O que é a vareta de adição e por que ela muda o resultado
Na solda TIG, a vareta de adição é o metal que você “entrega” à poça de fusão para formar o cordão (reforço, preenchimento e, em muitos casos, a própria resistência final da junta). A escolha errada de vareta pode gerar trinca, falta de resistência, corrosão acelerada (principalmente em inox) e dificuldade de controle da poça. Para iniciantes, o objetivo é simples: usar uma vareta compatível com o metal base e um diâmetro que permita dosar calor e material com facilidade.
Seleção da vareta por material (foco em escolhas comuns)
Aço carbono (aços comuns)
Para chapas e perfis de aço carbono em geral, a escolha mais comum e “coringa” é a vareta da família ER70S (variações como ER70S-2 ou ER70S-6 são frequentes). Elas são amplamente usadas porque têm boa molhabilidade, boa resistência e toleram pequenas variações de limpeza melhor do que opções mais “exigentes”.
- Quando usar: estruturas leves, chapas, tubos de aço carbono, reparos e peças comuns.
- O que observar: se o aço base for galvanizado, remova totalmente o zinco na região da solda (o zinco contamina e gera porosidade). A vareta não “resolve” contaminação do metal base.
Aço inox (noções práticas para iniciante)
Em inox, a compatibilidade é crítica para manter resistência à corrosão. As escolhas mais comuns seguem a família do inox base:
- Inox 304/304L: vareta típica ER308L.
- Inox 316/316L: vareta típica ER316L.
Para quem está começando e não tem certeza do inox (situação comum em manutenção), uma vareta “mais nobre” pode ser usada em alguns casos, mas isso deve ser decidido com critério. Como regra didática: tente casar 304 com 308L e 316 com 316L. Evite misturar “no escuro”, porque pode perder resistência à corrosão e alterar o comportamento do cordão.
- Cuidados extras no inox: mantenha a vareta e a área muito limpas. Inox “marca” contaminação com facilidade (pontos pretos, poros, coloração excessiva).
Alumínio (noções essenciais)
Alumínio exige atenção especial por causa da camada de óxido e da sensibilidade à contaminação. Para iniciantes, foque em entender que nem toda vareta serve para todo alumínio. As famílias mais comuns são:
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- ER4043: muito usada por ser mais “fácil” de soldar e ter boa fluidez.
- ER5356: usada quando se busca maior resistência mecânica em algumas ligas e aplicações específicas.
Se você não sabe a liga do alumínio, a escolha pode ficar incerta. Em prática de aprendizado, costuma-se começar com ER4043 em peças comuns de alumínio, mantendo limpeza rigorosa e evitando contaminação.
Escolha do diâmetro da vareta (chapas finas e controle)
O diâmetro da vareta influencia diretamente:
- Controle de calor: vareta mais grossa “rouba” mais calor da poça ao encostar, podendo esfriar e exigir mais corrente para manter a fusão.
- Velocidade: vareta grossa deposita mais material por toque; isso pode acelerar o preenchimento, mas também “engorda” o cordão e dificulta chapas finas.
- Precisão: vareta fina permite dosar pequenas quantidades, ideal para chapas finas e cordões delicados.
Regras práticas para iniciantes
- Chapas finas: prefira varetas finas (ex.: 1,0 mm a 1,6 mm) para conseguir adicionar “microgotas” sem afogar a poça.
- Espessuras médias: 1,6 mm costuma ser um bom meio-termo para aprender (controle e disponibilidade).
- Se a poça “morre” quando você encosta a vareta: a vareta pode estar grossa demais para a sua corrente/velocidade, ou você está demorando demais com a vareta dentro da poça.
- Se o cordão fica alto e irregular: pode ser vareta grossa demais ou adição em excesso (ritmo e técnica).
Tabela de referência rápida (didática)
| Aplicação | Objetivo | Diâmetro de vareta (tendência) | Observação |
|---|---|---|---|
| Chapa fina | Controle e baixa adição | 1,0–1,6 mm | Facilita “pontinhos” regulares |
| Chapa média | Equilíbrio | 1,6 mm | Boa para treino geral |
| Peças mais espessas | Deposição mais rápida | 2,0–2,4 mm | Exige mais calor e mão firme |
Dica de treino: se você está aprendendo em chapas finas e está furando, reduza a quantidade de material por toque (vareta mais fina e ritmo mais espaçado) e mantenha o avanço constante para não concentrar calor.
Técnica de alimentação da vareta: como entrar, adicionar e sair sem contaminar
Posicionamento e ângulo da vareta
Para ter controle, a vareta deve entrar na poça com um ângulo baixo, apontando para a região onde você quer depositar. Em geral:
- Ângulo baixo (aprox. 10° a 30° em relação à peça): ajuda a “encostar e retirar” com precisão.
- Vareta sempre dentro da proteção de gás: a ponta da vareta deve permanecer na zona protegida para evitar oxidação e porosidade.
Evite trabalhar com a vareta muito “em pé”, porque isso dificulta a dosagem e aumenta a chance de você tocar o eletrodo ou entrar/voltar da zona sem gás.
Não “mergulhe” a vareta fora da proteção de gás
Um erro clássico é retirar a vareta para longe (fora do gás), deixar a ponta oxidar e depois voltar com ela para a poça. Isso costuma gerar:
- pontos pretos no cordão,
- porosidade,
- instabilidade na poça e aparência “suja”.
Regra prática: se você precisa afastar a vareta, afaste pouco e mantenha a ponta na região protegida pelo gás sempre que possível.
