Componentes de um sistema de placas solares e critérios de seleção

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

+ Exercício

Visão geral dos componentes e como eles se conectam

Um sistema fotovoltaico é um conjunto de componentes elétricos e mecânicos que precisam ser compatíveis entre si. Na prática, você escolhe: (1) módulos e sua configuração em strings, (2) inversor e sua janela de operação (MPPT), (3) estrutura de fixação adequada ao telhado/solo e às cargas de vento, (4) cabeamento e proteções (CC e CA), (5) aterramento/equipotencialização e DPS, (6) medição e monitoramento; e, quando aplicável, (7) baterias e seus dispositivos de proteção/gerenciamento.

Módulos fotovoltaicos (painéis): tipos e critérios de seleção

Mono x poli: o que muda na prática

  • Monocristalino: geralmente maior eficiência e melhor aproveitamento de área. Útil quando o espaço é limitado.
  • Policristalino: pode ter custo por watt menor em alguns cenários, porém tende a exigir mais área para a mesma potência.

Half-cell (meia célula)

Módulos half-cell dividem as células em duas metades, reduzindo corrente por trilha interna e perdas resistivas. Na prática, costumam ter melhor desempenho em condições de sombreamento parcial e menor aquecimento.

Bifacial

Módulos bifaciais geram energia pela face frontal e traseira. O ganho depende do albedo (refletância) do entorno e do afastamento/altura da instalação. Em telhados comuns, o ganho pode ser modesto; em solo com piso claro, brita branca ou laje refletiva, o ganho pode ser relevante.

Critérios de seleção de módulos

  • Potência (Wp): compare potência nominal e tolerância (ex.: 0 a +5 W). Para o mesmo espaço, maior Wp tende a reduzir quantidade de módulos.
  • Eficiência (%): importante quando a área é limitada. Compare eficiência do módulo, não apenas da célula.
  • Tensão e corrente: verifique Voc, Vmp, Isc, Imp e como isso impacta a string e o MPPT do inversor.
  • Coeficientes de temperatura: quanto menor (em módulo negativo), melhor o desempenho em calor. Observe o coeficiente de potência (%/°C) e de Voc.
  • Faixa de temperatura de operação: compatível com o ambiente (telhado aquece bastante).
  • Grau de proteção (IP): módulos são projetados para intempéries, mas verifique a robustez do conjunto e da caixa de junção.
  • Garantias: produto (defeitos) e performance (degradação). Compare prazos e condições.
  • Certificações: priorize módulos com certificações reconhecidas e rastreabilidade (lote/serial).
  • Compatibilidade mecânica: dimensões, espessura do frame, pontos de fixação e cargas admissíveis (vento/neve quando aplicável).

Passo a passo prático: checando compatibilidade elétrica do módulo com o inversor (string)

  1. Reúna dados do módulo: Voc, Vmp, Isc, Imp, coeficiente de Voc por temperatura.
  2. Reúna dados do inversor: tensão máxima CC, faixa MPPT (mín/máx), corrente máxima por MPPT e por string (quando informado).
  3. Calcule a tensão máxima da string no frio: estime a menor temperatura do local e aplique o coeficiente de Voc para obter Voc_frio. Multiplique pelo número de módulos em série. O resultado deve ficar abaixo da tensão máxima CC do inversor (com margem).
  4. Verifique a faixa MPPT: calcule Vmp_string (módulos em série × Vmp em condição típica). Deve cair dentro da faixa MPPT para operar bem na maior parte do tempo.
  5. Verifique corrente: em strings em paralelo, a corrente soma. Garanta que Isc_total e/ou Imp_total não excedam limites do MPPT/entrada.
  6. Cheque sombreamento e orientação: se houver orientações diferentes (ex.: duas águas), prefira MPPTs separados ou microinversores/otimizadores (quando aplicável) para evitar perdas por mismatch.

Inversores: string, microinversor e híbrido

Inversor string

Concentra a conversão CC/CA em um equipamento. É comum em sistemas residenciais e comerciais. Trabalha com strings de módulos e um ou mais MPPTs.

  • Vantagens: custo por watt competitivo, manutenção centralizada.
  • Atenções: sombreamento em parte da string pode reduzir produção; exige bom projeto de strings.

Microinversor

Um microinversor por módulo (ou por 2–4 módulos, dependendo do modelo). Cada módulo opera com MPPT próprio, reduzindo perdas por mismatch e facilitando monitoramento por módulo.

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  • Vantagens: melhor desempenho em telhados com sombreamento/ângulos diferentes; expansão modular.
  • Atenções: mais equipamentos no telhado; verifique IP, temperatura de operação e compatibilidade de rede.

