Por que a preparação da junta manda no resultado
Em chapas finas, a solda TIG é extremamente sensível a três coisas: ajuste (como as bordas encostam), limpeza (óxidos, óleo e poeira) e controle térmico (como o calor se espalha). Uma junta mal preparada “pede” mais calor para fechar folgas e vencer contaminações; isso aumenta o risco de furo, empeno, cordão alto/irregular e porosidade. A meta da preparação é simples: peças estáveis, limpas e com geometria previsível, para você soldar com menos corrente e com um banho pequeno e controlável.
Corte e ajuste de bordas (chapas finas)
Objetivo do corte
O corte deve deixar bordas retas, com mínima rebarba e mínima zona contaminada (carepa/oxidação). Quanto melhor o corte, menos retrabalho e menos calor necessário na solda.
Opções comuns e como deixar pronto para TIG
- Guilhotina/tesoura: geralmente entrega borda boa, mas pode deixar leve rebarba e deformação local. Faça desrebarba e confira esquadro.
- Serra (fita, policorte): pode deixar marcas e rebarbas. Exige lixamento leve para nivelar e remover partículas presas.
- Esmerilhadeira com disco de corte: rápido, mas tende a aquecer e deixar rebarba. Finalize com lixa/disco flap para uniformizar a borda.
- Plasma/oxicorte: em chapas finas pode deixar borda oxidada e irregular. Remova totalmente a camada escura e carepa com lixamento/escovação até metal limpo.
Passo a passo: ajuste de borda para junta de topo
- Desrebarbe os dois lados do corte (rebarba vira “calço” e cria folga irregular).
- Planifique a borda: passe lixa/disco flap de forma leve para tirar serrilhas e pontos altos.
- Teste de encosto: una as chapas contra a luz. Se aparecerem “janelas” (vãos), marque onde está alto e corrija com lixamento.
- Quebra de canto mínima (opcional): em chapas muito finas, uma microquebra (apenas tirar o fio vivo) ajuda a reduzir contaminação por rebarba e melhora a estabilidade do banho. Evite chanfrar como em chapas grossas.
Dica prática: se você precisa “forçar” as chapas com grampos para encostar, o ajuste está ruim. Em TIG de chapa fina, a junta deve encostar naturalmente com pouca pressão.
Limpeza: desengraxe, remoção de óxidos e preparação final
O que precisa sair da junta
- Óleo e graxa (inclusive marcas de dedo): causam porosidade e instabilidade do arco.
- Tinta, primer, verniz, adesivos: contaminam o banho e geram fumaça/poros.
- Óxidos e carepa: dificultam a fusão uniforme e “sujam” o cordão.
- Partículas de aço carbono em inox/alumínio: geram pontos de corrosão e contaminação.
Sequência recomendada de limpeza (prática e repetível)
Regra: primeiro remova sujeira grossa e óxidos, depois desengraxe, e finalize com uma limpeza leve imediatamente antes de soldar.
- Remoção mecânica: escove/lixe a região da junta e uma faixa ao redor (ex.: 20–30 mm de cada lado). Use abrasivo adequado ao material.
- Desengraxe: aplique solvente apropriado em pano limpo (não encharque a peça). Passe em uma direção e troque o lado do pano para não “espalhar” óleo.
- Secagem/evaporação: espere o solvente evaporar completamente antes de ponteamento e solda.
- Proteção contra recontaminação: evite tocar na área limpa; se tocar, repita o desengraxe local.
Ferramentas e cuidados por material
- Aço carbono: lixa/disco flap e escova de aço funcionam bem. Remova carepa de laminação e ferrugem até metal brilhante na região da junta.
- Inox: use escova exclusiva para inox e abrasivos que não tenham sido usados em aço carbono. Isso evita contaminação e manchas de corrosão.
- Alumínio: o óxido é tenaz. Faça escovação com escova de inox exclusiva (ou escova específica para alumínio) e desengraxe. Limpe pouco antes de soldar, porque o óxido se forma rapidamente.
Como a limpeza aparece no cordão (sinais rápidos)
| Sintoma no cordão | Causa provável na preparação | Ação imediata |
|---|---|---|
| Porosidade (furinhos) | Óleo/umidade/solvente não evaporou | Repetir desengraxe, secar, evitar tocar |
| Arco instável e tungstênio “sujando” fácil | Óxidos/carepa, borda contaminada | Lixar/escovar até metal limpo |
| Cordão escuro/irregular (aço/inox) | Contaminação superficial, abrasivo inadequado | Trocar abrasivo/escova, limpar novamente |
| Fusão “travada” (não molha) | Óxido forte (alumínio) ou carepa | Escovar/lixar e soldar logo em seguida |
Definindo folga, alinhamento e ângulos nas juntas (chapas finas)
Em chapas finas, a folga é uma “alavanca” de calor: quanto maior a folga, mais fácil furar. Por outro lado, zero folga pode dificultar a penetração em algumas situações. O ideal é uma folga controlada e constante, e um alinhamento que não “puxe” a poça para um lado.
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Junta de topo (butt joint)
Quando usar: unir duas chapas no mesmo plano com acabamento discreto.
- Folga: busque mínima e uniforme. Em chapas muito finas, prefira encosto quase total; se precisar de folga, mantenha bem pequena e constante ao longo de toda a junta.
- Desnível (degrau): evite. Degrau faz você “perseguir” a poça e aumenta risco de falta de fusão em um lado.
- Ângulo das bordas: borda reta com leve quebra de canto é suficiente. Chanfrar geralmente só aumenta a tendência de queimar a borda.
