O Tesouro Direto é o programa de venda de títulos públicos federais para pessoas físicas. Na prática, você empresta dinheiro ao governo e recebe de volta conforme as regras do título: um indexador (como Selic, IPCA ou uma taxa prefixada), um prazo (data de vencimento) e um fluxo de pagamentos (sem cupons ou com cupons). O que torna o Tesouro especialmente útil na carteira é a combinação de: variedade de prazos, padronização dos títulos, possibilidade de comprar frações, e um mercado secundário com recompra diária pelo Tesouro (o que permite ajustes de rota, desde que você entenda o efeito do preço no meio do caminho).
O que você realmente escolhe ao investir no Tesouro
Ao selecionar um título do Tesouro, você está fazendo três escolhas práticas que determinam como ele se comporta na sua carteira: (1) o indexador (o que “dirige” a rentabilidade), (2) o prazo (quando o dinheiro volta, e por quanto tempo você fica exposto às oscilações de preço), e (3) o formato de pagamento (se o rendimento “fica dentro” até o vencimento ou se parte dele é pago periodicamente).
1) Indexador: o motor do retorno
No Tesouro, os principais “motores” são: Selic (pós-fixado), IPCA+ (híbrido: inflação + taxa real) e Prefixado (taxa fixa). A escolha do indexador é menos sobre “qual rende mais” e mais sobre “qual risco você quer carregar” e “qual papel o título vai cumprir na carteira”. Em termos de uso prático: Selic costuma ser o instrumento de menor sensibilidade a variações de taxa, IPCA+ é o instrumento típico de proteção de poder de compra no longo prazo, e Prefixado é uma aposta mais direta em travamento de taxa nominal.
2) Prazo (vencimento): o horizonte do contrato
O vencimento é a data em que o Tesouro paga o valor final do título. Na prática, o vencimento define o “tamanho” da sua exposição a mudanças de juros ao longo do tempo. Títulos mais longos tendem a oscilar mais no preço antes do vencimento. Por isso, o prazo não é apenas uma data: é uma característica de risco de trajetória. Mesmo que você não pretenda vender antes, o prazo influencia como o título se comporta no extrato e como ele interage com o restante da carteira.
3) Fluxo de pagamento: com ou sem cupons
Alguns títulos pagam juros semestrais (cupons). Outros acumulam tudo e pagam apenas no vencimento. Essa escolha muda o seu fluxo de caixa e a forma como você reinveste. Títulos com cupons podem ser úteis quando você quer renda periódica, mas exigem disciplina para reinvestir os cupons se o objetivo for crescimento do patrimônio. Títulos sem cupons simplificam o acúmulo, porque todo o retorno fica capitalizado no próprio título.
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Mapa dos principais títulos do Tesouro e quando cada um costuma entrar na carteira
Tesouro Selic (LFT)
É o título pós-fixado atrelado à taxa Selic. Na prática, costuma ser usado como “caixa” da carteira: reserva operacional, dinheiro de curto prazo e parte conservadora que precisa de baixa volatilidade. Ele tende a ter variação de preço pequena, o que ajuda quem pode precisar vender antes do vencimento. Também é comum como destino temporário de recursos enquanto você espera uma oportunidade (por exemplo, para fazer aportes programados em outros ativos).
- Uso típico: caixa, curto prazo, reserva para aportes futuros, amortecedor de volatilidade.
- Ponto de atenção: em alguns momentos, o preço pode oscilar levemente por questões técnicas de mercado, mas em geral é o mais estável entre os títulos do Tesouro.
Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal) e Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (NTN-B)
O Tesouro IPCA+ paga inflação (IPCA) mais uma taxa real contratada no momento da compra. O “Principal” não paga cupons; o “com Juros Semestrais” paga uma parte dos juros a cada semestre. Na prática, esse título é usado para objetivos de longo prazo em que você quer preservar poder de compra e travar uma taxa real. Ele é muito sensível a mudanças de juros reais ao longo do tempo, então pode oscilar bastante antes do vencimento, especialmente nos prazos longos.
- Uso típico: construção de patrimônio de longo prazo, metas indexadas à inflação, proteção do poder de compra.
