A introdução em redações de concurso precisa cumprir uma função específica: colocar o leitor dentro do tema e do recorte do problema, com objetividade, sem “encher linguiça” e sem gastar linhas com generalidades. Quando a introdução é produtiva, ela prepara o terreno para o desenvolvimento, porque já indica o ângulo de abordagem e cria um caminho lógico para os argumentos que virão.
Este capítulo foca na parte inicial do texto: como contextualizar de modo útil, isto é, com informação que realmente ajuda a entender o problema e que se conecta ao que será defendido ao longo da redação. A ideia é transformar a introdução em um bloco funcional, que entrega densidade sem perder clareza.
O que é uma introdução objetiva com contextualização produtiva
Introdução objetiva é aquela que, em poucas linhas, apresenta o tema e o problema de forma direta, com linguagem clara, sem rodeios e sem frases vazias. Contextualização produtiva é a contextualização que acrescenta algo relevante: um dado, uma referência social, uma relação de causa e efeito, uma delimitação temporal ou institucional, um conceito-chave. Em outras palavras, é a contextualização que “trabalha” para o texto, em vez de apenas ocupar espaço.
Uma contextualização improdutiva costuma ter três marcas: (1) é genérica demais (“Desde os primórdios...”, “A sociedade atual...”), (2) não se conecta ao recorte do problema (fala do tema em abstrato, mas não do conflito específico), e (3) não cria ponte para o desenvolvimento (não deixa pistas do que será discutido).
Já a contextualização produtiva tem três características: (1) é específica o suficiente para orientar o leitor, (2) aponta o problema com algum grau de precisão, e (3) abre caminho para os argumentos (sem precisar listar tudo, mas sinalizando direção).
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Objetividade não é superficialidade
Ser objetivo não significa escrever pouco; significa escrever apenas o que tem função. Uma introdução pode ter 4 a 7 linhas (dependendo do padrão exigido), e ainda assim ser densa, desde que cada frase cumpra um papel: situar, delimitar, problematizar e preparar a defesa.
Funções da introdução: o que ela precisa entregar
Para evitar introduções “bonitas” porém inúteis, pense na introdução como um conjunto de entregas. Em geral, ela precisa cumprir quatro funções:
- Situar o tema: mostrar ao leitor de que assunto se trata, sem repetir literalmente o enunciado.
- Contextualizar com produtividade: trazer um elemento que ajude a compreender o cenário do problema (conceito, dado, marco institucional, tendência social, contraste).
- Problematizar: indicar onde está o conflito, a tensão, a falha, o desafio, a contradição.
- Preparar o desenvolvimento: deixar claro qual será o foco do texto, para que os parágrafos seguintes pareçam uma continuação natural.
Quando uma introdução falha, geralmente é porque ela entrega apenas a primeira função (situar o tema) e ignora as demais, ou porque tenta contextualizar com frases genéricas que não ajudam a problematizar.
O que é “contextualizar” na prática (sem virar enrolação)
Contextualizar não é “falar bonito” nem “fazer filosofia”. Contextualizar é fornecer um enquadramento que torna o problema mais inteligível. Esse enquadramento pode ser feito por diferentes caminhos, e você deve escolher o que melhor conversa com o tema e com o recorte.
Tipos de contextualização produtiva
- Contextualização por dado ou tendência: menciona um dado geral (sem precisar inventar números) ou uma tendência observável. Exemplo: “o aumento de golpes digitais”, “a expansão do trabalho por aplicativos”, “a intensificação de eventos climáticos extremos”.
- Contextualização por marco institucional: cita um elemento do funcionamento do Estado ou da sociedade (Constituição, políticas públicas, sistema educacional, SUS, legislação, órgãos). Exemplo: “o direito à educação previsto constitucionalmente”, “a lógica preventiva do SUS”, “a função regulatória do Estado”.
- Contextualização por conceito: define rapidamente um conceito útil para o debate. Exemplo: “cidadania digital”, “desigualdade estrutural”, “cultura de consumo”.
- Contextualização por contraste: apresenta uma oposição que já aponta o problema. Exemplo: “avanço tecnológico versus exclusão digital”, “crescimento econômico versus precarização”.
- Contextualização por recorte temporal e social: delimita o momento e o grupo afetado. Exemplo: “no cenário pós-pandemia”, “entre jovens periféricos”, “no contexto urbano”.
O erro comum é tentar usar todos os tipos ao mesmo tempo, criando uma introdução carregada, com muitas informações desconectadas. O ideal é escolher um eixo principal e, no máximo, um complemento.