Junta sobreposta (lap joint)
Quando usar: chapas finas com necessidade de tolerar pequenas variações de corte e ganhar rigidez.
- Sobreposição: mantenha uma largura consistente (ex.: 10–20 mm conforme a peça). Sobreposição curta concentra calor e pode abrir a borda.
- Contato entre chapas: quanto mais “coladas”, melhor. Vão entre chapas vira armadilha de contaminação e exige mais calor.
- Preparação da borda superior: desrebarbe bem; rebarba cria canal e suga o banho.
Junta de canto (corner/fillet em canto)
Quando usar: caixas, perfis e dobras, com foco em rigidez.
- Ângulo: confira 90° real antes de soldar. Se estiver “fechado” ou “aberto”, a poça corre e o cordão fica assimétrico.
- Raiz do canto: evite frestas. Se houver, o calor “cai” no vazio e aumenta risco de furo.
- Alinhamento: mantenha as bordas no mesmo comprimento e sem torção; torção gera empeno assim que aquecer.
Fixação e ponteamento para controlar empeno
Princípios que funcionam em chapa fina
- Mais pontos, menores: ponteamentos curtos e frequentes controlam abertura de folga e reduzem “puxões”.
- Travar antes de aquecer: ajuste e prenda tudo a frio; não use o arco para “puxar” peça torta.
- Distribuir restrição: grampos e ímãs ajudam, mas evite prender de um lado só e deixar o outro livre (a peça empena para o lado solto).
Passo a passo: ponteamento eficiente (topo, sobreposta e canto)
- Monte a junta na posição final, com apoio plano e estável.
- Prenda com grampos mantendo alinhamento e folga constante.
- Faça ponteamentos nas extremidades primeiro (um em cada ponta) para “travar” o comprimento.
- Complete ponteamentos intermediários: distribua ao longo da junta com espaçamento curto o suficiente para não abrir folga entre pontos (quanto mais fina a chapa, menor o espaçamento).
- Reverifique alinhamento e esquadro após os primeiros pontos; se puxou, corrija agora (antes de soldar contínuo).
- Uniformize os pontos: pontos muito altos viram obstáculo e exigem mais calor para “engolir”. Se necessário, nivele levemente.
Recomendação prática: em juntas longas, prefira muitos ponteamentos pequenos a poucos ponteamentos grandes. Ponteamento grande já começa a empenar a peça antes do cordão principal.
Dissipação de calor e apoios (backing bar)
Por que usar apoio térmico
Chapa fina aquece rápido e perde rigidez. Um apoio metálico atrás da junta atua como dissipador e também como suporte para a poça, reduzindo risco de furo e ajudando a manter a raiz mais uniforme.
Backing bar na prática
- Cobre: excelente dissipador e não “gruda” facilmente na poça em muitos casos. Muito usado como apoio em topo para evitar colapso da raiz.
- Alumínio: também dissipa bem e é fácil de usinar; pode ser útil como apoio geral, especialmente quando cobre não está disponível.
- Aço: dissipa menos e pode aderir/contaminar dependendo do material; use com critério.
Como posicionar
- Encoste firme o backing bar na parte de trás da junta (sem folgas).
- Prenda com grampos para garantir contato contínuo.
- Garanta limpeza do apoio na área de contato (poeira e cavacos marcam a chapa e criam pontos de calor).
Observação importante: apoio térmico ajuda, mas não compensa junta suja ou com folga irregular. Ele é “seguro extra”, não solução para preparação ruim.
Sequenciamento de pontos e estratégia para minimizar distorção
Sequências que reduzem empeno
- Do centro para as extremidades: útil quando a junta tende a “abrir” nas pontas.
- Alternado (skip): faça trechos curtos alternando posições (ex.: solda um trecho, pula à frente, volta no meio). Isso distribui calor.
- Espelhado (em peças simétricas): soldar lados opostos em sequência reduz torção.
Aplicação prática: antes do cordão contínuo
- Ponteie toda a junta com espaçamento consistente.
- Escolha um padrão (centro→pontas ou alternado) e siga até o fim, evitando “corrigir” com calor em um ponto só.
- Controle o comprimento dos avanços: em chapa fina, trechos curtos ajudam a manter a poça pequena e a peça mais fria.
Dica prática: se a junta começar a “fechar” (encostar demais) ou “abrir” (aumentar folga) durante a solda, pare e reavalie fixação/ponteamentos. Continuar costuma piorar e leva a falta de fusão ou furo.
Checklist de prontidão da junta (antes de abrir o arco)
- Corte e bordas: sem rebarbas, sem serrilhas, bordas retas e com encosto consistente.
- Geometria: folga uniforme (ou encosto planejado), sem degrau, sem torção, ângulos conferidos (canto a 90° quando aplicável).
- Limpeza: sem óleo/graxa, sem tinta/primer, sem carepa/óxido na junta e em uma faixa ao redor; abrasivos/escovas corretos e exclusivos quando necessário (inox/alumínio).
- Contato entre peças: sem “janelas” contra a luz; sobrepostas sem vão entre chapas.
- Fixação: grampos firmes, peça apoiada plana, sem tensão elástica tentando “voltar”.
- Ponteamentos: pequenos, frequentes, nivelados; extremidades travadas; alinhamento rechecado após pontear.
- Apoio térmico (se usado): backing bar limpo, bem encostado e bem preso.
- Plano de sequência: definido (centro→pontas, alternado/skip, espelhado) para não concentrar calor em um ponto.