CDB, LCI e LCA são títulos de renda fixa emitidos por instituições financeiras para captar recursos. Na prática, você empresta dinheiro ao emissor e recebe de volta o principal acrescido de juros conforme as regras do papel. Apesar de serem frequentemente comparados entre si, eles têm estruturas, garantias e detalhes operacionais diferentes que impactam o resultado líquido, a segurança e a experiência do investidor.
1) CDB: o que é e como funciona na prática
O CDB (Certificado de Depósito Bancário) é um título emitido por bancos (e, em alguns casos, por financeiras) para financiar suas operações. Ao comprar um CDB, você se torna credor da instituição emissora. O emissor se compromete a pagar a remuneração combinada e devolver o valor investido no vencimento (ou antes, se houver liquidez/condições de resgate previstas).
Estrutura do produto
- Emissor: banco ou instituição financeira autorizada.
- Investidor: pessoa física ou jurídica que compra o título.
- Remuneração: definida no momento da aplicação (pode ser pós-fixada, prefixada ou híbrida, conforme o produto ofertado).
- Prazo e vencimento: data em que o emissor devolve o principal e os juros (ou paga periodicamente, se for um CDB com cupons).
- Forma de pagamento: no vencimento (mais comum) ou com pagamentos periódicos (menos comum, mas existe).
Tipos comuns de CDB (pela forma de pagamento)
- CDB com pagamento no vencimento: juros “acumulam” e são pagos junto com o principal no final.
- CDB com juros periódicos (cupons): paga juros em intervalos (mensal, semestral etc.). É útil para quem quer renda, mas exige atenção ao reinvestimento dos cupons e ao imposto retido em cada pagamento.
Tributação do CDB (ponto central de comparação)
CDB paga Imposto de Renda sobre os rendimentos, seguindo a tabela regressiva (quanto mais tempo, menor a alíquota). Além disso, pode haver IOF se o resgate ocorrer muito cedo (regra típica para aplicações de curto prazo). Na prática, o que importa é comparar rentabilidade líquida (após impostos) com alternativas isentas.
Exemplo prático (comparação líquida simplificada): imagine um CDB que rende 100% do CDI e uma LCI que rende 85% do CDI (isenta). Dependendo do prazo (e da alíquota de IR aplicável), a LCI pode entregar resultado líquido semelhante ou superior, mesmo com percentual menor do CDI. Por isso, comparar “% do CDI” sem considerar imposto pode levar a decisões erradas.
2) LCI e LCA: o que são e por que existem
LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) são títulos emitidos por instituições financeiras, mas com uma característica-chave: o dinheiro captado deve ser direcionado para financiar operações ligadas ao setor imobiliário (LCI) ou ao agronegócio (LCA). Para o investidor pessoa física, o grande diferencial é que os rendimentos são isentos de Imposto de Renda (na regra geral vigente), o que muda completamente a comparação com CDB.
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Estrutura do produto
- Emissor: banco ou instituição financeira.
- Lastro/destinação: recursos vinculados a crédito imobiliário (LCI) ou do agro (LCA). Você não escolhe o projeto; isso é gestão interna do emissor.
- Remuneração: definida na compra (pós, pré ou híbrida, conforme oferta).
- Prazo e carência: normalmente há uma carência mínima para resgate, mesmo quando o produto oferece “liquidez após carência”.
- Tributação: em geral, isentas de IR para pessoa física (verifique regras atuais e exceções aplicáveis ao seu perfil).
O que muda em relação ao CDB
- Imposto: LCI/LCA tendem a ser mais eficientes no líquido para pessoa física.
- Liquidez: é comum terem carências mais rígidas do que CDBs de liquidez diária.
- Oferta e taxas: variam muito por banco, prazo e momento de mercado; nem sempre a LCI/LCA “ganha” do CDB no líquido, mas frequentemente compete muito bem.
3) Garantias: FGC, limites e como isso afeta sua estratégia
CDB, LCI e LCA costumam contar com a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), desde que emitidos por instituições e produtos elegíveis. Essa proteção é um dos principais motivos de popularidade desses títulos entre investidores conservadores.
Como funciona a cobertura do FGC (visão prática)
- O que é: um mecanismo de proteção que busca ressarcir depositantes/investidores em caso de intervenção, liquidação ou falência da instituição financeira.
- Limites: há um teto por CPF/CNPJ e por instituição e também um limite global em um período. Os valores exatos podem mudar ao longo do tempo; portanto, a regra prática é: não concentre acima do limite em um único emissor.
- O que entra no cálculo: normalmente considera principal + juros até a data do evento de crédito, respeitando o limite.
- Prazo de pagamento: não é instantâneo; pode levar dias ou semanas, e você pode ficar sem acesso ao dinheiro nesse intervalo.
