Segurança na solda TIG: o que muda na prática
Na solda TIG, o arco elétrico é extremamente intenso e concentrado. Isso traz vantagens de controle e acabamento, mas aumenta a exigência de disciplina com proteção ocular/pele, controle de fumos, organização do posto e inspeções antes de energizar o equipamento. Segurança aqui não é “extra”: é parte do ajuste do processo, como se fosse mais um parâmetro.
Principais riscos e como controlar
1) Radiação UV/IR (queimaduras e “flash” nos olhos)
Risco: o arco TIG emite radiação ultravioleta e infravermelha capaz de causar queimadura de pele e inflamação ocular (sensação de areia nos olhos horas depois). Reflexos em superfícies claras também contam.
Medidas de controle:
- Usar máscara de solda com tonalidade adequada e em bom estado (lente externa limpa e sem trincas).
- Cobrir pele exposta: mangas/jaqueta, luvas e gola fechada.
- Isolar a área com cortina de solda para proteger terceiros.
- Evitar soldar com pessoas ao lado “olhando de canto”.
2) Fumos metálicos e gases (irritação, intoxicação, febre dos fumos)
Risco: apesar de o TIG gerar menos respingo, ainda há fumos do metal base, de óxidos e de contaminantes (óleo, tinta, galvanização). Em inox e ligas, a preocupação aumenta. Em locais fechados, o risco é maior.
Medidas de controle:
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- Limpar a peça antes (remover óleo, tinta, solventes, galvanização quando aplicável e permitido).
- Priorizar exaustão localizada (captor próximo ao ponto de solda) em vez de apenas ventilador espalhando fumaça.
- Manter ventilação geral do ambiente sem “soprar” diretamente no arco (para não desestabilizar a proteção gasosa).
- Usar proteção respiratória quando necessário (ver seção de EPIs).
3) Choque elétrico (contato com partes energizadas)
Risco: a máquina TIG trabalha com corrente alta; umidade, luvas molhadas, cabos danificados e aterramento ruim aumentam o risco. Em HF (alta frequência) para abertura de arco, conexões e isolamento precisam estar íntegros.
Medidas de controle:
- Manter mãos/luvas secas e trabalhar em piso seco.
- Inspecionar cabos, tocha e conectores antes do uso.
- Fixar a garra de aterramento em metal limpo, firme e próximo da solda.
- Desligar a máquina para manutenção/troca de consumíveis quando aplicável.
4) Cilindros pressurizados (queda, ruptura, projeção)
Risco: cilindros de argônio (ou misturas) armazenam gás sob alta pressão. Queda, impacto no registro ou uso de regulador inadequado pode causar acidente grave.
Medidas de controle:
- Manter cilindro sempre preso (corrente/cinta) em carrinho ou parede.
- Transportar com tampa de proteção do registro quando aplicável.
- Não usar óleo/graxa em conexões de gás.
- Verificar se o regulador é compatível com o gás e com a rosca/padrão do cilindro.
5) Calor e respingos (queimaduras e incêndio)
Risco: o TIG pode ter menos respingo, mas o metal fica muito quente; peças pequenas parecem “frias” e queimam do mesmo jeito. Faíscas de esmerilhamento e respingos ocasionais podem iniciar incêndio.
Medidas de controle:
- Usar luvas adequadas e ferramentas para manusear peças quentes (alicate/tenaz).
- Separar área de solda de materiais combustíveis.
- Ter extintor acessível e manta anti-chama para proteção de superfícies e cabos.
EPIs essenciais (o que usar e como escolher/ajustar)
Máscara de solda (lente e tonalidade)
O que precisa ter: cobertura total do rosto, lente em bom estado e tonalidade adequada ao nível de corrente. Máscara automática (autoescurecimento) facilita iniciar o arco e posicionar a tocha.
Como escolher e ajustar:
- Tonalidade: use a recomendação do fabricante da máscara como referência e ajuste conforme conforto visual. Correntes maiores exigem tonalidade mais alta.
- Sensibilidade e atraso (autoescurecimento): aumente a sensibilidade se o sensor não estiver escurecendo; aumente o atraso se o brilho pós-arco incomodar.
- Arco TIG em baixa corrente: algumas máscaras têm dificuldade em detectar; teste antes e ajuste sensibilidade.
- Ajuste do arnês: a máscara deve ficar estável ao abaixar, sem encostar no nariz e sem folgas laterais.
Óculos de segurança (por baixo da máscara e para esmerilhar)
Por quê: protege contra partículas ao preparar a junta, escovar, cortar e esmerilhar. Também serve como redundância caso haja reflexo lateral.
Como escolher: lentes com proteção lateral e boa vedação ao rosto, sem embaçar facilmente.
Luvas
O que considerar: no TIG, você precisa de destreza. Luvas muito grossas atrapalham o controle do arame e do gatilho/acionamento.
Como escolher e ajustar:
- Preferir luvas de couro específicas para TIG (mais finas e com boa sensibilidade).
- Devem cobrir o punho e sobrepor a manga/jaqueta para não deixar pele exposta.
- Se estiverem úmidas, troque: umidade aumenta risco elétrico e desconforto térmico.
Mangas/jaqueta e avental
Função: bloquear UV e calor. Tecidos sintéticos comuns podem derreter com faíscas; prefira vestimenta apropriada para solda.
Como escolher e ajustar:
- Jaqueta/mangas de couro ou tecido resistente a chama, com punhos fechados.
- Gola fechada para evitar queimadura no pescoço.
- Avental de couro quando houver risco maior de calor/respingo (posição, peça grande, solda prolongada).