- Ponto de atenção: volatilidade no meio do caminho; escolha do vencimento e tolerância a oscilações importam muito.
- Com cupons: útil para renda periódica; exige reinvestimento para manter o plano de acumulação.
Tesouro Prefixado (LTN) e Tesouro Prefixado com Juros Semestrais (NTN-F)
O Tesouro Prefixado paga uma taxa fixa nominal. Você sabe a taxa contratada, mas não sabe a inflação futura; portanto, o ganho real depende do que acontecer com os preços. Na prática, ele é usado quando faz sentido travar uma taxa nominal por um período e quando você aceita a possibilidade de o título oscilar bastante se as taxas de mercado mudarem. Assim como no IPCA+, prazos longos tendem a oscilar mais.
- Uso típico: travar taxa nominal, estratégias táticas quando as taxas estão atrativas para o prazo escolhido.
- Ponto de atenção: risco de vender antes do vencimento em momento desfavorável; atenção ao prazo.
- Com cupons: gera renda semestral; pode ser útil para quem quer fluxo, mas aumenta a necessidade de reinvestimento.
Seleção por prazo na prática: como escolher o vencimento dentro do Tesouro
Dentro do Tesouro, você frequentemente encontra vários vencimentos para o mesmo tipo de título (por exemplo, Tesouro IPCA+ 2029, 2035, 2045). A escolha do vencimento é uma decisão operacional: você está escolhendo o “ponto” da curva de juros em que vai se posicionar e o quanto tolera oscilações no caminho.
Regra prática 1: alinhe vencimento com a data de uso do dinheiro
Se você tem uma data-alvo para usar o dinheiro, o vencimento deve ser o mais próximo possível dessa data. Isso reduz a chance de você precisar vender antes do vencimento. Exemplo: se você pretende usar o recurso em 2029, faz mais sentido escolher um título com vencimento em 2029 do que um 2035, porque o 2035 pode oscilar mais e você pode ser forçado a vender em um momento ruim.
Regra prática 2: para objetivos longos, use “escada” (ladder) de vencimentos
Em vez de colocar tudo em um único vencimento, você pode distribuir em vários vencimentos ao longo do tempo. Isso cria uma “escada” que reduz o risco de concentrar a carteira em um único ponto de taxa e melhora a flexibilidade de reinvestimento conforme os títulos vencem.
Exemplo de escada para IPCA+: dividir aportes entre 2029, 2035 e 2045. Quando 2029 vencer, você decide se reinveste no vencimento mais longo disponível ou se usa o dinheiro. Essa abordagem ajuda a lidar com incertezas de taxa e com mudanças de plano.
Regra prática 3: quanto maior o prazo, maior a necessidade de convicção e disciplina
Em títulos longos, a oscilação do preço pode ser grande. Isso não é “erro do Tesouro”; é característica do instrumento. Portanto, prazos longos pedem uma decisão mais consciente: você precisa aceitar ver o valor de mercado cair em alguns períodos sem abandonar a estratégia, desde que o plano seja levar ao vencimento.
Seleção por indexador: como transformar o Tesouro em peças de carteira
Uma forma útil de pensar é tratar cada tipo de Tesouro como uma “peça” com função específica. O erro comum é escolher apenas pela taxa do dia, sem definir a função do título. Abaixo estão usos típicos em carteira, com exemplos práticos de montagem.
Peça 1: Tesouro Selic como caixa e estabilizador
Use Tesouro Selic para o dinheiro que precisa ficar disponível e para reduzir a volatilidade do conjunto. Ele pode ser a base para aportes mensais: você acumula no Selic e, em datas definidas, migra parte para IPCA+ ou Prefixado conforme sua estratégia.
Exemplo: você recebe renda variável (comissão, bônus) e não quer decidir no calor do momento. Coloca no Tesouro Selic e, a cada trimestre, realoca para títulos de prazo maior conforme o plano.
Peça 2: Tesouro IPCA+ para metas de longo prazo e poder de compra
Use Tesouro IPCA+ quando o objetivo é manter poder de compra e construir patrimônio real. Ele é especialmente útil para metas que “crescem com a inflação” (por exemplo, um gasto futuro que tende a acompanhar preços). O formato sem cupons (Principal) costuma ser mais simples para acumulação, porque evita a necessidade de reinvestir pagamentos semestrais.
