Na prática, você escolhe uma autonomia realista (ex.: 1 a 2 dias) e combina com um gerador para contingência, ou aumenta banco FV/baterias para reduzir uso do gerador.

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Exemplo simplificado: consumo de 5 kWh/dia, autonomia de 2 dias, DoD de 50% (chumbo-ácido). Energia nominal do banco ≈ 5 × 2 / 0,5 = 20 kWh de armazenamento nominal.

Passo a passo prático: montagem lógica de um off-grid

  1. Listar cargas e picos: separar cargas contínuas (iluminação, eletrônicos) e cargas de pico (motor, bomba, geladeira) para escolher o inversor.
  2. Definir tensão do banco: quanto maior a potência, mais sentido faz usar tensões maiores (reduz corrente e seção de cabo).
  3. Dimensionar banco de baterias: com base em consumo, autonomia e DoD; escolher tecnologia (chumbo-ácido, lítio) conforme orçamento e rotina de uso.
  4. Escolher controlador de carga: verificar corrente máxima, tensão FV de entrada e compatibilidade com a tensão do banco.
  5. Organizar barramentos e proteções: instalar fusíveis/disjuntores próximos às baterias, seccionamento e distribuição CC/CA.
  6. Configurar parâmetros de carga: tensões/correntes de carga, limites de descarga, e (se houver) lógica de acionamento de gerador.
  7. Testar em etapas: primeiro controlador+baterias, depois inversor sem carga, depois cargas gradualmente, observando tensão do banco e aquecimento de cabos/conexões.

Sistema híbrido na prática

Arquitetura e fluxo de energia

O híbrido combina geração solar, banco de baterias e conexão à rede (e opcionalmente gerador). O coração do sistema é o inversor híbrido (ou conjunto inversor grid-tie + inversor-carregador acoplado), que gerencia para onde a energia vai: cargas, baterias, rede, ou recarga via rede/gerador.

  • Operação com e sem rede: pode manter cargas essenciais durante falta de energia (modo backup/UPS, dependendo do equipamento e do projeto do quadro).
  • Gestão ativa: permite definir prioridades (autoconsumo, backup, arbitragem de tarifa, limitação de exportação).

Aplicações típicas

  • Residência com quedas frequentes: manter geladeira, iluminação, internet e portão funcionando.
  • Comércio com perdas por interrupção: caixas, TI, câmeras, iluminação de emergência operacional.
  • Sítio com rede fraca: usar rede quando disponível, baterias para estabilidade e gerador como última opção.

Vantagens e limitações

  • Vantagens: economia + backup; flexibilidade de operação; pode reduzir demanda em horários de ponta; melhora qualidade de energia percebida pelas cargas (dependendo do inversor).
  • Limitações: maior custo e complexidade; necessidade de compatibilidade entre inversor e baterias; projeto do quadro mais detalhado (cargas essenciais vs não essenciais); ajustes finos de configuração.

Gerenciamento de energia e prioridades (rede, solar, bateria, gerador)

Em híbridos, você define uma estratégia. Três estratégias comuns:

  • Prioridade autoconsumo: solar alimenta cargas; excedente carrega baterias; excedente final exporta (se permitido). Rede entra apenas quando solar+bateria não sustentam.
  • Prioridade backup: mantém bateria em nível alto (ex.: 70–100%) para falta de energia; solar reduz consumo, mas o sistema evita descarregar bateria no dia a dia.
  • Prioridade econômica (tarifa): carrega bateria em horários baratos (rede) e usa bateria em horários caros, além do solar. Requer cuidado para não aumentar ciclos desnecessários.

Quando há gerador, a lógica típica é: solar primeiro, depois bateria, depois rede; e gerador como contingência (ou como fonte preferencial em locais com rede muito instável). Alguns inversores permitem partida automática do gerador por SOC baixo.

Cuidados de compatibilidade (pontos que mais geram retrabalho)

  • Bateria e BMS: baterias de lítio exigem comunicação compatível (CAN/RS485) ou parâmetros bem configurados; incompatibilidade pode limitar carga/descarga ou causar desligamentos.
  • Potência de backup: a saída de cargas essenciais pode ter limite menor que a potência total do inversor, dependendo do modelo e do modo de operação.
  • Acoplamento AC vs DC: em alguns projetos, o FV entra em CC no híbrido (DC-coupled); em outros, há inversor grid-tie separado acoplado em CA (AC-coupled). Isso muda proteções, medições e controle de exportação.
  • Limitação de exportação: se o local exige zero-export, pode ser necessário medidor/TC (transformador de corrente) compatível e configuração correta para evitar injeção na rede.
  • Quadro de cargas essenciais: separar circuitos críticos (backup) dos não críticos evita sobrecarga e aumenta autonomia.