Calçado
Como escolher: bota de segurança fechada, resistente ao calor, com solado em bom estado. Evite calçados abertos.
Ajuste/uso: calça por cima do cano (para evitar que fagulhas caiam dentro do calçado).
Proteção respiratória (quando necessário)
Quando considerar obrigatória: solda em local pouco ventilado, presença de fumos visíveis, materiais com contaminantes, ou quando a exaustão localizada não é suficiente.
Como escolher: respirador adequado ao tipo de risco (particulados/fumos metálicos). Garanta vedação no rosto; barba compromete a vedação.
Boa prática: se você “sente cheiro” ou irritação com frequência, reavalie ventilação/exaustão e o tipo de filtro.
Organização do posto de solda (bancada, cabos e ventilação)
Layout prático da bancada
- Zona quente: área onde a peça e ferramentas quentes ficam. Use base metálica e sinalize mentalmente: tudo ali pode queimar.
- Zona limpa: consumíveis (tungstênio, bocais, pinças), panos limpos, escovas dedicadas. Evite contaminação por óleo/graxa.
- Zona de preparação: escova inox (quando aplicável), lixas, esmerilhadeira. Idealmente separada para não jogar partículas na área de solda.
Gestão de cabos e mangueiras (anti-tropeço e anti-contato acidental)
Objetivo: ninguém deve cruzar cabos no caminho, e nada deve encostar em quinas quentes ou peças em movimento.
Passo a passo:
- Posicione a máquina e o cilindro de modo que os cabos saiam para trás/lateral da bancada, não para a área de passagem.
- Deixe folga suficiente para movimentar a tocha sem tracionar conexões, mas evite “laços” no chão.
- Prenda cabos com ganchos, presilhas ou suportes na lateral da bancada.
- Mantenha mangueira de gás longe de cantos vivos e longe de superfícies quentes.
- Garanta que a garra de aterramento e o cabo não fiquem sob a peça (risco de aquecer/derreter isolamento).
Ventilação e exaustão sem atrapalhar o gás de proteção
Regra prática: você quer remover fumos da sua zona de respiração, mas não quer corrente de ar batendo no arco.
- Preferir exaustor com captação próxima ao ponto de solda (na lateral/superior), puxando o fumo para longe do rosto.
- Evitar ventilador apontado diretamente para a poça de fusão (pode causar porosidade e instabilidade).
- Se precisar de ventilação geral, direcione o fluxo para “varrer” o ambiente sem cruzar o arco.
Inspeção pré-uso (checklist obrigatório antes de soldar)
Faça esta inspeção sempre que iniciar o dia, trocar cilindro/regulador, ou perceber qualquer comportamento anormal (arco instável, falha de gás, aquecimento de cabos).
1) Tocha TIG
- Corpo da tocha sem trincas e sem folgas.
- Gatilho/acionamento funcionando (se aplicável).
- Bocal cerâmico sem rachaduras; bocal rachado pode causar turbulência e falha de proteção.
- Consumíveis internos bem apertados (pinça/porta-pinça), sem marcas de superaquecimento.
2) Cabos e mangueiras
- Isolamento íntegro, sem cortes, sem pontos “amolecidos” por calor.
- Conexões firmes, sem aquecimento anormal e sem mau contato.
- Mangueira de gás sem ressecamento e sem vazamentos (checar com solução de água e sabão nas conexões, quando aplicável).
3) Conexões e aterramento (garra de trabalho)
- Garra limpa, com mola forte e dentes em bom estado.
- Ponto de fixação em metal limpo (sem tinta, ferrugem grossa, óleo).
- Cabo de retorno sem emendas improvisadas e sem aquecimento durante uso.
4) Regulador/fluxômetro e cilindro
- Regulador compatível e bem fixado; manômetros sem trincas.
- Pressão/fluxo ajustando de forma estável (sem “pular”).
- Cilindro preso por corrente/cinta; registro acessível para fechamento rápido.
5) Área ao redor
- Sem panos com solvente, papel, serragem, plástico, aerossóis ou combustíveis próximos.
- Iluminação suficiente para ver a junta antes de baixar a máscara.
- Cortina de solda posicionada para proteger terceiros.
Prevenção de incêndio: rotina de 2 minutos
Antes de abrir o arco
- Remova combustíveis num raio prático de trabalho (papel, caixas, panos, solventes, sprays, pó de lixamento acumulado).
- Proteja o que não pode remover com manta anti-chama (cabos, bancadas com itens fixos, cantos com madeira).
- Posicione o extintor desobstruído e ao alcance (não atrás do cilindro ou atrás da bancada).
- Defina um “ponto de descanso” para a tocha quente (suporte metálico), evitando apoiar em cima de panos ou na mangueira.
Durante e após a solda
- Não deixe a área sem vigilância imediatamente após soldar/esmerilhar: brasas podem ficar em frestas.
- Separe peças quentes em local seguro e avise quem estiver por perto.
- Se houver cheiro de queimado, pare e investigue antes de continuar.
Condutas obrigatórias (regras simples que evitam a maioria dos acidentes)
- Máscara abaixada antes de abrir arco; terceiros protegidos por cortina.
- Nunca soldar com pele exposta (principalmente punhos e pescoço).
- Não trabalhar com luvas/roupas molhadas.
- Cilindro sempre preso; registro fechado ao finalizar o uso.
- Cabos fora de passagem e longe de quinas quentes.
- Exaustão/ventilação ativa quando houver fumos; não “apontar vento” para o arco.
- Inspeção pré-uso feita e correções realizadas antes de energizar.