Tempo como custo na impressão 3D: máquina, operador e pós-processamento

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que separar tempo de máquina e tempo de mão de obra

Na impressão 3D, “tempo” vira dinheiro de duas formas diferentes: (1) horas em que a impressora fica ocupada (capacidade produtiva travada) e (2) horas de trabalho humano (atividades antes, durante e depois da impressão). Misturar esses tempos em uma única taxa costuma gerar dois erros comuns: cobrar pouco quando o pós-processamento é pesado (muita mão de obra) ou cobrar pouco quando a máquina fica muitas horas imprimindo com pouca intervenção humana (muita ocupação de equipamento).

Para precificar com consistência, trate como dois centros de custo: taxa/hora de máquina e taxa/hora de operador. Some também um setup mínimo por job (um “pedágio” de tempo humano) para evitar que peças pequenas ou pedidos unitários fiquem subprecificados.

Definições práticas

  • Horas de máquina: tempo em que a impressora está ocupada imprimindo (inclui aquecimento, impressão e, se você não consegue usar a impressora durante isso, tempos de espera relevantes como resfriamento na mesa quando necessário para remoção segura).
  • Horas de mão de obra: tempo humano efetivo (preparo de arquivo e fatiamento, preparação da mesa, troca de filamento, start/monitoramento pontual, remoção, limpeza, cura, acabamento, montagem, embalagem e registro/controle).
  • Setup mínimo por job: um tempo de mão de obra cobrado sempre que um pedido entra, mesmo que a peça seja pequena. Ex.: 15–30 minutos para preparar, iniciar e finalizar o job.

Como criar duas taxas/hora (máquina e operador)

1) Taxa/hora de operador (mão de obra)

A taxa/hora do operador deve refletir o custo do seu tempo (ou do funcionário) e a realidade de horas produtivas. Uma forma prática:

Taxa/hora operador = (Custo mensal do operador + encargos/benefícios + parcela de despesas administrativas relacionadas) ÷ Horas produtivas do mês

  • Horas produtivas não são 160h “cheias”. Desconte pausas, retrabalho, atendimento, organização, manutenção, etc. Ex.: 160h no mês, mas só 110h viram trabalho faturável.
  • Se você é o operador, inclua um valor de remuneração-alvo (pró-labore) para não “doar” seu tempo.

2) Taxa/hora de máquina (impressora ocupada)

A taxa/hora de máquina cobre o custo de ter a impressora disponível e se desgastando, além de despesas associadas ao equipamento. Uma forma prática:

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Taxa/hora máquina = (Depreciação mensal + manutenção/peças médias + parcela de despesas do espaço/infra atribuída à máquina) ÷ Horas disponíveis de máquina no mês

  • Horas disponíveis de máquina: quantas horas você realmente consegue operar a impressora no mês (ex.: 12h/dia × 26 dias = 312h). Se você roda 24/7, use esse potencial; se não, não “finja” que tem 720h/mês.
  • Se você tem mais de uma impressora, calcule por máquina ou por “pool” (média ponderada), mas mantenha a lógica de capacidade.

3) Setup mínimo por job (tempo humano fixo)

Defina um tempo mínimo cobrado por pedido para cobrir tarefas inevitáveis. Exemplo de setup mínimo:

  • Checagem do arquivo e orientação: 5 min
  • Preparar mesa/adesão e iniciar impressão: 10 min
  • Remoção e inspeção básica: 10 min

Setup mínimo sugerido: 25 min (0,42h) de operador por job. Você pode ajustar por complexidade (simples vs. complexo) com dois níveis de setup.

Passo a passo para transformar tempo em preço

Passo 1 — Estime o tempo de máquina

Use o tempo do fatiador como base e aplique um fator de segurança para variações (aceleração real, aquecimento, pequenas pausas, etc.).

  • Tempo máquina estimado = Tempo do fatiador × Fator de segurança
  • Fator típico: 1,05 a 1,20 (comece com 1,10 e ajuste com dados reais).