Ritmo de adição: “pontinhos” regulares vs. alimentação contínua
Existem dois estilos básicos de alimentação, e ambos funcionam. Para iniciantes, comece com “pontinhos” porque facilita coordenação.
1) Pontinhos regulares (dip)
Você encosta a vareta rapidamente na borda frontal da poça e retira, repetindo em um ritmo constante. Isso cria um cordão com “escamas” uniformes quando o avanço é consistente.
- Vantagens: controle de quantidade, bom para chapas finas, ajuda a manter o cordão uniforme.
- Como fazer: encosta → deposita uma pequena gota → retira mantendo a ponta no gás → avança a tocha → repete.
2) Alimentação contínua
Você mantém a vareta mais próxima da poça e vai “empurrando” material de forma contínua, derretendo a ponta sem grandes retiradas.
- Vantagens: pode ser mais rápida em cordões longos e em espessuras maiores.
- Risco para iniciantes: excesso de material e cordão alto; maior chance de encostar onde não deve.
Coordenação com a tocha (mão da tocha + mão da vareta)
Pense em três ações sincronizadas:
- Tocha: mantém arco estável e avança em velocidade constante.
- Poça: deve permanecer do mesmo tamanho (se cresce demais, você está lento ou quente demais; se some, está rápido ou frio demais).
- Vareta: adiciona material na frente/na borda da poça, sem “cutucar” o centro com força.
Onde adicionar: mire a vareta na borda frontal da poça (a “frente” do banho), não atrás. Adicionar atrás tende a formar cordão irregular e pode “empurrar” metal já solidificando.
Passo a passo prático: treino de alimentação em chapa (exercício de coordenação)
Exercício 1 — pontinhos regulares em linha reta
- Prepare a vareta: corte um pedaço confortável (ex.: 30–40 cm) para manuseio. Limpe a vareta (ver seção de limpeza).
- Posicione as mãos: mão da tocha estável; mão da vareta com apoio leve (se possível, apoie o punho na bancada para reduzir tremor).
- Inicie a poça: forme uma poça pequena e controlada.
- Adição: encoste a ponta da vareta na borda frontal da poça por um instante e retire.
- Avanço: avance a tocha um pequeno passo.
- Repita: mantenha o mesmo intervalo entre os pontos (ritmo) e a mesma velocidade de avanço.
Meta visual: cordão com largura constante e “escamas” do mesmo tamanho. Se as escamas ficam muito espaçadas, você está adicionando pouco ou avançando rápido. Se ficam amontoadas e altas, está adicionando demais ou avançando lento.
Exercício 2 — controle de calor com troca de diâmetro
- Faça um cordão curto com vareta fina.
- Faça outro cordão ao lado com vareta mais grossa, mantendo a mesma regulagem.
- Compare: tamanho da poça, facilidade de derreter a ponta, altura do cordão e tendência a “esfriar” a poça ao tocar.
Esse exercício deixa claro como o diâmetro muda a sensação de controle e a necessidade de ajustar ritmo/velocidade.
Limpeza e armazenamento da vareta (menos porosidade e menos contaminação)
Limpeza antes do uso
- Remova óleo e sujeira: varetas podem vir com resíduos de manuseio. Limpe com solvente apropriado (ex.: álcool isopropílico/limpador desengraxante compatível) e pano limpo.
- Inox: evite usar escova que já foi usada em aço carbono (contamina e pode gerar pontos de corrosão). Use materiais dedicados ao inox.
- Alumínio: mantenha limpeza rigorosa; qualquer gordura/óxido piora porosidade. Use abrasivo/escova adequada e limpeza química compatível quando necessário.
Armazenamento correto
- Guarde em tubo/estojo fechado: reduz poeira e umidade.
- Separe por material: não misture varetas de aço carbono com inox; contaminação cruzada é comum e difícil de “ver”.
- Evite bancada suja: apoiar vareta em superfície com pó de lixamento, óleo ou respingos contamina a ponta.
Erros comuns com vareta de adição (e como corrigir)
1) Mergulhar a vareta fora da proteção de gás
- Sintoma: poros, pontos escuros, cordão “sujo”.
- Correção: mantenha a ponta da vareta sempre na zona de gás; reduza a distância de retirada; ajuste sua posição para alimentar sem “sair do bocal”.
2) “Empurrar” a poça com a vareta
- Sintoma: poça perde forma, cordão irregular, falta de fusão nas bordas.
- Correção: encoste de leve na borda frontal e retire; não use a vareta como alavanca. A poça deve ser controlada pela tocha e pela velocidade, não por pressão da vareta.
3) Excesso de material (cordão alto e sem penetração adequada)
- Sintoma: cordão “gordo”, aparência fria, laterais sem boa fusão.
- Correção: reduza o diâmetro da vareta ou diminua a frequência de adição; aumente levemente a velocidade de avanço; adicione apenas o necessário para preencher.
4) Encostar a vareta no eletrodo ou na poça de forma prolongada
- Sintoma: instabilidade, contaminação, ponta da vareta “gruda” e puxa a poça.
- Correção: toque rápido e preciso; mantenha a ponta da vareta afiada/limpa (se a ponta formar “bolota” oxidada, corte e limpe).
5) Vareta suja ou misturada (principalmente inox)
- Sintoma: porosidade, pontos pretos, coloração excessiva, corrosão precoce em inox.
- Correção: limpe e armazene corretamente; use consumíveis dedicados por material; descarte varetas com contaminação visível ou que caíram no chão/pegaram óleo.