O que é o tungstênio na TIG e por que ele “manda” no arco
Na solda TIG, o eletrodo de tungstênio não é consumível: ele conduz a corrente e sustenta o arco. Na prática, a ponta do tungstênio funciona como um “bico” que concentra (ou espalha) a energia. Por isso, tipo, diâmetro, afiação e limpeza determinam: estabilidade do arco, facilidade de abrir e manter o arco curto, foco do calor, controle da poça e risco de contaminação.
Escolha do tipo de tungstênio para começar em CC (chapas finas)
Recomendação prática para iniciantes em CC
Para soldar em corrente contínua (CC) em chapas finas (aço carbono, inox e similares), priorize tungstênios com boa ignição, arco estável e tolerância a variações de mão:
- Lantânio (La) (ex.: 1,5% ou 2%): excelente estabilidade e ignição, muito usado como “coringa” em CC.
- Cério (Ce) (ex.: 2%): boa abertura de arco e desempenho em baixas correntes, útil para chapas finas.
Evite começar com tungstênio “puro” (mais comum em aplicações específicas) se seu objetivo é CC em chapas finas, porque tende a oferecer menos estabilidade e durabilidade de ponta nesse cenário.
Como o tipo influencia a estabilidade do arco
Os tungstênios dopados (lantânio/cério) facilitam a emissão de elétrons, o que normalmente resulta em:
- Arco mais estável em baixa corrente (menos “piscando” e menos tendência a apagar).
- Partida mais fácil e manutenção do arco curto com menos esforço.
- Menos desgaste da ponta quando a afiação está correta.
Escolha do diâmetro: relação com faixa de corrente e controle
O diâmetro define quanta corrente o tungstênio suporta sem superaquecer e sem deformar a ponta. Em chapas finas, você quer controle em baixa corrente e um arco bem focado.
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Tabela prática (ponto de partida) para CC em chapas finas
| Diâmetro do tungstênio | Faixa típica de corrente em CC (aprox.) | Uso prático |
|---|---|---|
| 1,0 mm | ~10–60 A | Chapinhas bem finas, cordões delicados, baixa corrente |
| 1,6 mm | ~40–120 A | Mais versátil para iniciar: chapas finas a médias, boa estabilidade |
| 2,4 mm | ~90–200 A | Quando a corrente sobe e a ponta precisa aguentar mais calor |
Regra simples para começar: se você está aprendendo em chapas finas e quer um conjunto que “perdoe” pequenas variações de mão, 1,6 mm costuma ser o melhor ponto de partida. Se a corrente for muito baixa e você sentir dificuldade de controlar a poça sem “abrir demais” o arco, 1,0 mm pode ajudar a concentrar melhor.
Sintomas de diâmetro inadequado
- Diâmetro grande demais para baixa corrente: arco menos concentrado, sensação de “falta de foco”, dificuldade de manter poça pequena.
- Diâmetro pequeno demais para corrente alta: ponta arredonda, perde afiação rápido, arco fica instável e pode ocorrer contaminação por superaquecimento.
Afiação correta: o que fazer e por quê
A afiação define a geometria da ponta e, com isso, o foco do arco. Uma ponta bem feita ajuda a “apontar” o calor onde você quer, facilitando controlar a poça e a largura do cordão.
Princípios essenciais
- Riscos longitudinais (no sentido do comprimento): as marcas da lixa/rebolo devem acompanhar o eixo do tungstênio. Isso ajuda o arco a ficar mais estável e direcionado.
- Ângulo de ponta: ponta mais aguda concentra mais o arco (mais foco), ponta mais aberta espalha mais (mais tolerante, porém menos concentrada).
- Acabamento: quanto mais uniforme e “liso” o cone, mais previsível o arco.
Ângulo de ponta: referência prática para chapas finas
Como ponto de partida em CC para chapas finas, use um cone com ângulo aproximado na faixa de 20° a 40° (ponta relativamente aguda). Ajuste conforme o comportamento:
- Se o arco estiver “espalhando” e a poça crescer fácil demais: aumente o foco (ponta um pouco mais aguda).
- Se a ponta estiver queimando/deformando rápido ou o arco estiver agressivo demais: abra um pouco o ângulo (ponta menos aguda) ou aumente o diâmetro.
Passo a passo: como afiar o tungstênio do jeito certo
- Separe um abrasivo dedicado para tungstênio (lixa, cinta ou rebolo). Evite usar o mesmo abrasivo de aço comum para não “carregar” partículas e contaminar a ponta.
- Posicione o tungstênio longitudinalmente em relação ao sentido de abrasão, para que os riscos fiquem no sentido do comprimento.
- Forme o cone com pressão leve e constante, girando o tungstênio de forma controlada para manter simetria.
- Defina o comprimento do cone: como referência, um cone com comprimento de cerca de 2 a 3 vezes o diâmetro tende a dar bom equilíbrio entre foco e durabilidade.