Passo 2 — Liste e estime o tempo de mão de obra

Quebre em blocos e estime minutos por etapa. Exemplo de checklist:

  • Setup mínimo por job (fixo)
  • Troca de filamento (se ocorrer): X min
  • Remoção/limpeza: X min
  • Cura (se aplicável): tempo humano (manuseio) vs. tempo de espera (não cobre como operador, a menos que prenda seu trabalho)
  • Acabamento (lixa, primer, pintura, polimento): X min
  • Montagem: X min
  • Embalagem e registro: X min

Dica: separe tempo humano ativo (cobra como operador) de tempo de espera (normalmente não cobra como operador, mas pode refletir em prazo e, em alguns casos, em taxa de máquina se ocupar equipamento/estação).

Passo 3 — Aplique as taxas/hora

Custo de tempo = (Horas máquina × Taxa/hora máquina) + (Horas operador × Taxa/hora operador)

Some o setup mínimo dentro de “Horas operador”.

Passo 4 — Inclua regras de mínimo e arredondamento

  • Mínimo por job: um valor mínimo para cobrir setup e risco (ex.: “pedido mínimo” ou “taxa de serviço”).
  • Arredondamento: cobre mão de obra em blocos (ex.: a cada 15 min) para não perder tempo em microvariações.

Exemplos práticos (peça única vs. lote)

Nos exemplos abaixo, use valores ilustrativos e substitua pelas suas taxas reais.

Premissas (iguais nos dois cenários)

  • Taxa/hora máquina: R$ 8,00/h
  • Taxa/hora operador: R$ 45,00/h
  • Setup mínimo por job: 0,42h (25 min)
  • Fator de segurança do tempo de máquina: 1,10

Cenário A — Peça única (1 unidade)

Dados estimados:

  • Tempo do fatiador: 3h30 (3,5h)
  • Tempo máquina estimado: 3,5h × 1,10 = 3,85h
  • Mão de obra variável (além do setup): remoção + limpeza + acabamento leve = 20 min (0,33h)
  • Mão de obra total: setup 0,42h + 0,33h = 0,75h

Cálculo do custo de tempo:

  • Máquina: 3,85h × R$ 8,00 = R$ 30,80
  • Operador: 0,75h × R$ 45,00 = R$ 33,75
  • Total (tempo): R$ 64,55

Observação: repare que, mesmo com “pouca impressão”, o setup pesa. É por isso que peça única costuma ter preço unitário maior.

Cenário B — Lote (10 unidades no mesmo job)

Suponha que você consiga imprimir 10 unidades juntas na mesa.

Dados estimados:

  • Tempo do fatiador (lote): 9h00 (9,0h)
  • Tempo máquina estimado: 9,0h × 1,10 = 9,9h
  • Mão de obra variável: remoção e limpeza aumentam (mais peças), acabamento leve por peça
  • Setup mínimo por job: 0,42h (igual)
  • Remoção/limpeza do lote: 35 min (0,58h)
  • Acabamento leve: 5 min por peça × 10 = 50 min (0,83h)
  • Mão de obra total: 0,42 + 0,58 + 0,83 = 1,83h

Cálculo do custo de tempo:

  • Máquina: 9,9h × R$ 8,00 = R$ 79,20
  • Operador: 1,83h × R$ 45,00 = R$ 82,35
  • Total (tempo): R$ 161,55

Custo de tempo por unidade (apenas para entender o efeito do lote): R$ 161,55 ÷ 10 = R$ 16,16 por peça.

O que mudou: o setup mínimo foi diluído no lote, e a máquina ficou mais tempo ocupada, mas o custo unitário caiu bastante. Isso ajuda a definir descontos por quantidade sem “comer” sua margem.

