Em redações de concurso, “tese” não é sinônimo de tema, nem de opinião genérica. Tese é a resposta direta, controlável e defensável à pergunta implícita do enunciado. Ela funciona como o “norte” do texto: define o que você vai provar e, principalmente, o que você não vai tentar provar. Já a “linha argumentativa” é o caminho lógico que liga essa tese aos parágrafos de desenvolvimento, organizando causas, consequências, mecanismos, responsabilidades, exemplos e soluções de modo coerente.
Quando a tese é clara e a linha argumentativa é estável, o corretor percebe domínio: o texto não “passeia” por ideias soltas, não repete o enunciado e não muda de direção no meio. O leitor entende rapidamente qual é sua posição e por que seus argumentos foram escolhidos.
1) O que é uma tese clara (e o que não é)
1.1 Tese: uma frase que responde ao problema
Uma tese clara costuma caber em 1 ou 2 períodos e precisa conter três elementos: (1) o objeto (sobre o que você fala), (2) o recorte (qual aspecto do objeto você vai tratar) e (3) a direção avaliativa (qual é seu posicionamento/diagnóstico).
Exemplo de tese clara (modelo): “A baixa efetividade de políticas de saneamento em áreas periféricas decorre da descontinuidade administrativa e da fragilidade de fiscalização, o que perpetua desigualdades em saúde e qualidade de vida.”
- Objeto: políticas de saneamento em áreas periféricas
- Recorte: efetividade baixa
- Direção avaliativa: decorre de descontinuidade e fragilidade de fiscalização; consequência: perpetua desigualdades
1.2 O que não é tese
Algumas formulações parecem tese, mas não cumprem o papel de orientar o texto:
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- Definição de dicionário: “Saneamento é um conjunto de medidas...” (isso explica o tema, não responde ao problema).
- Obviedade sem recorte: “O saneamento é importante para a sociedade.” (genérico; qualquer texto caberia aqui).
- Lista de tópicos sem relação: “Há causas históricas, econômicas e sociais.” (não diz quais, nem como se conectam).
- Tese “dupla” contraditória: “Embora seja importante, não é tão importante assim.” (gera instabilidade).
- Promessa vaga: “Neste texto, discutirei os impactos.” (metalinguagem que não posiciona).
2) Linha argumentativa: o trilho que impede o texto de descarrilar
Linha argumentativa é a sequência de ideias que sustenta sua tese. Ela define a ordem e a função de cada parágrafo: o que entra no D1, o que entra no D2, como você conecta e como você evita repetição.
Uma boa linha argumentativa tem:
- Progressão: cada parágrafo acrescenta algo novo, não reescreve o anterior.
- Coerência interna: os argumentos não se anulam.
- Hierarquia: há um argumento mais estrutural (macro) e outro mais operacional (micro), ou uma relação clara de causa e efeito.
- Relação explícita com a tese: cada tópico responde “como isso prova minha tese?”
2.1 Linha argumentativa não é “dois argumentos quaisquer”
Em concursos, é comum o candidato escolher dois argumentos que até são bons, mas não conversam entre si. Exemplo: D1 fala de “falta de investimento” e D2 fala de “uso excessivo de redes sociais”. Mesmo que ambos sejam problemas sociais, podem não sustentar a mesma tese se a tese for sobre “descontinuidade administrativa e fiscalização”.
O critério é: os argumentos devem ser braços da mesma tese. Se você precisa mudar a tese para encaixar o argumento, o problema está na seleção.
3) Como construir uma tese clara: método prático em 6 passos
O objetivo aqui é transformar uma ideia geral em uma frase controlável e defendível, sem depender de introduções longas.
Passo 1 — Reescreva o problema em forma de pergunta
Todo tema traz uma tensão: um desafio, um impasse, um déficit, um conflito. Transforme isso em pergunta para forçar uma resposta.
- Exemplo: “Quais fatores explicam a baixa adesão à vacinação em determinados grupos?”
- Exemplo: “Por que a mobilidade urbana permanece ineficiente nas grandes cidades?”