Estruturas prontas (modelos) para introdução objetiva
Modelos não são “textos decorados”; são moldes de raciocínio. A seguir, estruturas que ajudam a manter objetividade e produtividade. Você pode adaptar o vocabulário e o nível de formalidade ao seu concurso.
Modelo 1: Contexto (1 frase) + Problema (1 frase) + Direção do texto (1 frase)
Funciona bem quando o tema é direto e você quer uma introdução limpa.
Nos últimos anos, [contexto específico do tema]. Entretanto, [apresentação do problema/contradição]. Nesse sentido, é necessário discutir [foco do texto], a fim de compreender [efeito/impacto] e apontar caminhos de enfrentamento.Modelo 2: Conceito (definição curta) + Aplicação ao tema + Problematização
Bom para temas abstratos (cidadania, ética, democracia, direitos).
[Conceito] pode ser entendido como [definição objetiva]. No contexto de [tema], esse princípio se torna central, pois [ligação com a realidade]. Contudo, [problema], o que evidencia a necessidade de [direção do debate].Modelo 3: Contraste produtivo + Recorte do problema + Direção
Útil quando há uma tensão clara (avanço x exclusão; direito x prática; lei x realidade).
Embora [aspecto positivo/avanço], ainda persiste [aspecto negativo/problema]. Tal contraste se evidencia em [recorte], uma vez que [explicação curta]. Assim, torna-se pertinente analisar [foco do texto].Modelo 4: Marco institucional + Falha de efetivação + Direção
Indicado para temas de políticas públicas e direitos sociais.
À luz de [marco institucional/ideia de direito], espera-se que [ideal]. No entanto, em [tema/recorte], observa-se [falha], o que compromete [impacto]. Desse modo, é fundamental discutir [direção do texto].Perceba que todos os modelos têm algo em comum: cada frase tem função. Não há “frase de aquecimento”.
Passo a passo prático para construir a introdução
O objetivo aqui é ter um procedimento repetível, que você consiga aplicar sob tempo de prova. O passo a passo abaixo foca na escrita da introdução em si, sem retomar etapas anteriores do processo.
Passo 1: Escreva o tema em uma frase sua (paráfrase funcional)
Antes de contextualizar, garanta que você consegue dizer o tema com suas palavras, de forma neutra e direta. Isso evita copiar o enunciado e ajuda a manter controle do assunto.
Exemplo (tema hipotético): “Desafios para combater a desinformação nas redes sociais.”
Paráfrase funcional: “A circulação de conteúdos falsos em redes sociais tem se consolidado como um obstáculo para a formação de opinião e para decisões coletivas.”
Note que a frase já contextualiza minimamente, mas ainda falta delimitar o problema e preparar o desenvolvimento.
Passo 2: Escolha um tipo de contextualização produtiva (apenas um eixo)
Escolha entre dado/tendência, marco institucional, conceito, contraste ou recorte temporal-social. Pergunta-guia: qual enquadramento ajuda mais a entender o problema em poucas palavras?
Exemplo (desinformação): contextualização por tendência: “a popularização do consumo de notícias por vídeos curtos e mensagens encaminhadas”.
Passo 3: Conecte a contextualização ao problema com um conector de contraste ou consequência
O ponto crítico é a ponte. Contextualização produtiva não fica “solta”; ela desemboca no problema. Use conectores que indiquem virada: “entretanto”, “contudo”, “todavia”, “não obstante”, ou conectores de consequência: “assim”, “desse modo”, “por isso”.
Exemplo: “Com a aceleração do consumo de informação em ambientes digitais, ampliou-se o alcance de conteúdos não verificados; contudo, a ausência de checagem e a lógica de engajamento intensificam a desinformação.”
Passo 4: Delimite o problema com precisão (evite “problemas diversos”)
Em vez de dizer “isso gera vários problemas”, nomeie 1 ou 2 efeitos centrais. Delimitar não é reduzir demais; é escolher o que será realmente discutido.
Exemplo: “...intensificam a desinformação, fragilizando o debate público e favorecendo decisões sociais baseadas em boatos.”
Passo 5: Escreva uma frase de direção (o que o texto vai enfrentar)
Essa frase não precisa listar argumentos, mas deve indicar o foco: causas, agentes, dimensões do problema, ou eixos de análise. Evite prometer “soluções” na introdução se o seu modelo de redação reserva isso para outra parte; aqui, basta sinalizar o que será discutido.