Inversor híbrido

Integra operação com rede e com baterias (quando o projeto prevê armazenamento). Pode permitir backup de cargas selecionadas (dependendo do modelo e do arranjo elétrico).

  • Vantagens: flexibilidade para armazenamento e autoconsumo.
  • Atenções: compatibilidade com bateria (tensão, protocolo BMS), correntes, potência de carga/descarga e necessidade de quadro dedicado para cargas críticas.

Critérios de seleção de inversores

  • Potência nominal CA: compatível com a potência do gerador e com a conexão elétrica disponível.
  • Janela MPPT: faixa de tensão MPPT e tensão máxima CC devem casar com as strings.
  • Corrente máxima por MPPT/entrada: essencial ao usar módulos de alta corrente ou strings em paralelo.
  • Eficiência: compare eficiência máxima e europeia/ponderada (quando disponível).
  • Grau de proteção (IP): para instalação externa, prefira IP adequado (ex.: IP65 ou superior, conforme ambiente).
  • Faixa de temperatura e derating: inversores podem reduzir potência em calor. Verifique curvas de derating.
  • Garantia e assistência: prazo, cobertura e rede de suporte.
  • Certificações e conformidade de rede: compatibilidade com requisitos locais de conexão (anti-ilhamento, qualidade de energia).
  • Monitoramento: Wi‑Fi/Ethernet/4G, portal/app, integração via Modbus/RS485 quando necessário.

Estruturas de fixação: telhado e solo

A estrutura é responsável por suportar os módulos e transferir esforços ao telhado/solo com segurança. A seleção depende do tipo de cobertura (cerâmica, fibrocimento, metálica, laje), inclinação, material e condição do madeiramento/terças.

Critérios de seleção mecânica

  • Compatibilidade com o telhado: ganchos para telha cerâmica, parafusos com vedação para metálico, suportes específicos para fibrocimento, lastro/ancoragem em laje.
  • Cargas de vento: verifique especificação do fabricante (pressões admissíveis), espaçamento de apoios e necessidade de reforços. Em regiões de vento forte, o detalhamento de fixação é decisivo.
  • Material e corrosão: alumínio e aço inox são comuns. Em ambiente litorâneo, atenção redobrada à corrosão e compatibilidade galvânica.
  • Aterramento/equipotencialização: muitos sistemas exigem grampos/arruelas que garantem continuidade elétrica entre trilhos e frames.
  • Facilidade de manutenção: acesso para limpeza e inspeção, e afastamento adequado para ventilação.

Passo a passo prático: escolhendo estrutura para um telhado metálico trapezoidal

  1. Identifique o perfil da telha (trapezoidal/ondulada) e a espessura.
  2. Escolha fixadores com vedação (arruela EPDM) e comprimento compatível com a terça.
  3. Defina trilhos e grampos compatíveis com a espessura do frame do módulo (ex.: 30/35/40 mm).
  4. Confirme espaçamentos de fixação conforme tabela do fabricante para a carga de vento do local.
  5. Garanta que o sistema inclua itens de equipotencialização (jumpers/arruelas dentadas) quando necessário.

Cabeamento CC e CA: seleção e erros que custam caro

Cabeamento em corrente contínua (CC)

O cabo CC liga módulos (strings) ao inversor (ou a caixas de junção/combiner). Deve ser próprio para uso fotovoltaico, com resistência a UV, ozônio e temperatura.

  • Critérios de seleção: seção (mm²) por corrente e queda de tensão, isolação adequada para CC, resistência UV, faixa de temperatura, flexibilidade e certificação.
  • Queda de tensão: mantenha dentro de um alvo de projeto (ex.: 1% a 3% no trecho CC, conforme prática do projetista).
  • Roteamento: evite laços grandes (reduzindo área de loop), proteja contra abrasão e mantenha afastamento de fontes de calor.

Cabeamento em corrente alternada (CA)

O cabo CA liga o inversor ao quadro elétrico e ao ponto de conexão. A seleção considera corrente, método de instalação, temperatura, agrupamento e queda de tensão.

  • Critérios de seleção: seção por corrente e queda de tensão, isolação adequada, tipo de eletroduto/leito, e compatibilidade com disjuntores/DR quando aplicável.
  • Compatibilidade com a rede: verifique tensão (127/220/380 V), número de fases e balanceamento em sistemas trifásicos.

