Por que separar tempo de máquina e tempo de mão de obra
Na impressão 3D, “tempo” vira dinheiro de duas formas diferentes: (1) horas em que a impressora fica ocupada (capacidade produtiva travada) e (2) horas de trabalho humano (atividades antes, durante e depois da impressão). Misturar esses tempos em uma única taxa costuma gerar dois erros comuns: cobrar pouco quando o pós-processamento é pesado (muita mão de obra) ou cobrar pouco quando a máquina fica muitas horas imprimindo com pouca intervenção humana (muita ocupação de equipamento).
Para precificar com consistência, trate como dois centros de custo: taxa/hora de máquina e taxa/hora de operador. Some também um setup mínimo por job (um “pedágio” de tempo humano) para evitar que peças pequenas ou pedidos unitários fiquem subprecificados.
Definições práticas
- Horas de máquina: tempo em que a impressora está ocupada imprimindo (inclui aquecimento, impressão e, se você não consegue usar a impressora durante isso, tempos de espera relevantes como resfriamento na mesa quando necessário para remoção segura).
- Horas de mão de obra: tempo humano efetivo (preparo de arquivo e fatiamento, preparação da mesa, troca de filamento, start/monitoramento pontual, remoção, limpeza, cura, acabamento, montagem, embalagem e registro/controle).
- Setup mínimo por job: um tempo de mão de obra cobrado sempre que um pedido entra, mesmo que a peça seja pequena. Ex.: 15–30 minutos para preparar, iniciar e finalizar o job.
Como criar duas taxas/hora (máquina e operador)
1) Taxa/hora de operador (mão de obra)
A taxa/hora do operador deve refletir o custo do seu tempo (ou do funcionário) e a realidade de horas produtivas. Uma forma prática:
Taxa/hora operador = (Custo mensal do operador + encargos/benefícios + parcela de despesas administrativas relacionadas) ÷ Horas produtivas do mês
- Horas produtivas não são 160h “cheias”. Desconte pausas, retrabalho, atendimento, organização, manutenção, etc. Ex.: 160h no mês, mas só 110h viram trabalho faturável.
- Se você é o operador, inclua um valor de remuneração-alvo (pró-labore) para não “doar” seu tempo.
2) Taxa/hora de máquina (impressora ocupada)
A taxa/hora de máquina cobre o custo de ter a impressora disponível e se desgastando, além de despesas associadas ao equipamento. Uma forma prática:
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Taxa/hora máquina = (Depreciação mensal + manutenção/peças médias + parcela de despesas do espaço/infra atribuída à máquina) ÷ Horas disponíveis de máquina no mês
- Horas disponíveis de máquina: quantas horas você realmente consegue operar a impressora no mês (ex.: 12h/dia × 26 dias = 312h). Se você roda 24/7, use esse potencial; se não, não “finja” que tem 720h/mês.
- Se você tem mais de uma impressora, calcule por máquina ou por “pool” (média ponderada), mas mantenha a lógica de capacidade.
3) Setup mínimo por job (tempo humano fixo)
Defina um tempo mínimo cobrado por pedido para cobrir tarefas inevitáveis. Exemplo de setup mínimo:
- Checagem do arquivo e orientação: 5 min
- Preparar mesa/adesão e iniciar impressão: 10 min
- Remoção e inspeção básica: 10 min
Setup mínimo sugerido: 25 min (0,42h) de operador por job. Você pode ajustar por complexidade (simples vs. complexo) com dois níveis de setup.
Passo a passo para transformar tempo em preço
Passo 1 — Estime o tempo de máquina
Use o tempo do fatiador como base e aplique um fator de segurança para variações (aceleração real, aquecimento, pequenas pausas, etc.).
- Tempo máquina estimado = Tempo do fatiador × Fator de segurança
- Fator típico: 1,05 a 1,20 (comece com 1,10 e ajuste com dados reais).
Passo 2 — Liste e estime o tempo de mão de obra
Quebre em blocos e estime minutos por etapa. Exemplo de checklist:
- Setup mínimo por job (fixo)
- Troca de filamento (se ocorrer): X min
- Remoção/limpeza: X min
- Cura (se aplicável): tempo humano (manuseio) vs. tempo de espera (não cobre como operador, a menos que prenda seu trabalho)
- Acabamento (lixa, primer, pintura, polimento): X min
- Montagem: X min
- Embalagem e registro: X min
Dica: separe tempo humano ativo (cobra como operador) de tempo de espera (normalmente não cobra como operador, mas pode refletir em prazo e, em alguns casos, em taxa de máquina se ocupar equipamento/estação).
Passo 3 — Aplique as taxas/hora
Custo de tempo = (Horas máquina × Taxa/hora máquina) + (Horas operador × Taxa/hora operador)
Some o setup mínimo dentro de “Horas operador”.
Passo 4 — Inclua regras de mínimo e arredondamento
- Mínimo por job: um valor mínimo para cobrir setup e risco (ex.: “pedido mínimo” ou “taxa de serviço”).
- Arredondamento: cobre mão de obra em blocos (ex.: a cada 15 min) para não perder tempo em microvariações.
Exemplos práticos (peça única vs. lote)
Nos exemplos abaixo, use valores ilustrativos e substitua pelas suas taxas reais.
