Solda TIG do Zero: Segurança, EPIs e organização do posto de solda

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Segurança na solda TIG: o que muda na prática

Na solda TIG, o arco elétrico é extremamente intenso e concentrado. Isso traz vantagens de controle e acabamento, mas aumenta a exigência de disciplina com proteção ocular/pele, controle de fumos, organização do posto e inspeções antes de energizar o equipamento. Segurança aqui não é “extra”: é parte do ajuste do processo, como se fosse mais um parâmetro.

Principais riscos e como controlar

1) Radiação UV/IR (queimaduras e “flash” nos olhos)

Risco: o arco TIG emite radiação ultravioleta e infravermelha capaz de causar queimadura de pele e inflamação ocular (sensação de areia nos olhos horas depois). Reflexos em superfícies claras também contam.

Medidas de controle:

  • Usar máscara de solda com tonalidade adequada e em bom estado (lente externa limpa e sem trincas).
  • Cobrir pele exposta: mangas/jaqueta, luvas e gola fechada.
  • Isolar a área com cortina de solda para proteger terceiros.
  • Evitar soldar com pessoas ao lado “olhando de canto”.

2) Fumos metálicos e gases (irritação, intoxicação, febre dos fumos)

Risco: apesar de o TIG gerar menos respingo, ainda há fumos do metal base, de óxidos e de contaminantes (óleo, tinta, galvanização). Em inox e ligas, a preocupação aumenta. Em locais fechados, o risco é maior.

Medidas de controle:

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  • Limpar a peça antes (remover óleo, tinta, solventes, galvanização quando aplicável e permitido).
  • Priorizar exaustão localizada (captor próximo ao ponto de solda) em vez de apenas ventilador espalhando fumaça.
  • Manter ventilação geral do ambiente sem “soprar” diretamente no arco (para não desestabilizar a proteção gasosa).
  • Usar proteção respiratória quando necessário (ver seção de EPIs).

3) Choque elétrico (contato com partes energizadas)

Risco: a máquina TIG trabalha com corrente alta; umidade, luvas molhadas, cabos danificados e aterramento ruim aumentam o risco. Em HF (alta frequência) para abertura de arco, conexões e isolamento precisam estar íntegros.

Medidas de controle:

  • Manter mãos/luvas secas e trabalhar em piso seco.
  • Inspecionar cabos, tocha e conectores antes do uso.
  • Fixar a garra de aterramento em metal limpo, firme e próximo da solda.
  • Desligar a máquina para manutenção/troca de consumíveis quando aplicável.

4) Cilindros pressurizados (queda, ruptura, projeção)

Risco: cilindros de argônio (ou misturas) armazenam gás sob alta pressão. Queda, impacto no registro ou uso de regulador inadequado pode causar acidente grave.

Medidas de controle:

  • Manter cilindro sempre preso (corrente/cinta) em carrinho ou parede.
  • Transportar com tampa de proteção do registro quando aplicável.
  • Não usar óleo/graxa em conexões de gás.
  • Verificar se o regulador é compatível com o gás e com a rosca/padrão do cilindro.

5) Calor e respingos (queimaduras e incêndio)

Risco: o TIG pode ter menos respingo, mas o metal fica muito quente; peças pequenas parecem “frias” e queimam do mesmo jeito. Faíscas de esmerilhamento e respingos ocasionais podem iniciar incêndio.

Medidas de controle:

  • Usar luvas adequadas e ferramentas para manusear peças quentes (alicate/tenaz).
  • Separar área de solda de materiais combustíveis.
  • Ter extintor acessível e manta anti-chama para proteção de superfícies e cabos.

EPIs essenciais (o que usar e como escolher/ajustar)

Máscara de solda (lente e tonalidade)

O que precisa ter: cobertura total do rosto, lente em bom estado e tonalidade adequada ao nível de corrente. Máscara automática (autoescurecimento) facilita iniciar o arco e posicionar a tocha.