Passo a passo prático: dimensionamento inicial de cabos (visão de campo)

  1. Liste para cada trecho: corrente esperada, comprimento ida e volta, método de instalação (eletroduto, bandeja, ao ar), temperatura ambiente e agrupamento.
  2. Escolha uma seção preliminar por capacidade de corrente.
  3. Verifique queda de tensão no trecho; se exceder o alvo, aumente a seção.
  4. Confirme compatibilidade com terminais, conectores e prensa-cabos (não adianta cabo maior se não cabe no borne).
  5. Padronize cores/identificação e mantenha documentação do “as built”.

Conectores, caixas de junção e organização do lado CC

Conectores (padrão tipo MC4 e compatíveis)

Conectores são pontos críticos de aquecimento quando mal crimpados ou misturados. Use conectores do mesmo fabricante/série e ferramentas de crimpagem adequadas ao terminal.

  • Critérios: compatibilidade elétrica (corrente/tensão), compatibilidade mecânica entre macho/fêmea, IP quando conectado, material resistente a UV, e certificação.
  • Boas práticas: crimpagem correta, inspeção visual do crimp, teste de tração, e travamento completo.

Caixas de junção/combiner box (quando aplicável)

Em sistemas com várias strings em paralelo, pode ser útil concentrar entradas CC em uma combiner box com fusíveis por string, DPS e seccionamento. Em sistemas pequenos, muitas vezes as strings vão direto ao inversor.

  • Critérios: IP adequado ao local, prensa-cabos corretos, barramentos dimensionados, dissipação térmica, espaço para manutenção e identificação clara dos circuitos.

Proteções elétricas: disjuntores, seccionadoras, fusíveis e DPS

Disjuntores e fusíveis

Protegem contra sobrecorrente. No lado CC, fusíveis por string são comuns quando há strings em paralelo (para evitar corrente reversa elevada). No lado CA, disjuntores protegem o circuito do inversor.

  • Critérios: tensão e corrente compatíveis (CC é diferente de CA), curva e capacidade de interrupção adequadas, coordenação com o restante do sistema.

Seccionadoras (chaves seccionadoras)

Permitem desligamento seguro para manutenção. Podem existir no lado CC (próximo ao inversor/combiner) e no lado CA (quadro).

  • Critérios: categoria de utilização para CC, tensão/corrente, IP, possibilidade de bloqueio (lockout) quando necessário.

DPS (Dispositivos de Proteção contra Surtos)

Protegem contra surtos (ex.: descargas atmosféricas indiretas e manobras). Podem ser instalados no lado CC e CA conforme o arranjo e o risco do local.

  • Critérios: tipo/classe apropriada ao ponto de instalação, tensão máxima contínua (Uc), nível de proteção (Up), capacidade de descarga, indicação de fim de vida e possibilidade de substituição do cartucho.

Aterramento e equipotencialização

Além de reduzir riscos e melhorar o comportamento frente a surtos, a equipotencialização ajuda a evitar diferenças de potencial entre frames, trilhos e carcaças metálicas. Na prática, isso envolve interligar eletricamente estruturas e módulos e conectá-los ao sistema de aterramento do local conforme o projeto.

  • Critérios: continuidade elétrica garantida (grampos/arruelas apropriadas), condutor com seção adequada, conexões anticorrosão, e roteamento curto e direto para reduzir impedância em surtos.

Medidores e medição de energia

Além do medidor da concessionária (quando aplicável), pode haver medidores adicionais para gestão energética: medidor bidirecional interno, TC (transformadores de corrente) para monitorar consumo, e medidores dedicados para cargas críticas.

  • Critérios: compatibilidade com o inversor/monitoramento (Modbus, RS485, Wi‑Fi), classe de exatidão, corrente nominal, tipo de instalação (trilho DIN) e se usa TC.

Baterias (quando aplicável) e seus componentes associados

Quando o sistema inclui armazenamento, a bateria deixa de ser “apenas um componente” e passa a ditar requisitos de compatibilidade elétrica, proteção e ventilação/temperatura.

Tipos comuns

  • Lítio (LiFePO4 e outras químicas): alta eficiência e maior vida útil, geralmente com BMS integrado.
  • Chumbo-ácido (selada/estacionária): custo inicial menor em alguns casos, porém maior volume/peso e menor profundidade de descarga recomendada.