Passo 2 — Escolha um verbo de tese
Verbos ajudam a dar direção e evitam tese “parada”. Use verbos como: decorre de, é agravado por, é sustentado por, resulta de, se explica por, é intensificado por, é mitigado quando.
Exemplo: “A baixa adesão à vacinação decorre de...”
Passo 3 — Defina 2 eixos de sustentação (A e B)
Para a maioria das propostas de concurso, dois eixos bem escolhidos dão conta do desenvolvimento. Eles precisam ser distintos e complementares.
- Eixo A (estrutural): Estado/políticas públicas/gestão/fiscalização/infraestrutura
- Eixo B (sociocultural): cultura, desinformação, confiança institucional, hábitos, desigualdades
Exemplo: A = desinformação e baixa confiança; B = falhas de comunicação pública e acesso.
Passo 4 — Acrescente o efeito (consequência) mais relevante
Uma tese forte costuma indicar o impacto principal, porque isso aumenta a “pressão” argumentativa e dá sentido social ao texto.
Exemplo: “...o que compromete a imunidade coletiva e eleva a vulnerabilidade de grupos de risco.”
Passo 5 — Verifique se a tese é “provável” dentro do espaço
Pergunte: consigo provar isso em dois parágrafos, com lógica e exemplos, sem inventar dados? Se a tese exigir estatísticas específicas, nomes de leis muito particulares ou uma cadeia causal longa demais, simplifique.
Passo 6 — Escreva a tese em 1–2 períodos, sem rodeios
Modelo final (encaixe):
Tema-problema + verbo de tese + eixo A + eixo B + consequência principal.Exemplo completo: “A baixa adesão à vacinação em determinados grupos decorre da circulação de desinformação e da baixa confiança em instituições, somadas a falhas de comunicação pública e barreiras de acesso, o que compromete a imunidade coletiva e amplia riscos sanitários.”
4) Como desenhar a linha argumentativa: do “A e B” ao D1 e D2
Depois de definir os eixos A e B, você precisa transformá-los em parágrafos com função clara. Um bom desenvolvimento não é apenas “falar sobre A” e “falar sobre B”; é mostrar mecanismo, causa, consequência intermediária e amarração com a tese.
4.1 Estrutura funcional de um parágrafo argumentativo
Um parágrafo de desenvolvimento eficiente costuma seguir esta sequência:
- Tópico frasal: apresenta o argumento e conecta com a tese.
- Explicação do mecanismo: como esse fator produz o problema.
- Exemplificação: caso típico, referência sociológica, situação cotidiana plausível (sem depender de dados exatos).
- Fechamento: retoma a tese e prepara o próximo parágrafo.
Modelo de esqueleto:
Em primeiro lugar, [argumento A], pois [mecanismo]. Isso se evidencia quando [exemplo]. Assim, [fechamento conectando à tese].4.2 Transformando eixos em linha (ordem estratégica)
A ordem dos parágrafos muda o efeito do texto. Três ordens comuns:
- Do estrutural ao cultural: primeiro o que é macro (política/gestão), depois o que é micro (comportamento/confiança).
- Da causa à consequência: primeiro o fator que gera, depois o fator que mantém/agrava.
- Do mais concreto ao mais abstrato: primeiro acesso/infraestrutura, depois valores e cultura.
Escolha a ordem que deixa a progressão mais natural. Evite colocar dois parágrafos com a mesma “natureza” (ex.: dois parágrafos apenas sobre “falta de investimento” com palavras diferentes).
5) Exemplos práticos: tese + linha argumentativa (com mapa de D1 e D2)
Exemplo 1 — Tema: desinformação e saúde pública
Tese: “A persistência da desinformação em saúde pública decorre da baixa educação midiática e da comunicação institucional pouco transparente, o que reduz a adesão a medidas preventivas e amplia riscos coletivos.”
Linha argumentativa:
- D1 (educação midiática): explicar como a dificuldade de checar fontes e reconhecer manipulações facilita boatos; exemplo: correntes, vídeos editados, “especialistas” falsos; fechamento: isso sustenta a desinformação.