Como escolher e ajustar:

  • Tonalidade: use a recomendação do fabricante da máscara como referência e ajuste conforme conforto visual. Correntes maiores exigem tonalidade mais alta.
  • Sensibilidade e atraso (autoescurecimento): aumente a sensibilidade se o sensor não estiver escurecendo; aumente o atraso se o brilho pós-arco incomodar.
  • Arco TIG em baixa corrente: algumas máscaras têm dificuldade em detectar; teste antes e ajuste sensibilidade.
  • Ajuste do arnês: a máscara deve ficar estável ao abaixar, sem encostar no nariz e sem folgas laterais.

Óculos de segurança (por baixo da máscara e para esmerilhar)

Por quê: protege contra partículas ao preparar a junta, escovar, cortar e esmerilhar. Também serve como redundância caso haja reflexo lateral.

Como escolher: lentes com proteção lateral e boa vedação ao rosto, sem embaçar facilmente.

Luvas

O que considerar: no TIG, você precisa de destreza. Luvas muito grossas atrapalham o controle do arame e do gatilho/acionamento.

Como escolher e ajustar:

  • Preferir luvas de couro específicas para TIG (mais finas e com boa sensibilidade).
  • Devem cobrir o punho e sobrepor a manga/jaqueta para não deixar pele exposta.
  • Se estiverem úmidas, troque: umidade aumenta risco elétrico e desconforto térmico.

Mangas/jaqueta e avental

Função: bloquear UV e calor. Tecidos sintéticos comuns podem derreter com faíscas; prefira vestimenta apropriada para solda.

Como escolher e ajustar:

  • Jaqueta/mangas de couro ou tecido resistente a chama, com punhos fechados.
  • Gola fechada para evitar queimadura no pescoço.
  • Avental de couro quando houver risco maior de calor/respingo (posição, peça grande, solda prolongada).

Calçado

Como escolher: bota de segurança fechada, resistente ao calor, com solado em bom estado. Evite calçados abertos.

Ajuste/uso: calça por cima do cano (para evitar que fagulhas caiam dentro do calçado).

Proteção respiratória (quando necessário)

Quando considerar obrigatória: solda em local pouco ventilado, presença de fumos visíveis, materiais com contaminantes, ou quando a exaustão localizada não é suficiente.

Como escolher: respirador adequado ao tipo de risco (particulados/fumos metálicos). Garanta vedação no rosto; barba compromete a vedação.

Boa prática: se você “sente cheiro” ou irritação com frequência, reavalie ventilação/exaustão e o tipo de filtro.

Organização do posto de solda (bancada, cabos e ventilação)

Layout prático da bancada

  • Zona quente: área onde a peça e ferramentas quentes ficam. Use base metálica e sinalize mentalmente: tudo ali pode queimar.
  • Zona limpa: consumíveis (tungstênio, bocais, pinças), panos limpos, escovas dedicadas. Evite contaminação por óleo/graxa.
  • Zona de preparação: escova inox (quando aplicável), lixas, esmerilhadeira. Idealmente separada para não jogar partículas na área de solda.

Gestão de cabos e mangueiras (anti-tropeço e anti-contato acidental)

Objetivo: ninguém deve cruzar cabos no caminho, e nada deve encostar em quinas quentes ou peças em movimento.

Passo a passo:

  1. Posicione a máquina e o cilindro de modo que os cabos saiam para trás/lateral da bancada, não para a área de passagem.
  2. Deixe folga suficiente para movimentar a tocha sem tracionar conexões, mas evite “laços” no chão.
  3. Prenda cabos com ganchos, presilhas ou suportes na lateral da bancada.
  4. Mantenha mangueira de gás longe de cantos vivos e longe de superfícies quentes.
  5. Garanta que a garra de aterramento e o cabo não fiquem sob a peça (risco de aquecer/derreter isolamento).

Ventilação e exaustão sem atrapalhar o gás de proteção

Regra prática: você quer remover fumos da sua zona de respiração, mas não quer corrente de ar batendo no arco.