Pontos de atenção sobre “ter FGC”
- FGC não elimina risco de liquidez: mesmo coberto, você pode precisar do dinheiro antes e não conseguir resgatar (carência, ausência de mercado, regras do produto).
- FGC não é “rentabilidade garantida”: ele cobre eventos de crédito do emissor, não protege contra escolhas ruins de prazo, necessidade de resgate antecipado ou reinvestimento em taxas piores.
- Concentração: dividir entre emissores pode reduzir o risco de ultrapassar limites e também diminuir o impacto operacional caso um emissor tenha problema.
4) Rentabilidade: como comparar CDB vs LCI/LCA sem cair em armadilhas
Comparar esses produtos exige transformar tudo em uma métrica comum. Como LCI/LCA são isentas (para pessoa física, na regra geral), a comparação correta é entre rentabilidade líquida.
Regra prática: converter CDB em “equivalente isento”
Uma forma simples é calcular quanto uma LCI/LCA precisaria render para empatar com um CDB após IR. A lógica é:
Rentabilidade líquida do CDB = Rentabilidade bruta do CDB × (1 - alíquota de IR)Se você tem um CDB de 100% do CDI e está numa alíquota de IR de 15% (prazo mais longo), o líquido aproximado seria 85% do CDI. Então, uma LCI/LCA de 85% do CDI (isenta) tende a empatar, tudo o mais constante.
Exemplo numérico (didático):
- CDB: 110% do CDI, IR de 15% no prazo considerado
- Líquido aproximado: 110% × (1 − 0,15) = 93,5% do CDI
- Se houver uma LCI/LCA pagando acima de 93,5% do CDI, ela tende a ser melhor no líquido (mantidas as demais condições).
Armadilhas comuns na comparação
- Comparar taxa sem prazo: um CDB “ótimo” pode estar disponível só para prazos longos; uma LCI “menor” pode ter carência curta e servir melhor ao seu uso.
- Ignorar forma de pagamento: cupons geram reinvestimento e imposto em cada pagamento (no CDB), o que pode reduzir eficiência.
- Ignorar custos indiretos: não é uma “taxa” explícita, mas a falta de flexibilidade (carência) pode custar caro se você precisar do dinheiro.
5) Carência, vencimento e regras de resgate: o que ler antes de investir
Mesmo sem entrar em conceitos gerais de liquidez, vale destacar que CDB, LCI e LCA têm regras contratuais que variam muito. Antes de aplicar, procure no material do produto (ou no resumo da oferta) as informações abaixo.
Checklist do que verificar
- Existe carência? Se sim, até quando você não pode resgatar de jeito nenhum?
- Após a carência, há liquidez diária? Alguns títulos permitem resgate após uma data, mas não necessariamente “a qualquer momento” (pode haver janelas).
- Resgate antecipado é permitido? Em muitos casos, não é. Se for permitido, qual a regra de remuneração em caso de saída antes do vencimento?
- Vencimento: qual a data final e o que acontece se você não fizer nada (resgate automático? renovação? crédito em conta?)
- Forma de pagamento: no vencimento ou com cupons?
- Valor mínimo e máximo: existe limite por CPF? existe lote mínimo?
Passo a passo prático: como ler uma oferta de CDB/LCI/LCA
Passo 1 — Identifique o emissor e o tipo de título. Confirme se é CDB, LCI ou LCA e qual instituição emite.
Passo 2 — Verifique se há cobertura do FGC e como ela se aplica. Confirme elegibilidade e planeje para não exceder limites por instituição considerando principal + juros.
Passo 3 — Anote prazo, carência e condições de resgate. Escreva em uma linha: “Carência até __/__/__ ; vencimento em __/__/__ ; resgate permitido? (sim/não)”.
Passo 4 — Entenda a remuneração e o que ela significa. Registre a taxa exatamente como aparece (ex.: “X% do CDI”, “CDI + Y%”, “Z% a.a.”). Evite comparar sem padronizar.
Passo 5 — Faça a comparação líquida. Se for CDB, aplique a alíquota de IR estimada para o prazo. Se for LCI/LCA, lembre que (na regra geral) é isento para pessoa física. Compare em termos líquidos.
Passo 6 — Cheque a forma de pagamento. Se houver cupons, avalie se você quer renda periódica e se terá disciplina para reinvestir.
Passo 7 — Decida o tamanho da posição e diversifique por emissor. Ajuste o valor para ficar dentro de limites de garantia e para não travar dinheiro que você pode precisar.
6) Risco do emissor: como avaliar sem complicar
Mesmo com FGC, o emissor importa. Um emissor mais frágil pode oferecer taxas maiores para captar recursos, mas isso pode vir com maior chance de evento de crédito (e, portanto, maior chance de você depender do FGC e enfrentar indisponibilidade temporária do capital).