- D2 (comunicação institucional): mostrar como mensagens contraditórias, linguagem técnica e falta de prestação de contas geram desconfiança; exemplo: mudanças sem explicação, ruídos entre órgãos; fechamento: desconfiança aumenta a receptividade a boatos.
Exemplo 2 — Tema: mobilidade urbana
Tese: “A ineficiência da mobilidade urbana nas metrópoles resulta da priorização histórica do transporte individual e da baixa integração entre modais, o que intensifica congestionamentos e desigualdades no acesso à cidade.”
Linha argumentativa:
- D1 (priorização do transporte individual): mecanismo: investimentos e desenho urbano favorecem carros; consequência: saturação viária; exemplo: expansão de vias sem transporte coletivo proporcional.
- D2 (integração entre modais): mecanismo: falta de conexão tarifária e física; consequência: viagens mais longas e caras; exemplo: terminais distantes, horários incompatíveis, ausência de ciclovias conectadas.
Exemplo 3 — Tema: evasão escolar
Tese: “A evasão escolar no ensino médio é impulsionada pela necessidade de inserção precoce no trabalho e pela baixa atratividade pedagógica, o que compromete a formação cidadã e perpetua desigualdades.”
Linha argumentativa:
- D1 (trabalho precoce): mecanismo: renda familiar insuficiente; aluno prioriza trabalho; exemplo: jornadas informais e cansaço; fechamento: abandono como estratégia de sobrevivência.
- D2 (atratividade pedagógica): mecanismo: currículo desconectado da realidade e pouca orientação; exemplo: aulas expositivas sem projeto de vida; fechamento: desengajamento reforça evasão.
6) Erros comuns que enfraquecem tese e linha argumentativa (e como corrigir)
6.1 Tese “elástica” (cabe tudo)
Problema: “A violência tem várias causas e precisa ser combatida.”
Correção: delimite dois eixos e uma consequência: “A violência urbana é agravada pela fragilidade de políticas preventivas e pela desigualdade territorial, o que amplia a sensação de insegurança e a letalidade.”
6.2 Tese com muitos eixos (vira lista)
Problema: “Isso ocorre por fatores econômicos, políticos, sociais, culturais, históricos e tecnológicos...”
Correção: reduza a dois eixos e aprofunde: escolha os dois mais “explicativos” e que permitam mecanismo + exemplo.
6.3 Linha argumentativa repetitiva
Problema: D1 fala “falta de investimento”; D2 fala “pouco dinheiro”.
Correção: transforme o segundo em outro ângulo: se D1 é “investimento”, D2 pode ser “gestão/fiscalização”, “cultura institucional”, “desigualdade de acesso”, “desinformação”, conforme a tese.
6.4 Mudança de tese no meio do texto
Problema: introdução diz que o problema é “desinformação”; desenvolvimento passa a tratar “falta de hospitais”.
Correção: antes de escrever D1, pergunte: “isso prova minha tese?” Se não provar, ou você troca o argumento, ou reescreve a tese para refletir o caminho real (o ideal é ajustar antes de começar o desenvolvimento).
6.5 Argumento sem mecanismo
Problema: “A educação é importante.”
Correção: explique o “como”: “A baixa educação midiática dificulta a verificação de fontes, permitindo que conteúdos manipulados sejam aceitos como verdade, o que...”
7) Passo a passo para escrever a introdução com tese e prévia da linha
Sem alongar demais a introdução, você precisa cumprir duas funções: apresentar o problema e fixar a tese com os eixos que serão desenvolvidos. Um roteiro prático:
Passo 1 — Contextualização objetiva (1–2 frases)
Apresente o cenário sem “volta histórica” e sem generalidades vazias. Foque no problema atual.
Exemplo: “Em sociedades hiperconectadas, informações sobre saúde circulam em alta velocidade, nem sempre acompanhadas de verificação.”
Passo 2 — Apresente a tese (1–2 frases)
Insira o verbo de tese e os dois eixos.