- Finalize o acabamento com abrasivo mais fino (quando disponível) para reduzir ranhuras profundas.
- Opcional (muito útil): crie um micro-platô na ponta (um “achatadinho” mínimo). Isso pode aumentar a durabilidade e reduzir a chance de a ponta “explodir”/deformar em correntes mais altas, mantendo boa estabilidade.
Como a geometria muda o arco e o controle da poça
- Ponta mais aguda: arco mais estreito e concentrado, poça menor e mais controlável; exige mais precisão de distância e mão firme.
- Ponta mais aberta: arco mais largo, poça tende a abrir mais; pode ser mais tolerante para iniciantes, mas perde foco em chapas muito finas.
- Afiação assimétrica (cone torto): arco “puxa” para um lado, dificultando manter o cordão centralizado.
Prevenção de contaminação: hábitos que evitam dor de cabeça
Contaminação acontece quando a ponta do tungstênio encosta no metal base, na poça, no arame de adição ou quando sujeira/óxidos entram na zona protegida. O resultado típico é arco instável, porosidade, cordão escurecido e dificuldade de controle.
Distância correta (arco curto) sem encostar
Treine manter a ponta próxima, mas sem tocar. Uma referência prática é trabalhar com um arco curto e constante, ajustando a mão para que a distância não varie ao longo do cordão. Variação de distância causa:
- arco “abrindo” (perde foco e proteção),
- tendência a tocar a poça (contaminação),
- mudança de largura do cordão.
Controle de mão: apoio e movimento
- Apoie a mão/antebraço sempre que possível para estabilizar.
- Movimento suave e linear: evite “mergulhar” a tocha ao avançar.
- Coordenação com o arame: mantenha o arame sempre dentro da proteção de gás e evite bater o arame na ponta.
Não tocar a poça (e como evitar quando ela cresce)
Quando a poça cresce, a tentação é aproximar demais para “segurar”. Em vez disso:
- reduza levemente a corrente (se estiver usando controle),
- aumente um pouco a velocidade de avanço,
- melhore o ângulo e a estabilidade da tocha para manter o arco curto sem encostar.
Limpeza do bocal e do conjunto frontal
Respingos, poeira metálica e sujeira dentro do bocal atrapalham o fluxo e podem gerar turbulência, puxando ar para dentro da proteção. Práticas úteis:
- inspecionar o bocal por dentro com frequência,
- remover sujeira e partículas presas,
- verificar se a pinça está prendendo bem (tungstênio “solto” vibra e encosta fácil).
O que fazer quando contaminar o tungstênio (procedimento prático)
Se a ponta tocar a poça ou o metal base, não tente “continuar assim mesmo” esperando estabilizar. A contaminação costuma ficar presa na ponta e piora o arco.
Passo a passo para recuperar
- Pare e afaste a tocha com segurança.
- Identifique o tipo de contaminação: ponta com bolinha, escurecida, com metal grudado ou deformada.
- Corte a ponta contaminada (alguns milímetros) para remover a região impregnada.
- Re-afia seguindo o sentido longitudinal e o ângulo desejado.
- Limpe/inspecione consumíveis: verifique bocal, pinça e isoladores; remova partículas e confirme que não há metal grudado.
- Retome com arco curto e mão apoiada para evitar repetir o toque.
Dica: se a contaminação foi grande (muito metal grudado), cortar um pouco mais e refazer o cone costuma economizar tempo comparado a “tentar salvar” uma ponta muito danificada.
Extensão do tungstênio (stick-out): visibilidade x proteção
A extensão é quanto o tungstênio fica para fora do bocal. Ela afeta diretamente a cobertura do gás e a visibilidade da poça.
Referências práticas de extensão
- Sem gas lens: use extensão menor para manter a proteção estável. Extensão muito grande tende a perder cobertura e facilitar oxidação/contaminação.
- Com gas lens: você pode usar mais extensão com melhor cobertura e fluxo mais “laminar”, ganhando visibilidade e acesso (por exemplo, em cantos e juntas onde o bocal encosta).
Como ajustar na prática
- Se o cordão estiver escurecendo ou o arco ficar “nervoso” ao alongar a extensão: reduza a extensão e/ou reposicione a tocha para melhorar a proteção.
- Se você não consegue ver a poça sem inclinar demais a tocha: considere aumentar um pouco a extensão (principalmente com gas lens), mantendo o arco curto e a proteção adequada.
Checklist rápido antes de iniciar um cordão
- Tungstênio do tipo adequado (ex.: lantânio/cério) e diâmetro compatível com a corrente.
- Ponta afiada com riscos longitudinais, cone simétrico e ângulo coerente com o foco desejado.
- Extensão ajustada para o acesso (menor sem gas lens; maior com gas lens, com cautela).
- Bocal limpo e conjunto frontal firme (sem folgas).
- Mão apoiada e plano de movimento para manter distância constante sem tocar a poça.