Exemplo: “Diante disso, torna-se necessário analisar os fatores que sustentam a disseminação de notícias falsas e os limites das respostas institucionais e educativas no ambiente digital.”
Passo 6: Revise com a régua da produtividade (teste de função)
Faça três perguntas rápidas:
- Se eu apagar esta frase, o texto perde algo essencial? Se não perder, a frase é candidata a corte.
- Há alguma palavra que não acrescenta sentido? Corte intensificadores vazios (“muito”, “extremamente”, “cada vez mais” sem base).
- O leitor entende o problema e o foco do texto sem ler o desenvolvimento? Se não, falta delimitação ou direção.
Exemplos comentados: do genérico ao produtivo
Ver exemplos ajuda a identificar “enrolação” na prática. A seguir, pares de introduções: uma versão genérica e uma versão produtiva, sobre temas comuns em concursos.
Exemplo 1: Saúde mental no trabalho
Versão genérica (improdutiva):
Desde os primórdios, o trabalho faz parte da vida humana. Na sociedade atual, muitos desafios surgem e é preciso discutir esse assunto. Dessa forma, é importante refletir sobre a saúde mental no trabalho.Problemas: “desde os primórdios” não ajuda; “muitos desafios” é vago; não há recorte nem problema definido.
Versão produtiva (objetiva):
Em um cenário de metas agressivas e conectividade permanente, o ambiente de trabalho tem ampliado fatores de estresse e exaustão. Contudo, a naturalização do adoecimento psíquico e a baixa efetividade de medidas preventivas dificultam a proteção do trabalhador. Nesse contexto, é pertinente discutir como a cultura organizacional e a atuação institucional influenciam a saúde mental no trabalho.Por que funciona: contextualiza com elementos concretos (metas, conectividade), aponta problema (naturalização e baixa prevenção) e indica direção (cultura organizacional e atuação institucional).
Exemplo 2: Violência contra a mulher
Versão genérica (improdutiva):
A violência é um problema que existe no Brasil e no mundo. Muitas mulheres sofrem diariamente e isso é triste. Portanto, é necessário falar sobre a violência contra a mulher.Problemas: afirmações óbvias, linguagem emocional sem função (“isso é triste”), ausência de recorte e de ponte para o desenvolvimento.
Versão produtiva (objetiva):
A persistência da violência contra a mulher revela limites na proteção de direitos e na prevenção de agressões em diferentes contextos sociais. Embora existam mecanismos legais e redes de atendimento, a subnotificação e a dificuldade de acesso a serviços especializados mantêm o problema invisibilizado em muitas regiões. Assim, torna-se necessário analisar entraves culturais e institucionais que sustentam esse quadro.Por que funciona: usa marco institucional sem detalhar demais, delimita o problema (subnotificação e acesso) e aponta eixos (cultural e institucional).
Exemplo 3: Educação e desigualdade
Versão genérica (improdutiva):
A educação é muito importante para o futuro do país. Sem educação não há desenvolvimento. Por isso, é preciso melhorar a educação e combater a desigualdade.Problemas: frases prontas, sem contexto, sem problema específico, sem direção analítica.
Versão produtiva (objetiva):
A escola é um dos principais espaços de redução de desigualdades, mas sua capacidade de promover mobilidade social depende de condições concretas de aprendizagem. No Brasil, a disparidade de infraestrutura, acesso a recursos pedagógicos e continuidade escolar aprofunda diferenças de desempenho entre grupos sociais. Desse modo, é relevante discutir como fatores socioeconômicos e falhas de gestão educacional dificultam a equidade.Por que funciona: contextualiza por conceito aplicado (escola e mobilidade), delimita fatores concretos e indica direção (socioeconômico e gestão).
Checklist de objetividade: o que cortar e o que manter
Em prova, a introdução costuma ser o lugar onde mais se perde linha com frases que não rendem ponto. Use este checklist para enxugar.
Frases que geralmente não valem a linha (candidatas a corte)
- “Desde os primórdios da humanidade...”
- “A sociedade atual vive grandes mudanças...” (sem especificar quais)
- “Esse tema é muito importante e deve ser discutido...”
- “É triste ver que...”
- “Há muitos problemas e muitas causas...”
Elementos que geralmente aumentam a produtividade
- Um recorte claro (grupo, espaço, tempo, instituição).
- Um contraste bem formulado (ideal x realidade; avanço x exclusão).
- Um conceito definido em uma linha (sem verborragia).
- Um efeito do problema (impacto social, institucional, individual).