Exemplo: “Nesse contexto, a persistência da desinformação em saúde pública decorre da baixa educação midiática e da comunicação institucional pouco transparente, o que reduz a adesão a medidas preventivas e amplia riscos coletivos.”
Passo 3 — Antecipe a linha argumentativa (1 frase)
Você pode “nomear” os eixos com paralelismo para facilitar a leitura.
Exemplo: “Assim, é necessário analisar, de um lado, a fragilidade na formação crítica do cidadão e, de outro, falhas na estratégia comunicacional de órgãos públicos.”
Observe que essa antecipação não deve virar lista longa; ela serve para sinalizar o mapa do texto.
8) Ferramentas de linguagem para deixar a tese mais precisa
8.1 Palavras que delimitam (sem empobrecer)
Use delimitadores para evitar absolutismos fáceis de derrubar:
- Em parte, em muitos casos, tende a, frequentemente, sobretudo, principalmente.
Exemplo: “A evasão escolar tende a ser impulsionada...” (mais defensável do que “é sempre causada”).
8.2 Paralelismo para apresentar eixos
Quando você apresenta A e B com estruturas parecidas, o leitor entende melhor a linha.
Exemplo: “...decorre tanto da desinformação quanto da desconfiança institucional.”
8.3 Conectores que reforçam progressão
Escolha conectores que indiquem função:
- Ordem: “Em primeiro lugar”, “Além disso”
- Explicação: “pois”, “uma vez que”
- Consequência: “logo”, “assim”, “desse modo”
- Ênfase/recorte: “sobretudo”, “especialmente”
Evite repetir o mesmo conector em todos os parágrafos; varie sem perder clareza.
9) Exercícios guiados (para treinar tese e linha argumentativa)
Exercício 1 — Transformar tema em tese com dois eixos
Escolha um tema típico (ex.: “violência contra a mulher”, “desigualdade digital”, “crise hídrica”). Escreva:
- 1 pergunta-problema
- 1 tese com verbo (“decorre de”, “resulta de”)
- 2 eixos (A e B)
- 1 consequência principal
Modelo de resposta (esqueleto):
Pergunta: Por que [problema] persiste em [contexto]?Tese: [problema] decorre de [A] e [B], o que [consequência].Exercício 2 — Mapear D1 e D2 antes de escrever
Para a tese criada, preencha este mapa:
D1 (A): tópico frasal + mecanismo + exemplo + fechamento (1 frase cada).D2 (B): tópico frasal + mecanismo + exemplo + fechamento (1 frase cada).Se você não conseguir escrever o “mecanismo” em uma frase clara, o eixo está vago e precisa ser refinado.
Exercício 3 — Teste de consistência (checagem rápida)
- Teste 1: Se eu apagar D2, a tese ainda faz sentido? (Se não, talvez a tese dependa demais de um eixo mal definido.)
- Teste 2: D1 e D2 respondem à mesma pergunta-problema? (Se não, há fuga de tema.)
- Teste 3: Cada parágrafo tem uma ideia central que cabe em 10 palavras? (Se não, está difuso.)
10) Modelos prontos (para adaptar) de tese + linha argumentativa
Modelo A — Problema social com dois eixos clássicos
Tese: A persistência de [problema] decorre de [falha estrutural/estatal] e de [fator sociocultural], o que [consequência social].- D1: falha estrutural/estatal (política pública, fiscalização, acesso, gestão)
- D2: fator sociocultural (desinformação, cultura, desigualdade simbólica, confiança)
Modelo B — Problema com eixo “incentivos” e eixo “implementação”
Tese: A baixa efetividade de [política/medida] se explica por incentivos inadequados e por falhas de implementação, o que [efeito].- D1: incentivos (regras, prioridades, orçamento, interesses)
- D2: implementação (capacidade técnica, monitoramento, continuidade)
Modelo C — Problema com eixo “acesso” e eixo “qualidade”
Tese: A desigualdade em [serviço] é mantida por barreiras de acesso e por baixa qualidade na oferta, o que [efeito].- D1: acesso (território, renda, infraestrutura)
- D2: qualidade (formação, gestão, avaliação, recursos)