Como ajustar preços quando o tempo real diverge do estimado

1) Registre tempo real (sem complicar)

Crie um registro simples por job com quatro campos: tempo do fatiador, tempo de máquina real, tempo de operador real, observações (falhas, suporte excessivo, troca de bico, etc.). Um modelo:

JOB #___ | Cliente: ___ | Material: ___ | Data: ___  Tempo fatiador: ___h  Tempo máquina real: ___h  Tempo operador real: ___h  Ocorrências: ( ) troca filamento ( ) falha ( ) retrabalho ( ) acabamento extra  Notas: ___

2) Use “faixas” de tolerância e regra de cobrança

Defina uma política clara para não renegociar toda vez:

  • Até +10% de variação: absorver (já coberto pelo fator de segurança).
  • De +10% a +25%: cobrar apenas o excedente de máquina e/ou operador, conforme a causa.
  • Acima de +25%: reorçar antes de refazer (quando possível) ou aplicar cobrança de retrabalho se a causa não for sua (ex.: mudança de escopo solicitada após aprovação).

3) Ajuste o fator de segurança com base em dados

Se você notar que uma impressora específica costuma levar 15% a mais que o fatiador, aumente o fator para aquela máquina/perfil. Se o pós-processamento está sempre subestimado, crie tempos padrão por tipo de peça (ex.: “acabamento leve: 5 min/peça”, “acabamento médio: 12 min/peça”, “remoção difícil: +8 min/peça”).

4) Reprecifique o próximo pedido (e não o passado)

Quando o tempo real estourar por motivos internos (parâmetro ruim, suporte demais, orientação inadequada), use isso para corrigir o seu padrão e o seu orçamento futuro. Exemplo prático:

  • Você estimou 20 min de acabamento leve, mas gastou 60 min porque a peça saiu com marcas de suporte.
  • Ação: atualizar o “tempo padrão” para aquela geometria/material ou mudar a estratégia (orientação, densidade de suporte, interface) e manter um adicional de acabamento quando o cliente exigir estética superior.

5) Quando cobrar diferença no mesmo job

Cobre diferença quando houver mudança de escopo ou exigência adicional que aumente mão de obra: pedido de acabamento mais fino, pintura, montagem extra, alteração de arquivo após aprovação, ou divisão do lote em múltiplos jobs por urgência. Nesses casos, transforme em itens de tempo explícitos:

ItemBase de cobrançaComo apresentar
Acabamento extraOperador (min/peça)“Acabamento premium: +X min/peça”
Urgência (quebra de fila)Máquina (h) + Operador (setup adicional)“Prioridade: +Y% sobre tempo de máquina”
Alteração de arquivoOperador (h)“Revisão de modelo: 0,5h”
Reimpressão por mudança do clienteMáquina (h) + Operador (setup)“Nova produção: mesmos tempos do job”

Padronização rápida: tabela de tempos por etapa (para acelerar orçamentos)

Monte uma tabela interna com tempos típicos e use como “cardápio” para estimar mão de obra:

EtapaUnidadeTempo padrãoObservação
Setup mínimopor job25 minInclui iniciar e finalizar
Troca de filamentopor troca8–15 minInclui purga/limpeza
Remoção simplespor peça2–4 minBoa adesão, sem briga
Remoção difícilpor peça6–12 minPeça grande/aderência alta
Limpeza de suportepor peça3–15 minDepende de geometria
Acabamento levepor peça5 minRebarba e toque rápido
Acabamento médiopor peça12 minLixa + correções
Montagempor conjunto10–30 minParafusos/encaixes/cola
Embalagempor pedido5–10 minProteção e etiqueta interna

Com essa tabela, você orça mais rápido e reduz variações entre pedidos, mantendo a separação correta entre ocupação de máquina e trabalho humano.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao precificar um serviço de impressão 3D, qual abordagem ajuda a evitar subprecificação tanto em jobs com muito pós-processamento quanto em impressões longas com pouca intervenção humana?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Separar horas de máquina (capacidade ocupada) de horas de operador (trabalho humano) evita erros comuns: cobrar pouco quando há muito pós-processamento ou quando a impressora fica muitas horas ocupada. O setup mínimo por job impede subprecificação de peças pequenas.

Próximo capitúlo

Energia e depreciação na impressão 3D: custo invisível que muda a margem

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Impressão 3D para Pequenos Negócios: Como Precificar, Padronizar e Entregar com Qualidade
19%

Impressão 3D para Pequenos Negócios: Como Precificar, Padronizar e Entregar com Qualidade

Novo curso

16 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.