Por que energia e depreciação “somem” na precificação
Em muitos pequenos negócios de impressão 3D, o custo de material e o tempo de máquina são lembrados, mas dois itens costumam ficar fora da conta por parecerem pequenos ou difíceis de medir: energia e depreciação/manutenção. O problema é que eles não aparecem em uma peça específica como o filamento/resina, mas aparecem no mês inteiro. Se você não os rateia, a margem real cai sem você perceber, especialmente quando o volume aumenta, quando a tarifa de energia sobe ou quando a máquina começa a exigir reposições.
1) Energia por impressão: estimativa prática e consistente
1.1 Conceito: potência média x horas
O consumo elétrico de uma impressão pode ser estimado por:
Energia (kWh) = Potência média (kW) × Tempo (h)Depois, converte-se em custo:
Custo de energia (R$) = Energia (kWh) × Tarifa (R$/kWh)O ponto-chave é usar potência média, não a potência máxima da fonte. Impressoras variam muito: aquecimento de mesa e bico consome mais no início e em ambientes frios; durante a impressão, o consumo tende a estabilizar.
1.2 O que entra na potência média
- Impressora (FDM/FFF): fonte, hotend, mesa aquecida, motores, eletrônica, ventiladores.
- Impressora com câmara aquecida (quando houver): resistência/aquecedor da câmara e ventilação associada.
- Resina (MSLA/SLA/DLP): impressora (tela/projetor, motores), aquecimento do tanque (se existir), e cura UV (estação de cura).
- Pós-processo elétrico aplicável: lavadora (agitador/ultrassom), secagem aquecida, compressor pequeno (se usado), etc. Inclua apenas o que você realmente usa de forma recorrente para aquele tipo de pedido.
1.3 Passo a passo simples (sem medidor)
Use uma estimativa conservadora baseada em potência típica em operação. Você pode obter valores aproximados no manual, etiqueta da fonte e experiência prática. O objetivo é ter um número padronizado para precificar com consistência.
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- Defina uma potência média por perfil de uso (ex.: FDM com mesa a 60°C; FDM com mesa a 100°C; resina com aquecimento; etc.).
- Multiplique pela duração da impressão (em horas).
- Some a energia do pós-processo elétrico (cura UV, lavadora) quando aplicável.
- Multiplique pela tarifa (R$/kWh) da sua conta. Se houver bandeiras/variação, use uma média do último trimestre ou um valor ligeiramente acima para proteção.
Exemplo (FDM com mesa aquecida):
- Potência média estimada: 0,18 kW (180 W)
- Tempo de impressão: 6 h
- Tarifa: R$ 1,05/kWh
Energia = 0,18 × 6 = 1,08 kWh → Custo = 1,08 × 1,05 = R$ 1,13Esse valor parece pequeno por peça, mas em 300 impressões/mês vira um item relevante.
1.4 Passo a passo recomendado (com medidor de tomada)
Para reduzir erro, use um medidor de energia (wattímetro) na tomada da impressora e faça medições por cenário. Em 2–3 testes você cria uma tabela de referência.
- Conecte a impressora ao medidor e zere o contador.
- Rode uma impressão “típica” do seu negócio (tempo e temperaturas comuns).
- Anote o consumo total em kWh ao final.
- Divida pelo tempo total para obter potência média (opcional), ou use diretamente o kWh por impressão.
- Repita para outros perfis (ex.: mesa 60°C vs 100°C; com câmara aquecida; resina com aquecimento).
Exemplo (medido): impressão de 8 h consumiu 1,6 kWh. Tarifa R$ 1,05/kWh.
Custo = 1,6 × 1,05 = R$ 1,681.5 Como incluir aquecimento de mesa/câmara sem complicar
Se você não quer medir tudo, uma forma prática é separar em “blocos”:
- Bloco A (aquecimento inicial): um valor fixo por impressão (ex.: 0,15 kWh) para aquecer mesa/bico/câmara.
- Bloco B (impressão em regime): potência média menor multiplicada pelas horas.
Exemplo (FDM com câmara aquecida):
- Aquecimento inicial: 0,25 kWh
- Regime: 0,22 kW
- Tempo: 10 h
Energia total = 0,25 + (0,22 × 10) = 2,45 kWh1.6 Cura UV e lavagem (resina): como somar corretamente
Em resina, o custo elétrico da impressora pode ser menor que o conjunto “lavar + curar”, dependendo do seu fluxo.
Modelo simples por lote:
- Lavagem: potência do equipamento (kW) × tempo (h)
- Cura UV: potência (kW) × tempo (h)
Exemplo:
- Lavadora: 0,06 kW por 0,25 h (15 min) → 0,015 kWh
- Cura: 0,08 kW por 0,20 h (12 min) → 0,016 kWh
- Total pós-processo: 0,031 kWh
- Tarifa: R$ 1,05/kWh → R$ 0,03
O custo pode ser baixo, mas o importante é padronizar e não esquecer. Se você cura em múltiplos ciclos ou usa aquecimento na cura, o valor sobe.