Premissas (iguais nos dois cenários)
- Taxa/hora máquina: R$ 8,00/h
- Taxa/hora operador: R$ 45,00/h
- Setup mínimo por job: 0,42h (25 min)
- Fator de segurança do tempo de máquina: 1,10
Cenário A — Peça única (1 unidade)
Dados estimados:
- Tempo do fatiador: 3h30 (3,5h)
- Tempo máquina estimado: 3,5h × 1,10 = 3,85h
- Mão de obra variável (além do setup): remoção + limpeza + acabamento leve = 20 min (0,33h)
- Mão de obra total: setup 0,42h + 0,33h = 0,75h
Cálculo do custo de tempo:
- Máquina: 3,85h × R$ 8,00 = R$ 30,80
- Operador: 0,75h × R$ 45,00 = R$ 33,75
- Total (tempo): R$ 64,55
Observação: repare que, mesmo com “pouca impressão”, o setup pesa. É por isso que peça única costuma ter preço unitário maior.
Cenário B — Lote (10 unidades no mesmo job)
Suponha que você consiga imprimir 10 unidades juntas na mesa.
Dados estimados:
- Tempo do fatiador (lote): 9h00 (9,0h)
- Tempo máquina estimado: 9,0h × 1,10 = 9,9h
- Mão de obra variável: remoção e limpeza aumentam (mais peças), acabamento leve por peça
- Setup mínimo por job: 0,42h (igual)
- Remoção/limpeza do lote: 35 min (0,58h)
- Acabamento leve: 5 min por peça × 10 = 50 min (0,83h)
- Mão de obra total: 0,42 + 0,58 + 0,83 = 1,83h
Cálculo do custo de tempo:
- Máquina: 9,9h × R$ 8,00 = R$ 79,20
- Operador: 1,83h × R$ 45,00 = R$ 82,35
- Total (tempo): R$ 161,55
Custo de tempo por unidade (apenas para entender o efeito do lote): R$ 161,55 ÷ 10 = R$ 16,16 por peça.
O que mudou: o setup mínimo foi diluído no lote, e a máquina ficou mais tempo ocupada, mas o custo unitário caiu bastante. Isso ajuda a definir descontos por quantidade sem “comer” sua margem.
Como ajustar preços quando o tempo real diverge do estimado
1) Registre tempo real (sem complicar)
Crie um registro simples por job com quatro campos: tempo do fatiador, tempo de máquina real, tempo de operador real, observações (falhas, suporte excessivo, troca de bico, etc.). Um modelo:
JOB #___ | Cliente: ___ | Material: ___ | Data: ___ Tempo fatiador: ___h Tempo máquina real: ___h Tempo operador real: ___h Ocorrências: ( ) troca filamento ( ) falha ( ) retrabalho ( ) acabamento extra Notas: ___2) Use “faixas” de tolerância e regra de cobrança
Defina uma política clara para não renegociar toda vez:
- Até +10% de variação: absorver (já coberto pelo fator de segurança).
- De +10% a +25%: cobrar apenas o excedente de máquina e/ou operador, conforme a causa.
- Acima de +25%: reorçar antes de refazer (quando possível) ou aplicar cobrança de retrabalho se a causa não for sua (ex.: mudança de escopo solicitada após aprovação).
3) Ajuste o fator de segurança com base em dados
Se você notar que uma impressora específica costuma levar 15% a mais que o fatiador, aumente o fator para aquela máquina/perfil. Se o pós-processamento está sempre subestimado, crie tempos padrão por tipo de peça (ex.: “acabamento leve: 5 min/peça”, “acabamento médio: 12 min/peça”, “remoção difícil: +8 min/peça”).
4) Reprecifique o próximo pedido (e não o passado)
Quando o tempo real estourar por motivos internos (parâmetro ruim, suporte demais, orientação inadequada), use isso para corrigir o seu padrão e o seu orçamento futuro. Exemplo prático:
- Você estimou 20 min de acabamento leve, mas gastou 60 min porque a peça saiu com marcas de suporte.
- Ação: atualizar o “tempo padrão” para aquela geometria/material ou mudar a estratégia (orientação, densidade de suporte, interface) e manter um adicional de acabamento quando o cliente exigir estética superior.
5) Quando cobrar diferença no mesmo job
Cobre diferença quando houver mudança de escopo ou exigência adicional que aumente mão de obra: pedido de acabamento mais fino, pintura, montagem extra, alteração de arquivo após aprovação, ou divisão do lote em múltiplos jobs por urgência. Nesses casos, transforme em itens de tempo explícitos:
| Item | Base de cobrança | Como apresentar |
|---|---|---|
| Acabamento extra | Operador (min/peça) | “Acabamento premium: +X min/peça” |
| Urgência (quebra de fila) | Máquina (h) + Operador (setup adicional) | “Prioridade: +Y% sobre tempo de máquina” |
| Alteração de arquivo | Operador (h) | “Revisão de modelo: 0,5h” |
| Reimpressão por mudança do cliente | Máquina (h) + Operador (setup) | “Nova produção: mesmos tempos do job” |
Padronização rápida: tabela de tempos por etapa (para acelerar orçamentos)
Monte uma tabela interna com tempos típicos e use como “cardápio” para estimar mão de obra:
| Etapa | Unidade | Tempo padrão | Observação |
|---|---|---|---|
| Setup mínimo | por job | 25 min | Inclui iniciar e finalizar |
| Troca de filamento | por troca | 8–15 min | Inclui purga/limpeza |
| Remoção simples | por peça | 2–4 min | Boa adesão, sem briga |
| Remoção difícil | por peça | 6–12 min | Peça grande/aderência alta |
| Limpeza de suporte | por peça | 3–15 min | Depende de geometria |
| Acabamento leve | por peça | 5 min | Rebarba e toque rápido |
| Acabamento médio | por peça | 12 min | Lixa + correções |
| Montagem | por conjunto | 10–30 min | Parafusos/encaixes/cola |
| Embalagem | por pedido | 5–10 min | Proteção e etiqueta interna |
Com essa tabela, você orça mais rápido e reduz variações entre pedidos, mantendo a separação correta entre ocupação de máquina e trabalho humano.