Exemplo: você quer formar um montante para complementar renda no futuro. Você pode comprar IPCA+ Principal com vencimentos distribuídos, criando uma base real de longo prazo.
Peça 3: Tesouro Prefixado para travar taxa nominal em janelas específicas
Use Prefixado quando você quer previsibilidade nominal e está confortável com o prazo. Uma aplicação prática é travar uma taxa para um período em que você não pretende mexer no dinheiro. Ele pode funcionar como parte de uma estratégia de “barbell”: uma ponta em Selic (liquidez) e outra em títulos mais longos (retorno potencial), com um meio menor.
Exemplo: você tem um valor que não pretende usar por 3 anos e encontra uma taxa prefixada que considera atrativa para esse prazo. Você compra o Prefixado com vencimento próximo ao uso do dinheiro, reduzindo a chance de venda antecipada.
Passo a passo prático: como escolher um título no Tesouro Direto
Passo 1: defina a função do aporte (caixa, proteção real, travar taxa)
Antes de olhar taxas, responda: este dinheiro é para ficar disponível? É para preservar poder de compra no longo prazo? É para travar uma taxa nominal por um período? Essa resposta direciona o tipo de título (Selic, IPCA+, Prefixado).
Passo 2: escolha o vencimento mais coerente com a data de uso
Liste a data aproximada em que você pretende usar o dinheiro e selecione o vencimento mais próximo. Se o objetivo for contínuo (por exemplo, aposentadoria), use uma escada de vencimentos para reduzir concentração.
Passo 3: decida entre título com cupons ou sem cupons
- Se você quer acumular: prefira, em geral, títulos sem cupons (Principal no IPCA+, LTN no Prefixado).
- Se você quer renda periódica: considere títulos com juros semestrais, sabendo que o principal ainda fica para o vencimento e que os cupons precisam ser administrados.
Passo 4: simule o impacto do aporte e do reinvestimento (especialmente com cupons)
Se escolher títulos com cupons, crie uma regra de reinvestimento. Exemplo: todo cupom recebido vai para Tesouro Selic e, quando acumular um valor mínimo, será reinvestido em um novo título alinhado ao plano. Isso evita que o cupom vire “dinheiro solto” e desorganize a estratégia.
Passo 5: execute a compra com atenção a quantidade, preço e taxas
No Tesouro, você compra por valor (frações do título). Defina o valor do aporte e confira: (1) o título correto (nome e vencimento), (2) se é com ou sem juros semestrais, (3) a taxa/indicador exibido no momento, e (4) os custos envolvidos (taxa de custódia e eventual taxa da corretora, quando aplicável). Em seguida, confirme a ordem.
Passo 6: registre a intenção do investimento
Um hábito simples melhora muito a disciplina: anote em uma planilha ou app de finanças três itens para cada compra: título, vencimento e “por que comprei”. Exemplo: “IPCA+ 2035 Principal: objetivo de longo prazo, manter poder de compra; não vender antes do vencimento”. Isso reduz decisões impulsivas quando o preço oscila.
Uso do Tesouro na carteira: modelos práticos de alocação por função
A seguir estão modelos didáticos de como o Tesouro pode ser distribuído por função dentro de uma carteira de renda fixa. Os percentuais são exemplos para ilustrar a lógica; o mais importante é a coerência entre função, prazo e tolerância a oscilações.
Modelo A: carteira conservadora com foco em estabilidade
- 70% Tesouro Selic (caixa e estabilidade)
- 30% Tesouro IPCA+ (preferencialmente Principal) em vencimentos intermediários e longos, em escada
Como usar: aportes mensais vão para Selic; a cada 2 ou 3 meses, uma parte é direcionada para IPCA+ para construir proteção real sem aumentar demais a volatilidade.
Modelo B: carteira de acumulação de longo prazo com proteção real
- 30% Tesouro Selic (liquidez e aportes programados)
- 60% Tesouro IPCA+ Principal (escada de vencimentos)
- 10% Tesouro Prefixado (posições táticas em prazos definidos)
Como usar: a base é IPCA+ para crescimento real. O Selic serve como “pulmão” para não precisar vender IPCA+ em momentos ruins e para receber cupons (se houver) ou novos aportes. O Prefixado entra em pequenas parcelas quando fizer sentido travar taxa.