2) Depreciação e manutenção: custo fixo que precisa ser rateado
2.1 Conceito: a máquina “se paga” e “se gasta” a cada hora
Depreciação é o rateio do valor do equipamento ao longo da vida útil produtiva. Mesmo que você não venda a máquina no fim, ela perde valor e, principalmente, exige substituições para continuar entregando qualidade. Já a manutenção inclui peças de desgaste e serviços recorrentes (preventivos e corretivos).
Na prática, você quer transformar isso em R$/hora produtiva (ou R$/mês) para aplicar em cada pedido.
2.2 O que considerar em manutenção (checklist)
- FDM/FFF: bico/nozzle, PTFE (quando aplicável), engrenagens do extrusor, correias, rolamentos/rodas, mesa (superfície), termistores/cartucho aquecedor, ventoinhas, lubrificação, eventuais upgrades obrigatórios para manter repetibilidade.
- Resina: FEP/filme do tanque, tela LCD (MSLA), fonte UV/LED, vedação, filtros, recipientes, EPIs consumíveis (luvas, filtros de máscara quando aplicável), calibração e ajustes para manter dimensional.
- Equipamentos auxiliares: lavadora, cura UV (lâmpadas/LEDs), exaustão/filtros (se houver), ferramentas que quebram.
Não é necessário detalhar tudo em cada orçamento; você pode transformar em um valor mensal ou por hora.
3) Método simples: custo mensal ÷ horas produtivas
Esse método é ideal para começar rápido e manter consistência, sem planilhas complexas por equipamento. Você calcula um “pacote” mensal de custos fixos técnicos (depreciação + manutenção + energia base) e divide pelas horas produtivas do mês.
3.1 Passo a passo
- Defina o custo mensal de depreciação (soma dos equipamentos principais ÷ vida útil em meses).
- Some uma provisão mensal de manutenção (média do que você gasta ou pretende reservar).
- Some energia “fixa” se fizer sentido (ex.: exaustor que fica ligado sempre, iluminação dedicada). A energia por impressão pode ficar separada como variável; aqui é opcional.
- Estime horas produtivas do mês (horas reais de impressão que você consegue vender, não 24/7 teórico).
- Calcule o custo fixo técnico por hora e aplique em cada job conforme horas de máquina.
3.2 Fórmulas
Depreciação mensal = (Valor total dos equipamentos) ÷ (Vida útil em meses)Custo fixo técnico mensal = Depreciação mensal + Provisão de manutenção mensal (+ energia fixa, se usar)Custo fixo técnico por hora = Custo fixo técnico mensal ÷ Horas produtivas do mês3.3 Exemplo numérico
Equipamentos:
- Impressora A: R$ 3.000
- Impressora B: R$ 4.000
- Estação de cura: R$ 1.000
- Total: R$ 8.000
Vida útil adotada: 36 meses
Manutenção: reservar R$ 180/mês
Horas produtivas: 120 h/mês
Depreciação mensal = 8.000 ÷ 36 = R$ 222,22/mêsCusto fixo técnico mensal = 222,22 + 180 = R$ 402,22/mêsCusto fixo técnico por hora = 402,22 ÷ 120 = R$ 3,35/hSe um pedido usa 7 horas de máquina, você adiciona:
Depreciação+manutenção alocada = 7 × 3,35 = R$ 23,45Observação prática: se suas horas produtivas caem (mês fraco), o custo por hora sobe. Isso ajuda a enxergar por que “promoções” agressivas em baixa demanda podem destruir margem.
4) Método detalhado: por equipamento (mais justo e escalável)
Quando você tem máquinas diferentes (FDM grande vs pequena, resina vs FDM, câmara aquecida, etc.), o método detalhado evita que uma máquina cara seja subsidiada por outra barata. Você calcula R$/hora por equipamento e aplica conforme a máquina usada no pedido.
4.1 Estrutura do cálculo por máquina
Para cada equipamento principal (cada impressora e, se fizer sentido, cada estação de cura/lavagem), calcule:
- Depreciação por hora
- Manutenção por hora (provisão baseada em peças de desgaste)
- Energia por hora (ou por impressão, se preferir)
4.2 Passo a passo (por impressora)
- Defina o valor do equipamento (inclua upgrades necessários para operar com qualidade, se já instalados).
- Escolha vida útil em horas ou meses. Em impressão 3D, vida útil em horas produtivas costuma ser mais fiel.
- Estime horas produtivas mensais daquela máquina (com base na sua capacidade real).
- Calcule depreciação por hora.