- Uma direção explícita (o que será analisado).
Como inserir repertório sem “encher” a introdução
Repertório pode fortalecer a contextualização, mas só é produtivo se cumprir duas condições: (1) ser pertinente ao recorte e (2) ser integrado ao raciocínio. O erro comum é citar algo apenas para “parecer culto”, sem conexão com o problema.
Repertório em uma linha: regra de integração
Se você usar uma referência (lei, conceito, autor, evento, documento), faça-a trabalhar para o argumento. Uma forma simples é usar a estrutura: referência + ideia central + ligação com o problema.
À luz de [referência], que estabelece/defende [ideia], observa-se que [problema no tema], o que evidencia [consequência].Exemplo (tema: acesso à informação):
À luz do princípio da publicidade na administração pública, que orienta a transparência dos atos estatais, a dificuldade de acesso a dados claros e utilizáveis compromete o controle social e favorece a desconfiança institucional.Note que não há “a Constituição diz...” de forma vaga; há uma ideia aplicada ao problema.
Evite “catálogo de referências”
Não empilhe duas ou três referências na introdução. Uma referência bem integrada vale mais do que várias soltas. Se você sentir vontade de citar mais de uma, escolha a mais direta e guarde as outras para o desenvolvimento.
Microtécnicas de linguagem para ganhar clareza e coesão na introdução
1) Prefira sujeitos concretos
Em vez de “isso acontece”, diga quem faz ou o que ocorre: “plataformas digitais”, “gestores públicos”, “empresas”, “comunidades escolares”, “serviços de saúde”.
Exemplo: “Isso prejudica a população” pode virar “A falta de atendimento especializado prejudica mulheres em situação de risco”.
2) Use verbos de ação e relação
Verbos como “evidencia”, “intensifica”, “fragiliza”, “dificulta”, “amplia”, “limita”, “compromete” ajudam a mostrar relações de causa e efeito, deixando a introdução mais analítica.
3) Controle o tamanho das frases
Frases longas demais aumentam o risco de perder o fio e de gerar ambiguidade. Uma boa prática é alternar uma frase mais informativa com outra mais direta, mantendo conectores claros.
4) Evite adjetivação vazia
Palavras como “grave”, “alarmante”, “absurdo” podem aparecer, mas não substituem explicação. Se usar um adjetivo, sustente com um elemento concreto na mesma frase ou na seguinte.
5) Use conectores com intenção
Conectores não são enfeite; eles mostram a lógica. Tenha um objetivo por frase:
- Contexto: “no cenário”, “diante de”, “com a expansão de”.
- Contraste: “entretanto”, “contudo”, “todavia”.
- Consequência: “assim”, “desse modo”, “por isso”.
- Foco: “nesse sentido”, “sob essa ótica”.
Exercício guiado: montar uma introdução em 6 linhas
Use este exercício para treinar em casa e ganhar velocidade. Escolha um tema e preencha os campos. Depois, una tudo com conectores.
Roteiro preenchível
- Linha 1 (contexto específico): “Com [tendência/mudança], [tema] tem se manifestado em [espaço social].”
- Linha 2 (complemento do contexto ou conceito): “Nesse cenário, [conceito curto] refere-se a [definição em 1 oração].”
- Linha 3 (virada para o problema): “Entretanto, [falha/entrave] dificulta [efeito].”
- Linha 4 (delimitação do problema): “Isso se evidencia quando [recorte], pois [mecanismo].”
- Linha 5 (impacto): “Como resultado, [consequência social/institucional].”
- Linha 6 (direção): “Logo, é necessário analisar [eixo 1] e [eixo 2] envolvidos na questão.”
Exemplo aplicado (tema hipotético: desafios da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho):
Com a ampliação do debate sobre diversidade, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho ganhou maior visibilidade no país. Nesse cenário, inclusão profissional diz respeito à oferta de condições reais de acesso, permanência e desenvolvimento na carreira. Entretanto, barreiras arquitetônicas e atitudes discriminatórias ainda dificultam a participação plena desse grupo. Isso se evidencia quando empresas cumprem formalmente exigências, mas não adaptam processos e ambientes de trabalho. Como resultado, perpetuam-se desigualdades e limita-se a autonomia econômica de milhares de cidadãos. Logo, é necessário analisar entraves culturais e falhas de implementação de medidas de acessibilidade no âmbito laboral.Observe como cada frase tem função: contexto, conceito, problema, evidência, impacto e direção. Não há frase “para encher”.