Indicadores práticos para o investidor
- Reputação e porte: instituições maiores tendem a captar com taxas menores; instituições menores podem pagar mais.
- Ratings (quando disponíveis): classificações de risco ajudam, mas não são garantia. Use como sinal adicional, não como única base.
- Concentração: evite colocar grande parte do patrimônio em um único emissor só porque a taxa é alta.
7) Prazos, indexadores e “pegadinhas” de taxa: pontos de atenção específicos
Sem repetir discussões gerais sobre indexadores, aqui vão pontos específicos de CDB/LCI/LCA que costumam confundir.
% do CDI não é tudo: observe o “prazo efetivo”
- Carência longa com taxa alta: pode ser bom se você realmente pode ficar até o vencimento, mas ruim se houver chance de precisar do dinheiro.
- Liquidez após carência: às vezes a taxa é menor porque o banco está oferecendo flexibilidade. Compare com produtos de mesma flexibilidade.
CDB com liquidez diária: atenção ao “rendimento real” do período
Alguns CDBs de liquidez diária têm taxa menor (ex.: 90% do CDI). Eles podem ser úteis para reserva operacional, mas não devem ser comparados com LCI/LCA travadas como se fossem equivalentes. O que você está comprando ali é flexibilidade e previsibilidade de acesso.
LCI/LCA: carência mínima e disponibilidade
LCI/LCA frequentemente têm carência mínima regulatória/contratual e podem não estar sempre disponíveis com boas taxas. Em alguns momentos, os bancos reduzem a oferta ou pioram a remuneração. Isso significa que você pode precisar de alternativas (inclusive CDB) para manter a estratégia.
8) Como montar uma “régua” de vencimentos com CDB/LCI/LCA (aplicação prática)
Uma forma prática de usar esses títulos é distribuir vencimentos ao longo do tempo para reduzir o risco de reinvestir tudo em um único dia e para criar entradas de caixa programadas.
Passo a passo prático: criando uma régua simples
Passo 1 — Defina quantas “fatias” você quer. Exemplo: 4 fatias (vencimentos em 6, 12, 18 e 24 meses).
Passo 2 — Escolha o tipo de papel para cada fatia. Exemplo: usar LCI/LCA nas fatias em que você aceita carência e usar CDB com possibilidade de resgate nas fatias mais próximas, se precisar de flexibilidade.
Passo 3 — Diversifique emissores. Distribua as fatias entre 2 a 4 instituições, respeitando limites de garantia e evitando concentração.
Passo 4 — Padronize a comparação líquida. Para cada fatia, compare CDB (líquido de IR) vs LCI/LCA (isenta) e escolha a melhor relação entre taxa e regras de resgate.
Passo 5 — Reinvista no vencimento. Quando uma fatia vencer, reinvista no “final da régua” (por exemplo, sempre em 24 meses), mantendo o escalonamento.
9) Documentos e informações que você deve guardar
Para evitar confusão futura (principalmente se você tiver vários títulos), mantenha um registro simples com os dados essenciais de cada aplicação.
Modelo de controle (exemplo)
Produto: CDB / LCI / LCA | Emissor: ________ | Data: __/__/__ | Vencimento: __/__/__ | Carência: até __/__/__ | Taxa: ____ | Pagamento: no vencimento / cupons | FGC: sim/não | Observações: ________Esse controle ajuda a não perder prazos, a planejar reinvestimentos e a evitar concentração acima do desejado em um mesmo emissor.
10) Erros comuns e como evitar
Erro 1: escolher só pela maior taxa
Taxas maiores podem vir com emissor mais arriscado, carência mais longa ou regras de resgate mais restritivas. Compare sempre taxa + regras + emissor + garantia.
Erro 2: ignorar o impacto do imposto na comparação
Para pessoa física, LCI/LCA isentas podem vencer CDBs com percentuais maiores do CDI. Sempre faça a conta líquida.
Erro 3: concentrar tudo em um único banco
Mesmo com FGC, concentração pode ultrapassar limites e aumentar o risco operacional (ficar sem acesso ao dinheiro durante um evento de crédito). Distribua por emissores.
Erro 4: não ler carência e condições de resgate
LCI/LCA frequentemente travam o dinheiro por um período. CDB pode ter regras específicas de resgate. Leia e registre antes de aplicar.
Erro 5: esquecer que cupons exigem reinvestimento
Se você recebe juros periódicos, precisa decidir o que fazer com eles. Se gastar, o patrimônio cresce menos; se reinvestir, precisa escolher um novo produto e aceitar a taxa do momento.