- Monte uma provisão de manutenção por hora (com base em peças e periodicidade).
- Meça ou estime energia por hora (com wattímetro ou tabela).
4.3 Fórmulas (por equipamento)
Depreciação por hora = Valor do equipamento ÷ Vida útil produtiva (em horas)Manutenção por hora = (Custo da peça ÷ Horas até trocar) + (outras peças/serviços rateados)Custo técnico por hora do equipamento = Depreciação/h + Manutenção/h + Energia/h4.4 Exemplo detalhado (FDM)
Impressora FDM: R$ 4.000
Vida útil produtiva adotada: 3.000 h
Depreciação/h = 4.000 ÷ 3.000 = R$ 1,33/hManutenção (provisão):
- Nozzle: R$ 30 a cada 150 h → 30/150 = R$ 0,20/h
- Correias/rolamentos e pequenos itens: estimar R$ 240 ao ano com 1.200 h/ano → 240/1200 = R$ 0,20/h
Manutenção/h ≈ 0,20 + 0,20 = R$ 0,40/hEnergia: potência média 0,18 kW; tarifa R$ 1,05/kWh
Energia/h = 0,18 × 1,05 = R$ 0,19/hCusto técnico/h = 1,33 + 0,40 + 0,19 = R$ 1,92/hSe um job usa 7 h nessa máquina:
Custo técnico do job = 7 × 1,92 = R$ 13,444.5 Exemplo detalhado (resina + cura UV)
Impressora MSLA: R$ 3.500; vida útil produtiva 2.000 h
Depreciação/h = 3.500 ÷ 2.000 = R$ 1,75/hManutenção (provisão):
- FEP: R$ 60 a cada 120 h → 0,50/h
- Tela LCD: R$ 600 a cada 800 h → 0,75/h
Manutenção/h = 0,50 + 0,75 = R$ 1,25/hEnergia da impressora: 0,07 kW × R$ 1,05 = R$ 0,07/h
Cura UV (por lote): em vez de por hora de impressão, pode ser melhor por ciclo. Ex.: 0,08 kW por 0,20 h = 0,016 kWh → R$ 0,02 por ciclo. Se você cura 1 lote por impressão, some R$ 0,02; se cura 3 lotes, some R$ 0,06.
Custo técnico/h (impressora) = 1,75 + 1,25 + 0,07 = R$ 3,07/hSe a impressão leva 2,5 h e usa 1 ciclo de cura:
Custo técnico do job = 2,5 × 3,07 + 0,02 = R$ 7,705) Como escolher entre método simples e detalhado
| Critério | Método simples (mensal/horas) | Método detalhado (por equipamento) |
|---|---|---|
| Quando usar | Começo do negócio, poucas máquinas, preços precisam sair rápido | Várias máquinas diferentes, mix de tecnologias, necessidade de precisão |
| Esforço | Baixo | Médio |
| Justiça entre máquinas | Média (pode “misturar” custos) | Alta |
| Atualização | Mensal | Quando trocar peça/vida útil/uso |
Uma prática comum é começar com o método simples por 1–2 meses, coletar dados (kWh medido, peças trocadas, horas reais), e migrar para o detalhado quando o volume justificar.
6) Padronização: criando uma tabela interna de custos técnicos
Para não recalcular toda vez, crie uma tabela interna com 3–6 “perfis” e use sempre os mesmos critérios.
6.1 Exemplo de tabela (modelo)
| Perfil | Energia (R$/h) | Deprec.+Manut. (R$/h) | Total técnico (R$/h) |
|---|---|---|---|
| FDM mesa 60°C | 0,18 | 1,70 | 1,88 |
| FDM mesa 100°C | 0,28 | 1,70 | 1,98 |
| FDM câmara aquecida | 0,45 | 2,10 | 2,55 |
| Resina (impressora) | 0,07 | 3,00 | 3,07 |
Você pode manter a cura UV como custo por ciclo/lote (R$/ciclo) em outra linha, porque ela não cresce proporcionalmente às horas de impressão.
7) Erros comuns que distorcem a margem (e como evitar)
- Usar potência máxima da fonte como se fosse constante: tende a superestimar energia e gerar preços inconsistentes. Prefira medição ou potência média por perfil.
- Ignorar aquecimento em ambientes frios: em locais frios, mesa/câmara trabalham mais. Se você tem sazonalidade, use uma tarifa de energia e potência média um pouco mais conservadoras.
- Depreciação “zero” porque a máquina já foi paga: o caixa pode estar ok, mas a reposição futura não estará. Depreciação é provisão de reposição.
- Manutenção só quando quebra: vira surpresa e corrói lucro. Transforme em provisão por hora ou por mês.
- Ratear por horas teóricas (24/7): use horas produtivas vendáveis. Se você imprime 60 h/mês, não divida por 300 h só porque a máquina poderia.