Critérios de seleção

  • Capacidade (kWh) e potência (kW): energia para autonomia e potência para atender picos de carga.
  • Tensão do banco: compatível com o inversor híbrido/controlador.
  • Corrente de carga/descarga: deve atender ao perfil de uso sem aquecer excessivamente.
  • BMS e comunicação: compatibilidade de protocolo com o inversor (quando exigido).
  • Temperatura: lítio pode ter restrições de carga em baixas temperaturas; verifique faixa operacional.
  • Grau de proteção (IP): se instalado em áreas externas/técnicas, confirme IP e condições de instalação.
  • Garantia e ciclos: compare ciclos a determinada profundidade de descarga (DoD) e condições de garantia.

Monitoramento: o que escolher e como planejar

Monitoramento permite verificar geração, consumo (quando medido), alarmes e falhas. Pode ser nativo do inversor, por microinversores, ou por dataloggers externos.

  • Critérios: confiabilidade de comunicação (Ethernet costuma ser mais estável que Wi‑Fi), histórico de dados, alertas, granularidade (por string ou por módulo), integração com medidor de consumo e acesso para manutenção.
  • Planejamento prático: defina ponto de rede/sinal, proteção contra surtos na alimentação/linha de comunicação quando necessário e acesso ao roteador/local técnico.

Lista de verificação de compras (checklist)

  • Módulos: modelo exato, Wp, dimensões, tipo (mono/poli, half-cell, bifacial), conectores, certificados, garantias, datas/lotes.
  • Inversor: potência, nº de MPPT, limites de tensão/corrente, IP, comunicação, acessórios (datalogger), garantia.
  • Estrutura: trilhos, grampos finais/intermediários, fixadores específicos do telhado, itens de vedação, jumpers/equipotencialização, torque recomendado.
  • Cabos CC: cabo solar com proteção UV, seção definida, cores/identificação, sobra técnica.
  • Cabos CA: seção definida, eletrodutos/canaletas, terminais/lugs, identificação.
  • Conectores: mesmo fabricante/série, terminais compatíveis com a seção do cabo, ferramenta de crimpagem adequada.
  • Caixas (quando usadas): combiner box CC, caixas de passagem, prensa-cabos, trilho DIN, etiquetas.
  • Proteções CC: fusíveis por string (se aplicável), porta-fusíveis, seccionadora CC, DPS CC.
  • Proteções CA: disjuntor do inversor, seccionamento CA, DPS CA (quando aplicável), componentes de quadro.
  • Aterramento/equipotencialização: condutor, terminais, barramento, conectores, itens de continuidade elétrica na estrutura.
  • Medição: medidor/TC compatível com o inversor/monitoramento, cabos de comunicação.
  • Baterias (se aplicável): módulos de bateria, suportes, disjuntores/fusíveis dedicados, cabos, comunicação BMS, sensores (quando exigidos).

Erros comuns (e como evitar)

  • Subdimensionamento de cabos: causa aquecimento e perdas. Evite escolhendo seção por corrente + queda de tensão + condições de instalação (temperatura/agrupamento).
  • Mistura de conectores “compatíveis”: mesmo que encaixe, pode gerar mau contato e aquecimento. Padronize fabricante/série e use crimpagem correta.
  • Uso de materiais sem proteção UV no telhado: abraçadeiras, conduítes e cabos inadequados ressecam e quebram. Use itens próprios para ambiente externo/UV.
  • String fora da janela MPPT: resulta em baixa produção ou falhas. Sempre valide tensão no frio (máxima) e tensão de operação (MPPT).
  • Ignorar corrente máxima do MPPT: módulos modernos podem ter corrente alta; paralelizar strings sem checar limite do inversor pode causar desligamentos/risco.
  • Estrutura escolhida sem considerar vento: fixação insuficiente pode causar deslocamento e infiltração. Siga tabelas do fabricante e ajuste espaçamentos.
  • Proteções CC/CA inadequadas: usar dispositivos não apropriados para CC (ou com tensão/capacidade de interrupção insuficiente) é um erro crítico. Selecione componentes específicos para a aplicação.
  • Falta de equipotencialização entre trilhos e frames: pode gerar diferenças de potencial e piorar surtos. Use grampos/arruelas e condutores previstos.
  • Monitoramento mal planejado: Wi‑Fi fraco e sem acesso ao roteador dificulta suporte. Planeje conectividade e local do datalogger.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao verificar a compatibilidade elétrica entre módulos e inversor em um sistema fotovoltaico, qual combinação de checagens reduz o risco de a string ultrapassar limites do inversor e operar fora do MPPT?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A validação correta envolve tensão máxima no frio (Voc ajustado) vs. tensão máxima CC, Vmp da string dentro da faixa MPPT e checagem de corrente ao paralelizar strings para não exceder limites do MPPT/entrada.

Próximo capitúlo

Levantamento técnico do local para instalação de placas solares

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