Modelo C: carteira com necessidade de renda periódica
- 40% Tesouro Selic (reserva de pagamentos e amortecedor)
- 40% Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (renda real parcial)
- 20% Tesouro Prefixado com Juros Semestrais (renda nominal parcial)
Como usar: os cupons entram como renda. Uma parte pode ser usada para despesas e outra parte reinvestida. Para evitar que a renda corroa o principal ao longo do tempo, defina uma regra: por exemplo, reinvestir 30% a 50% dos cupons no próprio Tesouro Selic e, periodicamente, recomprar títulos alinhados ao prazo.
Erros comuns no Tesouro Direto e como evitar
Comprar título longo sem aceitar a oscilação no extrato
Se você compra IPCA+ 2045 e acompanha o preço diariamente, é provável que se assuste com quedas temporárias. A prevenção é dupla: (1) escolher vencimentos coerentes e (2) separar mentalmente “valor de mercado hoje” de “estratégia de levar ao vencimento”. Se a chance de precisar do dinheiro antes for relevante, reduza prazo ou aumente a parcela em Selic.
Escolher título com cupons sem plano de reinvestimento
Cupons criam fluxo. Sem regra, esse fluxo vira gasto ou fica parado. Se o objetivo é renda, ótimo; se o objetivo é acumulação, prefira títulos sem cupons ou estabeleça reinvestimento automático (mesmo que manualmente, com datas fixas).
Concentrar tudo em um único vencimento
Concentração aumenta o risco de você ficar “refém” de uma janela específica de taxa. A escada de vencimentos reduz esse risco e cria oportunidades naturais de reinvestimento quando cada título vence.
Tratar Tesouro Selic como “sempre igual” para qualquer prazo
Tesouro Selic é excelente para caixa e curto prazo, mas pode não ser a melhor peça para metas longas em termos de proteção de poder de compra. Usar Selic para tudo pode deixar a carteira dependente do patamar de juros do momento e menos alinhada a objetivos reais de longo prazo.
Checklist rápido para decidir entre Tesouro Selic, IPCA+ e Prefixado
- Preciso de baixa oscilação e flexibilidade: Tesouro Selic.
- Quero proteger poder de compra no longo prazo: Tesouro IPCA+ (preferencialmente Principal para acumulação).
- Quero travar uma taxa nominal por um período específico e levar ao vencimento: Tesouro Prefixado.
- Preciso de renda periódica: versões com Juros Semestrais, com regra clara de uso e reinvestimento.
- Tenho dúvida sobre o vencimento: use escada (dividir em mais de um prazo) e mantenha uma parcela em Selic para não ser forçado a vender títulos voláteis.
Exemplos práticos de seleção (com raciocínio, não com “taxa do dia”)
Exemplo 1: dinheiro para uma compra em 24 meses
Você tem um valor que pretende usar em cerca de 2 anos e quer evitar surpresas no caminho. Uma escolha comum é Tesouro Selic com vencimento posterior à data de uso, porque a prioridade é estabilidade e possibilidade de resgate. Se houver um Prefixado com vencimento bem próximo da data e você tiver convicção de levar até o fim, ele pode entrar como parcela menor, mas o núcleo tende a ser Selic.
Exemplo 2: meta de longo prazo que precisa manter poder de compra
Você quer acumular para um objetivo distante e não quer depender de “adivinhar” inflação. Uma estrutura prática é: manter uma parte em Tesouro Selic (para aportes e emergências operacionais) e direcionar o restante para Tesouro IPCA+ Principal em escada de vencimentos. Assim, você constrói uma base real e reduz o risco de concentrar em um único vencimento.
Exemplo 3: necessidade de renda semestral planejada
Você quer receber pagamentos periódicos para complementar orçamento. Você pode usar Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais para tentar manter parte da renda com componente real e, se fizer sentido, combinar com Prefixado com Juros Semestrais para uma parcela de renda nominal. O ponto central é definir: qual parte dos cupons será consumida e qual parte será reinvestida para evitar perda de poder de compra ao longo do tempo.