  • Preferir exaustor com captação próxima ao ponto de solda (na lateral/superior), puxando o fumo para longe do rosto.
  • Evitar ventilador apontado diretamente para a poça de fusão (pode causar porosidade e instabilidade).
  • Se precisar de ventilação geral, direcione o fluxo para “varrer” o ambiente sem cruzar o arco.

Inspeção pré-uso (checklist obrigatório antes de soldar)

Faça esta inspeção sempre que iniciar o dia, trocar cilindro/regulador, ou perceber qualquer comportamento anormal (arco instável, falha de gás, aquecimento de cabos).

1) Tocha TIG

  • Corpo da tocha sem trincas e sem folgas.
  • Gatilho/acionamento funcionando (se aplicável).
  • Bocal cerâmico sem rachaduras; bocal rachado pode causar turbulência e falha de proteção.
  • Consumíveis internos bem apertados (pinça/porta-pinça), sem marcas de superaquecimento.

2) Cabos e mangueiras

  • Isolamento íntegro, sem cortes, sem pontos “amolecidos” por calor.
  • Conexões firmes, sem aquecimento anormal e sem mau contato.
  • Mangueira de gás sem ressecamento e sem vazamentos (checar com solução de água e sabão nas conexões, quando aplicável).

3) Conexões e aterramento (garra de trabalho)

  • Garra limpa, com mola forte e dentes em bom estado.
  • Ponto de fixação em metal limpo (sem tinta, ferrugem grossa, óleo).
  • Cabo de retorno sem emendas improvisadas e sem aquecimento durante uso.

4) Regulador/fluxômetro e cilindro

  • Regulador compatível e bem fixado; manômetros sem trincas.
  • Pressão/fluxo ajustando de forma estável (sem “pular”).
  • Cilindro preso por corrente/cinta; registro acessível para fechamento rápido.

5) Área ao redor

  • Sem panos com solvente, papel, serragem, plástico, aerossóis ou combustíveis próximos.
  • Iluminação suficiente para ver a junta antes de baixar a máscara.
  • Cortina de solda posicionada para proteger terceiros.

Prevenção de incêndio: rotina de 2 minutos

Antes de abrir o arco

  1. Remova combustíveis num raio prático de trabalho (papel, caixas, panos, solventes, sprays, pó de lixamento acumulado).
  2. Proteja o que não pode remover com manta anti-chama (cabos, bancadas com itens fixos, cantos com madeira).
  3. Posicione o extintor desobstruído e ao alcance (não atrás do cilindro ou atrás da bancada).
  4. Defina um “ponto de descanso” para a tocha quente (suporte metálico), evitando apoiar em cima de panos ou na mangueira.

Durante e após a solda

  • Não deixe a área sem vigilância imediatamente após soldar/esmerilhar: brasas podem ficar em frestas.
  • Separe peças quentes em local seguro e avise quem estiver por perto.
  • Se houver cheiro de queimado, pare e investigue antes de continuar.

Condutas obrigatórias (regras simples que evitam a maioria dos acidentes)

  • Máscara abaixada antes de abrir arco; terceiros protegidos por cortina.
  • Nunca soldar com pele exposta (principalmente punhos e pescoço).
  • Não trabalhar com luvas/roupas molhadas.
  • Cilindro sempre preso; registro fechado ao finalizar o uso.
  • Cabos fora de passagem e longe de quinas quentes.
  • Exaustão/ventilação ativa quando houver fumos; não “apontar vento” para o arco.
  • Inspeção pré-uso feita e correções realizadas antes de energizar.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao melhorar a ventilação durante a solda TIG, qual prática reduz a exposição aos fumos sem comprometer a proteção gasosa do arco?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A exaustão localizada remove fumos da zona de respiração com eficiência. Ao evitar vento direto no arco, você não desestabiliza o gás de proteção, reduzindo porosidade e instabilidade.

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Solda TIG do Zero: Componentes do equipamento e funções (fonte, tocha, gás e comando)

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