Passo a passo prático: definindo um híbrido para backup

  1. Escolher cargas essenciais: listar o que deve funcionar na falta de energia (ex.: geladeira, iluminação, internet, tomadas específicas).
  2. Dimensionar potência e pico: somar potências e considerar partidas (motores). Isso define o inversor e o limite do quadro de backup.
  3. Definir autonomia de backup: ex.: 4–8 horas para residência urbana; 12–24 horas para locais com rede ruim.
  4. Escolher bateria e compatibilidade: verificar tensão, capacidade, corrente máxima e comunicação com o inversor.
  5. Planejar topologia do quadro: criar barramento/saída para cargas essenciais e manter cargas pesadas fora do backup (chuveiro elétrico, forno, ar-condicionado grande, conforme estratégia).
  6. Configurar prioridades: autoconsumo vs backup; SOC mínimo; horários de carga via rede (se aplicável); exportação/zero-export.
  7. Testar falta de rede: simular desligamento da rede e verificar tempo de transferência, estabilidade e quais cargas permanecem alimentadas.

Quadros comparativos para guiar a escolha

Comparativo de componentes e instalação

ItemOn-gridOff-gridHíbrido
InversorGrid-tie sincronizado com a redeIsolado (forma rede local)Híbrido (rede + bateria + FV; pode ter saída backup)
BateriasNormalmente nãoSim (essenciais)Sim (para backup/gestão)
Controlador de cargaNão (geralmente MPPT no inversor)Sim (MPPT/PWM)Às vezes integrado (MPPT interno) ou externo
MediçãoBidirecional/compensaçãoNão depende de concessionáriaPode ter medidor/TC para controle de exportação e autoconsumo
Quadro elétricoDisjuntor dedicado do inversor + DPSDistribuição CA + proteções fortes no barramento CCSeparação de cargas essenciais + medição/TC + proteções AC/DC
Operação sem redeNão operaOpera sempreOpera em backup (conforme projeto)

Comparativo por objetivo do cliente

ObjetivoMelhor encaixeObservação prática
Reduzir conta com menor investimentoOn-gridEvitar prometer energia em apagões; não é sistema de backup
Ter energia onde não existe redeOff-gridBanco de baterias e gerador de apoio costumam ser decisivos
Economia + manter cargas críticas em falta de energiaHíbridoSeparar cargas essenciais e definir autonomia realista
Rede instável e necessidade de continuidadeHíbrido (com gerador opcional)Configurar prioridades e limites de descarga para preservar baterias

Cenários típicos (residência, comércio, sítio) e como decidir

Cenário 1: residência urbana com consumo noturno e poucas quedas

Perfil: consumo maior à noite (banho, cozinha), rede estável, objetivo principal é economia.

  • Escolha comum: on-grid.
  • Ponto de atenção: se o cliente pede “funcionar no apagão”, alinhar expectativa e considerar híbrido apenas para cargas essenciais.
  • O que muda na instalação: foco em inversor grid-tie, proteções AC/DC e medição; sem sala de baterias.

Cenário 2: comércio com consumo diurno e custo de parada

Perfil: consumo alto durante o dia, equipamentos sensíveis (TI, PDV), prejuízo por interrupção.

  • Escolha comum: on-grid para economia + nobreak dedicado para TI; ou híbrido para manter circuitos críticos.
  • O que muda na instalação (híbrido): quadro de cargas essenciais (PDV, roteadores, iluminação mínima), bateria dimensionada para 1–4 horas, e configuração para priorizar autoconsumo sem descarregar bateria demais.

Cenário 3: sítio com rede inexistente ou muito instável

Perfil: cargas variadas (bomba, geladeira, iluminação), longos períodos sem rede, necessidade de autonomia.

  • Escolha comum: off-grid (sem rede) ou híbrido (rede fraca) com gerador.
  • O que muda na instalação: banco de baterias maior, controlador de carga/inversor-carregador robusto, cabos CC de alta corrente e estratégia de uso de cargas (evitar ligar tudo ao mesmo tempo).
  • Dica prática: separar cargas de motor (bomba) e avaliar partida (soft-starter/inversor de frequência) para reduzir pico no inversor.

Checklist rápido de decisão (perguntas que definem o tipo de sistema)

  • Existe rede disponível e confiável? Se sim, on-grid ou híbrido; se não, off-grid.
  • Precisa funcionar durante falta de energia? Se sim, híbrido (ou off-grid). On-grid não atende.
  • Qual autonomia desejada? Horas (híbrido) vs dias (off-grid).
  • Há cargas com alto pico? Pode exigir inversor maior e/ou estratégia de partida.
  • O cliente aceita manutenção e troca de baterias? Se não, evitar off-grid/híbrido com grande banco.
  • Há restrição de exportação para a rede? Pode direcionar para híbrido com zero-export ou ajustes específicos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao escolher entre sistemas on-grid, off-grid e híbrido, qual opção atende ao objetivo de economia na conta e manutenção de cargas essenciais durante falta de energia, exigindo separação de cargas no quadro e uso de baterias?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O sistema híbrido integra solar, rede e baterias, permitindo reduzir consumo e manter cargas essenciais em falta de energia. Para isso, requer definição de prioridades e separação de circuitos críticos no quadro, além do dimensionamento do banco de baterias.

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Componentes de um sistema de placas solares e critérios de seleção

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